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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Regresso..., por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
O Regresso.

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Voltámos todos, naquela manhã de 12 de Outubro de 1969. 
Voltámos todos, não faltava nenhum. 


Um dia chuvoso e o cais de Alcântara a abarrotar de todos aqueles que nos esperavam. 

Milhares de braços no ar a nos acenarem, braços que se abriam, choros gritos. 
Não, não, vocês não morreram, vocês vão descer comigo esta escada, os últimos degraus da nossa aventura africana. 

Foram vinte e seis meses, caraças, não foram vinte e seis semanas ou dias.
Vamos descer juntos, nós que nunca nos separamos, quero-te ver abraçar o teu filho e a tua mulher, Amável. 
Quero conhecer a família do, Camilo Alves, do Bibiu e do Guerra. 
Vamos descer a escada deste navio fantasma, olhar para Lisboa...voltar a pisar Lisboa e gritar....Voltamos Todos. 

Não, não. vocês não ficaram naquela merda de picada em Cabo Delgado, naquela picada entre, Nangade e Pundanhar.....
Vocês vão descer comigo esta escada. 
Faltam quantos degraus? 
Caralho, pá....foram meses e meses longe desta gente toda. 
Vejo o teu sorriso, Amável, ouço a pronuncia do norte do Camilo Alves. 
Volto a Reguengos de Monsaraz, sento-me na mesa de um café, aquele mesmo ao lado da igreja, aquele que o Bibiu falava. 
Ouço o alferes, Guerra, gritar,,,,estou aqui.

Voltamos todos, ninguém ficou para trás. 
O navio fantasma, aparece e desaparece. 
Mais um degrau da escada,despachem-se. 
Chegamos Todos. ~
Lisboa, um dia cinzento, o dia do nosso regresso. 
VOLTAMOS TODOS.
Eu, nunca me esquecerei de vocês. 

Para os meus quatro companheiros que regressaram dentro de quatro caixas de pinho. 
Amável - Guerra - Bibiu - Camilo Alves.
Apontamentos - Portimão Dezembro de 1969

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Estamos Perdidos, por José Monteiro

Mais uma pequena história vivida em Cabo Delgado.
Estamos Perdidos
Numa das inúmeras patrulhas que realizámos em Mueda, fui com o meu grupo de combate pela picada para Miteda/ Nangololo, que ficava por trás da base aérea.
 
Como já estava previamente estabelecido, perto dos postos de abastecimento de água o grupo foi dividido.
Uma secção para o lado direito, em direção á mata, outra ficou na picada e a terceira, a minha, foi pelo lado esquerdo.
Tínhamos por missão não percorrer mais que 1 quilómetro, perpendicular á picada.

O capim era bastante alto e ainda não tinha começado a época das queimadas, referências de árvores não havia, pois a mata começava bastante longe.
Lá fomos, em bicha de pirilau, sempre perpendicular á picada.
Como o capim ainda não estava seco, não deixava marca á passagem da nossa tropa, portanto menos uma referencia.
Quando decidi regressar, pois tinha a certeza que a distância estava percorrida, comecei a aperceber-me que não tinha referências para chegar à picada.
 
Não parei e continuei sempre na pressuposta direção da picada.
Sol, também não havia e os rádios intersecções não funcionaram.
 
Comecei a pensar, só para mim, que provavelmente nos tínhamos afastado muito na direção errada, quando atrás de mim alguém grita "ESTAMOS PERDIDOS", virei-me imediatamente na direção do som e disse-lhe para ir para a frente da coluna e caminhar que a picada estava perto.
A situação acalmou, passado pouco tempo apareceu um trilho e então aí passei a ter 50 por cento de hipóteses.
Dei a ordem "virar à esquerda" e finalmente pouco tempo depois aí estava a desejada picada com os postos de água todos esburacados.
 
Estaria perdido???
Momentaneamente sim, só que não podia dar a entender isso no seio do grupo.
Tudo acalmou, tudo passou com o regresso, de novo, ao quartel.
 
Linda-a-Velha, Agosto de 2011
 
 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Natal na guerra, por Jaime Froufe Andrade


Noite alta.

