segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Curva da morte…

Mataca - "Curva da Morte"
Foto de Luís Leote
Curva da morte…

Aconteceu no dia 21 Janeiro de 71.
 
Íamos a caminho da Mataca, numa coluna de abastecimentos, eram cerca do meio-dia.
 
Já tínhamos picado, debaixo de um sol tórrido e o Gouveia, com o seu "olho de lince", já tinha detetado uma mina anticarro que foi desativada pelo Furriel Milº Godinho.
A coluna avança e percorridos cerca de 500 metros até à famosa "curva da morte".
A picada, naquele sítio, tinha a forma do gancho apertado, preferida pelo IN para as emboscadas, pois começava-se a descer e do lado esquerdo era uma ravina com um declive grande.
As viaturas tinham de se encostar ao morro do lado direito para não capotarem.
O matope estava muito escorregadio.
A meu lado ia o condutor Crespo.
O apontador de metralhadora, Vasco Matinha, estava a descoberto sobre os sacos de farinha que iam no 404 e logo atrás vinham mais 2 Unimogs "pinchas", com duas secções e as outras duas, sempre que o terreno assim permitisse, faziam a progressão encostados à mata..
A descida estava a ser difícil pois as viaturas dificilmente se seguravam.

De repente um estrondo, logo seguido de outro, característicos de granadas ofensivas.
Rapidamente o pessoal saltou das viaturas e procurou abrigo fora da picada.
O declive era grande e muitos escorregaram pela ravina abaixo.
Eu saltei do 404, mas fiquei entre morro e a viatura.
O condutor Crespo também salta e tudo parecia estar à acontecer em câmara lenta, como que num filme.
 
Vi o Unimog, que ninguém tinha travado, vir direito a mim.
Iam 2 mil Kg. de farinha para o pão, na caixa do Unimog.
Apercebo-me que já não tenho tempo de passar para o outro lado e perante ficar esmagado debaixo do rodado traseiro da viatura, agarro-me a uma liana que crescia no morro.
Mesmo assim não evito que o rodado me passe por cima dos pés.
Começou então o fim do mundo: as explosões continuam (soube mais tarde que tinham sido só dois ou 3 elementos do IN que do alto de um morro tinham atirado três ou quatro granadas ofensivas para o meio da coluna).
Momentaneamente, houve alguma desorientação, mas a malta rapidamente se agrupou e 3 ou 4 morteiradas e umas rajadas de G3, para o cimo do morro, “calaram” o IN.
Reorganizada a coluna e depois de verificarmos que ninguém estava ferido, pedimos reforços à Mataca (um grupo de combate já vinha ao nosso encontro) iniciamos uma batida que como habitualmente foi infrutífera.
O Furriel Enfermeiro Polana perguntou-me se estava bem e perante a minha resposta de que embora sentisse um ardor no pé esquerdo, tudo parecia estar bem.
Continuamos e eis que nos encontramos com o grupo de combate da Mataca, que vinha ao nosso encontro e já tinha “picado” o resto da picada.
 
Chegados ao aquartelamento e quando já as forças estão a ser retemperadas com 2 latas de Laurentina bem fresquinhas, ritual que acontecia sempre que chegávamos de uma “operação”.
O meu grupo de combate “saboreava” sempre uma lata de cerveja bem fresquinha, paga por mim.
 
Após este ritual decido tirar as botas.
Aqui confesso que logo vi que o pé esquerdo não estava nas melhores condições e o direito também começava a doer-me.
O sangue tinha atravessado os 2 pares de meias e as dores começavam a incomodar-me.
Tinha um dedo completamente esfacelado.
Com uns LMs no bucho as dores foram atenuadas.
 
Daí para a frente comecei a ter grandes dificuldades nas progressões.
O alferes médico em Macomia, constatou-me que era melhor ir tirar radiografias ao Hospital Militar de Nampula.
Já em Nampula no HM125, depois de uma viagem assustadora no NorAtlas (O “elefante” ou “barriga de jinguba”) das FA, a equipa médica decide operar-me.
 
Fui operado no dia 2 de Fevereiro.
 
A saga continua mais à frente dos meus Pedaços de
memória…de rajada!

Um ex-camarada e amigo

domingo, 3 de novembro de 2013

NEGRA DO MESSALO

 

Negra do Messalo,
olhos de fogo,
loucura de ritmo,
tens a cadência
do mapiko
na serpente do teu corpo!

Negra do Messalo,
gestos de sexo,
trilo de rins,
tens o mistério
do mapiko
no domínio do teu corpo!

Negra do Messalo,
mímica estranha,
tens o tantã
do mapiko
no espanto do teu corpo!

Negra do Messalo,
símbolo da tua terra
de sangue,
tens a linguagem
da esperança
do teu povo,
na nudez sã do teu corpo!

Negra do Messalo,
clamor de liberdade
desta terra
que me é estranha!

CHAI, Moçambique, Agosto de 1965

Messalo - nome do rio, no norte de Moçambique, a poucos kms. de Chai (Cabo Delgado).


Francisco Azevedo Brandão
 
 

domingo, 20 de outubro de 2013

... E o Carnaval são 3 dias




Picada Macomia - Mataca por Luís Leote

 

 
……E o carnaval são 3 dias

Tudo indicava que ia ser mais uma normal operação de reabastecimento de víveres.

Saímos de Macomia, com os carros bem atestados de mantimentos, chegámos ao
Alto do Delepa para começar a descer a Serra do Mapé.

Eu vinha sensivelmente a meio da coluna, a pensar nas palavras do tenente da CCS....
“ Ordenou-me que cortasse o bigode, porque na fotografia do bilhete de identidade,
não o tinha”. Já não era a primeira vez que me tinha avisado.

De repente, fez-se um alto à coluna.
As viaturas, que começavam a descer a serra.
Uma Berliet, voltou-se sobre o lado esquerdo da picada, ficando de rodas para cima,
e a carga toda espalhada.
Felizmente, ninguém ficou ferido.
Lembro-me que, após a comunicação do sucedido via radio, ao comando da CCS,
a primeira pergunta foi se a viatura tinha ficado muito danificada.
Nem uma alusão a possíveis feridos!!!
Apercebemo-nos que tão depressa, não iríamos sair dali.
Montámos a segurança à volta da viatura, para de seguida preparar o seu resgate.

Da Mataca veio o furriel mecânico que ao chegar, tratou logo de fazer o registo
fotográfico.

Preparámos-nos para passar lá a noite.
Se a memória não me falha, alguém montou umas latas de ração com pedras lá
dentro, à volta do perímetro.
Acho que ninguém conseguiu dormir, especialmente depois de alguém ter dado
dois ou três tiros na direção das latas que faziam barulho.

Trazer a Berliet cá para cima, tornou-se uma tarefa complicada, pelo que estava
à vista uma segunda noite na picada.

Com duas noites e três dias na picada, estacionados e referenciados, prometi
que se me safasse da terceira noite, faria a vontade ao tenente e cortaria o bigode,
o que aconteceu.

Foi em Fevereiro de 1971, em pleno Carnaval.
Dizem que o Carnaval, são três dias.
FOI UM GRANDE CARNAVAL!!!!!
 
Luís Leote 2013/10/20





domingo, 6 de outubro de 2013

Um dia em Omar...

Deixo-vos aqui um texto do blog XIRICO :: Moçambique, a quem agradeço...
 
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São 5 da manhã.
Está abafado e húmido.
Abro os olhos e fixo o telhado de zinco através da rede mosquiteira sustentada por 4 paus metidos nos cantos da cama militar. Cheira a camarata superlotada e a fardas suadas.
Tenho a G3 no chão perto dos chinelos de borracha. Algumas “pinups” coladas às paredes dão-me os bons dias e fazem-me relembrar onde estou. Estou naquilo a que se chama “um buraco”.
 
Lá no alto, na armação da camarata, passa o rato das 5. Outros dois fizeram disparar as ratoeiras durante a noite, guincharam e calaram-se. As redes mosquiteiras protegem-nos dos mosquitos mas também dos ratos. Alguma técnica é preciso para esticar os lenções e principalmente para sair debaixo da gaze em alta correria sem ficar enrolado.
   
