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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Daniel - O Maconde, Filho da Teresa - Maconde..., por José Nobre

 

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique - Dezembro de 1967.
Daniel - O Maconde. Filho da Teresa - Maconde.

Não sei como começar esta história. 
Pelos nomes do miúdo e da mãe? 
Penso que sim. 
Os nomes foram dados por nós, ou seja pela malta do pelotão de comandos.

Quando cheguei a Muidumbe em Outubro de 1967, já o Daniel, que ainda não se chamava Daniel, e a mãe Teresa que ainda não era Teresa, comiam o que restava do "rancho", dado pelos cozinheiros e pelo restante pessoal. 

Muidumbe era um aldeamento de velhos e velhas, os novos tinham desaparecido, tinham optado pela Frelimo, pela liberdade do seu povo, tinham optado pela luta contra a tropa, tinham desaparecido no mato.

A imagem pode conter: 2 pessoas

Fazia-nos pena o puto. 
Andava nu de caserna em caserna, estendia a mão quando queria qualquer coisa e sorria. 
A mãe aparecia antes do anoitecer, levava-o para a palhota e só aparecia no dia seguinte, à hora do café e do pão. 
Um dia o "madeirense", o cabo mecânico, teve uma ideia que mudou o rumo da vida do Daniel.
Nobre, temos de saber como é que este puto apareceu. 
Aqui só há velhos e velhas, alguém teve de engravidar a Teresa. 
Já perguntei ao Pedro maconde, mas o gajo diz que não sabe, diz que quando veio de Palma para aqui já o puto tinha nascido. 
Se ninguém sabe, vamos perguntar à Teresa,
Mas ela não fala português, disse o Quintela. 
O Pedro maconde traduz, respondeu o "madeirense"....e assim foi.

Não chegamos a nenhuma conclusão, mas tomamos uma decisão. 
A partir daquele dia o puto dormiria na caserna do pelotão do comando. 
Pela aparência o Daniel deveria ter uns dois anos, nem a idade conseguimos saber. 
O "Sorna" de Olhão é que deu a idade....tem dois anos e não se fala mais nisso. Então e o nome? 
Nessa noite, depois do jantar, ficou resolvido, o nome seria Daniel. 
Hesitamos entre Daniel e Miguel, mas ganhou o "Beiçolas" de Montenegro(Faro), que tinha um irmão que se chamava, Daniel. 
Encarregamos o Pedro maconde de dizer à Teresa que a partir daquele dia o Daniel dormiria na nossa caserna....E assim foi.

Então e a roupa? Sem problemas. 
Havia uma caixa de costura no armazém da manutenção e o "Pé de Chumbo", ou seja o Lopes, que era o mais gordo da companhia e talvez de todo o norte de Moçambique, tinha uma queda para a costura. 
De umas das nossas cuecas fez umas para o puto e também fez uns calções de um pedaço de tecido, que antes tinha sido um saco de viagem. 
Vestimos o Daniel e fomos mostrar a nossa obra ao Furriel Gonçalves. 
Desatou a rir, mas já não riu quando lhe dissemos que o Daniel passaria a dormir na nossa caserna.
Vocês são doidos, disse. 
Acertou.

Falta contar o porquê da fotografia. 
Nessa noite o Daniel comeu com a tropa e o que havia para comer, era ração de combate. 
Comeu, comeu, comeu, bebeu duas latas de sumo de laranja e adormeceu, na cama preparada no chão junto à cama do "Beiçolas".

Acordamos todos ao mesmo tempo, com os gritos do Quintela. 
Tinha acordado para ir mijar à vala, era quase de manhã. 
Isto só cheira a merda, gritava, mas quem foram os cabrões que tiveram esta ideia, a caserna está toda cagada. 
Na verdade estava. 
No corredor entre as camas, havia um fio de diarreia, o Daniel tinha feito o que fez e adormeceu de novo, sem chatear ninguém. 
Tinha sido bem sucedida a primeira noite do Daniel, na caserna do pelotão de comandos. 

Continuou a dormir e a comer com a tropa. 
Eu e o Moreira saímos de Muidumbe no inicio do mês de Março de 1968, o Daniel lá ficou. 

Hoje, se for vivo, tem cinquenta e poucos anos, nunca irá ler esta história.

( Na foto estão, da esquerda para a direita - Madeirense - Quintela - Zé-Nobre - Ao centro o Daniel) - O banho do Daniel, na manhã da primeira noite passada na caserna do pelotão de comandos - Ficou a cheirar a Lavanda o perfume que roubamos ao Chico dos chouriços, que era o corneteiro).
Apontamentos de Outubro de 1967 a Agosto de 1969.

Este texto é fruto da minha imaginação. 

Eu, nunca estive em Moçambique e muito menos na guerra. 

Nunca conheci, nem o Quintela, nem o Madeirense, nem o Daniel( que não se chamava Daniel) mas esse é um simples pormenor. 

Acabo de saber também, que não sou eu que estou na foto. 

Abraço a todos.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes..., por Manuel Sousa

Manuel Sousa

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes

I -O Planalto em 1970

A Operação Nó Górdeo não estava a correr conforme os altos comandos tinham previsto.

Aquela que foi considerada a maior operação militar levada a cabo durante a guerra do ultramar, fez confluir para o Planalto dos Macondes (também conhecido como Planalto de Mueda), uma quantidade enorme de meios humanos e materiais, nunca antes vistos, com o objectivo de dar um golpe de misericórdia à Frelimo e assim pôr fim à guerra em Moçambique.


Foi tudo planeado e os militares corresponderam àquilo que lhes era exigido de forma abnegada e corajosa. 

Mas, houve um pequeno grande lapso dos nossos estrategas: avisar o inimigo que íamos atacar em força.

