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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O preço do Pão, nas "Bananeiras", por António Silvestre (CART 3503)

Transcrição do Blog "Histórias da CART 3503"

Este triste incidente marcou-me imenso, quer pela data do acontecimento, quer pela maneira como ocorreu e também por privar com alguns homem desta Companhia.

O preço do Pão
publicada por António Silvestre

Olhei para o relógio, eram 10 horas da manhã do dia 31 de Dezembro de 1973 e ali íamos nós a caminho das Bananeiras, uma dúzia de viaturas e cerca de sessenta homens, privilegiados, que tínhamos tido o bónus de ir passar a passagem do ano às Bananeiras.
O pretexto era arranjar a ponte para que a coluna, que no princípio do ano viria de Porto Amélia, conseguisse chegar a Mueda .


Isso era o pretexto, pois a finalidade principal era afastar de Mueda a maioria dos homens da 3503, companhia que em Janeiro faria 24 meses de comissão, em que a insatisfação e até mesmo a revolta já grassava tanto entre os graduados como entre os soldados.


Assim, a caminho das Bananeiras, zona a 15Kms de Mueda, famosa pelas emboscadas aí já acontecidas e pelas minas normalmente aí colocadas, seguiam cerca de 40 homens da 3503 mais 20 e tal homens da engenharia com algumas máquinas.

Os atiradores tinham por missão montar a segurança e fazer a protecção aos homens da engenharia enquanto durassem os trabalhos do arranjo da picada e da reconstrução da ponte.

Comandavam esses homens, o capitão Almeida e o alferes Silvestre, ambos da 3503, que por diversas vezes tinham levantado a voz em defesa dos homens da companhia e portanto não era conveniente estarem em Mueda no dia 1, onde estava previsto haver um almoço de Ano Novo com algumas individualidades vindas de Nampula, de Lourenço Marques e talvez até algum ministro da Metrópole, os quais faziam o sacrifício de nesse dia se deslocarem às zonas de guerra para, diziam eles, levantar o moral das tropas, algumas das quais já há quase 24 meses ali se encontravam.

Para evitar que Suas Excelências apanhassem algum susto enquanto estivessem em Mueda, a maioria das tropas operacionais eram colocadas no mato, quer em patrulhamentos afastados quer alguns próximos do arame farpado, de modo que os combatentes da Frelimo se mantivessem o mais longe possível e sem possibilidades de efectuar qualquer ataque.

Assim, além destes homens, outros elementos da 3503 e de outras companhias, foram colocados no mato em defesa afastada de Mueda e também esses estavam portanto impedidos de incomodar as altas individualidades.

Voltei a olhar para o relógio, era meio-dia e avistávamos finalmente a ponte das Bananeiras onde já se encontravam os homens de Nancatári que nos vinham reforçar enquanto durasse a nossa permanência ali.


A companhia de Nancatári, a 3501, companhia do nosso batalhão, formada juntamente com a nossa, dois anos antes em Penafiel, era portanto constituída por amigos comuns, alguns das mesmas terras da Metrópole e que embora a apenas 28 Kms de distância, as circunstâncias não permitiam que se vissem há muitos meses.
Os abraços foram muito, durante alguns minutos contaram-se histórias e recordaram-se amigos já desaparecidos.

De Nancatári tinham vindo dois pelotões, um que ficaria connosco e outro que regressaria a Nancatári imediatamente, pois o aquartelamento distava apenas 12Kms e como todo o trajecto tinha sido picado nessa manhã, decerto não tinha havido tempo para os homens da Frelimo colocarem novas minas.

Mas nessa noite era a noite de passagem de ano, pelo que ficou combinado que logo de manhã um grupo comandado pelo Capitão Almeida que não conhecia Nancatári, iria a esse aquartelamento buscar pão mole, algumas bebidas e talvez mais qualquer iguaria que nos ajudasse a passar melhor o dia de Ano Novo no mato.

Depois deles partirem ali ficámos nós, a pensar que na Metrópole a maioria das pessoas da nossa idade estavam preocupadas com o local onde iriam passar o reveillon ou com o que levariam vestido e nós ali, preocupados em organizar a defesa para o caso de nessa noite sermos atacados.

