quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vivencias na guerra colonial - Operação ZETA versus Operação Nó Górdio, por Joaquim Coelho


OPERAÇÃO ZETA - de 6 a 11 de Junho de 1969


Realizada entre Nangade e Mocimboa do Rovuma, nos Pântanos de Malambuage
Tropas de Intervenção:
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP31 (Beira)
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP32 (Nacala)
- 2 pelotões e a secção de logística da 1ª CCP do BCP32 (Nacala)
- 10ª companhia de Comandos
- 2 companhias de Cavalaria (Mueda e Nangade) – 2375 e 2376
- Oficiais e sargentos do BCP32 em apoio ao Comando Operacional
- Pessoal e aviões da Força Aérea
- Viaturas e condutores do Exército

Outros meios em ação:
-- Sete aviões de transporte (4 Nordatlas e 3 Dakotas)
-- Dez aviões de combate (8 T6 ligeiros e 2 PV2 pesados)
-- Uma Dornier DO27, no comando operacional
-- Um “Heli-canhão” com metralhadora pesada
-- Diversos helicópteros de transporte e apoio
-- Mais de trinta condutores-auto


Narrativa:

Os guerrilheiros da Frelimo andavam numa azáfama medonha para introduzir as mais recentes remessas de material de guerra, fornecido pelos amigos chineses e checos, nas bases avançadas da Serra do Mapé e do Vale de Miteda.
Não imaginavam que havia alguém a preparar “ajuda” em tão importante missão; mas sabiam que a época das chuvas danificava as vias de comunicação terrestres, limitando os movimentos das tropas portugueses no planalto dos macondes!

Enquanto isso, em Nacala, o calor atrofiava a respiração e causava fastio frente aos pratos de “carne de porco à alentejana”, e os paraquedistas do batalhão da Beira já mastigavam as últimas grafadas de “bacalhau com grão-de-bico” na certeza de que a próxima ração quente seria uma incerteza.
Mesmo o pessoal recentemente regressado das zonas de guerra não mostrava relutância em avançar para novas missões; pois, ao verem chegar os oficiais do comando operacional, os comandantes das esquadras de aviões e de helicópteros para reunirem com o Estado-maior, os paraquedistas pressentiam que estava na forja alguma missão de grande envergadura.

Uma semana depois, começaram a chegar a Nacala os aviões Nordatlas, com equipamento nunca antes visto, movimentos que tiravam as dúvidas a quem não tivesse sintonizado os sinais prenunciados.
Mesmo os que, dias antes, haviam regressado da missão à Serra do Mapé, começaram a mentalizar-se para a operação que os chefes urdiam com elevada minúcia.
Sem querer fazer alarde, o cabo Fonseca aproveita o serviço de guarda ao aquartelamento e interpela o sargento Sampaio sobre os estranhos movimentos de material e aviões.
Mas o sargento rematou p’ro lado:
- Ora, que pergunta mais estrambólica.
Se a missão é secreta, como posso eu satisfazer a curiosidade do nosso cabo?
E, de rompante, entrou na casa da guarda.

O cabo ficou a matutar: “três aviões de transporte, nove aviões de combate, montes de pára-quedas… o general prepara algum golpe à leão”.

Os motores dos aviões começaram a roncar antes das seis da manhã, os Unimogues, num corre-corre, transportavam material de guerra, caixas de rações de combate e paraquedas para a placa de estacionamento dos aviões.
Quando o Calisto abriu os olhos já os ouvidos tilintavam com os turbo-hélice a zumbir; saltou para o duche de água hidrocarbonetada e espreguiçou o corpo ainda mal refeito da noitada no bar da estação de Nacala.
Homens e aviões, em movimento acelerado, preparam-se para uma grande operação no Norte de Cabo Delgado, lá para as margens do rio Rovuma, entre Mocimboa do Rovuma e o lago Nangade – talvez no Pântano de Malambuage…

A meio da manhã, o pessoal do pelotão da balizagem estava em Mueda a visionar as fotografias aéreas do local, onde iriam saltar e balizar a zona para lançamento de 186 homens preparados para uma complexa e perigosa missão – desmantelar as vias de infiltração da Frelimo.
As informações acreditadas em documentos recolhidos pelas nossas tropas nos acampamentos assaltados no Vale de Miteda e confirmadas por elementos da população local indiciavam movimentos de grande quantidade de guerrilheiros e material naquela zona, presumivelmente, destinado à região do planalto dos macondes até à Serra do Mapé, passando pelas cercanias de Muidumbe, Nangololo e Chai, a sul do rio Messalo.

Por ação concertada entre o comando do sector militar de Mueda, o comando das tropas para-quedistas e a Força Aérea, reuniram-se as condições para desencadear uma das mais bem organizadas operações militares.
Tratando-se duma zona de terrenos pantanosos, com muitos escarpados e arribas, arbustos rasteiros e linhas de água, logo os responsáveis pela logística perceberam a impossibilidade de assaltar os acampamentos da Frelimo, detetados por via aérea, sem que fossem postos em causa os princípios da surpresa e da eficácia.

Para ultrapassar essas dificuldades, foram preparadas duas companhias de para-quedistas, para tomarem a posição dominante do terreno por envolvimento aéreo, saltando de paraquedas.
Após terem saltado os precursores para a balizagem, apareceu o avião com o primeiro grupo de combate a sobrevoar a zona de intervenção… e os olhares dos mais nervosos procuravam diluir o imprevisto da chegada ao solo.
O sargento Arantes animou o pessoal, ironizando:
- Como podem ver pelas janelas do avião, há algumas nesgas de areia que permitem uma aterragem perfeita; devem evitar cair nos charcos ou no rio… pois, antes de enfrentarem os guerrilheiros, vejam se preservam as pernas dos apetites dos jacarés mais atrevidos!