   
Esta madrugada sinto haver alguma atividade. Alguns atiradores já se levantaram e preparam a mochila.
O repelente e a rede verde contra os mosquitos, a escolha das latas da ração de combate atirando as intragáveis para o caixote ao canto da caserna.
Calçar as botas e o clique do cinturão.
Granadas, meter balas nos carregadores, preparar os dilagramas e sair em silêncio.
Não se acendem luzes nem lanternas e as palavras são ditas em sussurro.
 
Logo depois o grupo de combate avança em fila sendo engolido pelo mato cerrado com as G3 como bebés deitadas no braço e uma fé de que “não há de ser nada”.
O dia começa a nascer e a erva húmida do cacimbo noturno ainda molha as calças.
Evitam-se os carreiros que podem estar plantados de minas antipessoais.
A missão de patrulhamento deverá prevenir emboscadas na estrada por onde regressará a coluna auto a caminho de Mueda.
 
Entretanto o sol aquece o telhado de zinco e não há condições para ficar lá dentro.
Levanto-me vestido.
O equipamento 24 horas, resume-se a uns calções de ganga verde, aos chinelos “made in china” que são descartáveis no momento da corrida, e à inseparável canhota.
 
Há muito que renunciei ao matabicho. Deixei de tentar o intragável café de baratas e o bocado de pão recheado de gorgulho. Retiro o miolo mas os bichinhos ainda ficam incrustados na côdea. Uma lata de sumo de alperce da ração é preferível.
Quando se acabam os sumos, atacamos a água contaminada e apanhamos amibiose.
Não sei se é pior que o frequente paludismo.
Mas é igualmente mau.
 
Vejo alguns soldados escalados a encher os bidons no cimo da armação vedada a zinco, com a água trazida de uma nascente perto do destacamento.
Trouxeram-me bananas verdes. À tarde, poderemos tomar um banho rápido e refrescante para retirar a terra vermelha e o suor do trabalho ou duma peladinha de bola.
   
   
A meio da manhã, o pessoal que não tem tarefas de manutenção atribuídas, junta-se no alpendre colado à camarata.
É a sala de convívio sem visitas.
Cadeiras feitas com madeiras de barril de vinho, chão terra, caixote a fazer de mesa.
Poucos leêm. Alguns respondem à última carta da mãe ou da namorada.
Outros falam dos planos futuros ou das traquinices que ficaram para trás, lá na aldeia, nos tempos de recruta.
Raramente há novidades.
Como aquela novidade que teve o Alferes Silva.
Recebeu uma carta da sua noiva convidando-o para o casamento... dela!...
Ele que não passava um dia sem lhe escrever e que fazia planos de vida.
 
As cartas de jogar, o King, a Lerpa ou o Sete e meio também fazem passar o tempo e às vezes perder vencimentos.
As anedotas já as conhecemos todas e se alguém tenta uma nova, assiste ao recado do auditório cofiando a barba invisível, que lhe tira a vontade de concluir.

Confiamos nas sentinelas que do alto das torres de vigias nos cantos do aquartelamento varrem a zona desmatada para lá da vedação.
Qualquer início de ataque é avisado com um grito de alarme. Ninguém pensa nisso até ao momento de acontecer.
 
Hoje ao meio-dia espero que uma avioneta particular, que faz a ligação turística para as Seicheles, poise aqui na pista de terra com uns quilos de lagosta que encomendámos.
Não para comer com requinte, ou para saborear como um manjar. Simplesmente para matar a fome. Para a acompanhar, cortámos banana verde às rodelas e fritámos.
Com um bocado de imaginação parece batata frita!
 
No barracão de zinco que serve de refeitório, “milhões” de moscas procuram a sombra e o cheiro da comida. Sentados na comprida mesa, a nossa mão esquerda tapa o copo metálico com água ou cerveja (se ainda não acabou), enquanto a mão direita segura o garfo, afasta as moscas mais teimosas e vai-nos atestando dos repetidos “ciclistas”, “atacadores” ou “arroz sem estilhaços”.
Às vezes a paciência esgota-se, larga-se tudo e saímos do refeitório quente e insuportável, perguntando aos botões o que fizemos para estar ali.
 
Vou à tenda do Cabo de transmissões ver se ele já enviou o meu pedido para ser substituído neste “buraco”. Já lá vão seis meses que me parecem 6 séculos e não há meio de aparecer um “checa” que me substitua.
Começo a ficar um pouco “apanhado”.
 
Entretanto, ia acontecendo uma desgraça.
O Zé Tó tratava do rato que lhe entrou na ratoeira de caixa. Costuma tirá-lo da caixa e matá-lo com dois pontapés.
Desta vez achou que seria “diferente” regá-lo e chegar-lhe o fogo.
O rato em chamas correu veloz rumo ao paiol de munições.
Todos se atiram ao chão gritando pela tragédia eminente.
Passam os minutos e o estrondo não acontece.
O Zé Tó levou com uma escalas noturnas nos postos de vigia e deve ter ganho para o susto.
 
A coluna com uns 6 carros prepara-se para voltar a Mueda depois de ter feito o reabastecimento de géneros e munições.
A primeira Berliet está atulhada de sacos de terra prevenindo um rebentamento de mina anti-carro. Tem ainda instalada duas metralhadoras pesadas.
Leva o condutor e só mais dois soldados para minimizar as perdas.
Mas o atarracado soldado António avisa logo - “Eu vou nesta. É "fézada".
Nunca me aconteceu nada e não vai acontecer desta vez”.
Nunca me vou esquecer.
Valentia, inconsciência ou ambas as coisas.
Apesar da seriedade do momento, não se vê atitudes de medo, mas todos sabem pelo que vão passar.
 
São raras estas colunas que não sejam atacadas.
Dois dos carros são Unimogs, sem qualquer proteção, aos soldados que lá vão sentados de peito feito, virados para o mato com a G3 entre as pernas e preparados para saltar ao primeiro tiro.
As minas podem destruir quase completamente um Unimog.
Sem alaridos nem festejos a coluna parte a caminho do inferno.
Os mais veteranos conhecem cada reta, cada curva da morte e quais os lugares “bons” para emboscadas.
Será que todos chegarão ao destino?
Fico a pensar como tenho sorte em não ser minha função fazer colunas militares.
 
A tarde abrasadora vai correndo a caminho das fatídicas 5 ou 6 da tarde.
É a hora da morteirada.
O inimigo sabe que depois, cai a noite e não haverá patrulha de perseguição.
Já não atacam há 3 dias e é capaz de ser hoje.
Não é por isso que altero a minha rotina e aproveito para tomar o habitual banho.
   
   
Retiro o toco do bidon.
Sai um jacto de água para retirar os restos do sabão LifeBuoy. Nesse exato momento ouve-se ... e sente-se dentro do peito ... dois flops seguido de mais dois, como garrafas de champagne a serem abertas, avisando que a festa começa agora.
Um dos sentinelas grita forte:
Morteiraaaaadaaaaa !
Não é a primeira vez.
Os movimentos são automáticos.
Agarro na G3 encostada ao zinco, e tal como estou, ainda com algum sabão e descalço, bato um recorde olímpico de barreiras, aproveitando os poucos segundos antes do silvo descendente dos morteiros e as explosões mortíferas no interior do quartel.
Preciso chegar ao abrigo, onde está o Obus 8.8., antes que elas começarem a rebentar.
Tenho a obrigação de tentar localizar a posição do morteiro e fazer uma barragem de fogo.
Aparecem mais um ou dois soldados ofegantes para ajudar a municiar e deslocar o obus.
Sei que uma morteirada caída no interior do abrigo pode fazer explodir as granadas de obus, do tamanho de bazucas de cerveja 2M, e nem o canhão ficava inteiro.
Nunca aconteceu.
Não acredito que aconteça.
Mas caíram a alguns metros e por várias vezes.
 
