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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

"A PASTA"..., por José Nobre

José Nobre
"Nunca Atirei Pedras Aos Cães."
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique.
"A PASTA"
"O papel onde escrevi este apontamento, está amarelado e foi escrito a lápis, o que dificulta ainda mais a leitura de alguns dados. 

A imagem pode conter: 1 pessoa, a sorrir, em pé

Sei que a foto foi tirada em Mueda, entre os meses de Outubro de 1967 e Março de 1968. 

Esta é mais uma recordação de guerra, da minha guerra, que em nada se assemelhou à guerra de outros camaradas, no sentido em que eu sempre fui o cabelo na sopa, o apanhado pelo clima, o gajo que tinha o nome da namorada, escrito em letras garrafais no para-choques dianteiro da Berliet. 
O soldado condutor - 044483/67.

Era uma peça estranha na engrenagem militar, fazia o que me mandavam fazer, mas nunca mais do que isso. 
O código militar era cumprindo na íntegra,mas com uma grande diferença, estávamos no mato e eu tinha uma G3 (espingarda automática) só para mim, a tal que dormia sempre comigo, dois carregadores de balas e cinco ou seis granadas, sempre prontas....debaixo da cama. 
Como tal, mais valia não chatear muito o "marroquino." 
Na prisão já eu estava, uma grande prisão, cercada de arame farpado, e de onde ninguém queria sair, só em coluna militar, ou para operações militares contra a guerrilha.
Foi, mais uma coluna de reabastecimento a Mueda, e como sempre, levei comigo as "coisas"que sempre me acompanharam, fosse para onde fosse, ou seja, a Pasta, a minha cadela, a Lassie, que não era mais que uma escova atada a uma corda, e a Concha que apanhei na Praia da Rocha, dias antes de embarcar para Moçambique.
As histórias da Concha e da minha cadela Lassie, já as contei.
A Pasta, antes de partir comigo para Moçambique, acompanhou-me durante alguns anos na minha vida escolar na EIC de Silves. 
No dia em que fiz a mala, só tinha uma, decidi também levar a dita cuja. 
E assim foi, meti-a dentro da mala e lá fomos salvar a Pátria.
A pasta não tinha nada dentro, sempre andou fazia. 
Fui gozado.... "olha o gajo da pasta".."queres ir para o hospital psiquiátrico?".... "Queres férias na Beira?"
Um dia, à entrada do quartel em Mueda, o sargento de serviço perguntou-me...."Ó soldado, o que é que tens dentro da pasta?"
Respondi, nada, nada meu sargento. 
Mandou-me abrir a pasta e efectivamente nada tinha dentro. 
Mandou-me passar, mas ficou com um olhar desconfiado. 
Horas depois, quando saí do quartel o gajo pediu-me novamente para ver a pasta...continuava vazia, como sempre.
Ninguém imaginava, ninguém via o que aquela pasta continha. 
Estava cheia de recordações, de cheiros, de terra de Silves, de água do rio Arade, de laranjas roubadas nas hortas, de perfume das namoradas e de amores jamais correspondidos. 
Bastava abrir a pasta e apareciam, os gajos que dividiram comigo o tempo de escola, o tempo dos jogos de futebol no antigo largo da feira, os matraquilhos e o bilhar. 
Ainda hoje, vejo a minha pasta a fazer de baliza em mais um jogo de futebol, em mais uma aposta, onde estava em jogo o dinheiro que tínhamos para o almoço.
Eis a razão pela qual a "PASTA" fez a viagem comigo, todas as viagens.

- Ó Nobre, o que é que tens dentro da pasta? 
- Recordações..........."

José Nobre

domingo, 4 de novembro de 2018

O POLVO, Nunca Atirei Pedras Aos cães, por José Nobre


Nunca Atirei Pedras Aos cães.
Moçambique - Moatize - 31 de Agosto de 1968.
O POLVO.


Na véspera, tinha havido distribuição de correio, muitas cartas e algumas encomendas.
Uma dessas encomendas era para o algarvio ou para o marroquino, como lhe chamavam.
Abriu-a, dentro vinham algumas latas de conserva de sardinha,"sem pele e sem espinha", que eram as mais apreciadas, um jornal "A Bola" e um Polvo seco, entre outras coisas.
Era uma encomenda da namorada. 

Gerou-se um enorme alvoroço na caserna, quando a malta descobriu o polvo. 
Alguns conheciam o petisco, sobretudo os algarvios. 
Assado na brasa, cortado aos pedaços e temperado com azeite e alhos, é de caír para o lado, uma verdadeira iguaria.

O Carromeu foi o primeiro a falar. 
- À tardinha vamos para as traseiras da caserna, acendemos uma fogueira e assamos o polvo. 
O Monteiro (cozinheiro), arranja o pão o azeite e os alhos. 
Tu, não pagas nada, nós compramos as cervejas. E assim foi.

Eram uns vinte, os que esperavam pelo polvo, à volta do braseiro improvisado. 
Para o algarvio, aquilo era muito estranho. 
Aquele cheiro fazia-lhe lembrar outras paragens, outras situações, trazia-lhe o Algarve de volta. 
Mais uma vez, estava no cenário errado, aquele cheiro não era africano...

Lembrou-se do homem, que todos os domingos, quando o clube da terra jogava em "casa", lá estava, com o fogareiro a assar polvo, à porta do campo de futebol.

