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domingo, 12 de julho de 2020

A Minha Caderneta Militar..., por José Nobre

01/06/2020

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.

Riu-se ao verificar o conteúdo da terrina da SOPA.......

A Minha Caderneta Militar.

Dava um bom filme cómico.......se a realidade não tivesse sido outra.

José Manuel Ferreira Nobre. 

Número de Matricula 044487/67.

Altura - 1m68

Sinais particulares - Nenhum 

Estado - Solteiro.

Resultado da Inspecção Sanitária da Junta de Recrutamento 

Apto para todo o Serviço Militar.

Incorporado em 16 de Janeiro de 1967, como recrutado - Cica 3 - Elvas.

Distribuição de fardamento 

- Alpercatas - 2 

-Barrete nº8 - 1 

-Blusão verde - 1 

- Boina castanha - 1 

- Botas com polaina fixa - 2 

- Calção de Ginástica - 1 

- Calças nº2 - 2 

- Calças nº3 - 2 

- Cuecas de malha - 3 

- Lenços verdes - 4 

- Peúgas - 4 

- Gravata verde - 1 

- Camisola de Ginástica - 1 

- Camisola de lã - 1 

- Camisa nº2 - 2 

- Camisa nº 3 - 2 

- Toalhas - 2 

- Capote - 1 

- Cinto de lona Verde - 1.

Registo Criminal e Disciplinar 

- Cica 3 - Elvas - Crime ou infracção -

Segunda classe de Comportamento (a vermelho) 

- Auto 188 do RDM - 26 de Janeiro de 1967 

- .....Riu-se ao verificar o conteúdo da terrina da sopa.

- Julho de 1967 - Apto para todo o serviço militar 

- Nomeado para servir no ultramar 

- Embarcou em Lisboa no dia 03 de Agosto de 1967, no navio mercante Niassa, com destino à Região militar de Moçambique.

Desembarcou em Lourenço Marques em 25 de Agosto de 1967.



Marchou (coluna militar de Lourenço Marques até Nampula), onde se apresentou em 19 de Outubro de 1967. 

Passa a contar 100% de aumento no tempo de serviço. 

Apresentou-se na sua unidade em 15 de Março de 1968, (Nangade - Cabo Delgado).

Embarcou na Beira em 17 de Setembro de 1969 

- Desembarcou em Lisboa em 12 de Outubro de 1969.

Dias de serviço militar

1967 - 350

1968 - 365

1969 - 315

....................................Total 1030 dias

........................................................................

12 de Outubro de 1969 - Foi nesse dia que nos deixaram no Caís de Alcântara, como mercadoria fora de prazo, entregues a nós próprios,apesar das mazelas,apesar dos traumas, apesar das doenças, apesar da nossa juventude.

Pátria.......mas que Pátria?

domingo, 18 de novembro de 2018

O Chico mecânico..., por José Nobre



José Nobre
15/09/2018
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Preâmbulo.
"Quando começamos a recordar, perdemos a noção do tempo e do espaço.
Voltamos ao tempo em que não havia tempo."

Foi esta a frase de um ex-Alferes.,durante o último almoço, de confraternização, da Companhia de Cavalaria 1728, realizado no passado mês de Junho/2016.
- Marroquino, lembraste do Chico mecânico de Moatize?
- Lembro-me, mas nunca mais pensei nele. Devo ter alguma coisa anotada num papel qualquer.
- Então verifica se tens. Lembraste da primeira vez que o vimos, na nossa chegada ao quartel de Moatize?
Fui verificar, e tenho um único apontamento no famoso caderno das dividas, e lá está." 
Pagar as bananas e o ananás ao Chico mecânico - 12$50."
.....................................................................
" A guerra dá uma excelente história,mas a paz é uma leitura
aborrecida."
( Thomas Hardy - 1840 - 1928 )
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Moatize - Distrito de Tete - Moçambique
Maio de 1968 a Março de 1969.
A primeira vez que o vimos, foi no dia da nossa chegada a Moatize. 
Descemos do comboio na estação, onde nos esperavam várias viaturas, para nos levarem para o quartel. 
Fomos render uma outra companhia militar, que estava de partida para outras paragens.
Lá estava o Chico mecânico, evidentemente que não se chamava Chico. 
Era ele que ajudava os condutores e os mecânicos, no desempenho de algumas funções, tais como...encher pneus, mudar rodas e outras coisas mais ou menos pesadas.

A idade?
Não tinha idade o Chico.
Talvez uns 30 anos.
Já tinha visto desfilar muitas companhias militares em Moatize. 
Falava bem português e era de étnia Nyunge ou Nhungé, nunca chegamos a perceber.

Todas as manhãs, lá estava o Chico à porta do quartel, juntamente com as lavadeiras que nos vinham entregar a roupa lavada.
Só ele é que tinha autorização para entrar no quartel. 
Dirigia-se para o parque automóvel, que mais não era, que um telheiro coberto com chapas de zinco e assentes em barrotes de madeira.
Nada tinha de parque automóvel, mas essa era outra questão.
Gostava de pão com marmelada, e do café do pequeno almoço.
Tinha sempre a sua parte, ninguém se esquecia dele, por vezes até sobrava, e ao final da tarde, ele metia tudo dentro de um pequeno saco e levava para a palhota.
Se tinha mulher?
Nunca perguntamos.
Se tinha filhos?
Nunca nos disse.
Sempre pontual.
Almoçava e jantava no quartel, junto da cozinha e sentado num degrau.
- Soldado não gostar da comida da tropa? Comida ser boa.....

De vez em quando e quando era necessário ir à estação buscar mantimentos que tinham chegado no comboio,o Chico também ia, sentado num dos bancos laterais do Unimog, vaidoso e a fazer adeus aos conterrâneos.