Uma das morteiradas caiu perto duma trincheira e um furriel que espreitava teve um grave ferimento no pescoço.
Foi rapidamente carregado para a tenda do enfermeiro que se aplicou o melhor que sabia.
Espreitei para ver quem era, e arrependi-me.
No oleado que cobria o chão, corria uma faixa vermelha de sangue.
Recuei mal disposto.
Foi evacuado no dia seguinte numa D.O. para o hospital de Mueda e felizmente safou-se.
Safou-se de morrer e safou-se de Omar!
 
Depois de sair de Omar, estive em Nangade, Mocímboa da Praia, Diaca, Sagal e Mueda. Sempre me impressionou a valentia e coragem que vi naqueles jovens, de incorporação local e metropolitanos, da “pacaça” ou de forças especiais, que se viram envolvidos numa guerra inglória que poderia ter sido evitada.
A todos eles aqui deixo o meu testemunho e apreço.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

STRESS DE GUERRA...

Se alguém tivesse dúvidas sobre a sua existência (o stress de guerra), a leitura desde diálogo que transcrevi da página do Facebook "PICADAS DO CABO DELGADO" (a quem agradeço) era suficiente para comprovar inequivocamente a sua existência...
 
E são muitíssimos milhares, entre os que se queixam e os que se não queixam...
 
Só não vê quem não quere, porque até os invisuais sentem esta realidade e a necessidade de um tratamento adequado, para todos aqueles que viveram a triste realidade da guerra...
 
Por favor façam algo por estes homens, que são milhares, tratem-nos e acolham-nos com o respeito e a consideração que merecem...
 
Esta tarde chorei (não me envergonho de o dizer...) ao ler este diálogo e lembrei situações idênticas por que passei e algumas vezes ainda passo...
 
Um abraço a todos os que se reveem neste texto e divulguem "até que a voz vos doa" pelos meios que tiverem ao vosso alcance...
 
Pode ser que alguém nos ouça...
 
José Capitão Pardal
 
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STRESS DE GUERRA

ASSUNTO QUE MUITOS TENTAM ESQUECER POR VARIADÍSSIMOS MOTIVOS, NO ENTANTO ESTÁ BEM VIVO DENTRO DE NÓS.


PODEREMOS TENTAR AQUI DESENVOLVER ESSE TEMA QUE JÁ TEM FEITO MAIS VÍTIMAS DE QUE A PRÓPRIA GUERRA.


