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domingo, 29 de novembro de 2015

VAI FAZER ESTE MÊS 44 ANOS, por Manuel Sousa

 
 
Cópia do texto de Manuel Sousa

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes

I - O Planalto em 1970

A Operação Nó Górdio não estava a correr conforme os altos comandos tinham previsto.

Aquela que foi considerada a maior operação militar levada a cabo durante a guerra do ultramar, fez confluir para o Planalto dos Macondes (também conhecido como Planalto de Mueda), uma quantidade enorme de meios humanos e materiais, nunca antes vistos, com o objetivo de dar um golpe de misericórdia à Frelimo e assim pôr fim à guerra em Moçambique.

Foi tudo bem planeado e os militares corresponderam àquilo que lhes era exigido de forma heroica e destemida.
Mas, houve um pequeno lapso dos nossos estrategas: avisar o inimigo que íamos atacar em força.

Obviamente que demos tempo para que os militares da Frelimo se retirassem para locais mais seguros, levando consigo parte das populações que lhes serviam de apoio dando início a operações de guerrilha em locais até aí mais ou menos calmos.

Deixaram para trás as minas que enterravam nas picadas, onde sabiam que mais tarde as nossas tropas haveriam de passar além dos elementos da população gentia constituída por velhos que já os não podiam acompanhar nas marchas intermináveis pelo mato.

A nós militares, o alto comando mandou-nos construir palhotas e providenciou-se para que houvesse alimentos para os milhares de guerrilheiros e populações que se iam entregar ás nossas forças armadas, com medo de serem mortos ou capturados de forma a serem recebidos com a hospitalidade possível.

Em Muidumbe onde estavam sediados dois pelotões do Esquadrão de Cavalaria 1, os Pelotões nº1 e o 2 ao qual eu pertencia, estava previsto que se entregassem mil e tal elementos.

Entregaram-se zero!

E o “BOCAS”, um velho Dakota da Força aérea, continuava com um potente altifalante a sobrevoar o mato e a pedir aos guerrilheiros e civis que se entregassem ás nossas F.A.
Lançava panfletos divulgando as vantagens que havia se se pusessem do lado das Forças Portuguesas.

Mas os Macondes são um povo especial.
Sabem o que querem e, por bem, são leais até à morte.
Por mal, no seu território são invencíveis.

E o mal já as autoridades administrativas civis o tinham feito.
Mas isso é outra história.

O planalto é arborizado por uma vegetação rasteira, composta de densas lianas resistentíssimas, impenetrável e que raramente atinge dois metros de altura, que envolvem as árvores que delas se conseguem libertar, aproximando o seu folhedo do sol.
Sim porque no solo, são poucos os locais onde a claridade penetra.
Vista do ar, parece um mar verde-escuro, com umas raríssimas pequenas clareiras.

Nesse tufo para nós impenetrável, existem túneis cavados na vegetação por onde os Macondes se deslocam a pé, abaixados, protegidos do sol e da vista de intrusos, deixando para trás, em locais que só eles sabem as suas explosivas armadilhas que tantos estropiados nos causaram.

Claro que as nossas tropas, à custa de muito sangue derramado, lá foram aprendendo a deslocarem-se por esses túneis cavados na vegetação, improvisando duma forma extremamente simples os seus detetores de armadilhas.
Só mesmo o engenho desses soldados, inventaria um detetor constituído por uma cana e um cordel.

Mas, como os guerrilheiros e populações não se entregavam e as principais Bases inimigas foram encontradas abandonadas, era necessário incendiar a vegetação para lhes podermos “pôr a vista em cima”.

Mais uma vez a genialidade dos comandos manda largar pela Força Aérea bombas incendiárias “Napalm”, para incendiar esta vegetação que servia de abrigo aos nossos inimigos.
Mas as lianas nem sequer ardiam.

O tipo que inventou a Napalm nunca esteve no Planalto de Mueda e esqueceu-se de pôr no Manual de Instruções que esta bomba não servia para fazer arder aqueles arbustos Macondes.
Esqueceu-se também de avisar que por qualquer razão, ali, muitas delas não explodiam.
Ou por serem mal largadas ou porque a vegetação amortecia o embate….
Da mesma forma que nós capturávamos o material que os guerrilheiros abandonavam em fuga, eles aproveitavam e guardavam o que podiam do nosso.
Entre ele, bombas da aviação que não explodiam.

II – Nangololo – entregaram-se dois guerrilheiros.

Enquanto a Engenharia Militar tentava aumentar e alargar a pista de aviação, com os enormes Caterpillars D-12 abrindo mato nas lianas Macondes, com as lagartas a derrapar, os homens do Esquadrão e não só, faziam a proteção aos operadores das máquinas.
E, quando o Caterpillar já não tinha força para arrancar e partir as lianas, as motos serras ajudavam na tarefa.

Era muita gente na pista uns meio fardados, outros meio desfardados, negros, brancos, asfaltadores da engenharia, militares emboscados nos limites da pista, Panhards para cima e para baixo, homens a pé ou de Unimog, pista acima e pista abaixo.