Ao sinal dos "largadores", os homens do ar perfilaram-se na carlinga dos aviões, ajustaram os equipamentos e saíram apressados para o vácuo do espaço, que os separa das terras alagadiças nas margens do rio Rovuma. Enquanto apreciavam o serpentear das águas do rio e as nesgas de areia para onde apontavam a aterragem, os paraquedistas não esqueciam que podiam estar na mira de qualquer arma dum inimigo mais atento.
A chegada ao solo foi rápida, como mandam as regras em saltos operacionais, para logo se reunirem os grupos de combate com vista à defesa da zona e segurança dos companheiros que vão chegando ao solo – alguns com mais azar, caíram nos charcos cheios de bichos estranhos, mas ninguém se queixou dos jacarés!                         

Assim, mais de duzentos paraquedistas saltaram sobre o Pântano Malambuage, surpreenderam e tomaram de assalto os redutos da Frelimo; abateram várias dezenas de guerrilheiros durante os combates mais renhidos, apreenderam grandes quantidades de material de guerra e cercaram toda a zona dos acantonamentos do inimigo.
Durante três dias, os paraquedistas consolidaram as posições dominantes, bateram o terreno entre o rio Rovuma e a Base Limpopo, em Balade, a sul do pântano, pesquisaram e levantaram minas e armadilhas da Frelimo, fizeram as ligações aos grupos de combate do Exército que cercavam a zona em forma de tampão a Sul, a Leste e a Oeste do rio Rovuma.
Nesses dias de intensa labuta, uma companhia de Comandos tomou o acampamento logístico aos guerrilheiros, a Sul do pântano, duas companhias de Cavalaria bateram as brenhas junto do lago Lidede e vale do rio Nange e assaltaram um hospital dos guerrilheiros, recolhendo diverso material de guerra e documentos, capturaram elementos inimigos e da população de apoio.
Outra companhia do Exército bateu as terras a oeste do pântano e ajudou os paraquedistas a recolher o material de salto.
A progressão no terreno pantanoso obrigou a um esforço desmesurado, e só a grande determinação de vencer os obstáculos e uma abnegada vontade de chegar ao fim da missão conseguiu catalisar todos aqueles homens para uma vitória memorável das campanhas africanas.
 
 

Durante toda a operação Zeta, o apoio aéreo foi importante, tendo participado uma Dornier 27 no comando operacional, um helicóptero armado de metralhadoras pesadas, oito aviões T6 de ataque aos grupos inimigos que tentavam escapar ao cerco, dois aviões bombardeiros PV2, quatro aviões Nordatlas e três Dakotas no lançamento dos paraquedistas. A ação de bombardeamento aos grupos fugitivos ajudou a amolecer o ímpeto combativo dos guerrilheiros e cortou-lhes as linhas de fuga.

Pela minuciosa recolha de informações, cuidadosamente testadas, e o consequente secretismo no planeamento em muito curto prazo, a Operação ZETA é uma das mais importantes missões militares realizadas em Moçambique.
Os resultados atestam o sucesso das nossas tropas, cuja coordenação excedeu as melhores perspetivas, atendendo à impossibilidade de acesso a uma zona controlada pelo inimigo e às distâncias de qualquer ponto de apoio sem ser apeado.

O Comandante do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 32, sedeado em Nacala, teve a seu cargo a coordenação de todas as Tropas em ação, especialmente o apoio aéreo, os percursores da balizagem, os meios de recolha dos para quedas, a logística para as colunas auto, que recolheram o pessoal e o material apreendido.
Os paraquedistas empenhados nas ações, que culminaram nesta operação, pertenciam ao BCP32 e ao BCP31.
A sua elevada mobilidade permitiu infligir uma estrondosa derrota aos guerrilheiros, desarticulando as suas linhas de infiltração a partir das bases na Tanzânia, nomeadamente do comando logístico de Nachingwea e do pessoal operacional vindo do centro de treino em Mtwara, utilizando a estrada de Mahuta a Newala, a norte do rio Rovuma. Era impressionante a quantidade de picadas, trilhos e esconderijos dissimulados e espalhados numa área superior a vinte campos de futebol; na maior parte, em direção ao local de travessia do rio, para a estrada que liga ao interior da Tanzânia. 

A ação conjunta de cerca de 680 homens determinados, pouco mais de uma dúzia de aviões e quatro dezenas de viaturas chegou para desbaratar mais de duas centenas de guerrilheiros, destruindo os seus abrigos, desmantelando os acampamentos de apoio logístico, queimando os víveres e celeiros e escorraçando os galináceos e cabritos para o mato.
Mas, alguns “habilidosos”, conseguem “iludir” as vistas dos chefes (guardando dentro dos camuflados e nas mochilas) e, no sossego do último dia, apresentam umas dezenas de galinhas para o churrasco coletivo; é que, depois do revés sofrido pelo inimigo, nada mais havia a temer nesta paz do diabo.

Durante a contagem do material, em Mueda, enquanto se preparava para a fotografia que recordaria a inesquecível missão, o cabo Fonseca virou-se para o sargento Sampaio e rematou:

- O meu sargento tem que se empenhar mais nas informações… nas informações, para não ficar mal à beira do cabo!

Além da preciosa documentação sobre a orgânica da Frelimo, foram apreendidos mais de 15 toneladas de valioso material de guerra, bicicletas e meios de passagem através do rio Rovuma.”

1 - Pelas Tropas Paraquedistas:

- 1723 granadas de morteiro 82mm; 2 morteiros 82mm completos e peças de outros; 182 espingardas Simonov e 200.700 cartuchos; 1 metralhadora pesada e 6 metralhadoras ligeiras; 63 granadas de mão e 21 armadilhas de itinerários; diversos equipamentos.