Fartava-se de trabalhar o Chico.



Um dia decidimos ensinar o Chico a conduzir.
Primeiro num Jeep, tipo daqueles americanos, que só tínhamos visto nos filmes, antes de embarcarmos para África.
Depois e como já sabia dar umas voltas, passou para o Unimog.
Sempre acompanhado, chegava ao final do parque, metia a marcha-atrás e voltava ao local de partida, não mais do que 300 metros.

Chegou o dia de fazer o percurso sozinho.
Todos os condutores assistiam às manobras com um sorriso nos lábios.
Ficou aprovado.
Bateu com a mão no peito, gesto que fazia sempre, quando recebia qualquer coisa, ou quando estava contente e gritou.
- Eu ser condutor como o branco, e abraçou a malta toda.

O Chico,tinha acabado de ganhar o seu campeonato.

Passados alguns dias, o comandante da companhia, ficou a saber da nossa história, e das aulas de condução do Chico Mecânico.
Irritou-se, chamou nomes a todos, prometeu carecadas,mas no final, acabou o discurso dizendo: Há coisas piores.

Não me lembro se paguei as bananas e o ananás ao Chico Mecânico, No caderno das dividas não aparece a menção "pago."

PS - Esta história nunca seria contada, sem a ajuda de todos os meus companheiros, sobretudo os condutores,que estiveram presentes no último almoço da nossa companhia.
Obrigado a todos.

domingo, 4 de novembro de 2018

O POLVO, Nunca Atirei Pedras Aos cães, por José Nobre


Nunca Atirei Pedras Aos cães.
Moçambique - Moatize - 31 de Agosto de 1968.
O POLVO.


Na véspera, tinha havido distribuição de correio, muitas cartas e algumas encomendas.
Uma dessas encomendas era para o algarvio ou para o marroquino, como lhe chamavam.
Abriu-a, dentro vinham algumas latas de conserva de sardinha,"sem pele e sem espinha", que eram as mais apreciadas, um jornal "A Bola" e um Polvo seco, entre outras coisas.
Era uma encomenda da namorada. 

Gerou-se um enorme alvoroço na caserna, quando a malta descobriu o polvo. 
Alguns conheciam o petisco, sobretudo os algarvios. 
Assado na brasa, cortado aos pedaços e temperado com azeite e alhos, é de caír para o lado, uma verdadeira iguaria.

O Carromeu foi o primeiro a falar. 
- À tardinha vamos para as traseiras da caserna, acendemos uma fogueira e assamos o polvo. 
O Monteiro (cozinheiro), arranja o pão o azeite e os alhos. 
Tu, não pagas nada, nós compramos as cervejas. E assim foi.

Eram uns vinte, os que esperavam pelo polvo, à volta do braseiro improvisado. 
Para o algarvio, aquilo era muito estranho. 
Aquele cheiro fazia-lhe lembrar outras paragens, outras situações, trazia-lhe o Algarve de volta. 
Mais uma vez, estava no cenário errado, aquele cheiro não era africano...

Lembrou-se do homem, que todos os domingos, quando o clube da terra jogava em "casa", lá estava, com o fogareiro a assar polvo, à porta do campo de futebol.

O cheiro a polvo assado, começou a invadir o quartel, fez um voo rasante sobre a messe dos oficiais e entrou pela janela. 
Amanhã logo se vê. 
O Monteiro cortava o polvo aos pedaços, para dentro de uma grande travessa, o Moreira cortava o pão, e o Carromeu fazia o tempero.
Comeram e beberam, nessa noite não saíram do quartel, podiam fazer barulho até próximo das onze horas, depois era o recolher. 
O cabo Naia, cantou uns fadinhos, beberam mais umas quantas "Bazucas" e a festa acabou. 

Esqueceram-se de apagar e limpar os vestigios do braseiro. 
Na formatura do dia seguinte, não era um alferes que estava em frente da companhia, era o Becas (capitão e comandante da companhia) em pessoa.
Normalmente era um alferes, que distribuía as tarefas e os serviços diários, nesse dia não.

O Becas estava imóvel, na nossa frente.
Batia nervosamente com os dedos no cinturão da pistola, que sempre o acompanhava. 
As botas pretas e de cano alto, luziam mais que o habitual.
Andava sempre de óculos escuros, tipo James Dean, estava vermelho, portanto nervoso.
Estamos lixados, pensaram aquelas cento e cinquenta almas. 
O silêncio era de igreja em dia de finados.
A bomba de Hiroshima ia ser largada sobre Moatize. 
Mais uma vez o sargento Bernardino, chegou atrasado à formatura e como habitualmente tinha a braguilha aberta.

Finalmente ouviu-se a voz do Becas, gritou. - Companhia, sen.....ti.....do. Sargento Bernardino, feche a braguilha e veja se dá o exemplo. 
Calou-se novamente. 
O calor começava a apertar e o café da manhã também começava a fazer efeito nos intestinos de alguns, ouviu-se um peido e uns risos quase impercetíveis, o furriel "Xuxas", voltou-se tentando descobrir quem tinha sido, mas em vão.

O Becas voltou a falar. - Quem participou na petiscada do polvo assado, dê um passo em frente. 
Saíram todos, os que tinham participado na petiscada. 
O marroquino apanhou a nona carecada, todos os outros, apanharam dois fins de semana sem sair do quartel As estrelas da companhia, como dizia o Becas, tinham sido, mais uma fez castigadas. 
O polvo estava muito bom, o resto não contava. 

Amanhã será outro dia, mais um para riscar no calendário.

( Alguém se esqueceu de apagar a fogueira depois do polvo estar assado e a distancia entre a fogueira e o paiol das munições....não era muita....o Becas tinha razão.)