O quartel do Batalhão de Nangololo era um luxo.
Estava num dos extremos da pista.
Tinha uma Igreja que servia de camarata para aquele pessoal todo e uma bateria de artilharia que substituía o relógio do campanário da Igreja a dar horas.
Durante a noite, de hora a hora, lá se disparavam uns obuses para a serra do Mapé, fazendo estremecer tudo e acordando toda a gente.
Toda a gente talvez não mas pelo menos aqueles que como eu, não estavam habituados aquele estranho modo de dar horas.

O aquartelamento até tinha uma porta de armas com uma cancela de pau, para não deixar entrar intrusos no recinto.
No outro extremo da mesma pista a cerca de 2 quilómetros, eram as instalações e comando do Esq., Cav. 1 que, incompatibilizado com o comando do Batalhão, era constituído por quatro tendas cercadas por uma corda, cerco interrompido pela entrada guardada por um garboso soldado também para impedir entradas de intrusos sem prévia autorização do capitão.

O gabinete do sargento amanuense era em cima de uma Mercedes de seis toneladas, onde se sentava sobre umas caixas de madeira e escrevia à máquina e tratava de toda a papelada com o esmero possível.

Um belo dia aproximam-se dois homens da sentinela do Batalhão de Nangololo e perguntam pelo Comandante.
Uma pergunta tão estranha num dia tão normal fez com que a sentinela lhes respondesse: “- Eh! Pá, o que é que vocês querem?”

“Queremo-nos entregar!”

Só depois é que a sentinela reparou que as armas dos dois não eram iguais à dele, mas sim Kalashnikovs.

Apontou-lhes a G3 assustado, eles entregaram as armas e lá chamou alguém para os acompanhar ao Comandante.

Eles, dois militares da Frelimo, aproveitaram a confusão que havia na pista de Nangololo, passaram pelas nossas seguranças e no meio dos nossos militares para se entregarem.
Se não se tivessem apresentado, teriam almoçado na cantina dos nossos soldados, dormido na camarata e podiam ter seguido viagem no dia seguinte.

Haviam casos anedóticos destes.
Já tinha acontecido um ano antes em Nova Guarda.
Estávamos sentados à porta de uma cantina a comer a ração de combate e aproximam-se de nós dois africanos, dirigem-se ao Alferes que estava sem os galões e dizem-lhe: vimo-nos entregar. Entregaram-nos as armas e levamo-los para Vila Cabral.
Como sabiam quem era o alferes se estava sem galões?

Mas, voltando a Nangololo.

A CCS fez uma tentativa de levantamento de rancho e, de castigo, foram mandados fazer um patrulhamento a pé no mato.

Após duas horas de caminho, foram emboscados.
As rajadas ouviram-se perfeitamente no Quartel e o capitão Faria Afonso que tinha a sua tenda de comando no extremo da pista de aviação de Nangololo, mete a Panhard a corta mato, conforme pôde, pois haviam umas clareiras próximas do Quartel onde tinha sido uma antiga machamba. Cruza-se com os nossos militares que já vinham de regresso com um morto e um ferido ás costas.


........................
 
Duilio Caleca O Capitão Faria Afonso recebeu uma Cruz de Guerra de 1ª classe por este “ato de bravura.”

Os outros que com ele morreram, apenas foram vítimas das loucuras dos homens.

Manuel Serafim de Matos Sousa
Ex-furriel Milº de cavalaria

Nota final:

Ex-camarada Manuel Pereira Martins no seu livro “Memórias de um Tempo Perdido” também descreve este acontecimento de 17-7-1970.
São factos que ambos acompanhamos e que não podem ser plagiados.
Apenas descritos com mais um ou outro pormenor.


Duilio Caleca E esses que foram os "mandantes" desse fiasco alguma vez foram a Conselho de Guerra ??
Antes pelo contrário foram considerados os "maiores", mas em vez de medalhas, levaram na "consciência", centenas de jovens que acreditaram nas suas ordens.
 

 


quinta-feira, 8 de maio de 2014

GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA - “Mário Marinheiro” em Moçambique


Personalidades e Tradição | 21-04-2009

GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA
“Mário Marinheiro” em Moçambique

In Notícias de Vila Real

Pelo olhar ainda lhe perpassa uma certa saudade dos tempos da guerra. 
Foram tempos difíceis, muito duros, diz, mas ressalta o sentimento de camaradagem, o espírito de sacrifício, a dureza das operações e muita saudade dos camaradas que lá morreram. 

Depois da instrução e especialidade, seguiu-se o embarque no velho paquete Niassa. 
Era o dia 20 de Agosto de 1970. 
Nele seguia Mário Augusto Rodrigues, um dos militares portugueses de entre o milhão que passou pela guerra colonial. 
Nela morreram mais de oito mil jovens. 
Foram 35 dias de mar, desde Lisboa até Porto Amélia. 
Desta cidade, seguiram em coluna militar até Mueda, em Cabo Delgado, depois de passarem por Montepuez e Nancatári. 
A companhia de Caçadores 2730 foi destinada ao “coração da guerra”, no planalto dos Macondes.