2 - Pelas tropas do Exército, especialmente pelos Comandos:

- 97 espingardas semiautomáticas e 18.200 cartuchos; 8 espingardas automáticas PPSH; 1 morteiro 82mm e 93 granadas de morteiro; 5 metralhadoras pesadas; dezenas de minas e armadilhas; diversas granadas defensivas; fardamento e diverso material de campanha.

in “O DESPERTAR DOS COMBATENTES… fotos, narrativas e poemas dos dias da guerra em Moçambique”, de Joaquim Coelho

Alguns dados estatísticos da “História das Tropas Paraquedistas Portuguesas"


Operação Nó Górdio


Desencadeada em toda a zona do planalto dos Macondes

Considerada a maior operação de sempre, envolveu tropas do Exército, Marinha e Força Aérea, num total aproximado de 8.200 homens.
Decorreu de 1 de Julho a 6 de Agosto de 1970, tendo por base operacional Mueda.
Enquanto a artilharia e os aviões bombardeavam as zonas onde se movimentava a Frelimo, as tropas especiais tomavam posições no terreno para o assalto final às bases principais dos guerrilheiros - Bases Nampula, Gungunhana e Moçambique.
A logística e a abertura de itinerários teve a participação ativa das unidades de engenharia, da administração militar e de reconhecimento.

Esquema da "Operação Nó Gordio", in Jornal 24 Horas

O cerco às bases da Frelimo demorou mais do que o previsto, uma vez que os itinerários eram difíceis; foram realizadas emboscadas e batidas em toda a zona central do planalto, desde Miteda, Nangololo, Muidumbe, Sagal e Mueda.
Participaram no cerco forças de artilharia, cavalaria e caçadores, tendo as tropas paraquedistas, comandos e fuzileiros avançado no terreno para o assalto às bases da guerrilha.

Estas, quando não explodiam, eram usadas pelo IN...como minas anticarro!!

Apesar do grande envolvimento de meios, os resultados ficaram aquém do esperado, tendo a Frelimo aproveitado para se instalar nas proximidades de Tete, por onde desenvolveu ações contra as tropas portuguesas que protegiam a construção da barragem de Cabora Bassa.
Durante o período em que decorreram as ações militares, as baixas nas nossas tropas foram pesadas: cerca de 50 mortos e 200 feridos, além das perdas de material.

Comparando os resultados com a Operação Zeta, constata-se que um décimo de efetivos, em menos de um quinto de tempo e material envolvido, resultaram na captura de seis vezes mais material de guerra do inimigo.
 
Quanto a perdas humanas, a Operação Nó Górdio foi desastrosa.

 Os mentores da Operação Nó Górdio              

                                                                                              Por: Joaquim Coelho

Comentários e sugestões para: jota_coelho@netcabo.pt
Ver informações no Blog: micaias.blogs.sapo.pt
Ver vídeos no blog: ultramarlembrar.blogspot.com

segunda-feira, 28 de abril de 2014

De Luanda a Nambuangongo, por José Gonçalves



Será que há por aí algum camarada, que tivesse feito, em 1962, a viagem que descrevo a seguir? Ficava contente por isso, creio que há muitos que a fizeram, posteriormente, correndo estes e outros perigos
De Luanda a Nambuangongo
(17-18Dez1962)

Luanda

Chegou a madrugada, esperada e não desejada,
Da partida de Luanda, sem fanfarra nem banda
Pela calada da noite ainda cerrada.

Caxito

Primeira paragem no Caxito. Onde nos foi dito;
A partir daqui, bala câmara e olhos bem abertos.
Ordens dadas às companhias, pelotões e secções
Pela cadeia de comando. Houve tremores discretos.
O caminho, traçado em segredo
Trazia perigos. Reacção imediata, diferente
Em cada um. Dores de barriga, choro, o medo
A ceder à realidade do lugar, sabendo que à frente
Havia guerra, um flagelo na terra.
A próxima paragem no roteiro da viagem
Era Quicabo. Ali vimos, já cadáver o Szabo!
Foi emboscado e morto.

Quicabo

Chegaram também feridos soldados da sua secção!
Via-se um avião e outro avião, os efe oitenta e quatro
Que nos morros lançavam bombas de retaliação!
Foi ali em Quicabo, que vimos e sentimos guerra.
E a primeira morte a caminho do norte...
O norte era já ali, cheio de vida. Eu senti
A natureza, admiravelmente linda,
Pródiga em cores, reflexos, flores e ainda
Um sol diferente rompendo a nebelina,
Fazendo aparecer, árvores imponentes,
Nunca sonhadas, mas sempre reais.
Nos seus ramos, convivem aves e outros animais.
Observações feitas num piscar de olhos.
O tempo era de reacção à emboscada.
De saltos para o chão, para as urtigas e abrolhos,
Quando os tiros numa curva inesperada
Espantaram macacos e aves exóticas lindas...
Após o que se sentiu, um silèncio de morte.
Não havia mortos nem feridos. Que sorte!

Sete Curvas

Quase noite e as Sete Curvas já ali...
Começara, entretanto, a chover e, a picada
Lamacenta e escorregadia, como nunca vi.
Era uma ratoeira para qualquer viatura,
Das noventa e quatro da coluna em movimento.
Nessa noite a picada tornou-se menos segura,
Devido à chuva, ao abatimento
Em vários pontos, o que implicou
Uma paragem até ser dia.
Montou-se a guarda o que levou
Quem não estava de serviço, como eu
A proteger-se , porque se temia
Um qualquer ataque a qualquer hora.
A protecção escolhida foi o abrigo
Que a valeta proporcionava, embora
Numa noite de chuva contínua como aquela,
Naquele local de curvas apertadas, onde a flora
Por tão densa, não permitia ao inimigo
O contacto que aquele tipo de guerra aconselhava.
Dormiu-se com a água a passar-nos por baixo,
Num desconforto inimaginável.
Ao raiar do dia, ainda chovia!
Mas a natureza, sempre amável,
Rapidamente nos ofereceu o calor.

Beira Baixa

A Beira Baixa, pequena povoação,
Foi, entretanto alcançada. Estava ocupada
Pelos Para Quedistas, que com emoção
Receberam os Cavaleiros do Totobola!
Alcunha do comandante da unidade.
Um destemido e intrépido militar
Que se celebrizou pela sua acção em Angola.