Um avião Dakota com um potente altifalante, sobrevoava toda a região e na língua nativa, pediam às populações para se entregarem nas povoações sob controle militar e abandonarem o mato e deixarem de apoiar os “terroristas” pois a tropa portuguesa ia ocupar as aldeias.

Obviamente que demos tempo suficiente para que os guerrilheiros da Frelimo se retirassem para locais mais seguros, levando consigo parte das populações que lhes serviam de apoio, deixando para trás os velhos que já não os podiam acompanhar nas marchas intermináveis pelo mato. 

Deu-se assim início a operações de guerrilha em locais até aí mais ou menos calmos. 

Como alguém já disse, foi como dar um murro num vespeiro.

Na retirada, a Frelimo deixou para trás as minas que enterraram nas picadas, onde sabiam que mais tarde as nossas tropas haveriam de passar.

A nós militares, o alto comando mandou-nos construir palhotas e providenciou-se para que houvesse alimentos para os milhares de guerrilheiros e populações que previam se iam entregar ás nossas forças armadas, com medo de serem mortos ou capturados de forma a que fossem recebidos com a hospitalidade possível.


Em Muidumbe, onde estavam sediados dois pelotões do Esquadrão de Cavalaria 1, o Pelotão nº1 e o nº2, ao qual eu pertencia, estava previsto que se entregassem mil e tal elementos. 

Havia palhotas construídas para os abrigar.

Ninguém se entregou.

E o “BOCAS”, um velho Dakota da Força aérea, continuava com um potente altifalante a sobrevoar o mato e a pedir aos guerrilheiros e civis que se entregassem às nossas F.A. 

Lançava panfletos divulgando as vantagens que havia se se pusessem do lado das Forças Portuguesas.

Mas os Macondes são um povo especial. 

Sabem o que querem e, por bem, são leais até à morte. 

Por mal, no seu território, são invencíveis.

E esse mal, já algumas das nossas autoridades administrativas civis, o tinham feito. 

Mas isso é outra história.


O planalto é arborizado por uma vegetação rasteira, composta de densas lianas resistentíssimas, impenetráveis e que raramente atinge dois metros de altura, que envolvem as árvores que delas não se conseguem libertar. 

Por baixo deste céu verde, não se vê o sol e são poucos os locais onde a claridade penetra. 

Vista do ar, parece um mar verde-escuro, com umas raríssimas pequenas clareiras.

Nesse tufo para nós impenetrável, existem túneis cavados na vegetação por onde os Macondes se deslocam a pé, abaixados, protegidos do sol e da vista de intrusos, deixando para trás, em locais que só eles sabem as suas explosivas armadilhas que tantos mortos e estropiados nos causaram.


Claro que as nossas tropas, à custa de muito sangue derramado, lá foram aprendendo a deslocarem-se por esses túneis cavados na vegetação, improvisando duma forma extremamente simples os seus detectores de armadilhas. 

Só mesmo o engenho desses soldados, inventaria um detector constituído por uma cana e um cordel.

Mas, como os guerrilheiros e populações não se entregavam e as principais Bases inimigas foram encontradas pelas tropas especiais Portuguesas abandonadas, era necessário incendiar a vegetação para lhes podermos “pôr a vista em cima”.

Mais uma vez a genialidade dos comandos manda largar pela Força Aérea bombas incendiárias “Napalm”, para incendiar esta vegetação que servia de abrigo aos nossos inimigos. 

Mas as lianas nem sequer ardiam.

O tipo que inventou a Napalm nunca esteve no Planalto de Mueda e esqueceu-se de pôr no Manual de Instruções que esta bomba não servia para fazer arder aqueles arbustos Macondes. 

Esqueceu-se também de avisar que por qualquer razão, ali, muitas delas não explodiam. 

Ou por serem mal largadas ou porque a vegetação amortecia o embate no solo.

Da mesma forma que nós capturávamos o material que os guerrilheiros abandonavam em fuga, eles aproveitavam e guardavam o que podiam do nosso. 

Entre ele, bombas da aviação que não explodiam.



II – Nangololo – entregaram-se dois guerrilheiros.

Enquanto a Engenharia Militar tentava aumentar e alargar a pista de aviação, com os enormes Caterpillars D -12 abrindo mato nas lianas Macondes, com as lagartas a derrapar, os homens do Esquadrão e não só, faziam a protecção aos operadores das máquinas. 

E, quando o Caterpillar já não tinha força para arrancar e partir as lianas, as motos serras ajudavam na tarefa.

Era muita gente na pista uns meio fardados meio desfardados, negros, brancos, asfaltadores da engenharia, militares emboscados nos limites da pista, Panhards para cima e para baixo, homens a pé ou de Unimog, pista acima e pista abaixo.

O quartel do Batalhão de Nangololo era um luxo. 

Estava num dos extremos da pista. 

Tinha uma Igreja que servia de camarata para aquele pessoal todo e uma bateria de artilharia que substituía o relógio do campanário da Igreja a dar horas. 

Durante a noite, de hora a hora, lá se disparavam uns obuses para a serra do Mapé, fazendo estremecer tudo e acordando toda a gente. 

Toda a gente talvez não, mas pelo menos aqueles que como eu, não estavam habituados aquele estranho modo de dar horas. 

Quando o vento soprava mais forte, o feijão macaco atacava todos.

O aquartelamento até tinha uma porta de armas com uma cancela de pau, para não deixar entrar intrusos no recinto. 

Aquilo parecia ser a sério.


No outro extremo da mesma pista a cerca de 2 quilómetros, eram as instalações e comando do Esq., Cav. 1 que, incompatibilizado com o comando do Batalhão, era constituído por quatro tendas cercadas por uma corda, cerco interrompido pela entrada guardada por um garboso soldado também para impedir entradas de intrusos sem prévia autorização do capitão.