Na Cantina do Freitas, em Moçambique, jogava-se com vício e paixão.
No fim de cada partida havia sempre grande alarido.
 
Os vencedore...s, ávidos, conferiam os ganhos, metiam as moedas, as notas, nos bolsos do camuflado.
Os azarados lamentavam as perdas com pragas, blasfémias.
 
 
Para quem perdia, havia, de certeza, marosca nos lances.
Suspeita misturada com o cheiro a tabaco, liamba, cerveja, suor.
Por vezes, estalavam ferozes zaragatas.
 
Eu também fui depenado.
Levantei-me furioso da mesa de jogo.
Envenenado pela sensação de ter perdido com batota, rosnei insultos, soltei palavrões.
Mas já outro tomava o meu lugar na mesa da "lerpa".
 
Esse minúsculo reduto militar, onde antes funcionara a cantina do Freitas, ficava entre o Malawi e a Zâmbia, na província de Tete.
 
 
Ali, os serões da tropa eram iguais.
Sempre iguais.
Nessa noite, consoada de 1969, não houve trégua.
A estúrdia e os excessos até subiram de tom.
 
Agastado, a ruminar desforras, procurei consolo na minha viola.
Essa vítima dos meus maus blues acompanhava-me para todo o lado.
Dessa vez, nem a viola me valeu.
E saí.
 
 
A caminhar ao longo do arame farpado, sentia-me outro.
Levantei os olhos para o céu.
Um céu muito estrelado.
Pensei no Natal.
E tentei descobrir o tal astro mágico que guiou os reis magos até Belém.
Ébrio de estrelas, perdi-me naquela refulgente aletria cósmica, esqueci a batota, as minas, as emboscadas.
A picada.
E, no entanto, esse palco de tragédias estava ali, à vista.
 
 
Subitamente um vagido encheu de sentido a noite.
A poucos metros, numa palhota para lá da cerca de arame farpado, nascia um menino.
Um menino negro, entre palhas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Dia em que Comandei a Companhia, por Manuel Correia de Bastos


O primeiro objetivo de um soldado é permanecer vivo, e não há soldado que não faça tudo para sobreviver; mas a um enfermeiro na guerra é exigido mais do que isso.
 
É necessário que se esqueça de si no momento mais perigoso e vá em socorro dos que tombaram, trocando a arma pelos produtos de enfermagem, que terá que manejar com os cuidados e assepsia possíveis no meio do pó, da terra, da confusão e do perigo de morte.

É a ele que cabe dizer-nos que tenhamos coragem, que não vamos morrer, quando ficamos feridos, e é a ele que cabe procurar o que resta de nós na picada ou no meio do capim quando somos feitos em pedaços por uma mina, e depois arrumar o que se pôde encontrar para que as nossas famílias, lá longe, venham a ter algo de nós para velar.

Quando se ouve o sinistro estampido de uma mina todos os soldados se atiram ao chão, rastejam e se protegem debaixo das viaturas.
Todos não. O cabo Costa levantou-se quando os outros se baixaram, e foi em busca dos feridos. Dirigiu-se ao Raimundo e preparou-se para o socorrer.
A cara dele numa pasta de sangue quase sem ver nada.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.

Não tinham passado mais de vinte segundos desde a explosão.
Vinte segundos em que se pode aprender o que não se aprendeu em vinte anos.
Vinte segundos que me fizeram dar um salto psicológico.
 
É frequente justificarem-se os atos insanos praticados na guerra, com a tensão vivida nos momentos de perigo.
Homens pacíficos; camponeses, operários, estudantes, empregados de escritório; transformados durante anos em predadores, sofrem um desgaste moral impensável em momentos de paz…
A síndrome da degradação moral.
A génese do distúrbio pós-traumático.
Mas… em casos por ventura raros; estou seguro, obtêm uma sublimação moral, um salto psicológico.
Se tem algum fundamento a resistência psicológica de que me gabo constantemente, devo-a a esses vinte segundos.
Tenho a certeza que se a guerra me tivesse dado oportunidade, teria saído de lá muito melhor do que entrei.
Um homem com a missão de salvar os seus pares no pior momento do perigo.
Um homem em risco de ficar cego por uma mina traiçoeira a pensar no seu camarada tombado na picada.
Vinte segundos da minha vida que guardo religiosamente como um legado de valor incalculável.
Há muito que a guerra acabou, e durante estes anos todos, alguns de nós guardam em silêncio imagens como estas.
É que, entretanto, outras guerras tiveram lugar, onde outros soldados com mais de vinte anos de vida, mas sem terem ainda os vinte segundos que lhes permitissem dar o salto psicológico que os fizessem crescer, julgam que é o gatilho das armas que empunham, que fazem deles heróis, ou homens dignos de admiração pelos outros representantes da sua espécie.
Alguns de nós, guardam em silêncio muitos vinte segundos como estes e olham para o lado incomodados, quando a televisão mostra em direto as guerras que não param de se suceder, transmitidas como espetáculos de circo.