O cheiro a polvo assado, começou a invadir o quartel, fez um voo rasante sobre a messe dos oficiais e entrou pela janela. 
Amanhã logo se vê. 
O Monteiro cortava o polvo aos pedaços, para dentro de uma grande travessa, o Moreira cortava o pão, e o Carromeu fazia o tempero.
Comeram e beberam, nessa noite não saíram do quartel, podiam fazer barulho até próximo das onze horas, depois era o recolher. 
O cabo Naia, cantou uns fadinhos, beberam mais umas quantas "Bazucas" e a festa acabou. 

Esqueceram-se de apagar e limpar os vestigios do braseiro. 
Na formatura do dia seguinte, não era um alferes que estava em frente da companhia, era o Becas (capitão e comandante da companhia) em pessoa.
Normalmente era um alferes, que distribuía as tarefas e os serviços diários, nesse dia não.

O Becas estava imóvel, na nossa frente.
Batia nervosamente com os dedos no cinturão da pistola, que sempre o acompanhava. 
As botas pretas e de cano alto, luziam mais que o habitual.
Andava sempre de óculos escuros, tipo James Dean, estava vermelho, portanto nervoso.
Estamos lixados, pensaram aquelas cento e cinquenta almas. 
O silêncio era de igreja em dia de finados.
A bomba de Hiroshima ia ser largada sobre Moatize. 
Mais uma vez o sargento Bernardino, chegou atrasado à formatura e como habitualmente tinha a braguilha aberta.

Finalmente ouviu-se a voz do Becas, gritou. - Companhia, sen.....ti.....do. Sargento Bernardino, feche a braguilha e veja se dá o exemplo. 
Calou-se novamente. 
O calor começava a apertar e o café da manhã também começava a fazer efeito nos intestinos de alguns, ouviu-se um peido e uns risos quase impercetíveis, o furriel "Xuxas", voltou-se tentando descobrir quem tinha sido, mas em vão.

O Becas voltou a falar. - Quem participou na petiscada do polvo assado, dê um passo em frente. 
Saíram todos, os que tinham participado na petiscada. 
O marroquino apanhou a nona carecada, todos os outros, apanharam dois fins de semana sem sair do quartel As estrelas da companhia, como dizia o Becas, tinham sido, mais uma fez castigadas. 
O polvo estava muito bom, o resto não contava. 

Amanhã será outro dia, mais um para riscar no calendário.

( Alguém se esqueceu de apagar a fogueira depois do polvo estar assado e a distancia entre a fogueira e o paiol das munições....não era muita....o Becas tinha razão.)

Ao Camilo Ferreira Alves, Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

José Nobre para 
2018/11/03
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Ao Camilo Ferreira Alves.

(Marroquino tens tabaco? Só tenho um, mas fumamos a meias.)
Para mim,e para a restante malta do nosso pelotão, eras o Braga. 
Eras o Braga, porque foi nessa cidade que nasceste.

Não estivemos muito tempo juntos, talvez uns quatro meses,em Estremoz, antes do embarque para Moçambique, e depois durante o tempo que durou a viagem de Lisboa até Lourenço Marques, a bordo do Navio Niassa. 

Eras condutor, tal como eu,tal como o Felgueiras, o Nelson, O Moreira, o Carromeu, o Sousa, o "Beiçolas", o Amável. 

Separam-mo-nos em Lourenço Marques no dia 25 de Agosto de 1967. 
Eu fiquei na grande cidade, para mais uma especialização, tu seguiste com o resto do pessoal para o Norte, para Cabo Delgado. 
Lembro-me das últimas cervejas, bebidas no bar do Niassa, lembro-me de me teres dito, "Marroquino tiveste sorte,sempre são dois meses a menos no mato."

Até à próxima Camelo, respondi. 
Toda a malta te chamava, Camelo, ou então doutor, escritor, poeta, e tu como homem do norte respondias com palavrões. 
O teu nome dava para estas brincadeiras. Camilo Ferreira Alves - Conde de Braga.

Foi a última vez que nos vimos, mas não o sabíamos. 
Não foi a última vez para mim, voltei a ver-te em Palma. 
Eu e o Moreira, esperávamos em Palma, a coluna militar que nos vinha buscar para nos levar até Nangade, para nos levar de volta para a nossa Companhia, para junto da nossa malta.

Camelo,tens tabaco? 
Camelo, vamos comer umas febras com açorda? 
Camelo, vai mais um copo do alentejano? 
Belos tempos em Estremoz.



Voltei a ver-te no dia 12 de Março de 1968. 
Ajudei a cortar os bidons de gasolina que iriam servir de caixões, para ti, para o Amável, para o Guerra e para o Bibiu. 

Não te rias pá, é isso mesmo,não haviam caixões, improvisamos, mais uma vez. 
O Sousa lá fez as rezas habituais,cantamos o hino e demos quatro salvas de tiros, uma para cada um de vocês. 

Para tua informação foi o Salazar que pagou os tiros.
Ficaram lá bem no fundo do cemitério, com uma vista do caraças para a praia de Palma. 
Era quase noite,quando deixamos o cemitério, e fomos beber.

Cantamos aquelas modas alentejanas que tanto gostavas e que ouvíamos na taberna do Tio Xico, na praça principal de Estremoz. 
Chorámos.


Em memória dos quatro amigos : Amável, Bibiu, Guerra e Camilo(Camelo).
Mortos numa picada entre Nangade e Palma, Cabo Delgado - Moçambique - em 11 de Março de 1968.

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