Mais alguns quilómetros vagarosos,
Ainda devido, aos efeitos das chuvadas,


E atingimos o Onzo, uma grande fazenda,
Onde militares, sempre engenhosos
Edificaram o aquartelamento. E a lenda
Começou nesse dia. O curso da guerra
Iria sofrer alterações. A vontade tudo move...
Aqui chegou o “três noventa e nove”,
Batalhão de Cavalaria,
Que se dirigia para Norte.
E, depois de um caminho longo,
Alcançou nesse dia,
A terra, onde a guerra
Produzia morte...
Essa terra chamava-se NAMBUANGONGO!

FFSet2010

sábado, 26 de abril de 2014

... LAIVOS DE VALENTIA, por Joaquim Coelho


... LAIVOS DE VALENTIA


Nangade - Moçambique
.
Clamo à terra que absorve os líquidos
que se desprendem pestilentos,
dos vossos corpos já putrefactos...
que nos atormentam a saudade
da vida jovial que já não tendes.
Esta ténue esperança na alvorada
vai animando as nossas vontades
para que levemos a mensagem da paz
até aos confins dos tempos,
enquanto sofremos nos corpos
os efeitos da distorção dos valores
e os povos de crenças ancestrais
almejam viver a sua libertação,
sem as grilhetas da escravidão.
Entrincheirado na selva de incertezas,
ouso afrontar as regras da hierarquia
e perguntar, com laivos de valentia:
onde estás liberdade luminosa
que busco em todos os quadrantes,
para sair desta estranha escuridão
gesta que a pátria renega ao poder.
Jamais poderemos ter contemplações
com os usurpadores das liberdades,
escabrosa corja de ladrões,
manipuladores das nossas vontades,
pseudo governantes doutros destinos,
nos cânticos de rançosos hinos.
Brilha a luz no firmamento do povo
que chora a desdita duma guerra;
as vontades lutam contra o estorvo,
sobem até ao cimo da serra,
e desfraldam a bandeira da liberdade
pondo fim à repugnante chacina.
As vozes clamam o fim da atrocidade
castigando essas aves rapina.
A claridade alastra nas fileiras
desta geração severamente sacrificada,
enquanto os povos dormem nas esteiras
e a raça vai sendo dizimada;
escapei das grades, por um triz,
contornei a selva de aldrabões,
em busca de cada dia mais feliz
com o nascimento de novas nações.
Então, meus companheiros de jornada,
os nossos mortos serão reconfortados,
os vivos recompensados na parada
e os oprimidos libertados.
Tenho vontade de gritar este protesto
que vai fervilhando dentro de mim
custa-me viver a guerra que detesto
enquanto os heróis chegam ao fim.

Nangade, Setembro de 1966
Joaquim Coelho

terça-feira, 22 de abril de 2014

O Ataque ao Lunho ( 23/09/71), do blog Metangula 71-73

http://metangula71-73.blogspot.pt/

O Ataque ao Lunho ( 23/09/71)

(Tal como eu o “vi” e guardo na memória)


Tínhamos acabado de chegar ao Niassa, a 12 de Agosto/71, “chequinhas” de todo.
Checa era a palavra que, em Moçambique, designava o Maçarico, o novato, o recém-chegado.

Ficou a CCS em Metangula, verdadeira estância turística, enquanto as Companhias 3393 e 3392 foram para Nova Coimbra e Lunho, respetivamente.

Estávamos no período de adaptação à guerra propriamente dita.
Até ali tudo não passava de teoria, agora as coisas eram mesmo a sério e muito diferentes de tudo o que se tinha aprendido durante os meses de “prática” no pacífico rectângulo europeu.
Agora eram mesmo as nossas vidas que se encontravam em jogo.
Os conselhos dos “velhinhos” eram escutados atentamente e cada um procurava tirar destes conselhos o maior partido possível.
Velhinhos eram os militares que nós, Checas, íamos render nas respectivas missões, e que já tinham muitos meses de Ultramar e, por isso mesmo muita experiência.
Ouvi-los era um acto de inteligência e que apenas nos poderia trazer alguma vantagem.
Casos houve, muitos, em que o desprezo por estes conselhos teve consequências bem trágicas.

Ainda não tinha decorrido um mês e o Major Z, que tinha no Lunho um primo, o Furriel S, decidiu dar repouso aos operacionais do Lunho.
Criou um sistema de rotação em que um pelotão do Lunho era substituído por um pelotão da CCS.
Na CCS apenas havia um Pelotão de Reconhecimento (Pel.Rec.) e foi a este que tocou a sorte de substituir o pelotão do Lunho.

Claro que a ideia caiu na CCS como uma bomba.
A CCS era conhecida, na gíria militar, como os heróis do arame farpado.

Estávamos todos convencidos que a acção militar se limitaria a fazer as picagens nas deslocações entre as nossas companhias – Nova Coimbra e Lunho.
Puro engano, em menos de um mês aí vai um pelotão para o pior buraco do Batalhão e um dos piores do Niassa – o famoso Lunho.

Quando a ordem surgiu não faltaram manifestações de desagrado.
Nenhum dos visados gostou da ideia, bem pelo contrário.
Maldita sorte!
Este desagrado era potenciado pela intenção que estava por trás desta decisão.
Todos sabíamos que a verdadeira finalidade era dar algum privilégio ao primo do major.
Como era possível que ainda não tivesse decorrido um mês e já houvesse necessidade de dar descanso a pelotões do Lunho.

Não tinha decorrido qualquer acto de guerra que justificasse tal decisão.
A indignação ia bem para além dos directamente visados nesta artimanha.

Mas, a tropa é assim mesmo, manda quem pode e obedece quem deve.
Claro que o pelotão do Lunho que foi rendido era o do primo do Major.
Lá foram para o Lunho os heróis do arame farpado, bem a contra gosto.

