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sábado, 1 de abril de 2017

A Pistola 9 mm Walther m/961, por Duílio Caleça


Tempo em serviço 1939 - act.
Calibre 9 x 19 mm Parabelum
Operação recuo curto com culatra fechada
Velocidade de saída do projéctil 365 m/s
Alcance eficaz 50 m
Peso 884 g (carregada)
Comprimento total 216 mm
Alimentação carregador
Miras alça e ponto de mira
Variantes P1, P38K, P38SD e P4

A Walther P38 é uma pistola de 9 mm desenvolvida pela empresa alemã Walther para serviço na Wehrmacht. 
O objectivo era a substituição da pistola Luger P08, cuja produção estava prevista para terminar em 1942.
O conceito da P38 foi aceite pelos militares em 1938, mas a sua produção para testes só foi iniciada em 1939. 
A Walther começou a sua fabricação na fábrica de Zella-Mehlis, produzindo três séries de pistolas de teste. 
A terceira série foi considerada em condições e produção normal da arma foi iniciada em 1940.
A produção manteve-se até depois do final da Segunda Guerra Mundial.

Uso em Portugal
A P38 foi adaptada pelas Forças Armadas Portuguesas em 1961 como Pistola 9 mm Walther m/961, substituindo a Parabellum então em serviço. 
Equipou desde logo as tropas em combate na Guerra do Ultramar. 
Desde essa altura até à actualidade mantém-se como a pistola padrão do Exército Português

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

UMA ESTÓRIA DE GUERRA..., por Joaquim Antero Ferreira

No rescaldo dos acontecimentos do dia 5 de Janeiro de 1969, no Aquartelamento da Cruz Alta, na Serra do Mapé, para além dos 7 Camaradas que pereceram, nesse fatídico dia, foram evacuados mais uma dezena de outros, comigo incluído, gravemente feridos, para a pista do campo de aviação de Macomia.

No local, a confusão era total. 
A juntar ao barulho ensurdecedor provocado pelos helicópteros, que chegavam com a sua carga humana de mortos e feridos (par...a de imediato regressarem à Serra para evacuar mais Camaradas), sobreponham-se os gritos dos feridos em conflito com as ordens e contra-ordens dos diversos intervenientes no socorro, sendo de destacar as do Comandante do Batalhão (que gostava de "estar em todas") desde que previamente estivesse garantida toda a segurança!

Depois de ter sido feita a triagem, os mortos por lá permaneceram, para serem, posteriormente, sepultados no Cemitério da Missão.

Os feridos, depois de nos serem prestados os primeiros socorros, lá fomos, gradualmente evacuados para o "Hospital" de Mueda, onde ficámos até ao dia seguinte, juntamente com outros Camaradas que lá se encontravam.

No dia seguinte, alguns de nós, acabámos por ser evacuados para o HM 125, em Nampula, dado a gravidade dos ferimentos. 

Decorridos 28 dias, regressei à Serra.

Ainda hoje, decorridos que são 48 anos, após este fatídico acontecimento, ainda tenho bem presente, lá no sítio onde se guardam as memórias, todos os sentimentos de dor, raiva, desespero e impotência que este acontecimento me provocou.
Comentários
Luis Pinto Coelho Octávio Galvão de Figueiredo...cruzei-me com ele em inúmeras situações...desde a crise de Macau (por minha curiosidade de eventos históricos; as autoridades chinesas - no tempo de Mao, exigiram a sua demissão de comandante da polícia e saída do território, na época da revolução cultural por volta de 1966) a Chaves em Novembro de 1967, Oasse em 29 de Outubro de 1968 em representação do Comandante do sector B e depois de 25 de Abril de 1974, como elemento do Conselho da Revolução, distribuidor de armas a Edmundo Pedro, relacionado com o Grupo dos 9 (no PREC), e nos Açores, como representante da República na Região Autónoma....
Conversei com ele, na praia da Caparica, uma vez nos anos 80..de forma informal, sobre Moçambique.

Luis Pinto Coelho Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. 
Um potencial revolucionário impressionante. 
Os Guardas Vermelhos surgiram. 
O governo ficou debaixo de fogo. 
De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. 

Macau estava há alguns meses sem Governador. 
Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. 
Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. 
Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. 
A arrogância ao diálogo. 
O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. 

Não podia ter sido pior. 
Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. 
Pior, usaram de arrogância colonialista. 
As tensões exacerbaram-se. 
As posições extremaram-se.