MAS ATENÇÃO VAMOS TENTAR DIALOGAR COM MODERAÇÃO, POIS SÃO TEMAS MUITO SENSÍVEIS.
  • 40 pessoas gostam disto.
  •  
    Duilio Caleca "O 'stress' de guerra é contagioso e crónico"
    Nunca estiveram numa guerra.
  • Nunca dispararam um tiro, nem escutaram o silvar frio das balas, nem sentiram o cheiro da morte.
  • São mulheres.
  • Escaparam, pela sorte de terem nascido mulheres, à inevitabilidade da guerra.
  • Ou, pelo menos, assim pensavam.
  • Assim era suposto.
  • Mas não. As mulheres dos ex-combatentes da Guerra Colonial vivem em guerra há mais de 30 anos.
  • Uma guerra dentro de casa, insidiosa, violenta, permanente.
  • Uma guerra que nunca vai ter tréguas nem acordos de paz.
  •  
    Duilio Caleca Sintomas de stress pós-traumático podem surgir 30 anos depois!
    Os sintomas de stress pós-traumático entre os antigos combatentes revelam-se, em alguns casos, apenas 30 anos depois dos conflitos armados, despoletados por cenas de guerra ou som de helicópteros ou metralhadoras - conclui um estudo.
  •  
    Augusto Mota É verdade Duílio, dias há que parece que o Mundo vai desabar, e claro a Mulher é que paga, por vezes saem frases um bocado absurdas, e eu tomo um XANAX de manhã e outro à noite, e mesmo assim por vezes anda tudo pelo ar.
  •  
    Jose Monteiro Este olhar diz tudo, sofrimento, angustia e provavelmente revolta. Muitos de nós ( eu ), dizemos que não ficámos com traumas nem sinais da guerra.
  • Há SEMPRE qualquer coisa que pode despoletar, há sempre qualquer coisa que nos "mina", há sempre qualquer marca que ficou e que pode vir a qualquer momento.
  • Os encontros ajudam-nos e considero que é como se fosse "uma terapia de grupo".
  • Sempre que vou a Chaves, ao encontro anual do meu batalhão, são 3 dias que me sinto melhor.
  • SÓ SALTO COM FOGUETES.
  • Mas andei uns 2 anitos apos a chegada, um bocado BARALHADO.
  • Graças a Deus até hoje só mesmo os FOGUETES me fazem dar um salto e deixam com pele de galinha..
  •  
    Duilio Caleca Passados uns anos de ter vindo do Ultramar, tive uma depressão de cerca de dois anos que os médicos diagnosticaram-se sempre, que seria por eu andar nervoso.
  • O que é facto assim acontecia, enervava-me por tudo e por nada.
    Fui tratado com antidepressivos que lá me puseram mais calmo e felizmente assim passou.
    Mais tarde é que em contacto com o pessoal e leitura de temas sobre a guerra é que despertei para esse problema do stress de guerra.
    Infelizmente nunca os nossos governantes se debruçaram sobre esse problema, bastante complicado.
  • Será que querem tapar o sol com a peneira.
    De quando em quando, vai-se lendo nos jornais de pessoas que mataram por situações simples e depois chega-se à conclusão que estiveram na Guerra.
    O que é facto em todos os que por lá passaram, trouxeram esse problema às costas para todo o sempre.
    Por isso, sorrir é o melhor remédio.
  •  
    Abel Lima Pois ... Mas ainda há aqueles que defendem que o conflito deveria continuar, não sei bem até quando ...
  •  
    Jose Pereira Nunca os nossos (Des)governantes, passaram por situações de, stress pós guerra, na altura. eram miúdos, não sabem o que isso é.
  • Portanto não podem avaliar essas situações.
  • No que me toca a mim, vou tentando controlar as coisas, ver que o positivo é superior ao negativo e dar a volta por cima, não é fácil, mas tentamos!
  • Duilio Caleca, dou-te os parabéns por trazeres aqui um tema que para muitos é tabu.
  • Já referi aqui que o médico que me trata acha que o facto de expormos a nossa vivência no tempo de guerra, é uma terapia.
  • Este grupo e outros idênticos são uma forma de ajudar quem tem tais problemas.
  • É verdade que vão surgindo situações de violência, mas não aceito de maneira nenhuma o que uma vez foi referido nas notícias, que a maioria dos casos de violência doméstica é praticada por ex combatentes, conotando-nos a todos como criminosos.
  •  
    João Afonso As "sombras" do passado continuarão até ao fim dos nossos dias.
  • Teremos de saber conviver com estes traumas. Já fui submetido a três tratamentos por um neurologista, e já lá vão uns anos.
  • O primeiro durou passou de dois anos.
  • Na primeira semana colocou-me a dormir interruptamente.
  • Não acordava sequer para comer.
  • Foi um período terrível.
  • Todos sofreram.
  • Quando me levaram,(não admitia que estava doente), foi muito deprimente.
  • Não sossegava.
  • Tentei fugir.
  • Atentei contra a vida sem sequer me aperceber dos meus atos.
  • Foi um longo caminho.
    Para abreviar, hoje consigo gerir alguns dos impulsos e valorizar a vida e tudo o que me rodeia.
    Perceber a dádiva de ter regressado e ter a riqueza de ter dois filhos, dois netos e uma mulher de raça.
    Não me esqueço dos amigos, mesmo dos virtuais sempre que venho a esta página.
    Força camaradas...vamos tentar ser felizes em cada dia do calendário que nos resta, e lamentar que os governantes até hoje não nos respeitem como merecemos.
  •  
    Duilio Caleca Estou a gostar destes testemunhos que alguns vão aqui expondo pois é uma forma de mostrar "ao mundo" que efetivamente a guerra existiu e que deixou as suas marcas bem negativas.
    Tentamos por todos os meios que temos ao nosso alcance, disfarçar o que é indisfarçável.
    Mas a realidade infelizmente é esta, todos nós viemos marcados negativamente, pois a nossa juventude foi exposta dias e dias a uma pressão de todo o tamanho, tais como a guerra propriamente dita, o isolamento, a distância do entes queridos e principalmente o relacionamento entre nós e o povo Moçambicano, pois estávamos em lados opostos da barricada, quando gostaríamos estar no mesmo barco.
    É bom que se assuma de uma vez por todos este problema do Stress de Guerra, pois só assim poderemos entender-nos uns aos outros.
  •  
    Augusto Mota Estou a gostar deste tema, ainda bem que alguém o trouxe a lume, pode ser que algum dos nossos desgovernantes se lembrem de nós, o que eu não acredito, pois como alguém diz, são muito crianças à nossa beira, mas o que me admira é o P.R. que também esteve salvo erro em Moçambique não trazer isso a lume, vamos aguentando até um dia. tenham bons sonhos, um abraço a todos.
  •  
    Duilio Caleca Um dos muitos sintomas:
    As alterações do sono são os sintomas mais frequentes do stress pós-traumático, causado por fatores como ferimentos, morte de camaradas, emboscadas, privação de necessidades básicas.
  •  
    Duilio Caleca Mais esclarecimento.
    Muitos dos militares ficam doentes e muitas vezes morrem sem saber o que realmente os afetou.
    Mais grave ainda, ficou demonstrado em estudos recentes que este distúrbio se pode refletir nos familiares dos militares e prolongar-se por várias gerações.
  •  
    António Manuel Rodrigues Claro, Caleça.
  • Tomo desde à muitos anos medicação para Dormir, padeço de Linfoma, Cancro no sistema Linfático e, por vezes, sonho que estou a embarcar para uma segunda Comissão, até " vejo" as escadas do Avião.