No famoso dia 23, à noite, a vida corria como de costume.
Na messe de Sargentos e Oficiais celebrava-se o nascimento de um filho do 1º Sargento Jesus (de Chaves) e a noite foi de farra!
A comida mas, principalmente a bebida, foi até dizer, chega.
Quando a festa acabou poucos seriam, ou nenhuns, os oficiais e sargentos que estivessem sóbrios.

Tinham comido bem e bebido ainda melhor.
Foi uma bebedeira quase geral.
Aos tropeções, acabada a festa, dirigiram-se para as camas em que a maior parte caiu sem ter já tino para se despir.
Adormeceram como anjos – anjos trôpegos, claro..

Nas guaritas as sentinelas iam olhando para o vazio sonolentamente.
Nessa noite o pessoal de serviço era todo da CCS e uma das sentinelas era o Miraldo.
De olhos arregalados perscrutava a escuridão do mato.
Qual sono qual carapuça!
Estava bem atento, o Lunho não permitia descuidos, só a sua fama era suficiente para despertar o mais sonolento dos soldados.

Ainda por cima estávamos muito próximos do aniversário da Frelimo.
Face à aproximação desta data as ordens eram mesmo de aumentar o cuidado e reforçar até as vigias.
A Frelimo costumava, no seu aniversário, efectuar sempre alguma acção que pudesse dar algum estrilho na imprensa, nacional e internacional.

O problema era que nunca se sabia onde iria ser efectuada essa acção pelo que todos os quartéis estavam de sobreaviso e prevenção para esta eventualidade.

Entre a meia-noite e a uma da nanhã, o Miraldo que, juntamente com o Barbeiro e o Carvalho, se encontrava de sentinela num posto avançado, constituído por dois bidões de areia e troncos atravessados, começou a ver, ao longe, na direcção do rio Lunho, umas luzes a movimentarem-se.
Estas luzes apareciam e desapareciam por trás dos arbustos, tornando-se, assim, intermitentes.
Alertou os colegas e com a HK21, que havia naquele posto, fez alguns disparos na direcção das luzes.
Estes disparos, efectuados tiro a tiro sem que houvesse qualquer resposta, alertaram o pessoal e não tardou que aparecesse o Capitão Lapa e o Furriel Martins, da CCS, para averiguarem a razão dos mesmos.

Informado do avistamento das luzes o Capitão Lapa deduziu tratar-se de pirilampos e quase repreendeu o Miraldo por ter disparado.
- Vocês são checas e estão com medo.
Ainda não estão habituados a isto.

Checas éramos todos, queria ele dizer que, por se tratar de pessoal da CCS, reagiam como “heróis do arame farpado” sem o calo dos soldados do Lunho.
Dito isto, e como tudo tinha um aspecto normal, retirou-se juntamente com o Furriel.

O Miraldo, não muito convencido, continuou a fazer a sua vigia concentrando a sua atenção na direcção das luzes que tinha visto.
Perto das três da Manhã as luzes voltaram a aparecer mas desta vez já muito próximas da Companhia de Engenharia e, além das luzes, conseguiu vislumbrar também alguns vultos.

Não, não havia dúvidas, não eram pirilampos, andava por ali alguém e este alguém apenas podiam ser guerrilheiros (Turras) sem boas intenções.

Alerta os colegas e com a HK21 começa a fazer fogo de rajada na direcção dos vultos e luzes.
Do meio do mato respondem as Kalashnikov em direção ao quartel.
Das outras guaritas, alertados pelos tiros, começaram também a disparar e tornou-se infernal o barulho que este tiroteio provocava.
Não tardou nada e todos os postos de sentinela disparavam desenfreadamente no sentido das luzes que os tiros das Kalashnikov rasgavam na escuridão.

No silêncio da noite aqueles disparos soaram como trovões.
O pessoal que dormia nas casernas acordou sobressaltado sem se aperceber bem do que se passava. Mas foi um instante!
Apressadamente pegaram nas armas e cartucheiras e, muitos ainda meio despidos, correram para os abrigos que previamente lhes tinham sido atribuídos onde foram engrossar o terrível trovão do tiroteio.
No meio deste barulho infernal mas sobrepondo-se-lhe ouviu-se uma formidável explosão - A ponte do Lunho (Ex-Libris daquele lugar) acabava de ir pelos ares.

Os sargentos e oficiais ainda “anestesiados” acordaram atarantados, sem saber a razão dos disparos.
A forte explosão chamou-os num ápice à realidade.
Era um ataque não havia dúvida.
Pegaram nas armas e cartucheiras e toca a andar em direcção aos abrigos.

O tiroteio era cada vez mais intenso com a chegada do pessoal vindo das camaratas.
Ainda não tinham chegado todos aos abrigos quando começam a cair bombas de armas pesadas.
Uma perto da messe mas do lado de fora do quartel, outra perto da caserna e outra perto das transmissões e parque auto mas também do lado de fora do quartel. Embora perto nenhuma acertou nos alvos mas continuavam a cair cada vez mais perto, umas ao lado e outras dentro do quartel.

O tiroteio aumentava e distinguiam-se perfeitamente os disparos das G3, das Kalashnikov e das metralhadoras pesadas que se encontravam nas guaritas.
A estes disparos sobrepunham-se as granadas das armas pesadas que iam caindo cadenciadamente cada vez mais perto dos respectivos alvos.

O Tigre, um soldado negro, apontador de morteiro, instala o morteiro e começa a ripostar com morteiradas na direcção em que lhe parecia estarem colocadas as armas pesadas dos guerrilheiros. Segundo se dizia na altura, o Tigre chegava a colocar no ar 10 granadas de morteiro antes que a primeira rebentasse.

Quando a primeira caía seguia-se uma cadência impressionante de morteiradas.
Para além da cadência o Tigre foi de uma felicidade extrema pois passado pouco tempo deixaram de se ouvir as bombas das armas pesadas.
Restava apenas o tiroteio das guaritas e abrigos e resposta das Kalashnikov.

A noite foi avançando e o dia começou a dar os primeiros sinais de querer nascer.
As munições começavam a escassear e muitos tinham mesmo gasto todas as cartucheiras de que dispunham.