O gabinete do sargento amanuense era em cima de uma Mercedes Benz de seis toneladas, onde se sentava sobre umas caixas de madeira cheias de granadas de morteiro e escrevia à máquina e tratava de toda a papelada com o esmero possível.

Um belo dia aproximam-se dois homens da sentinela do Batalhão de Nangololo e perguntam pelo Comandante. 

Uma pergunta tão estranha num dia tão normal fez com que a sentinela lhes respondesse: “- Eh! Pá, o que é que vocês querem?”

“Queremo-nos entregar!”

Só depois é que a sentinela reparou que as armas dos dois não eram iguais à dele, mas sim Kalashnikovs russas.

Apontou-lhes a G3 assustado, eles entregaram as armas e lá chamou alguém para os acompanhar ao Comandante.

Eles, dois militares da Frelimo, aproveitaram a confusão que havia na pista de Nangololo passaram pelas nossas seguranças, e no meio dos nossos militares para se entregarem.

Se não se tivessem apresentado, teriam almoçado na cantina dos nossos soldados, dormido na camarata e podiam ter seguido viagem no dia seguinte.


Haviam casos anedóticos destes. Já tinha acontecido um ano antes em Nova Guarda. 

Estávamos sentados à porta de uma cantina a comer a ração de combate e aproximam-se de nós dois africanos, dirigem-se ao Alferes que estava sem os galões e dizem-lhe: vimo-nos entregar. Entregaram-nos as armas e levamo-los para Vila Cabral. Como sabiam quem era o alferes se estava sem galões?


Mas, voltando a Nangololo.

A CCS (Companhia de Comando e Serviços) fez uma tentativa de levantamento de rancho (greve à alimentação) e, de castigo, foram mandados fazer um patrulhamento a pé no mato. 

Estes militares não saíam habitualmente do aquartelamento.

Após duas horas de caminho, foram emboscados. 

As rajadas ouviram-se perfeitamente no Quartel e o capitão Faria Afonso, meu comandante, que tinha a sua tenda de comando no extremo da pista de aviação de Nangololo, mete a Panhard a corta mato, conforme pôde, pois haviam umas clareiras próximas do Quartel onde tinha sido uma antiga machamba. 

Cruza-se com os militares da CCS que já vinham de regresso com um ferido ás costas.

O Capitão Faria Afonso tenta encontrar os atacantes pois segundo ele deveriam ainda andar por perto, mas encontra apenas um acampamento abandonado com algumas palhotas e sepulturas.

O acampamento era, provavelmente, utilizado pelos guerrilheiros que ao aperceberem-se da aproximação da companhia de Nangololo, abriram fogo sobre os militares desprevenidos, atingindo um deles.

Os guerrilheiros quando sentiram a Panhard fugiram levando consigo tudo o que puderam deixando para trás, além dos mortos sepultados, as palhotas e um casal de velhos que devido à avançada idade não os puderam acompanhar.

Os militares do Esquadrão destruíram tudo, queimando as palhotas e destruindo as sepulturas.

Isto aconteceu, dois dias antes da Frelimo colocar na picada habitualmente patrulhada pelo Esquadrão, as bombas que a nossa Força Aérea largou e não explodiram.



III - 17 de julho de 1970

Nesse dia 17 de julho de 1970, uma patrulha composta por duas Panhards, uma Berliet preparada para rebentar minas e um Unimog com atiradores, saiu de Miteda para Nangololo.

Como o percurso era curto, normalmente fazia-se a “picagem” num dos sentidos, regressando rapidamente para não “dar tempo aos guerrilheiros colocarem minas”.



Mas nesse dia, os militares demoram-se mais tempo em Nangololo do que o normal e, no regresso, a primeira Panhard cujo chefe de carro era o Furriel Milº. Carlos Alberto Almeida Dias, conduzida pelo Daniel Viegas fez explodir uma bomba. 

O cesto (torre) da Panhard foi arrancado do resto da estrutura e projectado a cerca de vinte metros ficando a arder com dois militares lá dentro enquanto as munições e granadas que transportava explodiam e a gasolina fazia arder tudo, não deixando que alguém se aproximasse dos destroços. 

O Viegas, recebeu sob si o impacto directo da bomba e o seu lugar de condutor “abriu-se” como se de uma lata de sardinhas se tratasse.

O soldado condutor do rebenta minas, o Matos, também morreu com um estilhaço da explosão.

Quem testemunhou o estado em que ficaram os corpos da tripulação da Panhard, fez-me um relato que não me atrevo aqui a reproduzir. Os militares sobreviventes ficaram em estado de choque sem saber que fazer.




Quando em Nangololo se soube do desastre, foram dadas ordens para a coluna regressar, mas o capitão Faria Afonso não as acatou dirigiu-se para o local do rebentamento e deu ordens para que se avançasse. 

O Capitão Faria Afonso já tinha idade para ser Major, mas alguns castigos atrasaram a promoção. Tinha-lhe aparecido a oportunidade de ser promovido por bravura e distinção.

O seu condutor de Panhard, o soldado Bramão Miranda traumatizado com o sucedido, implorou ao capitão que voltassem para trás. Mas este insistiu para que se contornasse o buraco causado pela explosão e avançasse. 

O Bramão responde-lhe: “Meu capitão, é melhor mandarmos fazer picagem antes de avançarmos, podem haver mais minas por aí.” 

Ao que o capitão lhe responde: “Se estás com medo, sai daí, conduzo eu a Panhard”. 

O Bramão deu o seu lugar ao capitão e chorou de raiva. 

Todos sabíamos que ele era um valente soldado, nunca tinha medo ou não fosse transmontano. Nunca ninguém lhe tinha dito que era covarde. 