No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. 
As escolas estavam mobilizadas. 
Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. 
Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. 
Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. 
Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. 
Lá estavam guardadas armas e munições. 
Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. 

Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. 
Não havia outra solução. 

O condutor da camioneta é a primeira vítima. 
O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. 
A confusão é enorme. 
Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. 
A multidão dispersa-se. 
Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. 
O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. 

No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. 
No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. 

Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. (in: http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-123-em-1966.html)
Um blogue sobre a história de Macau. 
A blog about Macau's history.
macauantigo.blogspot.com

Joaquim Santos Octávio Q. G. de Figueiredo, um homem que me deu sorte! 
Em 1967 no final do curso em Tavira, discursou a desejar felicidades e boa sorte a todos os instruendos. 
Em 1970 em Tomar, na recepção ao meu Batalhão, desejando a todos felicidades para a vida civil.

Americo Maceiras Caetano E eu a ouvir os rebentamentos em Macomia. Para chegarmos lá a cima para socorro duramos para nós um século...

Sofremos tanto como vós, pois estava lá uma secção de Sapadores.... Terrível dia!! 
O pelotão por culpa desse maldito Octávio Q. G. de Figueiredo voltámos a ter o mesmo pesadelo a 18 de Dezembro 1969 na Cantina Oliveira e pior ainda nos primeiros dias de Fevereiro quando do rebentamento de uma mina quando regressávamos de Tete a caminho de Ribaué.


Jose Monteiro Acontecimentos destes nunca se esquecem.

D'Abranches Leitão G. José Recordações trágicas. ... que só quem as viveu...e sofreu...pode escrever como o caro amigo Joaquim Antero Ferreira! Estive no mesmo "barco", Serra do Mapé ....mas com mais sorte! Abraço fraterno, caro amigo!

D'Abranches Leitão G. José Recordo a minha "estada"....no HM125...

A cadeira de rodas, tinha uma história engraçada, digna de ser relatada!
Era única e por conseguinte quando alguém precisava de ir tirar radiografias ou fazer outro exame e que necessitasse de ser transportado sentado, eu ficava na cama, no meu quarto, até que a dita cadeira me fosse devolvida!

Uma vez por semana íamos ver um filme ao cinema de Nampula!
Voluntários não faltavam para me acompanharem, segurando a cadeira, assegurando assim um bom lugar! 
O “coitadinho” devia ter pisado uma “mina” e merecia um bom lugar! 
Às vezes era difícil explicar porque era necessário a ajuda de 4 ou 5 “enfermos”!!!

Sempre que ouvia o Heli, sinal de que mais vítimas da “guerra” vinham para o hospital, lá estava o “apanhado do clima” na sua cadeira de rodas, junto à pista, para dar o apoio possível!

Viria a saber histórias de Mueda bem no coração de Cabo Delgado, outro inferno, onde havia uma hospital de campanha, que alguns companheiros que entretanto feridos me relataram como sendo muito rudimentar, sendo a sala de operações, digna de uma cena daqueles filmes em que as pessoas mais sensíveis não devem ver. 

Disseram-me que os mortos estavam espalhados pelo chão, nus, como também os vivos à espera de tratamento: as equipas de cirurgiões amputavam pernas, a torto e a direito, “cortando o mal pela raiz”.

Explicando melhor, contavam que muitas vezes só eram amputados pés, mas que mais tarde originavam “gangrenas”, já em Nampula ou mesmo no Hospital da Estrela em Lisboa, e lá teria o infeliz de se submeter a nova cirurgia e lá ficava sem a perna toda!

Um dia, entra pelo meu quarto dentro uma alta patente militar, indagando quem era o Furriel Milº Abranches Leitão! 
Com alguma timidez, lá levantei o braço, pensando que me iria anunciar “algum castigo” pelas tropelias e irreverências. 

Fui informado de que o Estado Maior do Exército tinha recebido um telegrama de Lisboa, para saber se o militar em questão ainda estava vivo! 
Vim a saber que a família “moveu montanhas” para sabe notícias minhas, pois desde a entrada no HM125, que tinha deixado de escrever. 
Uff!
A partir deste momento o Sargento enfermeiro, o tal do hematoma, começou a tratar-me com mais respeito! 
Porque seria.

D'Abranches Leitão G. José Acerca do hematoma do sarg enf°...recordo o que já escrevi. 