Os guerrilheiros, face ao silêncio das suas armas pesadas e perante a resposta firme do quartel vendo gorados os seus intentos procuraram embrenhar-se no mato e pôr-se a salvo.
O pessoal do quartel, agora mais encorajado ao pressentir a fuga dos guerrilheiros, redobrou o tiroteio e este só parou quando deixaram de ouvir as Kalashnikov.

Pouco a pouco foi-se estabelecendo o silêncio e, com os primeiros alvores da manhã, todos os olhos procuravam indícios da presença dos guerrilheiros.
Nada!
Todos se tinham posto a salvo no meio do mato, o seu elemento natural.
Tudo isto não durou mais que uma hora mas foi, sem dúvida, a hora mais comprida da vida de quantos a viveram.
Foi feita uma verificação geral e concluiu-se que não havia feridos da nossa parte. Tomaram-se medidas para prevenir novos ataques. Com a chegada do dia e o silêncio instalado começaram, finalmente, a bater mais devagar os corações daqueles bravos soldados que, apesar da falta de experiência deram uma prova enorme de coragem e valor. Tinham ganho a primeira batalha das suas vidas e pelas suas vidas.

Numa inspecção mais pormenorizada verificaram-se muitas paredes com estilhaços das granadas das armas pesadas e alguns estragos de material mas nada de muita monta.

Feita a verificação no exterior viram-se muitos rastos de sangue.
A ponte, a famosa ponte do Lunho, apresentava um rombo que a tornava intransitável.
Um dos tramos da ponte tinha voado e repousava a uns bons metros de distância.

Concluiu-se depois que o ataque tinha sido planeado ao pormenor, da seguinte forma:
- Para os lados do Chissindo, sobranceiro ao vale em que se encontrava o quartel, os guerrilheiros tinham instalado três armas pesadas, dois obuses e um canhão sem recuo (ou dois canhões sem recuo e um obus) dirigindo-as para os pontos estratégicos: Messe de sargentos e oficiais e transmissões, que sencontravam perto umas das outras; casernas dos soldados; parque de viaturas.
Estas armas foram colocadas durante o dia e direccionadas com todo o cuidado;
- Durante a noite os guerrilheiros procuraram envolver o quartel tentando ocupar posições que lhe dessem alguma vantagem sobre o quartel;
- O ataque seria despoletado pelas armas pesadas estando já colocados no terreno os guerrilheiros que após os primeiros rebentamentos apanhariam, de surpresa, os nossos soldados a sair das casernas em direcção aos abrigos.
A acção destinava-se mesmo a tomar o quartel do Lunho ou, pelo menos, causar elevados danos.
Foi o caso da ponte que era a menina dos olhos da companhia e, constituiu, por si só, um pesado revés. .

Veio a saber-se mais tarde que naquele ataque foram mortos cinco guerrilheiros e dois vieram a morrer em função dos ferimentos sofridos.
Também no sítio onde estiveram montadas as armas pesadas se vieram a verificar muitos rastos de sangue.
O Tigre acertou em cheio!

E agora fica a pergunta que me não sai da cabeça desde aquela data: O que aconteceria se não tem havido a “providencial” substituição do pelotão do primo do Major por um pelotão da CCS.
Qual teria sido o desfecho?
Não quero tirar ilações ilegítimas mas esta pergunta nunca mais me abandonou e não sou capaz de encontrar uma resposta.
Teria sido igual o desfecho se não se tivessem sucedido estes “acasos”?

O ataque ao Lunho foi amplamente divulgado, pela sua envergadura, e pelo facto de ter sido sofrido por uma companhia que era “Checa” naquelas paragens.
A tal ponto que este ataque passou a figurar, de autor que desconheço, no famoso Cancioneiro do Niassa.



Nesta canção é evidenciada, sobretudo, a aflição dos “Checas” perante um tal ataque e a falta de munições que a determinado ponto se começou a sentir.
Mas a verdade é que, embora Checas, portaram-se como veteranos e repeliram um dos piores ataques (para o batalhão foi mesmo o pior) que no Niassa aconteceram.
Este ataque ficou marcado de forma indelével na mente de quantos o viveram e é, ainda hoje, lembrado como um dos pontos mais significativos na passagem da juventude para a idade adulta.

Foi para muitos a verdadeira perda da inocência.
A partir daquele dia a vida nunca mais foi o que era.

Este texto baseia-se nos relatos que ouvi directamente dos intervenientes da CCS, neste ataque.

Amadeu Carvalho

P.S.
(Naquele mesmo local, alguns anos antes, em 31de Maio de 1965, foi alvo de uma acção semelhante a famosa Companhia 7 de Espadas – C. Cavª. 754 - de que fazia parte o, ainda mais famoso, ciclista Joaquim Agostinho.
Nesse dia tiveram 6 baixas e mais uma da Companhia de Nova Coimbra que foi em seu auxílio.
A Companhia de Joaquim Agostinho foi uma das que mais baixas sofreu naquela zona, a tal ponto que teve de ser evacuada para a Beira pois foi considerada inoperacional.
Quando uma companhia sofria muitas baixas era considerada psicologicamente incapaz de continuar no teatro de guerra.
Nesta altura ainda não existia o quartel do Lunho e as tropas ali estacionadas encontravam-se alojadas num bivaque (“aquartelamento” feito de tendas de campanha).
(Este apontamento referente à Cª 7 de Espadas foi feito com a colaboração de Eduardo Maria Nunes, do Batalhão de Caçadores 598, um dos que foi em auxílio de Joaquim Agostinho, no dia 31 de Maio de 1965.
O meu agradecimento.

sábado, 12 de abril de 2014

DESOBEDIÊNCIA ACERTADA, Joaquim Coelho

Remetido por mail pelo:

 
Luís Leote (luismpleote@sapo.pt)
Em:  sexta-feira, 7 de Março de 2014 12:14:48
  
 
DESOBEDIÊNCIA ACERTADA

Era mais uma missão da terceira semana em ações de reconhecimento e limpeza na zona operacional de Napota, uns quilómetros a Sul de Mutamba dos Macondes, onde foram recolhidos cerca de trezentos e vinte habitantes e aprisionados sete guerrilheiros.
Juntamente com meia dúzia de armas, toda aquela gente foi entregue aos cuidados da companhia de Nangade.
 