Antes do capitão arrancar com a auto-metralhadora, o Bramão, a chorar, subiu para o lugar do capitão. 

Poucos metros mais à frente uma nova explosão sob a Panhard, destruindo-a e com ela os seus ocupantes.

Quando chegam reforços de Miteda, recolheu-se conforme se pôde o que restava dos corpos dos seis tripulantes das Panhards e do condutor Matos da Berliet rebenta minas.

Mais à frente, no sentido Nangololo - Miteda, após picagem, foram encontradas mais duas bombas da nossa Força Aérea, “ligadas” a duas minas anti-carro cada uma delas.

Só assim soubemos o que provocou a destruição das Panhards, caso contrário, só poderíamos especular.

Nessa noite ficaram dois furriéis e alguns soldados a guardar os destroços e o que restava dos corpos. Hoje passados 50 anos, os furriéis, continuam a fazer tratamentos psiquiátricos.

Há quem diga, mas isto são suposições, que esta acção da Frelimo que já estava numa fase de retirada do planalto, foi a retaliação contra o Esquadrão, pela acção levada a cabo pelo capitão Faria Afonso, dias antes, no acampamento encontrado próximo de Nangololo.

Eu soube dos acontecimentos nesse mesmo dia à noite. 

Estava em Muidumbe e liguei o C42, rádio de FM da Panhard, tentando ouvir as conversas dos guerrilheiros que comunicavam nesta onda de frequência. 

Mas, acabei por sintonizar os meus camaradas de Nangololo e Muidumbe a falar sobre estes acontecimentos. 

Comuniquei-os aos meus camaradas de Muidumbe que também ficaram em estado de choque.

No dia seguinte de manhã, quando o 1º pelotão que estava em patrulha regressou, saiu o 2º pelotão para a picada da Capoca, como se nada tivesse acontecido.



Passados cinquenta anos, ponho-me a imaginar como seria bom beber um copo com o Daniel Viegas como faço com o Mealha, passar um fim de semana no Alqueva com o Almeida Dias, como faço com o Viriato ou dar um abraço ao Bramão com dou ao Banza.

Estes homens partiram prematuramente, mas procuro imaginá-los com os cabelos brancos filhos e netos, como eu. 

É bom que alguém os recorde pois eram militares destemidos, disciplinados, extrovertidos e duma coragem a toda a prova.

O Capitão Faria Afonso recebeu uma Cruz de Guerra de 1ª classe por este “ato de bravura.”

Os outros que com ele morreram, apenas foram vítimas das loucuras dos homens.

Já quase ninguém fala deles.



Nesse dia 17 de julho de 1970 morreram do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria 1 de Moçambique, os seguintes sete militares:


1-Capitão Jaime Alvim Faria Afonso, natural de Lisboa;
2, Furriel Carlos Alberto Almeida Dias. natural de Lourenço Marques;
3- Soldado Duarte Tomás Bramão Miranda, natural de Bragança e residente em Lourenço Marques;
4- José Manuel Matos, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
5- Daniel Viegas, natural de Olhão e residente em Lourenço Marques;
6- 1º cabo Victor Manuel Silva, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
7- 1º cabo Mangas Pereira, natural de Ourém e residente em Lourenço Marques.

Manuel Serafim de Matos Sousa
Ex-furriel Milº de cavalaria

Notas finais:
O camarada Manuel Pereira Martins no seu livro “Memórias de um Tempo Perdido” também descreve este acontecimento de 17-7-1970. 
São factos que ambos acompanhamos e que não podem ser plagiados. 
Apenas descritos com mais um ou outro pormenor;

Há quem defenda que esta guerra deveria ter continuado;

Mas a guerra continua em Cabo Delgado mas com outros protagonistas,

terça-feira, 12 de maio de 2020

Coluna Saurio MUEDA - OMAR - MOCÍMBOA DO ROVUMA, por Manuel Neves Silva

Coluna Saurio MUEDA-OMAR-M. ROVUMA

MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL-

Por: M Neves Silva- Furriel Miliciano de Armas Pesadas

Nove de Maio de 1973, madrugada triste, fria e húmida em Mueda a Capital da guerra no Planalto dos Macondes.

Alinhavam-se as berliets militares e os camiões civis. Iniciava-se a coluna logística Sáurio 01,viagem de reabastecimento logístico a Omar e Mocímboa do Rovuma.

A tropa era composta por três grupos de combate da Companhia de Caçadores 4140 do Furriel Lopes, do Alferes Joaquim e do Alferes Feire; dois grupos da companhia de Artilharia 3503 comandados pelos Furriel José Caseiro​ e Alferes Coelho; três secções de morteiros médios do Alferes Casimiro; uma secção de sapadores sob a responsabilidade do Furriel Jacinto; um pelotão de Cavalaria do Alferes Menéres e ainda um Grupo Especial de tropas africanas, o GE 208,do Alferes Antonio Manuel Pereira Giestas.e dos Furriéis Julio Leitao e André Jorge Silveira

Todos estes militares distribuíam-se pelas caixas das viaturas e pelos flancos da picada, pela testa da coluna. Eram diversas as missões de todos estes grupos: proteger o comboio contra ataques; proteger os flancos, esquerdo e direito; emboscar os trilhos de acesso à picada; abrir o percurso.

Era um bulício de homens, de espingardas G3, cartucheiras, granadas de morteiro, granadas de mão, lança granadas, rações de combate…..

E eram as gargantas secas de amargura, de sofrimento, de ansiedade, de medo.

O comboio verde estendia-se enorme, ocupando toda a avenida da cidadela militar.

À ordem do Capitão Miliciano Vasco Gonçalves toda esta mole se põe em marcha com a ronca dos motores, as baforadas diesel dos escapes e o serpentear lento com as vénias dos carros à esquerda e à direita ao sabor da irreverência dos buracos e das depressões da picada.