  • António Manuel Rodrigues, infelizmente muitos padecem desses sintomas.
  • Dizia alguém: quem vai prá guerra nunca mais de lá volta, e às vezes assim parece.
  • Existem "n" problemas derivados de uma juventude que sofreu o que sofreu com o stress de guerra, as privações de toda a maneira e feitio.
    Pena é que muitos ainda não conseguem falar abertamente dos problemas que foram derivados de uma guerra injusta, a fim de entre todos podermos ao falar, suavizar as mazelas que todos sofremos direta e indiretamente, assim como a nossa família.
  •  
    Duilio Caleca Jornal Público - 2002
    Cinquenta mil portugueses que combateram na guerra colonial sofrem atualmente de stress pós-traumático crónico.
  • Na origem do problema está a participação em ações militares nas antigas colónias ultramarinas.
    O principal fator de stress a morte de antigos companheiros de armas, seguindo-se a presença em combate, o ferimento de colegas e a tortura e violação de civis.
  • A sede e a fome, a vida na selva, a prisão e o isolamento foram outros fatores de stress apresentados pelos antigos soldados.
  •  
    Artur Valente Mota amigo Duilio Caleca eu sou acompanhado no H.M. n.2 mas já foi acompanhado no n.1 e só quem entra lá consegue se aperceber de quanto a guerra prejudicou todos os que a viveram penso que quando chego á consulta vou melhor que depois de ser consultado vendo os camaradas que também passam por lá e as esposas a contar a triste realidade do que se passa dentro de cada casa dos que estiveram no teatro de guerra.
  • Só que há uma descriminação muito grande que é notada.
  • Tem mais assistência ou melhor assistência um camarada que esteve num teatro de paz que um que esteve num teatro de guerra.
  • Sou cliente assíduo do H.M.n2 e revolta-me com a atenção e a descriminação que há.
  • Parece que os que estiveram no Ultramar é um favor que fazem em os atender.
  • Um abraço para todos os que sofrem desta doença e vamos tentar sobreviver mais algum tempo.
  •  
    Duilio Caleca Artur como tu dizes quanto à descriminação é deplorável. Mais uma das muitas coisas lamentáveis a que os ex-combatentes estão sujeitos.
    Nesses centros hospitalares militares em que nunca estive, não posso dar a minha opinião pessoal, no entanto deduzo que ou será falta de preparação de quem atende, ou então sabem à partida que o pessoal que esteve no mato tem sempre o dedo no gatilho pronto a disparar em situação de injustiça e os outros como são mais calmos são mais fáceis de atender.
  • Digo eu sem conhecimento de causa.
  • Agora aquilo que conheço é que nós à mínima injustiça elevamos o tom e rapidamente passamos ao contra ataque, mais um dos muitos sintomas do stress.
  •  
    Artur Valente Mota Pois eu aqui na minha zona pertenço ao H. M. nº 1.
  • Um dia estava lá um individuo com três listas pendoradas ao peito douradas e eu como sempre falei para ele como senhor capitão ele deu resposta que era médico e não capitão e disse-me que eu fosse para o ca.......o.
  • Nunca mais lá apareci.
  • Eu andava a tratar-me, não era para ficar ainda mais doente.
  • Disse que tinha estado no Kosovo e que não tinha medo de nada.
  • Apresentei queixa no T.M.N. e fui transferido para Coimbra.
  • Ai havia um pouco mais de respeito.
  • Mas falando em ultramar, era como falar no diabo aos médicos, em especial amigo Duilio Caleca, não sei o porquê, parece que quem esteve no ultramar tem sarna como os cães.
  • Será isso que pensam de nós?
  •  
    Duilio Caleca Eu ao longo do tempo tenho tentado arranjar defesas para este nosso problema, tais como manter a calma a paciência e levar tudo com um sorriso, mas isto é só da boca para fora, pois nos momentos mais stressantes, lá voltamos ao mesmo e rapidamente.
  •  
    Artur Valente Mota Não acredito que isto tenha cura é como o amigo João Afonso diz temos que carregar com este pesadelo para o resto dos nossos dias.
  • Tenho um irmão que esteve em Montepuez, antes de eu estar em Mueda e tenta tudo, mas descarrega os seus problemas nele próprio, corta os pulsos diz que está a ser atacado e nada pode contar tem sido um inferno que ele carrega.
  • Já o que esteve em Nacala no bcp (paraquedistas) anda sem problemas nenhuns penso que tb vai da força de vontade Duilio Caleca
  •  
    Duilio Caleca Artur, pelo que tu contas o teu irmão está com uma situação bem mais complicada e de difícil controlo, só resta mesmo é a medicamentação certamente.
    Eu entendo que existem problemas muito mais graves que os nossos e nesse caso só mesmo quem passa por elas.
    Desejo sinceramente que o teu irmão tenha melhoras, agora para todos vós familiares é dose.
    Mas faz parte de nós seguirmos em frente e encararmos os problemas com ânimo e com determinação.
  • Bola prá frente.
  •  
    João Afonso Já tentaram a hipnose com alguém sério nesta área?
    É possível chegar até à zona de bloqueio do paciente e com alguma terapia, melhorar a situação.
  •  
    Duilio Caleca João, tudo é possível e tudo aquilo que melhore a situação é de aceitar, mas cada caso é um caso diferente.
  •  
    Artur Valente Mota já tentamos de tudo tem uma coisa que ele não faz é tratar mal as pessoas principalmente a família.
  •  Ele só se mutila.
  • Toma vária medicação, tem meses que nada se passa mas outros que é de bradar, enfim temos que o compreender e tentar não o contrariar João Afonso.
  •  
    Augusto Mota Gostei desta troca de informações, entre dois camaradas que estiveram como eu estive, no teatro da guerra, e que guerra, eu se estiver fechado em casa a minha cabeça parece que rebenta, o que me vale é que vou até à horta trato dos animais, enfim tento me distrair o mais possível, agora este contato que tenho com os amigos do PICADAS, sinto me bem é como uma terapia, obrigado camaradas, que Deus nos dê forças para continuarmos e a distrairmo-nos com algumas peripécias aqui contadas, um abraço a todos, uma boa quinta feira.
  •  
    João Afonso É bem conhecido a situação do stress pós traumático quer no caso dos veteranos de guerra ou de outros acontecimentos vividos.
  • As pessoas que viveram situações destas, muitas das vezes não se lembram do acontecimento ou quando se lembram não conseguem livrar-se dele continuando lá e a criar-lhe problemas de sofrimento.
    As fobias, os medos ou comportamentos ilógicos e irracionais algumas vezes têm origem em acontecimentos traumáticos, quer físicos, quer psicológicos.
  • Nem sempre esta é a sua causa mas em algumas situações é.
    Normalmente existem outras causas a nível inconsciente que estão por detrás das fobias e elas precisam de ser pesquisadas e trazidas à luz para que a pessoa deixe de sofrer a sua influência.
    Estes acontecimentos normalmente estão tão enraizados no inconsciente que não se consegue vislumbrar qual a sua causa.