Foram dezoito meses de ininterrupta actividade militar, quando se aproximava o fim da guerra por se estar à vista a data de 25 de Abril de 1974. 
Mas, em Moçambique, a guerra vinha-se intensificando, a avançar para sul, e para o interior na província de Tete. 
Das suas palavras bebemos a preocupação pelos que embora tenham regressado, estão desfeitos pelas consequências psicológicas, os traumas da guerra. 
Alguns, refere com tristeza, “nunca mais recuperaram, são autênticos farrapos humanos.” 
Daqueles tempos ficaram muitas amizades que ainda se mantêm, decorridos quase quarenta anos.

NÓ GÓRDIO
Recorda com uma exaltação contida a operação Nó Górdio, realizada no planalto dos Macondes. 
“Foram 35 dias no mato, a comer o que calhou, a dormir mal, sempre em contínuo sobressalto,” refere com emoção e também algum orgulho à mistura por ter participado nessa tão falada operação. 
Planeada por Kaúlza de Arriaga para desalojar a Frelimo do planalto, mobilizou milhares e de homens dos três ramos, tropas de elite e muitos meios materiais, desde viaturas, a helicópteros e aviões.

O resultado terá sido um tanto pobre para a grandeza dos meios utilizados, mas marcou uma fase importante da guerra em África. 
Sobre ela se escreveram livros, romances e outras obras de estudo sobre a guerra colonial portuguesa. 
E Mário Augusto Rodrigues, nascido em Celeirós do Douro, concelho de Sabrosa, há sessenta anos exibe com orgulho pátrio as fotografias da tomada da base Gungunhana, na dita operação Nó Górdio. 
Ou as fotos de prisioneiros capturados, de armamento apreendido, da vida dos militares no mato ou no aquartelamento. 
E as operações, muitas, flúem à sua memória com naturalidade. 
Depressa se adaptou às extensas matas de Moçambique, ele que estava habituado aos socalcos do nosso Douro.

Vai lembrando os camaradas que morreram numa e depois noutra operação. 
Enquanto fala connosco, pelas suas mãos passam muitas fotografias, algumas de militares feridos, de evacuações. 
Para a história ficaram também registados os momentos de explosão de minas anti-carro e pessoais em que Mário Rodrigues se tornou um especialista. 
Executava com tal mestria e sangue frio este trabalho que desta actividade veio a ser recompensado monetariamente, quando numa das vezes saiu do mato para vir passar uns dias de férias a Lourenço de Marques.

MORRER NA GUERRA
Foi ferido três vezes em combate, tendo sido evacuado do teatro de operações. 
Foram ferimentos relativamente ligeiros, mas que mostram bem a sua sorte. 
Diz que o próprio comandante da Companhia gostava de ir perto dele, por se sentir protegido. 
Acredita piamente, que uma mãozinha de Nossa Senhora andava sempre a rondar à sua volta para que nada lhe acontecesse. 
Até o capelão, Padre Vilela, de Vilarinho da Samardã, seu amigo e confidente, saiu com ele uma vez para o mato, para medir o risco das operações.

“Mas quis ir ao pé de mim, e no fim disse que imaginava que aquilo era duro, mas não pensava que fosse tanto.” 
Teve a sorte de estar de férias aquando da realização de uma operação em que o seu pelotão foi violentamente atacado e sofreu vários mortos e feridos. 
O próprio furriel que o substituiu ficou gravemente ferido. 
Aliás, da sua companhia, de 120 homens apenas 70 nada sofreram.

Foram vários os mortos durante toda a comissão e muitos mais os feridos, conforme consta do historial da companhia. 
Mas nem tudo era combate e tristeza. 
Havia momentos de tudo. 
E, com o seu jeito especial, lá ia organizando e participando, com outros, em festas e teatros. 
Chegou a apresentar um espectáculo, em Lourenço Marques, com uma apresentadora profissional, na despedida da sua unidade das terras do Ultramar.

DEIXAR RASTO, FAZER HISTÓRIA
A Companhia de Caçadores 2.730 deixou rasto em Moçambique e muitos desses sinais foram assinados pelo vila-realense, Mário Augusto Rodrigues. 
Os seus actos de coragem e heroísmo foram registados pelos seus superiores em vários relatórios das diferentes operações. 
A forma como comandava os homens sobre as suas ordens mereceu o elogio do seu comandante. 
E também o seu sangue frio, o seu espírito de sacrifício, nomeadamente nos rebentamentos das minas, foram registados para a posteridade nos relatos das operações.

“Os louvores eram importantes, mas a mim interessam-me mais as menções nos relatórios das operações.” Relatos que guarda às dezenas, onde se pode ler a forma como as operações decorreram, os resultados, os ataques, os mortos e os feridos. 
O regresso teve lugar no início do verão de 1972, com chegada a Lisboa, à capital do império em 30 de Junho.