Ao meu pelotão comandado pelo Furriel Lopes, homem minhoto das terras de Celorico, cabia a tarefa e responsabilidade de encabeçar a ”“excursão”, de rasgar o itinerário, de detectar e neutralizar minas, armadilhas e outras quejandas surpresas dos “turras”, até ao Posto de Águas 34, onde este Sáurio se bifurcaria em dois, um para Omar e outro para Mocímboa do Rovuma.

Sítio de Luís Pinto Coelho, ex- Alferes Mil.º Sapador de ...

Estes postos de água, agora desactivados, antes da guerra, ao tempo da majestática Sociedade Agrícola Algodoeira (SAGAL) forneciam uma determinada quantidade de água a troco da inserção duma ficha que valia 50 centavos de escudo (uma quinhenta). Estão distribuídos um pouco por todo o lado ao longo destes caminhos. Servem agora como pontos de referência das estradas (picadas).

Foi este sistema de distribuição de água, e foi a Companhia do Algodão (SAGAL) grandes fontes de descontentamento e revolta para os trabalhadores nativos macondes, que se viam coagidos pela empresa a plantar algodão e a entregá-lo a esta por irrisórios preços. Depois para matarem a sede teriam que devolver o parco soldo naquelas torneiras. Os portugueses não foram uns colonizadores exemplares……

A vegetação densa, estava eivada da comichão do” feijão macaco”, essa vagem parecida com o feijão-verde que uma vez tocada, solta aquele castanho pó que desencadeava coceira e mais coceira e ainda mais coceira qual infernal sarna que punha os nossos corpos em brasa.

Tudo nos atazanava o psiquico e o físico. Para além da vagem da comichão, eram as talacas, essas enormes formigas que se deslocavam em fila indiana, qual batalhão bem formado em ordem unida e que ao morderem preferiam deixar o ferrão, a abandonar as nossas pernas.

Mas ainda pior, era o perigo sempre presente, o risco de se furado por “frela” bala ou de ficar estropiado com o estoirar duma mina debaixo dos nossos pés.

E assim, ordem dada, avançámos picando a picada, num pleonasmo de picas, aquelas varas de bambu com um prego na ponta com que os soldados do grupo da picagem, agora com o estatuto de picadores, iam batendo repetidamente o chão à medida que avançavam tentando assim “apalpar” as minas a uma distância segura.

Era uma “tecnologia de ponta”, esta ponta de aço na ponta da cana de bambu. Na outra ponta da pica, estava sempre a vida do batedor.

Esta técnica de sentir as minas na ponta, era complementada com a tecnologia ainda de mais ponta dos detectores electrónicos de metais, que neste particular levavam o nome de pesquisadores de minas. Mais eficazes e mais seguros, porque evitavam o toque com o solo, estes aparelhos eram mais raros porque mais caros que o bambu e porque eram mais propensos a avarias e também porque a vida dum soldado pouco valia.

Fazia-se uma guerra barata em material, fazia-se uma guerra cara em vidas humanas.

Neste primeiro dia de sofrimento e antes ainda do meio-dia já tínhamos topado com uma mina anticarro, essas “marmitas” de TNT que fazem ir pelos ares viaturas e homens. Detectámos ainda um fornilho, série de minas e granadas e outras merdas explosivas ligadas entre si por cordão detonante de tal modo que ao ser accionado um elemento desta cadeia, todos os outros deflagram em sequência, rentabilizando assim os estragos.

O Grupo de picagem avançava como que perseguindo caracóis, seguido pela primeira viatura, o rebenta-minas, num movimento, chiado, ronceiro e deselegante.

Era integrado por picadores protegidos com as G3 dos atiradores, armas sempre atentas, sempre nervosas, apontando para qualquer ruído, qualquer sinal de perigo, qualquer surpresa vinda da densa mata. Atiradores e picadores revezavam-se, para aliviar cansaços, trocar tarefas, e alternar os estatutos entre picador e atirador.

Era um trabalho lento, monótono, cansativo, enervante. Atrás de nós toda aquela massa de carros, de armas ligeiras e pesadas, chiava, roncava, movendo-se pesadamente.

O Heitor, à minha frente, estacou a pica no chão, embrenhou-se no mato, abriu a braguilha e pôs-se a mijar.

-Não repitas isso muitas vezes. Não deves sair do trilho de picagem. Na próxima podem ficar aí os teus “pedais ”-gritou, chateado o Furriel Duarte, no seu sotaque madeirense

-Meu Furriel, agora tive que ir agarrar noutra pica. Na minha pica!-gracejou o Heitor enquanto compunha a braguilha, “acachando” a picha.

O Grupo tinha parado por instantes o batuque da picagem. Atrás de nós a primeira viatura, a rebenta-minas distanciava cerca de cinquenta metros. O Heitor regressa para a outra pica. Íamos recomeçar quando uma viatura, a terceira voou estrondosamente ao calcar uma mina.

-Caralho -berra o Furriel Lopes defraudado-deixaram passar aquela “marmita”

-Atão e só “arrebentou” na terceira viatura? -indagou o Moreira, apontando o dedo na direcção da tragédia.

-É uma daquelas de triquetes e devia estar estava regulada para “arrebentar” só no terceiro-sentenciou o Cabrita, enquanto ferrava com violência a pica no chão.

-Foda-se! Se nós não a detectámos é porque é de espoleta química e essas não acusam no detector- afirmou convicto o Cabo Adriano Pereira​ ,limpando com o quico o suor da testa.

Tínhamos, espalhados pelo chão ao redor da estropiada berliet, os gritos de dor de nove camaradas gravemente feridos

Os gritos vinham do chão. Os gritos vinham do ar. Os gritos estavam em mim. Todo eu era já um grito. Eu já não suportava o grito.