    E enquanto eles não forem eliminados, pouco ou nenhum avanço se consegue fazer.
  •  
    Carlos Ribeiro Para quem viver no Porto ou arredores, como é o meu caso, aconselho o Prof. Dr. Marques Teixeira, que é o meu médico.
  • As consultas não são baratas, mas é um investimento no nosso bem estar.
  • No próximo dia 29 tenho uma consulta com ele.
  • Quem precisar, eu dou depois o nº de telefone da clínica.
  •  
    Artur Valente Mota temos um caso recente com um camarada da 3503 que o amigo José Caseiro teve conhecimento depois de 40 anos.
  • Teve uma morte estupida, causa o maldito stress de guerra não morreu nas aguas em cabo delgado e morreu ao lado da casa.
  • Todos temos um pouco de stress uns mais que outros, João Afonso.
  •  
    Fernando  Antonio Ruas atenção juventude do meu tempo tudo isto não passa de sonhos não podemos fazer nada ou nos mobilizamos todos e vamos para a escadaria de são bento fazer greve de fome, mas temos de ser todos ou não conseguimos nada, porque não se esqueçam que por cada ano que passa somos menos uns milhares, não vale a pena ter ilusões é a realidade, porque a culpa é nossa não há ninguém, nem nada que nos una e nos faça lutar, porque quando são só meia dúzia a reclamar ninguém liga, mas se formos lá aqueles todos aqueles que ainda não foram de visita ao são pedro, acho que conseguiríamos, algo pelo menos apoio para esses camaradas que estão mais afetados pelo stress de guerra, um abração amigo para todos os camaradas de armas e não só.
  •  
    João Guerreiro Juventude, todos temos stress pós traumático, apenas a uns passados alguns anos do regresso da guerra, outros passados quarenta anos ou mais, no meu caso ao dormir ouvia tiros e parecia que a cabeça rebentava, sempre tive dores de cabeça, ao fim de vinte anos comecei a não dormir então fui ao neurologista comecei a tomar medicação, a dor de cabeça nunca mais tive nem tenho, medicação foram vinte anos a tomar, agora é só medicação para a tenção alta, mas ao ouvir o helicópteros e o aspirador em casa.
  • A vida não é fácil! abraço
  •  
    Duilio Caleca Quantos mais testemunhos melhor, pois assim poderemos desabafar um problema que nos afeta a todos e obtermos uma informação mais completa.
    Sei que muitas vezes é preciso uma enorme coragem para transmitirmos aquilo que se passa.
    Muitos de nós vivemos em aquartelamentos isolados e tínhamos que calar e resolver os problemas na hora e esse vício ficou.
    Ainda temos muita coisa para "vomitar", mas as pessoas que nunca por lá passaram ou não nos ouvem ou condenam-nos.
    Neste problema é preciso dar um passo de cada vez.
  •  
    João Guerreiro A C. Caç. 3310 esteve em Omar, quando passados sete meses, de lá estar, vim de férias para Nampula, quando cheguei no aeroporto, um Furriel que vinha comigo disse-me para me vir embora pois já estava a olhar para uma montra à mais de quinze minutos.
  • O tempo não tinha horas, apenas o Sol nascente e o pôr do Sol!
  • Abraço
  •  
    José Caseiro Devido á atividade de guerra que tive em Mueda, pensava que jamais teria stress da guerra devido á descarga de raiva que tinha descarregado no mato.
  • Passados quase 20 anos de ter chegado a minha mulher teve uma depressão e fui com ela ao Hospital Magalhães Lemos aqui no Porto e como naquele tempo funcionava de uma maneira diferente de agora o médico vinha á porta chamar o doente a seguir que era a minha mulher ao olhar para ela e para mim só disse a senhora vem a uma consulta mas quem precisa é o seu marido de ser tratado.
  • Pois andei lá quase dois anos e meio a ser tratado com os primeiros tratamentos a ser dose para cavalo que me punham a dormir todo o dia, passado os dois anos e meio fiquei bem.
  • Só que á cinco anos a trás voltou a dar me mas mais leve só que estive um ano com baixa, enfim são medalhas de guerra que quase todos receberam sem terem ido ao 10 de junho.
  •  
    António Manuel Rodrigues Também pensei sempre que estava bom, logo os outros é que estavam errados:.
  • Quando regressei em Novembro de 74 e vi a minha terra, Almada, toda pintada com ditos Comunistas, quando tive uma " pega" com os gajos do COPCON, quando meus antigos amigos viraram Comunistas e Heróis e um dia me atirei para o Chão ao fecharem uma tampa de lixo. Com os gajos a rirem e a dizerem " cacimbado"!
  • Lembro de ter investido para cima daquela gente e agarrar em cadeiras do Café Central, o Duilio conhece o local, e atirar com toda a força todas quantas podia para cima daquela gente: varri a zona!
  • Foram precisos muitos para me acalmarem!
  • Não me orgulho nada disto.
  • Aconteceu e, agora ainda quando me maçam muito, ainda sinto Ganas.
  • Desculpam lá o desabafo.
  • No entanto, aparentemente sou calmo e não gosto de violência.
  •  
    Duilio Caleca A distância entre o calmo e o extremamente nervoso é muito curta, penso que seja um dos sintomas que a grande maioria vai sentindo.
    É o meu feitio, desculpa de muitos.
  • Só que para a grande maioria, esse feitio veio com ele da guerra.
    Agora quanto ao Café Central, conheço muito bem.
  • Era ali que se juntava a malta nova, meia-idade e velhos.
  • Era a nossa 2ª escola e aprendeu-se e desaprendeu-se muita coisa.
  •  
    Duilio Caleca Fizemos algum tempo de intervenção entre Ancuabe e Macomia e depois regressámos a Porto Amélia, com o destino de sermos transportados para Mueda/Nangololo de Nord Atlas.
  • Foram 3 levas nesse transporte.
  • O Furriel Morais Pereira desenfiado como de costume, pretendeu ir na última leva o que lhe foi concedido.
  • Infelizmente o Nord Atlas na 3ª aterragem em Mueda despenhou-se, morrendo todos os ocupantes, excepto o Furriel Morais, que só fez um arranhão.
  • Infelizmente há pouco faleceu, vitima de cirrose.
  • Stress de Guerra????????
  • Eu estou completamente convencido de que sim.
  •  
    Fernando Simões Fernando Conhecemos a foto de mais um vídeo aterrador da Guiné...enfim Quantas magoas, sofrimento, e estar aqui ...
  •  
    Duilio Caleca Este é um assunto para não ser esquecido porque também faz parte da nossa vida, no entanto bola prá frente e tristezas não pagam dívidas.
  •  
    Carlos Ribeiro No dia 29 lá vou eu a mais uma consulta para afinar as válvulas da caixa dos pirulitos.
  •  
    Duilio Caleca Carlos Ribeiro, ainda bem que assim é, olha que muitos já deixaram de afinar e nós por cá andamos.
  •  
    João Guerreiro Nós estamos alegres, muito bem, mas stress vai sempre andar ao nosso lado companheiros de luta! abraço
  •  
    Carlos Ribeiro É um companheiro muito indesejável a que nunca nos habituamos a ele, mas que infelizmente temos de o gramar.
  •  
    Afonso Fernandes É preciso não desanimar e olhar sempre para a frente
  •  
    Fernando Simões Fernando aldeia do mesmo ano de inspeção, eu 2º da DTA stressados ...
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    Fernando Simões Fernando Últimos da Guiné
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    Fernando Simões Fernando Calma vamos descansar em paz como todos.
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    Fernando Simões Fernando Caminhos de vida que sempre nos conduzem acima...ao fim.
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    Fernando Simões Fernando Ar10 e G3, pelo meio um bate estradas...
  •  
    José Pinheiro Querias,...ahahahah!!!!
  •  
    Fernando Simões Fernando Coisas boas que contrabalançam piores moments...
  •  
    Duilio Caleca É fácil e compreensível que as outras pessoas nos digam, não ligues põe atrás das costas.
    No entanto esse stress está cá e temos que lhe dar luta todos os dias. Naturalmente uns dias conseguimos, outros nem tanto.
    Nada é impossível e nós que sentimos todas esses impossíveis e que finalmente se tornaram possíveis, por isso agora também o vamos conseguir.
  • Não é fácil.
  • Esse "IN" não nos dá tréguas, mas já vencemos outros "INs" e cá estamos prontos prá luta.
    Eu que já passei por essas situações sei que não é fácil, por isso contem comigo se assim o entenderem.
  • Faz bem falar dos nossos problemas que depois chegamos à conclusão que são iguais ou piores do que os dos outros.
  •  
    Filipe Caseiro Nessa matéria sou o homem mais felizardo do mundo, todavia estou solidário com quem sofre, e no que poder ajudar contem comigo.
  • Duilio Caleca eu penso que estas páginas dos Picadas, são um ótimo paliativo contra o stress pós-traumático de guerra. <<<<o publicar fotos, o comentar, o convívio com pessoal, mais velho com outro mais novo, faz bem ao EGO, é isto que eu penso.
  •  
    Bernardino Martins Camaradas todos nós viemos cacimbados, eu cheguei em 6/12/72, nessa noite a minha mãe foi-me tirar um omeleto que me acompanhou ao peito durante dois anos, mandei-lhe um soco, ainda bem que não lhe acertei, mas não me lembro de nada, dormia com um saibre de uma mauser debaixo do travesseiro, andei uns dois anos despassarado sempre metido em problemas.
  •  
    Duilio Caleca Um dos sintomas mais evidentes era mesmo o do sistema nervoso ter uma linha muito fina entre o zero e o 100.
  •  
    Carlos Vardasca Este tema é de facto um tema interessante, pois todos nós, uns mais outros menos, viemos da Guerra Colonial todos diferentes.
  • Quando regressei do norte de Moçambique (Cabo Delgado) vim bastante perturbado, de forma que, assim que ouvia os foguetes das festas eu escondia-me logo num sítio qualquer, para não os ouvir pois ficava bastante nervoso.
  • Eu enervava-me com bastante facilidade e penso que esse facto (entre outros) teve bastante influência na minha vida familiar, que veio a culminar num divórcio.
  • Atualmente esse problema já está ultrapassado, com ajuda da minha atual mulher que me soube compreender e até me ajudou a ultrapassar esse problema.
  • Mas há uma questão que ainda permanece embora com menor gravidade.
  • Quando oiço o barulho de um helicóptero Aluette III com aquele barulho característico (lembro-me quando eles iam fazer evacuações às picadas) vêm-me logo as lágrimas aos olhos... Enfim.
  • Isto não é nada se comparado com outros problemas muito mais dramáticos que camaradas nossos ainda padecem nos dias de hoje, problemas contraídos ao serviço de uma pátria que nos foi madrasta e não respeita quem foi obrigado a servi-la sem qualquer reconhecimento.
  • Um abraço a todos.
  •  
    José Caseiro Com todo o devido respeito vos peço tirei esta foto daqui, á quarenta anos atrás isto para mim era o pão de cada dia hoje esta foto faz me recordar coisas que não quero reviver. Obrigado
  •  
    Duilio Caleca José Caseiro entendo-te, mas temos que seguir em frente esse é o nosso grande objetivo.
  • Espero que aqui no Picadas ninguém fique para trás e só encarando o "bicho" de frente é que o poderemos agarrar nos "cornos".
  • Não é fácil, mas também não é impossível.
  • Já alcançamos vários objetivos este é mais um deles.
  •  
  • 2ª Parte - Novas descrições
 
