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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Resposta a um "companheiro" de guerra..., por José Nobre

 José Nobre

16/11/2020

Resposta a um "companheiro" de guerra....daqueles companheiros, os quais pensam que a portugalidade teria de ser forçosamente colonial.

Traidores?
Mas traidores de quê?
Em relação a quê?
E em que circunstâncias?
Apelidados de Traidores são sempre aqueles que lutam contra (o que outros pesam ser justo.)
Traidora foi a chamada "nossa" Pátria chamada Portugal, a qual deixou em terras africanas, milhares de soldados, sepultados numa qualquer sanzala, num qualquer terreno baldio, num qualquer cemitério africano (hoje abandonados).
Traidores e assassinos, são aqueles que enviaram para a morte, soldados formados em 5 ou 6 meses, os quais conheciam tanto de África. como eu conheço da Indochina....
Traidores são aqueles que nos deixaram abandonados num qualquer porto de Lisboa, no dia do regresso.....
TRAIDORES....que nem se preocuparam com o futuro de jovens, os quais viveram em 3 anos ...o que muitos não vivem em 30 anos.
Traidores são aqueles, os quais em nome de umas quantas famílias, detentores da riqueza africana....Minas, Explorações agrícolas, etc, etc, etc.. exploravam um povo.....escravizavam um povo.....branco em Portugal....negro em terras africanas.
Caro companheiro, traidores são aqueles, que em nome de uma ideologia (seja ela qual for)...mas neste caso salazarista) ...massacraram, escravizaram, e enviaram para a morte, muitos jovens portugueses.
Pergunto eu: O senhor perdeu algum filho na guerra ultramarina?
Ou algum parente? Ou algum amigo? Ou algum camarada de caserna? Se perdeu.....e se ficou calado é porque não tem Alma....e muito menos sentimentos, ou seja o senhor é um chamado Zombie....e estou a ser educado.
Para finalizar, direi que a vida dos meus quatro camaradas, mortos numa emboscada, no dia 11 de Março de 1968, numa picada entre Nangade e Pundanhar, valiam muito mais do que uma qualquer "chamada" província ultramarina....Eu sei, que a idade....muitas vezes nos perturba a mente......Mas inconscientes são aqueles que não aceitam o normal...."andamento" da história, das civilizações....Eu sei....que nada sei.
Bem Hajam.
José Nobre - Soldado Condutor - 044483/67 - Lourenço Marques - Muidumbe - Mueda - Miteda - Nongololo - Nangade - Pundanhar - Palma - Moatize - Tete - Cassacatiza - Bene - Zobué e também em muitos Cús de Judas....dos quais já me esqueci dos nomes.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Regresso..., por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
O Regresso.

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Voltámos todos, naquela manhã de 12 de Outubro de 1969. 
Voltámos todos, não faltava nenhum. 


Um dia chuvoso e o cais de Alcântara a abarrotar de todos aqueles que nos esperavam. 

Milhares de braços no ar a nos acenarem, braços que se abriam, choros gritos. 
Não, não, vocês não morreram, vocês vão descer comigo esta escada, os últimos degraus da nossa aventura africana. 

Foram vinte e seis meses, caraças, não foram vinte e seis semanas ou dias.
Vamos descer juntos, nós que nunca nos separamos, quero-te ver abraçar o teu filho e a tua mulher, Amável. 
Quero conhecer a família do, Camilo Alves, do Bibiu e do Guerra. 
Vamos descer a escada deste navio fantasma, olhar para Lisboa...voltar a pisar Lisboa e gritar....Voltamos Todos. 

Não, não. vocês não ficaram naquela merda de picada em Cabo Delgado, naquela picada entre, Nangade e Pundanhar.....
Vocês vão descer comigo esta escada. 
Faltam quantos degraus? 
Caralho, pá....foram meses e meses longe desta gente toda. 
Vejo o teu sorriso, Amável, ouço a pronuncia do norte do Camilo Alves. 
Volto a Reguengos de Monsaraz, sento-me na mesa de um café, aquele mesmo ao lado da igreja, aquele que o Bibiu falava. 
Ouço o alferes, Guerra, gritar,,,,estou aqui.

Voltamos todos, ninguém ficou para trás. 
O navio fantasma, aparece e desaparece. 
Mais um degrau da escada,despachem-se. 
Chegamos Todos. ~
Lisboa, um dia cinzento, o dia do nosso regresso. 
VOLTAMOS TODOS.
Eu, nunca me esquecerei de vocês. 

Para os meus quatro companheiros que regressaram dentro de quatro caixas de pinho. 
Amável - Guerra - Bibiu - Camilo Alves.
Apontamentos - Portimão Dezembro de 1969

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Vocês....Faltam-me, por José Nobre

José Nobre para 

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Vocês....Faltam-me.
Paris – 12 de Outubro de 1970.
Quem diria que um dia, teria saudades das mais simples coisas. 
Quem diria que um dia teria saudades de vocês, do baralho de cartas, gasto pelo tempo, pelas nossas mãos, quase negras. 
Sim, meus grandes sacanas, tenho saudades dos pratos de alumínio, do cheiro da comida, feita por um cozinheiro, que nunca o foi, do vinho quase vinagre, e do som da nossa caserna.

Faz hoje um ano que vos deixei, apressadamente, à porta do quartel em Estremoz. 