Veio-me à memória a letra da canção:

“ Lá longe, onde o sol castiga mais

Não há gemidos nem ais,

Há coragem e valor

Mas quando alguém do nosso grupo cai

Ainda pior, ainda sofremos mais

Faz-nos sentir, faz-nos pensar

Talvez da próxima vez

Seja eu quem vai tombar….”

Mais azáfama, mais ordens e contraordens, muita tristeza, muita consternação, muitos nervos na flor da pele.

Era o pessoal das transmissões gritando, alfas, bravos, charlis e rómeos a pedir helicópteros para a evacuação.

Não se pode perder tempo. Não há tempo a perder. Há que cuidar deles, estabilizá-los com o saber e sangue frio do Furriel Enfermeiro Elias.

Há que capinar, fossar, romper desenrascar um heliporto, antes que anoiteça, para o poiso do helicóptero que vem buscar estes desgraçados, para outros cuidados médicos em Mueda.

Deixámos as picas e corremos às ordens do Furriel Lopes a proteger de armas em riste, o pessoal que abria a clareira para o poiso da aeronave. Os guerrilheiros estão seguramente por perto e não queremos mais surpresas.

Eu aperreava no meu corpo a minha G3 mulher, a minha amiga G3.

A tarde deste dia entardeceu triste, amarga, carregada de nuvens de incerteza e a noite apanhou-nos ali mesmo, escura, aziaga tal como a nossa dor.

Sentia-me estranhamente estranho, não me sentia eu, não era eu quem estava ali naquele filme de terror. Sentia-me uma rocha, quando vê o rastilho arder em direcção à dinamite no seu interior.

Esgravatei no saco bornal a lata de “Fray Bentos”, carne de conserva Sul-africana. Engulo mais uma laurentina. Fumo mais um cigarro. Tento dormir, tento esquecer…

Estamos cansados, não dormimos, não sonhamos. Amedronta-nos saber que os “Frelos” sabem que estamos ali, vulneráveis, á mercê da sua morteirada.- Porra! Em que buraco me fui meter.

Sentia na boca o sabor amargo da cerveja e sentia na alma a acidez da minha vida.

Vêm-me à memória as imagens, saudosas recordações daqueles tempos despreocupados de Lisboa no Jardim da Estrela, a mordiscar as gajas que passavam. Dos serões de estudo de Físicas e Matemáticas no Café Portugália. Das sessões de cinema no José Lúcio da Silva em Leiria e que sempre tinham ponto final, num copo de verde vinho “Três Marias”, já com horas sonolentas e espreguiçadas, no Café Ponto Final.

Amanheceram as neblinas da manhã. As folhas das árvores pingavam lágrimas. As silhuetas da vegetação e dos soldados eram esbatidas desfocadas, mal definidas, tal como os meus pensamentos, confusos, esquizofrénicos. Havia um alvoroço de despertar, um vozeirar ao logo de mais de quinhentos metros por onde se estendia a coluna.

São cinco e meia da manhã. Esta bicha está a ponto de ser por de novo em marcha. Calço as botas que serviram de almofada durante a noite. Trinco o resto de pão que sobrou de ontem com a marmelada da ração e bebo o chocolate e estremeço. Estremeço com a sequência de explosões: PUM!….PUM!…PUM!...PUM! E logo uma voz de comando: - Enfermeiro à frente! Passa palavra! Temos dois feridos!

E vejo o Luís Elias a correr com os primeiros socorros nas mãos.

Ao tentarem encher o cantil na água do auto tanque, os soldados António Trinta e Carlos António, da minha companhia tinham tropeçado numa armadilha que lhes arrancou os pés e parte das pernas.

Esta armadilha esperou cinicamente uma noite debaixo do tanque da água para reclamar as suas vítimas de manhã.

Mais sangue mais estropiados e ainda estamos no inicio. Pisar ou não pisar a mina é uma questão de sorte…morrer ou não morrer é uma questão de morte.

Outro heliporto, mais sangue frio do enfermeiro, verdadeiro herói destas tragédias. O Elias esconde as emoções, não pode ficar escravo de sentimentos. Há vidas em perigo. Tem de agir!

Mais carne despedaçada e despachada para a Enfermaria de Mueda.

Os amigos que com eles partilharam o bocado de chão, debaixo da Beliet durante a noite, choram:

- Ninguém imagina o que estamos aqui a sofrer! Aqueles filhos da puta do “ar condicionado” é que deviam estar aqui. Já se foderam onze gajos e isto não vai ficar por aqui. Logo seremos nós.

Mais além o alguém da 3503 berrava:

- Foda-se esta merda, vamos ter mais um dia de festa do caralho, mandam-nos para aqui morrer e ver morrer. Um gajo anda aqui até levar um tiro na mona ou pisar uma mina, depois acaba-se tudo, acabam-se os sonhos, acaba-se a vida, é como se um gajo nunca tivesse existido.

Pois-disse o Elias, arrumando os primeiros socorros- ainda nem temos um dia nesta porra e já é o que é, onze desgraçados e dois deles sem pernas. Que mais merda estará para vir hoje? Isto está tudo semeado de trotil! Não sabemos onde deveremos por os pés.

Lembrei-me da frase de negro humor que li ontem de manhã no cartaz pendurado na árvore, lá atrás, na saída de Mueda:

Reduz o perigo das minas em 50%., Anda ao pé coxinho!

O helicóptero com os feridos a bordo, roncou mais alto, levantou, roçou a copa das árvores, ganhou altura, rodou no ar e tomou a direcção de Mueda.

Verdadeiros heróis, estes pilotos da Força Aérea. Arrepia-me ver o modo e a destreza como encaixam aquelas máquinas em tão exíguos espaços. A eles e à sua coragem se devem muitas vidas resgatadas.