Durante anos e anos, tenho revivido a imagem do enfermeiro Costa a tentar socorrer o Raimundo e depois a ir em busca do Lemos partido em dois no meio da picada, e por vezes tento imaginar o que seria ver essa imagem na televisão à hora do jantar, ou no café, no meio das risadas dos amigos, e acabei por perceber porque tantos de nós optam pelo silêncio.
É por pudor que o fazem.
Por não serem capazes de expor em público uma memória do foro íntimo.
Seria como subir a um coreto para chorar um desgosto profundo.
É algo demasiado valioso para ser tratado como um entretenimento passageiro, como um fruto que se sorve rapidamente cuspindo o caroço para o chão.
Os consumidores de emoções rápidas aprendem a não penetrar na essência das coisas; entendem das coisas apenas o que o olhar apreende; fazem com toda a informação o que fazem com a comida, mastigada à pressa entre duas tarefas urgentes e inadiáveis, dado que toda a fast-food é apenas para defecar.
 
Não poderão entender as emoções envolvidas numa frase assim, aparentemente banal, "Vai socorrer o Lemos", dita entre a vida e a morte, entre a coragem e o medo, entre o instinto primário de sobrevivência e o altruísmo, entre o cumprimento do dever e o sentido crítico.
Não poderão entender que um ato que envolva risco para quem o pratica só merece ser considerado corajoso se não for gratuito ou exibicionista, e se for consciente; isto é, é preciso sentir medo para se ser corajoso.

O Raimundo ia a comandar a companhia, foi ferido, recebeu o socorro corajoso do enfermeiro Costa, e fez ele próprio a triagem da emergência médica, secundarizando-se, ficando na berma da picada, escorrendo sangue do rosto, ainda sem saber se não ficaria cego.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.
Eu era agora o mais graduado da companhia.
E era preciso continuar, era preciso estar à altura do cargo que recebi do Raimundo, era preciso encobrir o medo, cabia-me a mim agora fingir coragem.
Mas fingir coragem, é na guerra, a única coragem possível.
Os helis vieram e levaram os feridos, a coluna organizou-se e continuou a sua missão.
A tensão, o medo e um ódio indefinido tomou conta de todos como era costume.

E longe dali, os que verdadeiramente mereciam ser objeto do nosso ódio, aqueles que não tinham coragem de tomar decisões com medo de mudar o rumo da história, por não estarem à altura dos cargos que ocupavam, continuaram ainda por muito tempo a manter tudo na mesma, até que um dia o nosso ódio não coube mais em nós, e apeámo-los do poleiro.
 
As mesmas mãos e as mesmas armas, e a mesma generosidade.
Quando um povo é capaz de lutar e descobre que não são justas as causas que lhe deram, inventa uma.
Depois seguiu-se um longo período de silêncio sobre a Guerra Colonial em que a nação inteira pareceu viver um coletivo distúrbio pós-traumático do stress de guerra.
Silêncio só entrecortado por uma falsa autocrítica de características tipicamente portuguesas, que se apressou a fazer alarde de todos os erros e crimes dos soldados portugueses, desculpando ou ignorando os dos seus opositores na mesma guerra; o que ainda assim teria algo de positivo se fosse genuína e contribuísse para uma reeducação coletiva, porque todos os crimes merecem denúncia e punição.
 