Parecia uma operação rotineira, por entre os trilhos usados pelos guerrilheiros da Frelimo, para reabastecerem as suas bases do vale de Miteda até Nangololo.
Por coincidência ou por perícia, até agora, nunca houve recontros armados nem sinais de emboscadas, apesar de termos avistado duas patrulhas na recolha de água do mesmo poço, único num raio de dez quilómetros, onde também nos servimos da preciosa água.
 
Desta vez, assaltámos as instalações de uma antiga serração de madeiras transformada em base de apoio logístico e administrativo aos homens da Frelimo.
Bem escondida dentro da mata, foi detetada por acaso.
Depois de tomados os três trilhos de acesso e uma picada obstruída com várias árvores derrubadas, as três secções do primeiro pelotão tomaram o controlo das entradas e saídas, evitando a fuga dos "frelimos".
O pessoal do terceiro pelotão tomou de assalto todas as instalações e palhotas, e aprisionaram um secretário e três guerrilheiros, bem como nove habitantes de apoio logístico.
Não foi disparado um único tiro, porque todos eles levantaram os braços a pedir clemência!
Estavam muito assustados pela surpresa do assalto.
Foram recolhidas duas armas automáticas e alguns utensílios de trabalho nas machambas.
 
Sem perder tempo, fez-se um interrogatório preliminar aos quatro prisioneiros mais importantes, mas estes mostraram pouca vontade de colaborar, apesar da ameaça do cinturão do cabo Martins.
Só o secretário, que não era maconde, deu algumas informações que permitiram encontrar mais dois pequenos redutos de apoio logístico à guerrilha.
 
Por acordo entre os comandantes de pelotão, os sessenta e quatro combatentes dos dois pelotões dividiram-se em três grupos de combate autónomos, ficando dois deles no terreno para procurar e desmantelar os ditos acampamentos da Frelimo, enquanto uma secção e mais três equipas do primeiro pelotão conduziam os prisioneiros e o respectivo material para o nosso acampamento em Napota.
 
Aproximava-se o meio-dia quando partimos para as definidas missões.
O meu grupo, constituído por vinte e sete caçadores pára-quedistas, avançou para um dos objectivos indicados pelo prisioneiro, localizado a norte da ribeira de Munga, cortando o caminho por entre brenhas e capim, de modo a evitar possíveis emboscadas nos trilhos.
Na proximidade das sanzalas foi feito o ponto da situação e logo passámos ao assalto… 
Ficámos surpreendidos com o resultado da nossa ação: mais três guerrilheiros, seis mulheres e cinco homens idosos foram aprisionados.
Os guerrilheiros não tinham as armas junto deles, pois estavam a reabastecer-se de alimentos, e não ofereceram resistência.
Até já duvidávamos de tanta facilidade numa zona considerada perigosa para as nossas tropas.
      
O alferes estava radiante com a sua primeira missão como responsável pela orgânica do assalto ao acampamento inimigo!
Essa alegria depressa esmoreceu, porque a inexperiência aliada à excessiva confiança só pode redundar em fracasso, quando não em fatalidade… e não demorou uma hora para acontecer o inesperado desenlace; sem nos darmos conta, ficámos encurralados e à mercê dos tiros das armas inimigas.
      
O sol, que atestava forte em cima das nossas cabeças e a sede, sempre difícil de controlar, retiravam alguma lucidez ao comportamento do pessoal.
Com a ansiedade a aconselhar o percurso mais arborizado e mais curto em direção ao nosso acampamento provisório, seguimos um trilho que nos levou até ao vale com bastante vegetação.
 
Alguns elementos da equipa do cabo Santos, que seguiam na frente da coluna, perceberam que os trilhos estavam muito desgastados pelo movimento de pessoas.
O sargento Botelho preveniu o seu pessoal para as possíveis consequências, por entrarmos no vale sem grandes condições de visibilidade, onde os guerrilheiros poderiam surpreender e atingir a nossa tropa.
A estranha passividade demonstrada depois da destruição dos seus redutos começava a inquietar parte do grupo.
Os prisioneiros que nos acompanhavam, atados com cordas, também davam indícios de agitação.
 
Entre cada três dos nossos combatentes seguiam dois inimigos aprisionados – situação que nos causava algum desconforto e receio.
Mas tudo parecia demasiado fácil e normal naquela caravana.
 
No fundo do vale, a vegetação do lado direito era densa e verde e com árvores bem entroncadas, mas, do lado esquerdo só havia arbustos e capim entremeado por uma brenha impenetrável… e foi daí que saíram os primeiros tiros de armas inimigas.
Em poucos segundos instalou-se a confusão entre os prisioneiros, que tentavam escapulir-se.
 
Enquanto os soldados se abrigavam das balas inimigas, os três guerrilheiros tentaram a fuga por entre as árvores da encosta do lado direito.
As folhas que iam caindo sobre as nossas cabeças já nos diziam por onde passavam as balas.
A equipa do cabo Santos tomou posição para se defender de eventuais guerrilheiros que viessem da frente.
Outros abrigaram-se junto das pedras em forma de muro que estavam no lado direito do trilho.
 