Estávamos a um quilómetro do Posto de Águas 34.Tanto tempo e tanto sacrifício despendido para tão pouco caminho percorrido.

Durante este quilómetro foram “desembrulhadas” do chão mais sete armadilhas e mais duas viaturas foram dinamitadas. Há sempre minas que nos escapam. A pica não as sente, o detector não as ouve, o picador não as vê.

Para algum alívio das nossas consciências de picadores, não houve homens dinamitados.

Posto de Águas 34, dez e meia da manhã. O comboio militar dividiu-se em dois: uma parte seguiu para Omar, a outra para Mocímboa do Rovuma. Estávamos no segundo dia dum total que viriam a ser de dez dias que ainda iria durar esta operação Sáurio 01.

Eu segui para Mocímboa com o meu grupo, um pelotão de cerca de trinta homens, com três Furriéis: Eu, o Duarte e o Lopes. Era nossa missão agora proteger a Artilharia interveniente neste percurso.

Os Frelos deixaram-nos. Outro tanto não se passou com a secção que se dirigiu a Omar, que sofreram várias emboscadas, abonos de morteirada e viaturas dinamitadas. No cômputo geral, esta operação iria custar três mortos e dezoito feridos, quando dez dias depois tínhamos chegado a Mueda

Mocímboa do Rovuma situa-se num planalto com abrangentes vistas sobre o largo rio que se espraia lá em baixo e que lhe dá o nome. A enigmática Tanzânia avista-se mais além na outra margem. Não fosse a guerra e estas paragens seriam um pedaço de paraíso.

As nossas viaturas, descarregaram. Entre outras muitas outras “viandas”, traziam cerveja, o que alegrou sobremaneira as tropas aqui aquarteladas pois o stock das laurentinas, mack-mahons e manicas já estava em ruptura.

Depois de tantos sofrermos para aqui chegar foi bom sermos recebidos com uma refeição quente.

Foi um almoço de participada tertúlia. Foi o contar da epopeia da viagem, foi um continuar a sofrer pela viagem de retorno. Iríamos decalcar o mesmo percurso mas agora às avessas.

Eu estava avesso de apreensão e medo. E comia a saborosa cabidela e bebia as laurentinas e fumava nervosamente os primeiros cigarros do maço recém-adquirido.

Seria no dia seguinte o inferno da torna viagem.

Um Furriel deste destacamento, falou-me da última vez que aqui foram “abonados” de morteirada pelos” turras” e falou-me das operações de patrulhamento das imediações e falou-me de como uma gazela tinha sido apanhada por uma mina do campo minado, protecção que os circundava, e de como esse bicho virou jantar na messe de sargentos e falou-me de tantas coisas e de tantas memórias…

Eu vinha sujo, completamente nauseabundo de suores acumulados e fermentados com o calor lá da picada. Sentia-me como um rato de esgoto.

- Já viste Furriel, eu a entrar assim malcheiroso na pastelaria Suíça em Lisboa? Era eu a entrar e a pastelaria a evacuar.

Deixando-se rir da minha piada, compreensivo e solícito o Furriel apontou-me o duche enquanto me estendia uma laurentina. Era um balde de zinco pendurado numa trave e perfurado no fundo para ”chuveirar” a água.

E soube-me bem aquele banho “maconde” e soube-me mal ter de vestir a mesma roupa transpirada e sobretudo ainda com alguns pólenes do legume da “coçagem”.

Eu estava estoirado, cansado, com a cabeça desorganizada pelos acontecimentos recentes. A tarde acelerava a queda. As águas do Rovuma ao fundo espelhavam ainda a já pouca luz vinda do seu lado nascente. A noite anoitecia calma e alheada da guerra.

Fez questão o Furriel que eu dormisse na sua “Flat”. Era um quarto bem arrumado, simples e acolhedor.

Junto à cama, numa artesanal mesa de bambu, espreitava um retrato emoldurado de uma linda rapariga que me fez estremecer de surpresa.

Eu tinha visto aquela moça dois anos antes na Metrópole. Estava seguro disso, e estava incrédulo disso. A frase saiu-me simples e espontânea:

-Olha! A Deolinda! Como veio parar aqui a Deolinda?

-Conheces a Deolinda?- Perguntou o Furriel, intrigado, segurando a moldura, como quem protege um troféu.

-Conheço pois.

-Como é que a conheces?- Volveu o Furriel, mirando a menina.

A Deolinda tinha sido minha ajudante no laboratório de análises químicas da SIC. Ela frequentava o Liceu Nacional de Santarém e morava em Azinhaga do Ribatejo, onde estava sediada aquela empresa. Eu estudava Engenharia em Lisboa. Conhecemos-nos no trabalho em conjunto naquelas férias de Verão de 1970,naquela fábrica, perto de Santarém. Quando o trabalho sazonal acabou eu voltei para Lisboa e um ano depois para o Serviço Militar e deixámos de nos ver.

-Conheci-a em Azinhaga do Ribatejo em 1970 quando com ela trabalhei no laboratório da Sociedade Industrial de Concentrados (SIC) durante a campanha do tomate -Respondi ao Furriel, enquanto nervosamente acendia mais um cigarro.

-Ah! Sim ela trabalhava lá durante as férias de Verão. E eu também sou de lá, de Azinhaga-explicou o Furriel, pousando delicadamente o quadro sobre a mesa, como quem baixa a guarda de protecção a um tesouro.

Lembrei-me daquela aldeia, a mais portuguesa do Ribatejo, do sujo rio Almonda, do baile de sábado na Associação, daquele passeio na tarde de domingo nas Portas do Sol.

A Deolinda era agora, namorada do Furriel. Senti-me por instantes como um refractário a um compromisso descomprometido.