Quando o sol se pôs e se fez noite, já instalados debaixo das viaturas ou em valas, cada um de nós bem abastecidos de bebidas que tínhamos trazido para a ocasião, resolvemos festejar, sozinhos e em silêncio, outros em pequenos grupos, fomos bebendo e pensando na Metrópole, bebendo e pensando na Metrópole, pensando na Metrópole e bebendo, até que à meia noite nos esquecemos onde estávamos e alguns mais efusivos resolveram mandar algumas granadas e alguns tiros para o ar, fazendo dessa forma com que alguns animais da selva soubessem pela primeira vez nas suas vidas que aquela era a noite de passagem de ano.

A pouco e pouco os corpos foram cedendo ao cansaço e o sono tomou conta da maioria dos homens, apenas os que estavam de sentinela tinham que esperar de olhos bem abertos a sua vez de serem substituídos por outros nessa tarefa.

Seis e meia da manhã, uma vintena de homens preparavam-se para ir a Nancatári, quando um rebentamento muito próximo nos fez tomar consciência que, dia de Ano Novo ou não, estávamos na guerra e estávamos a ser atacados.
Ao segundo rebentamento apercebemos-nos que tudo se passava a dois ou três Kms de distância, o que confirmámos imediatamente a seguir quando começámos a ouvir as kalashs da Frelimo e a resposta de algumas G3.

Alguém gritou: devem ser os homens de Nancatári que nos vêm trazer o prometido pão quente.

Imediatamente os homens que já estavam preparados para ir a Nancatáti saltaram para cima das viaturas e sob o comando do Capitão Almeida arrancaram picada fora nessa direcção.

Passados dois ou três Kms depararam-se com uma situação dramática de meia dúzia de homens a tentarem sobreviver e a defenderem-se estoicamente a si próprios e a cerca de uma dezena de companheiros que bastante feridos não estavam em condições de o fazer.

A Frelimo durante a noite tinha montado um fornilho (várias minas ligadas entre si) e preparado uma emboscada para atacar os elementos que sobrevivessem às minas.


Eram uma dúzia e meia de homens que lutavam pela vida, heróis anónimos, que tinham arriscado, voluntariamente as suas vidas para levarem aos seus camaradas no mato o tão prometido pão mole e mais alguns mantimentos.

A chegada de reforços impediu que a Frelimo levasse até ao fim os seus intentos, mas já não impediu vários homens de perderem a vida e outros de ficarem feridos com mais ou menos gravidade.

O pão, esse não me lembro se chegámos a comê-lo, mas foi sem dúvida o pão mais caro de que alguma vez tive conhecimento. 
Não pagámos em escudos, nem em qualquer outra moeda, pagámos em sangue e em vidas, pois o preço final saldou-se por 4 mortos e 8 feridos.

Entretanto em Mueda as tais altas individualidades tiveram direito ao seu almoço com as tropas, tendo ao fim do dia partido novamente de avião para as suas comissões em terras do Sul, sem qualquer perigo de minas ou de emboscadas.

Partiam contudo com as consciências tranquilas, pois já podiam dizer que tinham passado um dia em zona de guerra e tinham voltado sãos e salvos.
Quem sabe, até talvez tivessem direito a mais uma condecoração.
Entretanto no mato, onde ainda ficámos vários dias, não voltámos a ser reabastecidos, pelo que nos restantes dias comemos sempre pão duro.