  • Duilio Caleca em que altura é que esse furriel foi ferido com a queda do NordAtlas?!...
  • Eu fui ferido e estive com um furriel no hospital de Nampula, em situação idêntica e apenas ele tinha sobrevivido...
  • Estava completamente "cacimbado"...
  • Não me admiraria que fosse essa a razão da sua morte por cirrose.
  •  
    Jose Capitao Pardal Penso que posso transcrever este diálogo no meu blog.
  • Toda a informação para a causa é importante.
  • Se alguém não concordar que diga...
  •  
    Duilio Caleca José Capitão Pardal, nós além de estarmos sempre com o gatilho pronto prá brincadeira, também sabemos estar a sério, que é o caso.
  • Este assunto toca a todos nós e como sempre foi só entre a nossa entreajuda conseguimos chegar ao objetivo.
  • Foi assim naquele tempo e será agora certamente, pois quem vive neste "mato" só pode contar com todos os camaradas que estão nesta "guerra", porque os nossos governantes nunca souberam o que foi sentir o cheiro a pólvora e ver o nosso amigo deixar de viver.
  • Mas são coisas que nós temos que ir em frente.
  • Quanto ao Furriel Morais Pereira não estou lembrado da data, mas existe alguém aqui no Picadas que guarda esses registos com "carinho" e vai certamente transmitir.
    Em anexo a foto com o Morais Pereira antes de seguirmos para "intervenção" na Serra do Mapé e Macomia e infelizmente numa das levas do tal Nordatlas para Mueda, o Morais teve o acidente em que foi o único sobrevivente.
  • Eu felizmente vim na leva anterior.
  •  
    Jose Capitao Pardal Eu era da 3508 do Bat Cav 3878 que estava sediada no Chai. Creio que fui ferido em Março de 1973 com uma mina e alguns dias após ter chegado a Nampula apareceu um furriel apenas com umas escoriações a dizer que o avião em que ele seguia tinha caído.
  • Ao principio não acreditámos, mas depois soubemos a versão do médico e do enfermeiro e tinha sido como ele dizia...
  • A vossa companhia onde estava?...
  • E também foi em 1972?!...
  •  
    Jose Capitao Pardal Se alguém não estiver interessado que o seu nome apareça no meu blog, que diga, que altero.
  • Obrigado.
  • Penso que é um grande testemunho da realidade sobre o stress de guerra...
  •  
    Duilio Caleca A nossa Companhia estava sediada em Nangololo, mas como éramos bons rapazes, levavam-nos a passear por aquelas redondezas a visitar esses lugares "turísticos" de bom nome.
  • Estive de Janeiro de 1973 até Outubro de 1974.
  •  
    Jose Capitao Pardal Quando vocês eram "abonados" nós ouvíamos no Chai.
  • À noite víamos as luzes do vosso aquartelamento...
  •  
    Duilio Caleca Eu sei meu amigo pois também eram as únicas luzes de "alguma" civilização que vimos durante muito tempo.
  • Quando é que saíste do Chai ?
  •  
    Duilio Caleca José por acaso não tens contacto com militares que lá ficaram no Chai depois de Agosto ?
  • Jose Capitao Pardal quanto á queda do NordAtlas foi mais ou menos por essa altura de Março de 73, porque a companhia do Duilio passou por Mueda em Janeiro 73 e eu quando o vi reconheci o de ter lá passado há pouco tempo.
  •  
    Pedro Ranito Fiz uma vez uma evacuação ou do Chai ou Macomia em 73/74 ( mais Macomia ) de um militar após um ataque .
  • O homem vinha inteiro e de farda e sapato novo pelo que deduzi que fosse doença.
  • Coitado do homem tinha levado um estilhaço nas costas ao nível das espáduas e estava paralisado.
  • Falei com ele por interfonia e o que o aguentava com ânimo é que estava vivo.
  • Marcou-me e ainda me lembro que ele era da zona do Porto.
  • Não quero jurar mas acho que era alferes .
  • Duilio Caleca o nosso amigo de que se fala ainda por aqui anda.
  • Fiquei com muita calma e pouca paciência.
  • Esta de ter de engolir sapos deixa-me por vezes na lua para não disparatar.
  • Injustiças, prepotências não ligam bem comigo.
  • Quantas vezes temos que engolir as lágrimas de raiva?
  • Noites em branco, nem falar.
  • O engraçado é que quando lá andava, julgava que dormia bem .
  •  
    Duilio Caleca voo de hoje refere-se ao dia trágico de 2 de Maio de 1973.
    Este dia foi de luto e grande tristeza para a Base Aérea 10 - Beira -Moçambique.
    Mas passemos aos factos:
    Local do acidente: topo da pista 16 do AM 51 - Mueda
    Hora do acidente: 18H30( já de noite )
    Consequências do Acidente: morte de toda a tripulação ( 7 ) e mais 4 passageiros ( 2 militares e 2 civis)...
  • Aeronave totalmente destruída.
    A tripula
    ção era composta por:
    -Alfredo de Azevedo, Capitão Milº Graduado, com 2.348,00 horas de voo (no avião Nord Atlas 106,40 horas).
  • Idade 28 anos.
    - Manuel Pesquinha da Siva, Tenente Piloto com 5.902,20 horas de voo (no avião Nord Atlas 4.509,55 horas de voo) - Tinha como 1º Piloto no avião 4.200,05 horas.
  • Idade 37 anos.
    - José Santa Rita Varandas- 1º Sargento MMA
    - Alberto Lopes Santiago - 1º Cabo MMA
    - Daniel Pereira Dias- 1º Cabo OPC
    - Francisco da Cruz Botelho - 2º Sargento Mec. Ele.
    - António Ramos Valente - 1º Cabo Mec. Ele.
    Causas do Acidente:
    - Estratos baixos .
    - Tempo de trabalho elevado (da tripulação)
  • - Neste dia esta seria a 3ª missão entre Porto Amélia e Mueda.
    - Confusão provável entre a rua principal de Mueda (que tem 1.800 metros) e a pista 16 do AM 51.
    - Falta de informação à tripulação de que existiam estratos muito baixos.
    - Desrespeito pelo MDA, no âmbito de forçar o contacto.
    - Não ter sido adotado o procedimento de descida ADF .
    O avião aterrava com carga máxima, sendo composta na sua grande maioria por bidons de combustível.
    A Enfermeira Paraquedista Mariana, reconheceu o Tenente Pesquinha.
  • Retirou do corpo, um anel, a aliança e um fio de ouro.
    Cláudio Carvalho, Furriel Milº do 1º Pelotão de morteiro médio, foi uma das testemunhas.
  • Ajudou a tirar o corpo do Capitão Azevedo, do lado esquerdo do avião.
  • Tinha galões de Capitão e usava bigode.
    Mais tarde quando identificava pelos documentos, teve dúvidas, pois pelo Bilhete de Identidade, constava Tenente e não tinha bigode.
  • O Capitão Azevedo tinha sido graduado dias antes.
    O Controlador do AM 51 em serviço era o Furriel Milº OCART, Atalaia.
    O Furriel Atalaia disse que o piloto que fez as comunicações, foi sempre o mesmo.
  • A voz era-lhe familiar tendo quase a certeza ser do Tenente Pesquinha.
    As comunicações estavam boas.