A conversa sobre a Deolinda por aqui ficou. Confesso que ao ver de novo a linda menina, fiquei irresoluto, enciumei do Furriel.

A picada do dia seguinte perdeu o valor trágico. Afinal naqueles verdes anos, nós ainda somos imortais, eternos, apesar de podermos morrer amanhã.

Saímos da “flat” e mergulhámos nas cervejas.

Adormeci com as dormências das laurentinas, no colchão de espuma colocado no chão ao lado da cama do Furriel.

Desculpa Furriel da Azinhaga. Nunca te agradeci o modo hospitaleiro como por ti fui recebido. Esqueci-me do teu nome. Passaram quarenta anos e agora, afinal, nós já somos mortais, poderemos morrer amanhã. Teremos de morrer amanhã.

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Manuel Neves Silva-Furriel Miliciano de Armas Pesadas

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um Ataque a Mueda e a Micose do Francisco Ribeiro..., por José Monteiro

Ataque a Mueda
Mueda, além da população civil, era uma autêntica cidade militar.
Tinha todas as armas para alimentar a máquina de guerra.
Aqui cheguei em 12 de maio de 1967.
Estrategicamente situada no Planalto dos Macondes, era "visitada" e conhecida pelos restantes aquartelamentos que giravam à sua volta.
Aqui se juntavam aviação, engenharia, companhia de transportes, Pad, cavalaria,artilharia, companhia de cães de guerra e tropas especiais como comandos e paras.


O clima Africano era propicio a vários problemas de pele entre eles a micose que atacou vários de nós.O meu amigo, e vague-mestre da companhia , que também dormia na minha flat, Francisco Ribeiro, foi atacado por tal problema.
O enfermeiro e nosso amigo comum, Eurico Oliveira, receitou-lhe o habitual nestas circunstâncias, que era a tintura de iodo, com a recomendação para ter cuidado pois ardia um pouco.
O Ribeiro começou a tratar do assunto e nós, sempre solícitos e prontos a ajudar, arranjámos uma ventoinha, para o ajudar a refrescar, e directamente voltada para a parte do corpo a tratar.

Tudo estava a correr bem, o Ribeiro continuou com o tratamento, pincelando as virilhas e os testículos, pois era aí que a micose tinha atacado.

No dia seguinte, princípios de Agosto/67 Mueda foi atacada com morteiros pela Frelimo, vindos do final da pista da aviação.
Houve resposta imediata dada pelas Foxs de cavalaria indo o pessoal disponível para os abrigos. Quando o tiroteio parou, saímos das flats e o meu amigo Ribeiro pegou na G3 e como estava na cama e não teve tempo de se vestir, saiu de cuecas e de pernas abertas, pois tinha a pele dos testículos queimada por tanta pincelada dada.

Do ataque não resultou, felizmente, problemas físicos. 

Tinha sido mais para marcar presença do inimigo, pois como era uma posição estratégica, a Frelimo por norma atacava o quartel todos os anos.

Linda-a-Velha, Agosto de 2013
José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex Furriel Miliciano )

sábado, 28 de janeiro de 2017

Setembro de 1971 a picada Macomia-Mataca, por José Leitão

D'Abranches Leitão G. José 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais um "Diario".... Setembro de 1971
A picada Macomia-Mataca


O pelotāo da 2750 que vem da Mataca ao nosso encontro fez alto. 
Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com "as picas de bambu", para que nenhuma mina escape. 

O Alferes que comandava esse pelotāo informa que tudo está bem....


Levamos alguns civis connosco. 
A probabilidade de sermos atacados, diminui assim.

Fazemos uma pausa. 

O Uvaldo, um transmontano baixote mas de rija tempera, oferece-me o seu cantil, sabendo que eu ja devo ter o meu sem gota de água. 
Agradeço e digo-lhe que pode tirar uma Laurentina, da minha mochila. Ainda estao relativamente frescas. 

Os soldados de ambas as colunas abraçam- se. 
O Vidinha, sempre a meu lado, grande companheiro, pergunta a outro soldado da Mataca, por um seu conterrâneo que está na 2750. 
Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. 

De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que cem botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência, avançamos em direçāo à Mataca, para entregar os 2 Hunimogs carregados com mantimentos. 

A descida da Serra...torna-se um pesadelo, pois a picada está muito escorregadia. 
Era tempo de chuva e o matope...torna-se "manteiga"!!! 
Vou ao lado do condutor de um dos Hunimogs, o Crespo, natural de Barcelos, com 1,90 de altura, que me vai dizendo que os travões não estão lá muitos bons, devido ao aquecimento. 
O declive assusta os mais corajosos. 

 Uff a zona mais crítica foi ultrapassada. 

Avistamos o aquartelamento ao longe. 
Mas nada de baldas ok? Grito eu para a minha Seção.

Chegámos! 

O Bar fica do lado direito da "porta de armas". 
O ritual habitual! 
As primeiras latas de cerveja, despejadas pela cabeça abaixo. 
Depois uma rodada, paga por mim, para todo o pelotāo. 
Era assim que fazia depois de mais uma "coluna"!!!!



José Leitao 
CCAVª 2752

Comentários
Armando Guterres Fizemos algumas colunas, a meio da comissão, com troca de carga no Alto do Delepa. A surpresa da coluna era eliminada, sempre que se ouvia diversos carros em afinações. Fev 72 a Março 74.

Aracire Oliveira Quando corria bem à chegada era uma alegria, só que na picada de Omar só me lembro uma vês tudo ter corrido sem mortos ou feridos...

D'Abranches Leitão G. José Alto do Delepa...malta do 1° Grupo de Combate -CCAV 2751

D'Abranches Leitão G. José Identifico os Furrieis Mil° Rosales e o Alegria (já falecido)...e o Cabo Salavessa (?)