Precipitadamente, o alferes Carmelo deu ordens a uma das equipas do sargento Botelho para perseguir os três foragidos que se escapavam mata dentro.
Apercebendo-se do efeito do impacto das balas nos troncos das árvores e vendo a poeira que faziam ali mesmo na sua frente, por onde o alferes ordenava a perseguição aos foragidos, o sargento Botelho contrariou aquela ordem, indicando aos seus homens para flagelarem os fugitivos mas, continuando a proteger-se junto das pedras.
Olhando o alferes de frente, protestou energicamente contra uma ordem inadequada e que poderia ter como resultado a morte de alguns dos seus comandados.
Não fossem alguns tiros das armas, tudo parecia serenar quando o alferes virou a AR-10 na direção do sargento Botelho e, numa posição ameaçadora, sentenciou:
- Aqui, quem manda sou eu e quem desobedecer leva já um tiro!...
 
Por instantes, os que presenciavam a caricata cena temeram, que o alferes cometesse alguma loucura, levando a situação para um desfecho dramático, uma vez que denotava um total descontrolo emocional – já não bastava a crítica posição no terreno, aparecia agora mais um problema de pontos de vista antagónicos, quando estavam em perigo mais de duas dezenas de combatentes.
 
O sargento Botelho, já veterano da guerra em Angola, embora em apuros, manteve a calma, deixou-se escorregar no capim e encurtar a distância que o separava do alferes. Com um golpe certeiro e eficaz, bateu com o coice da sua arma na mão direita do alferes, atirando-lhe a AR-10 por terra.
Num ápice, enquanto o sargento Botelho deitou a mão à arma, dois dos soldados mais próximos manietaram o alferes que, ao ver-se impossibilitado de reagir, proferiu algumas palavras de ameaça, mas submeteu-se à força dos músculos.
Enquanto isso, as armas inimigas não paravam de matraquear e os três turras deram à perna… sem ninguém lhes por mais a vista em cima.
 
Resoluto e apoiado pelos homens do pelotão, o sargento Botelho ordenou ao cabo Santos que atasse uma corda às mãos do alferes Carmelo e que tomasse conta dele.
Deu instruções para as equipas da retaguarda tentarem subir ao morro e flagelar os guerrilheiros.
 
O sargento Figas concordou com o Botelho nessa tentativa para desalojar os frelimos daquela posição de domínio sobre o terreno, por ser a única forma de sairmos dali sem sofrer baixas.
 
Tantos e inesperados acontecimentos ocorridos em poucos minutos, obrigaram a uma pausa para organizar a defesa e encontrar maneira de sair daquele buraco sob o fogo inimigo.
Rastejando mais para trás, o sargento Figas, com os seus, incumbiu-se de desalojar os guerrilheiros, os quais se viram obrigados a mudar de posição e tratar de se defenderem.
Esta manobra deu oportunidade para a equipa do cabo Santos avançar umas vantajosas dezenas de metros e tomar posição em local propício para atirar sobre o morro onde estavam os guerrilheiros.
Assim, num esforço conjugado entre os homens da frente e os da retaguarda, a coluna pode reorganizar-se e continuar a marcha até ao acampamento.
 
Cabisbaixo e despido do poder de comando, o alferes não perdeu a postura perante a arrogância do resoluto sargento Botelho.
Mas, em tom de aviso, sempre foi dizendo que a desobediência é caso muito grave, sujeito a “conselho de guerra”, quando cometida em frente ao inimigo.
 
Durante as três horas que demorou o resto do percurso, ninguém se preocupou com as consequências do desentendimento entre aqueles dois chefes, apesar das palavras ameaçadoras do alferes, porque o sargento Botelho apenas concentrava a atenção na forma de conduzir o grupo de homens até ao acampamento de Napota.
 
 Para grande parte daqueles combatentes, este episódio só veio atestar a filosofia do sargento perante esta guerra:
"Quando embrenhados na mata de armas na mão e sujeitos aos perigos da guerra, só podemos contar connosco, como tal, a nossa sobrevivência depende das nossas decisões e determinação em as concretizar e os nossos atos dependem apenas da nossa consciência, porque estamos longe dos mandantes e dos governantes.”
 
A meio da tarde, entrámos no reduto onde as palhotas servem de arrecadação dos alimentos e do material de apoio, as Berliets aguardavam o regresso a Mueda, as trincheiras e abrigos subterrâneos conservavam alguma frescura para acolher os combatentes cansados.
 
Ciente das responsabilidades que assumiu, o sargento Botelho mandou desatar as mãos do alferes e acompanhou-o até junto do capitão a quem deu conhecimento provisório do ocorrido.
 
O resto do pessoal tratou das formalidades habituais quanto à recolha de população, entregando-a aos cuidados da guarda à palhota onde os mesmos pernoitam até serem entregues no quartel de Nangade.
 
O enfermeiro inteirou-se dessas pessoas e tratou de curar algumas feridas bem visíveis nos pés dos mais velhos, por sinal, estavam a sofrer com a lepra que lhes ruía as carnes.
 
O comandante da companhia reuniu todos os oficiais e sargentos dentro da palhota do posto de rádio. De semblante carregado, quis saber pormenores e analisar as consequências da desobediência do sargento Botelho.
Cá fora, as praças rondavam o local da reunião e mostravam a sua inquietação por temerem que o sargento Botelho fosse alvo de alguma punição.
Pois, estavam cientes de que aquele ato de desobediência foi providencial para evitar que grande parte dos homens protagonistas daquela missão poderiam não regressar com vida.
Agora, mais a frio, compreendiam que a situação era verdadeiramente perigosa.
Foram poucos os que quiseram pronunciar-se sobre assunto tão melindroso.
E todos aceitaram uma acareação entre o sargento Botelho e o alferes Carmelo, os dois protagonistas daquele fato inadequado dentro da hierarquia duma tropa especial.
Por sugestão do capitão e com a concordância dos presentes, não haveria qualquer ação disciplinar e tudo ficaria encerrado ali mesmo.
Tal decisão foi bem aceite entre o restante pessoal da companhia.
 
As missões continuaram nos dias seguintes, mas outras situações bem mais dramáticas e com perdas de vidas se abateram sobre aquele grupo de homens que apenas queriam cumprir um dever que lhes impunham.
 
Nem sempre entendemos as razões que a desobediência desconhece.
 
 
 JOAQUIM COELHO