publicada por António Silvestre | 15:17

5 Comentários:
Awnónimo disse...
Este é o tipo de escrita que qualquer ex-Combatente entende.
Os meus parabéns ao António Silvestre.
Conheço (já lá vão trinta e tal anos) a localização das Bananeiras e Nancatari.
Um abraço pela inspiração da sua escrita.
João Azevedo
7 de Janeiro de 2008 às 15:21
Azevedo disse...
Não. Não sou um anónimo.
Estive realmente em Mueda durante 18 meses consecutivos, em colunas de segurança, constantes, num periodo de minas em que o IN pretendia atrasar a ampliação do AM de Mueda, para receber os Fiat's para a "malfadada" Nó Górdio.
Última operação em que participei, sediado no Sagal.
Fui um homem sempre da picada com o ESQ. CAV. 2 de Mueda e sei apreciar um bom texto, este que tive o prazer de publicar no "O COMBATENTE DA ESTRELA". que mereceu o maior  aplauso de todos quantos o leram. Ver www.cazevedo.com.sapo.pt . É com estes textos que se compreende a guerra que travámos.
Obrigado camarada Silvestre.
Boas Festas.
João Azevedo
Ex-Alferes Miliciano
7 de Janeiro de 2008 às 15:24
joaquim disse...
Olá camaradas de armas,sou antigo combatente estive em moçambique em Nancatari em princípios de 1974, e lembro-me bem de ter ouvido essa situação do fim do ano na picada das bananeiras.
No que diz respeito á picada de Nancatari Mueda, fiz duas picadas para lá e sei bem o perigo que representa as "bananeiras",pois fomos alvo de ataques ,e tive de rebentar algumas minas anti-carro nessa picada.
Um grande abraço para todos os ex combatentes.
Furriel mil.Dias C. Caç.4153
3 de Maio de 2010 às 22:04
Silverio, trms disse...
Também estive em Nancatari, AGO69/JUL70, CCAÇ 2450, conheço as Bananeiras e ponte do rio Mueda que a FRELIMO dinamitou em JUN70 antes da Nó Górdio, local onde 1 furriel e 1 alferes da minha companhia ficaram sem perna e pé, respectivamente, numa segurança a coluna Nampula/Mueda.
Um muito obrigado ao Silvestre pelo artigo, transcrevendo com muita realidade a situação vivida e aquilo que pensavam as "chefias" sobre a tropa de base.
Votos de bom ano.
Joaquim Silvério
Ex-furriel miliciano
3 de Janeiro de 2011 às 17:29
Inácio disse...
Apesar de já terem passado 40 anos, lembro-me perfeitamente desse tragico incidente. Estava em Muirite, local onde pessoal de Nancatari ia receber as colunas que vinha da da picada de Montepuez,a fim de as acompanhar ate Mueda. Por termos privado algumas vezes com pessoal desta companhia ao recebermos a notícia, ficámos em choque.
Um abraço para o pessoal de Nancatari.
5 de Abril de 2014 às 15:27



  • José Caseiro Pedro Inácio Eu sou da C.ART. 3503 por acaso eu não fui para as bananeiras na passagem de ano de 73 para 74 porque tinha saído para o mato no dia 25 de Dezembro, dia de Natal e andei três dias lá, embora a maior parte do pessoal fosse do meu pelotão, mas ao fim de dois anos de Mueda, ali já não havia pelotões, era o pessoal que estava disponível. Quanto ao acidente saber que tinham morrido amigos quando estava-mos quase no final da comissão foi chocante, mas esta companhia ainda veio a ter mais azares depois deste, quanto ao Silvestre é um amigo do coração, um irmão é tudo que se possa dizer de um ser humano nosso amigo.

  • quinta-feira, 8 de maio de 2014

    GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA - “Mário Marinheiro” em Moçambique


    Personalidades e Tradição | 21-04-2009

    GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA
    “Mário Marinheiro” em Moçambique

    In Notícias de Vila Real

    Pelo olhar ainda lhe perpassa uma certa saudade dos tempos da guerra. 
    Foram tempos difíceis, muito duros, diz, mas ressalta o sentimento de camaradagem, o espírito de sacrifício, a dureza das operações e muita saudade dos camaradas que lá morreram. 

    Depois da instrução e especialidade, seguiu-se o embarque no velho paquete Niassa. 
    Era o dia 20 de Agosto de 1970. 
    Nele seguia Mário Augusto Rodrigues, um dos militares portugueses de entre o milhão que passou pela guerra colonial. 
    Nela morreram mais de oito mil jovens. 
    Foram 35 dias de mar, desde Lisboa até Porto Amélia. 
    Desta cidade, seguiram em coluna militar até Mueda, em Cabo Delgado, depois de passarem por Montepuez e Nancatári. 
    A companhia de Caçadores 2730 foi destinada ao “coração da guerra”, no planalto dos Macondes.

    Foram dezoito meses de ininterrupta actividade militar, quando se aproximava o fim da guerra por se estar à vista a data de 25 de Abril de 1974. 
    Mas, em Moçambique, a guerra vinha-se intensificando, a avançar para sul, e para o interior na província de Tete. 
    Das suas palavras bebemos a preocupação pelos que embora tenham regressado, estão desfeitos pelas consequências psicológicas, os traumas da guerra. 
    Alguns, refere com tristeza, “nunca mais recuperaram, são autênticos farrapos humanos.” 
    Daqueles tempos ficaram muitas amizades que ainda se mantêm, decorridos quase quarenta anos.