Um “sacana” de um Sarg. Enfermeiro, que normalmente acompanhava as ditas senhoras do MNF, considerou-me “apanhado do clima” e até perigoso, só porque um belo dia, num exercício rotineiro de alguns “peões” no corredor, com a minha, nossa (única) cadeira de rodas, o atropelei, pois não avisou que ia a passar!!! 

Julgo que o desgraçado ficou com um hematoma para toda a vida! 

Julgo também que as minhas barbas crescidas entretanto, o roíam de inveja, pois como militar de carreira tinha de andar bem “escamuteado”!

A dita fita métrica que vinha agarrada (brinde) a uma mini pasta de dentes, serviu para mais tarde medir a cama do Cunha, um Furriel Milº do Porto que estava a “lerpar”, mesmo na cama ao meu lado! 

Como o Alferes médico se tinha desenfiado, para o “Bagdad”, que era o Bar mais IN (selecto!) de Nampula, frequentado pelas altas patentes militares, deixou o pobre “vela” a tomar conta de nós. 
Este mesmo “vela” que tentava meter uma seringa nas veias do pobre Cunha, mas que apanhava tudo menos veias. 
Os braços do Cunha pareciam um crivo! 
Depois de obrigar o dito enfermeiro improvisado ir chamar o Alferes médico, começei a acalmar o Cunha, medindo-lhe a cama e perguntando-lhe:
- Queres o caixão em pau-rosa ou em pau-preto!!!??

Com esta “terapia” consegui que o pobre “moribundo” abrisse os olhos e me olhasse com um sorriso, o qual nunca cheguei a perceber!!!?? 

Mas pouco depois chegou o Alferes Médico e o Cunha continuou a jogar a lerpa connosco até ter alta. 
Tinha-se salvo!

Joaquim Antero Ferreira Ainda bem para o Cunha! 😀

D'Abranches Leitão G. José A camaradagem era uma constante! 
A brincadeira da medição da cama, foi bem aceite pelo Cunha. 
Aliás só estes momentos, nos animavam!!!

Joaquim Antero Ferreira Há quem lhe chame "Terapia de Choque"...e, pelos vistos, até resultou!...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Morte Continua Adiada..., por José Leitão



 
Mais uma....
(...)
Anoitece...
...
Procuramos um local seguro para pernoitar...
A humidade é tanta que custa a respirar
O 4° grupo de combate....organiza-se por secções....e são colocados sentinelas .... no morro...com vista para a picada.... O silêncio é a "palavra de ordem"....não se ouve nem um sussurro, apenas o ruído da selva...o cheiro acre, inconfundível da terra húmida de África.... e o hálito característico da floresta....
 
Estes ruídos assustam! diz- me o Vidinha, soldado que é a "minha sombra", para todo o lado!
 
De repente os corpos agitam-se....começamos a ser atacados por formigas "gigantes" que nos sobem pelas pernas...e ferram as partes baixas....
(Não foi bem o que escrevi na altura!?)
 
A disciplina imposta, para que as latas da ração de combate, depois de abertas, sejam enterradas, não é cumprida e as formigas aparecem para jantar.
 
Tento acalmar os soldados....pedindo silencio.
Missão impossível....as ferroadas são dolorosas.
 
O cabo enfermeiro Alves....esgota o álcool...
 
De repente o rádio telegrafista C. Mendes....rasteja até se colocar a meu lado e sussurra-me que está a ver uns vultos...um, dois, três.....quatro.....que distam uns dos outros em intervalos de 10 metros.

São contados 8 guerrilheiros....bem armados....vislumbramos as famigeradas Kalash...e transportam à cabeça uns volumes que nos parecem minas anti-carro, ou talvez mantimentos.

Mas vêm em silencio e vozes, não se ouve nem um sussurro, apenas os passos dos guerrilheiros.
A noite está escura com breu....com um luar envergonhado que tenta romper o cacimbo.
A distancia é considerável....e poderão vir mais atrás outros guerrilheiros.

Reunimos, os Furriéis do meu Grupo e decidimos que ninguém se deve mover...pois tentar apanha-los à mão...seria um suicídio....pois não conhecemos o terreno...
 
Via rádio....já com nenhum à vista, informamos Macomia....do sucedido.
Aguardamos instruções que tardam pois o rádio deu o "berro" ou fica sem sinal....
Estamos muito perto da Ponte do Rio Messalo.
 
Ninguém consegue dormir....amanhece....de repente....vem um pelotão ao nosso encontro...a picada já está vistoriada...sentimos algum alívio....e finalmente o Chai à vista.