Por vezes procuro o camuflado, entre a roupa de todos os dias, o cinto quase desfeito, as botas com as solas descoladas e as cuecas que já não o eram. 

Sim, hoje sinto-me um espantalho. 
A calça vincada, os sapatos engraxados, a camisa lavada e o cabelo penteado. 
É estranho ter tanto cabelo, tenho saudades de uma carecada, daquelas de cabeça completamente rapada. 
Tenho novos amigos, novos companheiros, pouco a pouco, tento voltar à casa de partida, nem sempre o consigo. 

É mentira o que dizíamos, que rapidamente esqueceríamos o nosso tempo de guerra, o tempo em que contávamos o tempo, eu lembro-me de vocês, de quase todos, das gargalhadas, das zangas, das lágrimas, da nossa revolta. 
Faltam-me as palavras para vos dizer o que sinto. 
Hoje, escrevo para vocês, por vocês, sem ser gozado...Então marroquino, já estás a escrever as tuas merdas?


Volto a África, não todas as noites, mas quase, sonho, revejo as picadas, volto a Muidumbe a Nagande, a Moatize e a Tete, e sinto o frio na barriga, aquele frio que todos sentíamos antes de mais uma saída para o mato, confiro as cartucheiras, conto as granadas e aguardo as ordens de um alferes qualquer, e o grito... “ motores em marcha, toca a andar.” 

Voltamos a passar pela picada de Pundanhar, lá, onde “ficaram” o Guerra, o Bibiu, o Braga e o Amável. 
Revejo-os a todos, semblante carregado, tristes, e eu que esperava por vocês em Palma, naquele paraíso africano, naquela praia de areia branca, cheia de palmeiras e coqueiros. 

Com o tempo tudo passa, merda de frase feita, nada passa, nada passou, continuo a vê-los, ouço-vos, como se o tempo não tivesse passado.

Vocês....faltam-me.

( Apontamentos – França )

sábado, 3 de novembro de 2018

O Banco dos Dias - Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Moçambique – Agosto de 1967 – Outubro 1969.
Paris – 11 de Março de 1972
O Banco dos Dias.
Tenho dias para a “troca”....trocaria bem o dia 11 de Março de 1968, por um outro qualquer, mesmo que fosse um dia sem sol, chuvoso, triste, como o dia de hoje. 

Começou a nevar, o verde da relva do jardim vai desaparecendo aos poucos. 
Os sons que chegam da rua são menos agressivos. 
Sim, faz hoje quatro anos. 
Deveriam existir bancos de dias, onde pudéssemos trocar dias maus por dias bons, mais caros claro, porque isto de trocar um dia mau por um dia bom dá muito trabalho. 



Um calor do caraças, o café do quartel de Palma sempre é melhor do que aquele que bebemos no mato. 
A neve acumula-se no parapeito da janela. 
Não vejo os pardais que habitualmente picam a relva durante horas e horas procurando o que comer.

Sim. 

Deveriam existir esses tais bancos para trocar dias – Bom dia, tenho um dia para a “troca,” não, não é um dia é uma manhã, uma manhã quente de Cabo Delgado, uma manhã de tiros de granadas, de gritos, chamem o enfermeiro, precisamos do helicóptero....o Amável está morto. 

A vizinha do primeiro andar atravessou o pátio, com cuidado...pé...ante...pé, tal como nós numa qualquer picada de Cabo Delgado...pé...ante...pé. 
A granada que o alferes Guerra trazia à cintura explodiu, ele e o Bibiu morreram. 

Tenho dias para a “troca.” 

Vamos dar um mergulho à praia, a malta da nossa companhia deve estar quase a chegar, depois do banho vamos comer um peixe assado ou umas lulas fritas, e beber umas “catembes.” 

Por favor, pode ver na tabela dos dias quanto custa trocar o dia 11 de Março de 1968, por um outro dia qualquer? 
Tenho dias para a troca. 
O Camilo Alves, também morreu.....Se não me trocarem os dias, eu dou os meus, não todos. 

Quero regressar a Palma e falar com o senhor que manda nos dias, o gajo que decide...hoje é um dia de sol e de vida....amanhã não sei. 

O senhor do banco dos dias, diz que vai ser difícil trocar o dia 11 de Março de 1968 por um outro dia qualquer, os dias consumidos são considerados em 2ª mão, e para além do mais ninguém compra dias com mortos. 
Posso falar com o gerente? 
Posso falar com o gajo que decide quem morre, que decide quem vive. 

A água do Indico está quente, eu e o Banó estendidos na areia branca da praia de Palma, ao longe os barcos dos negros continuam a pescar. 

Por favor caro Senhor, troque-me este dia, esta manhã, pela merda de outro dia qualquer. 
Sabe caro senhor, nessa manhã morreram na picada de Pundanhar quatro gajos que eram nossos irmãos. 
Não pode? 
Então diga-me quanto custa um milagre. 
Juro que comprarei velas, juro que rezarei, juro que farei peregrinações. 

Como? 
Não pode ser? 
Já é tarde?

A neve continua a cair, da cozinha chega-me o som do rádio e a voz do Jacques Brel que canta--- Ne Me Quitte Pas.


Faz hoje quatro anos......Não me esqueci......e continuo a gostar de vocês.....IRMÃOS.

( Retifiquei algumas “coisas” poucas do escrito original )

Paris – Boulogne-Billancourt.