    NÓ GÓRDIO
    Recorda com uma exaltação contida a operação Nó Górdio, realizada no planalto dos Macondes. 
    “Foram 35 dias no mato, a comer o que calhou, a dormir mal, sempre em contínuo sobressalto,” refere com emoção e também algum orgulho à mistura por ter participado nessa tão falada operação. 
    Planeada por Kaúlza de Arriaga para desalojar a Frelimo do planalto, mobilizou milhares e de homens dos três ramos, tropas de elite e muitos meios materiais, desde viaturas, a helicópteros e aviões.

    O resultado terá sido um tanto pobre para a grandeza dos meios utilizados, mas marcou uma fase importante da guerra em África. 
    Sobre ela se escreveram livros, romances e outras obras de estudo sobre a guerra colonial portuguesa. 
    E Mário Augusto Rodrigues, nascido em Celeirós do Douro, concelho de Sabrosa, há sessenta anos exibe com orgulho pátrio as fotografias da tomada da base Gungunhana, na dita operação Nó Górdio. 
    Ou as fotos de prisioneiros capturados, de armamento apreendido, da vida dos militares no mato ou no aquartelamento. 
    E as operações, muitas, flúem à sua memória com naturalidade. 
    Depressa se adaptou às extensas matas de Moçambique, ele que estava habituado aos socalcos do nosso Douro.

    Vai lembrando os camaradas que morreram numa e depois noutra operação. 
    Enquanto fala connosco, pelas suas mãos passam muitas fotografias, algumas de militares feridos, de evacuações. 
    Para a história ficaram também registados os momentos de explosão de minas anti-carro e pessoais em que Mário Rodrigues se tornou um especialista. 
    Executava com tal mestria e sangue frio este trabalho que desta actividade veio a ser recompensado monetariamente, quando numa das vezes saiu do mato para vir passar uns dias de férias a Lourenço de Marques.

    MORRER NA GUERRA
    Foi ferido três vezes em combate, tendo sido evacuado do teatro de operações. 
    Foram ferimentos relativamente ligeiros, mas que mostram bem a sua sorte. 
    Diz que o próprio comandante da Companhia gostava de ir perto dele, por se sentir protegido. 
    Acredita piamente, que uma mãozinha de Nossa Senhora andava sempre a rondar à sua volta para que nada lhe acontecesse. 
    Até o capelão, Padre Vilela, de Vilarinho da Samardã, seu amigo e confidente, saiu com ele uma vez para o mato, para medir o risco das operações.

    “Mas quis ir ao pé de mim, e no fim disse que imaginava que aquilo era duro, mas não pensava que fosse tanto.” 
    Teve a sorte de estar de férias aquando da realização de uma operação em que o seu pelotão foi violentamente atacado e sofreu vários mortos e feridos. 
    O próprio furriel que o substituiu ficou gravemente ferido. 
    Aliás, da sua companhia, de 120 homens apenas 70 nada sofreram.

    Foram vários os mortos durante toda a comissão e muitos mais os feridos, conforme consta do historial da companhia. 
    Mas nem tudo era combate e tristeza. 
    Havia momentos de tudo. 
    E, com o seu jeito especial, lá ia organizando e participando, com outros, em festas e teatros. 
    Chegou a apresentar um espectáculo, em Lourenço Marques, com uma apresentadora profissional, na despedida da sua unidade das terras do Ultramar.

    DEIXAR RASTO, FAZER HISTÓRIA
    A Companhia de Caçadores 2.730 deixou rasto em Moçambique e muitos desses sinais foram assinados pelo vila-realense, Mário Augusto Rodrigues. 
    Os seus actos de coragem e heroísmo foram registados pelos seus superiores em vários relatórios das diferentes operações. 
    A forma como comandava os homens sobre as suas ordens mereceu o elogio do seu comandante. 
    E também o seu sangue frio, o seu espírito de sacrifício, nomeadamente nos rebentamentos das minas, foram registados para a posteridade nos relatos das operações.

    “Os louvores eram importantes, mas a mim interessam-me mais as menções nos relatórios das operações.” Relatos que guarda às dezenas, onde se pode ler a forma como as operações decorreram, os resultados, os ataques, os mortos e os feridos. 
    O regresso teve lugar no início do verão de 1972, com chegada a Lisboa, à capital do império em 30 de Junho.