    Como eu tenho uma "enciclopédia" de nome Abel Lima, aqui está a transcrição do tal acidente do Nord Atlas.
    Obrigado Abel Lima.
  • Duilio Caleca já falamos deste acidente e todos sabemos que não foi no topo da pista do AM de Mueda.
  • Duilio Caleca como podes confirmar eu nesse dia nada escrevi porque era á noite que punha a escrita em dia mas nesse dia não houve tempo para outras coisas se não recolher os corpos.
  •  
    Duilio Caleca São momentos que nunca mais esquecem e ficam marcados para todo o sempre.
  •  
    Duilio Caleca Antes de entrar para o NordAtlas para uma viagem turística de alto gabarito.
  •  
    Santos Costa O HOMEM DA REGISCONTA.
  •  
    Fernando Moreira NORDATLAS. Meu baptismo de voo; - NAMPULA/MUEDA.
  •  
    Amadeu Silva Também meu baptismo de voo.Metangula-Vila Cabral.
  • Sózinho no seu enorme bojo acompanhado por caixões.
  •  
    Duilio Caleca Santos Costa, um profissional que se preze assim como eu, teria que se fazer acompanhar da "pastinha", até porque ia passar por Porto Amélia. Perfume, etc. etc. etc..
  • Sim que quando ia prá "guerra" levava os apetrechos todos para qualquer combate.
  •  
    Filipe Caseiro Duilio Caleca, aqueles documentos eram os planos para a paz, ou mais qualquer um suborno?????
  •  
    Jose Monteiro De mala e de arma, ia falar com a Frelimo, logo após o 25/Abril.
  • Ou dava uma ou outra!!!!!!!!!
  •  
    Amadeu Silva Ó José Monteiro então isso diz-se do nosso pseudo lenhador.
  •  
    Francisco Mota Dores Para mim, ia a Mueda levantar o cacau para pagar ao pessoal.
  • Duilio Caleca Felizmente conservo bem vivas muitas das recordações boas e más, são mais as más, dos tempos que andei por Nangololo.
  • Mas sinceramente, de te ver com essa pastinha, por aqueles lados, não tenho mesmo ideia nenhuma. Mais pareces um agente de cobranças de dívidas difíceis.
  •  
    Duilio Caleca Vocês são uma "cambada" de más línguas, mas como eu vos entendo.
    Já não podem ver um desgraçado "enclausurado" na missão e quando ia à cidade, vinha com todos os apetrechos prá "guerra" incluindo os planos da pólvora.
  • Pois é meus amigos a inveja é o que os faz falar.
  • Quando fui de intervenção nem sabia os dias que por lá andava e foram muitos e o que me valeu foi mesmo a "pastinha", claro que o mainato lá levava o resto para eu me entreter nas passeatas que fiz à Serra do Mape, Ancuabe, Macomia etc.
  • Foi muito cansativo esta minha viagem de "negócios".
  •  
    Duilio Caleca Uma das fotos da minha viagem de "negócios", claro que a "pastinha" teve que ficar no "escritório".
  •  
    Duilio Caleca Mais uma da tal viagem.
  • Nesta altura tinha havido uma emboscada à coluna que vinha de Macomia.
  • E eu claro lá tive que fazer o relatório dos estragos causados.
  • Estava sempre a sobrar para mim.
  • E eu que não fiz mal a ninguém.
  •  
    Abel Lima Estragos causados?
  • Agora já entendi.
  • Trabalhavas para uma seguradora.
  • Daí a pasta.
  •  
    Duilio Caleca Bruxo, se eu não me segurasse quem é que me segurava?
  •  
    Duilio Caleca Os comentários anteriores vêm a reboque do tema principal o Stress de Guerra.
    Depois de ter saído da tropa passado cerca de 2 anos, recebo uma carta do Tribunal Militar para me apresentar no quartel da Trafaria.
    Tudo esquisito pois eu desliguei-me completamente do que quer que seja no âmbito militar. Ainda telefonei para lá mas disseram que era situação jurídica e que não poderiam transmitir.
    Lá fui no dia e hora indicados, quando me questionaram sobre o acidente do NordAtlas e se tinha conhecimento do que aconteceu ao furriel em causa.
    Passei-me dos carretos visto que me estavam a perguntar algo que aconteceu e que deviam ter relatórios de toda a maneira e feitio.
  • Perguntei, então o avião em causa ficou completamente destruido e os Srs. estão-me a perguntar se confirmo.
  • Devem estar a brincar comigo certamente.
  • Quanto ao furriel, confirmei ser da minha Companhia e grupo e tudo o resto que aconteceu à posteriori.
    O indivíduo que me estava a questionar que devia ser da parte jurídica militar, chegou a um ponto que disse: Bom é mais do que evidente tudo o que aconteceu pelo que não tenho mais perguntas a fazer.
    Esse furriel não mais aguentou a pressão e recentemente morreu alcoolizado.
    Agora dizem as "bestas" militares, não foi da guerra foi da bebida.
    Que mais nos irá acontecer.
  •  
    Amadeu Silva Duílio gostei muito que relatasses o que te aconteceu na Trafaria.
  • Mostra bem a maneira como fomos utilizados e tratados
  • Duilio Caleca comigo também algo parecido aconteceu, estava eu a trabalhar quando um agente da policia foi a casa dos meus pais perguntar por mim pois tinha uma comunicação do estado para ser entregue á mão própria e a minha mãe lhe disse ou vai trabalho ou espera por ele então disse que no dia seguinte esperava por mim por ia comer a casa, para que era? para eu ir ao quartel da Senhora da Hora prestar declarações sobre um acidente num hélio assalto que fizemos onde o soldado ao saltar partiu o pé, os moços cabos milicianos ficaram de boca aberta quando lhes contei por alto o que se passava na zona turística de Mueda, isto em 74 em Julho +ou-.
  •  
    Duilio Caleca Muita dessa gente e ainda hoje não têm a mínima ideia do que se passou por lá.
  • Pedro Ranito o ferido a que te referes é o ex-alferes Rui Briote, que podes contactar aqui no Facebook...
  •  
    Pedro Ranito Vou tentar, obrigado.
  • Tenho que ganhar coragem e controlo emocional primeiro. Obrigado.
  • Já agora foi Chai ou Macomia? E como é que ele está ?
  •  
  • Pedro Ranito já informei o Rui Briote, que vive em Coimbra...
  •  
    Duilio Caleca Considerando a observação que já foi feita pelo Antonio Marques, é sempre bom ler artigos que aqui já foram desenvolvidos.
  • Duilio Caleca tudo isto prova que como tu dizes e com razão que essas "Bestas" militares consideraram o pessoal que por lá passou nesses buracos ser carne para canhão.
  •  
    Duilio Caleca Para que não se "adormeça" sobre este assunto sensível e muito importante para todos nós, volto à carga. Me desculpem aqueles que entendem que isto é um assunto para esquecer.
  •  
    Eduardo Silva Não deve ser assunto para esquecer .....
  •  
    Bernardino Martins Não deve ser um assunto para esquecer, mas sim para ser lembrado até ao último Combatente, e não termos medo destas bestinhas que nos desgovernam porque as bestas mais velhas muitas delas já partiram um dia lá os encontraremos.
  •  
    Bernardino Martins Camaradas, vejam o video da emboscada onde este camarada ficou ferido o outro teve menos sorte, tenham coragem e mostrem essas imagens a certos indevidos que dizem que estão contra a entrega das ex colónias aos seu legítimos donos. Bem vou parar por aqui se não mais logo acendo o rastilho à pólvora.
  • Bernardino Martins, tens esse video?? 
  • Publica-o sff.
  •  
    Bernardino Martins Tenho sim, vou procurá-lo leva o seu tempo, tenho-o passado num disco externo da minha Associação, fizemos uma feira de associativismo há 15 dias e tenho-o na sede da Associação, mas eu vou procurá-lo e publico.
  •  
    José Manuel Andrade Nunes Eles estão se "marimbando" para Nós, o que querem são Cravinhos e Vivas à Cristina
  • www.youtube.com/watch?v=FOpqcUBzBXc
    Creio que será este o vídeo a que se refere o Bernardino Martins
  •  
    José Pinheiro Este já conhecia.Abraço Abel Lima.
  •  
    Rui A F Rocha publica o também gostava de ver
  • Duilio Caleca o video que te falei é o mesmo que o Abel Lima menciona, tenho gravado num disco mas não o tenho em casa tenho na sede da Associação, é só carregares no comentário do Abel Lima é só gravares, também gravei um de Moçambique muito engraçado e bem feito mas também não o encontro. Este ano vou fazer um trabalho de gravação num disco externo para ser apresentado nas escolas divulgar aquilo que muitos não conhecem e não fazem ideia do que nós por lá passamos, estou a recolher todo o material que me possam disponibilizar, tenho um miúdo que é um barra a fazer vídeos e vou aproveitá-lo.
  •  
    Bernardino Martins Rocha é só clicares no comentário do Abel Lima ficas logo a ver o video.
  • Um grande abraço ó Rocha.
  •  
    Alexandre Nogueira Dos Santos São assuntos sensíveis, Duilio Caleca e muito.
  • Passados 15 dias de regressar, minha Mãe disse-me: Meu filho, estás diferente!
  • É que eu acordava invariavelmente às 3 da manhã e tinha de sair de casa, para o pátio, fumar um cigarro e voltar para a cama só depois de ter consciência que estava em casa.
  • Procurei um médico e sem tomar medicação nenhuma, andei lá 6 meses, 2 dias por semana a desabafar tudo.
  • Um dia o médico disse-me: Está curado, pois já fala de tudo sem ansiedade.
  • Claro que uma semana depois de iniciar esta terapia, já dormia noites completas e o barulho das motorizadas e foguetes, embora me causassem reacções instintivas, já não faziam nada mais...
  • Mas, Meu Caro, tenho tido notícias de suicídios de camaradas nestas idades...
  •  
    Santos Costa É muito complicado.
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    José Pinheiro Conheço alguns a quem nenhuma terapia deu resultados positivos.
  • Pobres deles e não só.
  • Mais pobres ficaram e hão-de ficar aqueles que lhes são mais queridos....
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    Carlos Vardasca "REGRESSÁMOS TODOS TÃO DIFERENTES" (Artigo de opinião)
  • Éramos todos ainda muitos meninos, folheando uma qualquer página dos nossos livros da escola, quando em África os ventos da revolta começaram a soprar.
    Dos que tiveram o privilégio de brincar com brinquedos a sério, aos que dos restos dos outros souberam improvisar a gancheta e o arco; o carrinho de rolamentos; o jogo das caricas e dos bugalhos, até aos que sem infância tão rápido se tornaram homens e do arado moldaram as terras, a todos nos parecia estarmos a crescer muito devagar para que a guerra ainda nos apanhasse de soslaio.
    Dos bancos da escola até ao primeiro namoro no adro da igreja, a todos nós sempre nos era dito que quando chegasse a nossa vez já aquilo em África tinha findado há muito.
    Apesar de tudo, e enquanto a nossa juventude nos foi escapando enleada em incertezas, inesperadamente, foi chegado o momento em que o carteiro nos trouxe aquele papel timbrado, que nos dizia já sermos homens e ser a altura para abandonarmos o aconchego familiar.
    Na recruta, encafuados naqueles casebres feitos casernas depois de termos sido expulsos do lar, suportámos a brutalidade e a arrogância de certos instrutores que diziam ser necessária aquela agressividade para nos tornarmos bons combatentes, fomos, apesar de tudo, mantendo os nossos sorrisos de infância e recordámos as brincadeiras que não tivéramos tempo de brincar em criança, embora já nos tivessem transformado em “meninos soldados”.
    Enviados para a guerra, onde convivemos diariamente com a angústia e a incerteza, mas também com a perca de alguém com quem partilhámos os medos e as várias faces dos silêncios; a última gota de água do cantil; a mesma frescura do capim, os sorrisos aos poucos foram-se desvanecendo e os nossos olhares toldaram-se de raiva, tornaram-se frios, distantes, absurdamente melancólicos e, obviamente muito tristes.
    Cada momento vivido no isolamento do interior da mata; da felicidade vivida em momentos tão raros que logo se desvanecia nos ataques constantes aos aquartelamentos; da sensação de alívio por se ter escapado a uma emboscada ou à impaciência pela chegada do helicóptero e à desilusão por uma carta que nunca chegava, todos estes momentos foram moldando cada uma das nossas expressões, como quem desconfia que fora enviado para ali para morrer.
    Regressados da guerra e com alguns companheiros “deixados para trás”, de regresso às aldeias e às cidades que nos viram partir ainda meninos, alguns dos nossos olhares distantes pareciam não querer reconhecer quem nos amou à distância, apesar dos abraços apertados e das nossas lágrimas que cai