Mas infelizmente essa autoflagelação, essa ancestral e muito portuguesa lamúria auto punitiva, não passa de uma cobarde generalização dos erros dos nossos pares com o intuito de parecermos individualmente a excepção à regra.
A mesma pseudo-autocrítica que ao longo dos anos só tem contribuído para perpetuar o enaltecimento reverencial dos feitos alheios e cultivar a baixa auto estima nacional.
Mas se a má consciência pátria esquece os seus soldados assim que não precisa deles, ou se acha que é fingindo que nada aconteceu que paga a sua dívida para com a História, é porque não aprendeu nada.
Tão indignos são os governantes que não estão à altura da história por tentarem manter uma guerra injusta, como aqueles que se esquecem das suas vítimas.
E nós?
Será que nós não temos a obrigação de pôr o pudor de lado e contribuir com a nossa experiência para que os nossos filhos não permitam que cheguem ao poder aqueles que hão-de enviar os nossos netos para a guerra?

Há muitos anos, nesse dia em que eu tive que comandar a minha companhia, numa picada perdida no meio do mato, no norte de Moçambique, o enfermeiro Costa ainda teve que se erguer mais uma vez, quando soou de novo o sinistro baque de mais uma mina; e enquanto os outros se atiravam ao chão.
Durante alguns minutos, nos minutos mais perigosos que se podem viver numa guerra, teve que se esquecer novamente de si, porque a guerra lhe entregou a minha vida para salvar.
E o comando da companhia, como um testemunho, que eu recebera do Raimundo.
Nesses curtos minutos em que a vertigem da morte eminente nos leva todos os sentimentos e ficamos completamente despidos por dentro, só um olhar humano nos restitui a vida.
O olhar a fingir coragem, a única coragem genuína.

E até ao resto dos meus dias, aqueles momentos da mais genuína coragem que um homem pode testemunhar, criaram-me uma enorme responsabilidade; a de tudo fazer para que esta vida que o enfermeiro Costa salvou mereça a pena ser vivida; quanto mais não seja para que o seu ato heroico não se viesse a tornar num inglório, gratuito e inútil sacrifício.
 


 

domingo, 20 de outubro de 2013

... E o Carnaval são 3 dias




Picada Macomia - Mataca por Luís Leote

 

 
……E o carnaval são 3 dias

Tudo indicava que ia ser mais uma normal operação de reabastecimento de víveres.

Saímos de Macomia, com os carros bem atestados de mantimentos, chegámos ao
Alto do Delepa para começar a descer a Serra do Mapé.

Eu vinha sensivelmente a meio da coluna, a pensar nas palavras do tenente da CCS....
“ Ordenou-me que cortasse o bigode, porque na fotografia do bilhete de identidade,
não o tinha”. Já não era a primeira vez que me tinha avisado.

De repente, fez-se um alto à coluna.
As viaturas, que começavam a descer a serra.
Uma Berliet, voltou-se sobre o lado esquerdo da picada, ficando de rodas para cima,
e a carga toda espalhada.
Felizmente, ninguém ficou ferido.
Lembro-me que, após a comunicação do sucedido via radio, ao comando da CCS,
a primeira pergunta foi se a viatura tinha ficado muito danificada.
Nem uma alusão a possíveis feridos!!!
Apercebemo-nos que tão depressa, não iríamos sair dali.
Montámos a segurança à volta da viatura, para de seguida preparar o seu resgate.

Da Mataca veio o furriel mecânico que ao chegar, tratou logo de fazer o registo
fotográfico.

Preparámos-nos para passar lá a noite.
Se a memória não me falha, alguém montou umas latas de ração com pedras lá
dentro, à volta do perímetro.
Acho que ninguém conseguiu dormir, especialmente depois de alguém ter dado
dois ou três tiros na direção das latas que faziam barulho.

Trazer a Berliet cá para cima, tornou-se uma tarefa complicada, pelo que estava
à vista uma segunda noite na picada.

Com duas noites e três dias na picada, estacionados e referenciados, prometi
que se me safasse da terceira noite, faria a vontade ao tenente e cortaria o bigode,
o que aconteceu.

Foi em Fevereiro de 1971, em pleno Carnaval.
Dizem que o Carnaval, são três dias.
FOI UM GRANDE CARNAVAL!!!!!
 
Luís Leote 2013/10/20