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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Memórias da Mataca - “Terra de minas, entre os cafres.”, por Manuel Correia



Verdade, verdadinha, é mesmo este, o significado que o dicionário online de Português atribui à palavra Mataca.
 
Sem dúvidas…terra de minas. Entre os negros…as minas da Mataca!
 
Foi há muito tempo!
Sei que eras das transmissões de Infantaria da C.Caç.2555, sei que eras um bom rapaz, sei que éramos amigos, sei que éramos todos uma família.
Não me lembro do teu nome, porque deve estar enrodilhado nalguma cicatriz da minha memó...ria, mas lembro-me, isso sim, que espalhavas um pouco da tua alegria por aqueles que te rodeavam.

O sol já espreitava na crista da serra Mapé, quando saímos da Mataca para Macomia!
Era necessário ir buscar qualquer coisa para enganar o estômago, nem que fosse um pouco de feijão-frade recheado com gorgulho.
Trinta kilómetros não são muito para os nossos dias, mas, naquele tempo e naquelas circunstâncias, demorava-se quase um dia a percorrer o trajeto.
 
É que palmilhar a serra Mapé era dobrar o nosso cabo das Tormentas.

Kilómetro quarto… nem sei descrever com precisão o que se passou: Um estrondo sem medida, a grande aventura de voar sem asas, alguns feridos, uma berliet com a frontaria toda estragada, o Lameira a berrar pelo mato fora… que grande confusão!
Depois disto tudo e enquanto ouvia as lamúrias do Capitão Alcides, por a berliet estar danificada, vi o nosso entendido em Transmissões, com a cara toda enfarruscada e um sorriso sem convicção, a sair penosamente da cavidade que o rebentamento da mina tinha provocado.
Até me esqueci que a minha perna direita estava a sangrar e ri-me, ri-me com vontade, depois de ouvir o seu desabafo:
-Meu Alferes, estava-se ali tão quentinho!
 
Era assim na Mataca:
Palco de coisas simples, terra de minas e local de sinais contraditórios onde amizade; alegria e juventude conviviam com guerra; fome e sede… morte.
 
Hoje, bamboleando entre o pesadelo e a saudade, atrevo-me a afirmar que a Mataca, além de ter sido o degredo de muita gente, também foi uma grande escola, onde jovens mais ou menos ingénuos se tornaram em adultos experientes que aprenderam a superar as dificuldades da vida.
 
Hoje, a muitos anos de distância, continua a ser grande, o simbolismo da Mataca:
É muito bonito, sempre que uns poucos sexagenários da C.Caç.2555, comandados pelo nosso “Escrita,” continuam a transformar-se em adolescentes, quando, num alegre convívio, teimam em reavivar, por um dia, as recordações do tempo em que riram, trabalharam e sofreram juntos na “Terra de minas, entre os cafres”!
 
Manuel Correia
 





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    Jorge Manuel Almeida Fonseca Luís Leote, uma pergunta inocente, fez parte da C.C. 2555?????
     
  •  
    Luís Leote Não, amigo Jorge Manuel Almeida Fonseca. Fiz parte da CCav 2750, que rendeu a CCac 2555, se não estiver enganado.
     
  •  
    Armando Guterres E eu fui substituir o Leote CCav 3507. E também cheirei a pólvora, só que estava uns carros atrás.
     
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    Jorge Manuel Almeida Fonseca A 2555 tem muitas histórias que contar, o Cap. Alcides só esteve na Mataca 3 ou 4 meses.
  • Essa mina que deu cabo dessa Berliet foi a única que tivemos na picada para Macomia.
  • Isto logo nos primeiros tempos.
  • Neste dia não apareceu ninguém da aldeia para ir para a sede do Batalhão. o que foi interpretado como sinal de problemas
  • A partir dai não houve nenhuma coluna que não tivesse que ir sempre alguém da aldeia.
  • Os putos estiveram 15 dias sem sobras das refeições. Há mais histórias mas ficam para outro dia.

  •  
    Armando Guterres Todas as colunas foram feitas com população civil.
     
  •  
    Jorge Manuel Almeida Fonseca O José Cruz é que te sabe contar a história completa do Capitão Alcides..
  • Também é de 1ª apanha.
     
  •  
    Americo Maceiras Caetano Mataca, Coveque, Serra do Mapé e Macomia, triângulo da morte...
  • Um conterraneo está num lar porque esteve na Mataca em 1968/69.
  • Como Sapador da CCS em Macomia do BC 2837 socorri diversas colunas de Mataca a Macomia.
  • Meu amigo de escola primaria caiu, sofreu emboscadas e viveu a historia do Coveque.
  • Ficou traumatizado..
  • Como ele há mais... 
  •   Terreno mau....
  • Graças á coragem de muitos, muitos outros estão ainda entre nos, mas por ex. eu fui em rendição individual, substituir um colega que se foi... no Coveque.
     
  •  
    Fernando Augusto Telles Montenegro Fotos que dizem o que era chuva no tempo dela.
  • Fiz picadas e colunas nestas condições muitas vezes.
  • A minha e todas as Mercedes da Engenharia não tinham capota nem para brisas, era levar com ela até aos ossos.

  • domingo, 20 de outubro de 2013

    ... E o Carnaval são 3 dias

    
    
    
    Picada Macomia - Mataca por Luís Leote

     

     
    ……E o carnaval são 3 dias

    Tudo indicava que ia ser mais uma normal operação de reabastecimento de víveres.

    Saímos de Macomia, com os carros bem atestados de mantimentos, chegámos ao
    Alto do Delepa para começar a descer a Serra do Mapé.

    Eu vinha sensivelmente a meio da coluna, a pensar nas palavras do tenente da CCS....
    “ Ordenou-me que cortasse o bigode, porque na fotografia do bilhete de identidade,
    não o tinha”. Já não era a primeira vez que me tinha avisado.

    De repente, fez-se um alto à coluna.
    As viaturas, que começavam a descer a serra.
    Uma Berliet, voltou-se sobre o lado esquerdo da picada, ficando de rodas para cima,
    e a carga toda espalhada.
    Felizmente, ninguém ficou ferido.
    Lembro-me que, após a comunicação do sucedido via radio, ao comando da CCS,
    a primeira pergunta foi se a viatura tinha ficado muito danificada.
    Nem uma alusão a possíveis feridos!!!
    Apercebemo-nos que tão depressa, não iríamos sair dali.
    Montámos a segurança à volta da viatura, para de seguida preparar o seu resgate.

    Da Mataca veio o furriel mecânico que ao chegar, tratou logo de fazer o registo
    fotográfico.

    Preparámos-nos para passar lá a noite.
    Se a memória não me falha, alguém montou umas latas de ração com pedras lá
    dentro, à volta do perímetro.
    Acho que ninguém conseguiu dormir, especialmente depois de alguém ter dado
    dois ou três tiros na direção das latas que faziam barulho.

    Trazer a Berliet cá para cima, tornou-se uma tarefa complicada, pelo que estava
    à vista uma segunda noite na picada.

    Com duas noites e três dias na picada, estacionados e referenciados, prometi
    que se me safasse da terceira noite, faria a vontade ao tenente e cortaria o bigode,
    o que aconteceu.

    Foi em Fevereiro de 1971, em pleno Carnaval.
    Dizem que o Carnaval, são três dias.
    FOI UM GRANDE CARNAVAL!!!!!
     
    Luís Leote 2013/10/20