O Carias olha para mim sorridente...e com o polegar direito....em sinal de OK...exclama:
- Desta já nos safámos, meu Furriel.
A morte continua a ser adiada!!!

Somos recebidos. ...com sorrisos largos e uns abraços.
Festejamos com umas Laurentinas bem fresquinhas....
 
Escrito num aerograma que servia de post-it....e servia de "diário"
José Leitão
CCAVª 2752
1971
 

domingo, 29 de maio de 2016

Xi patrão. ..não aguente mesmo!!!!!!!, por José G. D'Abranches Leitão



Chai - 1971



Alvorada!
O dia começa a "acordar"!!!
Os cheiros da noite....os ruídos. ... o cacimbo...as rotinas dentro do arame farpado!

Um cipaio aproxima-se da "porta d'armas"...e quer falar com o Alferes médico!
O sentinela. ...faz sinal a um companheiro que já ia de copo de cantil a fumegar...com o "café com leite "...
Vai dizer ao nosso Alferes médico que esta aqui o "Badalo " muito aflito....

- Senhor Médico. ...a minha mulher está a sangrar muito!!!
- O que é que lhe aconteceu?

Sangrar?
Caiu?
- Não Senhor Médico. ...a mulher deita sangue da..da...da....
- oh homem desembucha?
- mijar ...mijar senhor Médico! !!!
- Oh homem o que é que aconteceu?
- Mataco....toda a noite, senhor Médico!


- Vai la buscar a tua mulher!
Corre, grita-lhe o Alferes médico.
Moral da história!
A infeliz....tinha a vagina rasgada! Levou 27 pontos!

O "Badalo" dava jus ao nome.

Receita para a mulher....ir à enfermaria todos os dias para tratamento médico.

Receita para o "Badalo":
Um médico inspirado....arranja as anilhas dos frascos de comprimidos LM. ....que tinham um diâmetro apropriado (cálculo feito com uma margem de mais 2 a 3 cm do normal) e explica ao cipaio que....quando voltar a fazer "máquina "....em de colocar anel no pénis e só introduz até ao limite da anilha!
Como o  sigilo médico não imperava naquelas bandas.....durante o dia a conversa comum....foi a "historia da mulher do Badalo"!!!



- Xi patrão. ..não aguente mesmo!!!!!!!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!, por António Feijó


 
Enviado pelo nosso camarada António Feijó.
 
Obrigado pela partilha!
 
« EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!
 
CHAI, Cabo Delgado, Moçambique.
(Sector B da Zona de Intervenção Norte da Região Militar de Moçambique).

Esta fotografia foi tirada em 24 de Dezembro de 1967, por volta das 10h00.
Era a formatura da Companhia de Cavalaria n.º 1602, aquando da visita do General Augusto dos Santos, Comandante-Chefe das Forças Armadas em Moçambique e do Brigadeiro Costa Gomes.

Na frente deste Pelotão está o Alferes Bourbon que era o seu comandante.
O outro alferes sou eu, adjunto do Comandante de Companhia (até há alguns dias antes desta data, era o comandante interino na ausência do capitão que tinha sido evacuado por ter sofrido um grave acidente).

Na noite desse dia fizemos a nossa consoada.
Era a última que se passava na guerra.
A comissão estava a terminar e todos pensávamos regressar ao seio das nossas famílias, para as nossas terras.

No dia 25 preparamo-nos para ir render o posto avançado n.º 11 (Nantomba), que tínhamos junto ao rio M'salo, muito perto do esporão da Serra Mapé.
Não me recordo a distância certa a que estava: rondava os 20 km, creio.
Às cinco da manhã do dia 26, falei com o Alferes Bourbon antes da sua partida.
Uma coluna-auto ia transportar o seu grupo de combate, mais a secção que ia render aquela que se encontrava no posto há 20 dias, mais cinco dias dos quinze dias que lhe competia.
 
A irregularidade nos prazos de rendição tinha por objetivo evitar a rotina de horários que era propiciadora a emboscadas montadas contra nós.
 
Foi a última vez que falei com ele, como foi, também, a última que saudei alguns dos militares que já se encontravam nas viaturas com as armas na mão.
 
Não tinham chegado as sete horas quando ouvimos longínquas explosões e tiros e, logo de seguida a comunicação rádio a dar conta que a coluna havia caído numa emboscada, havendo mortos e feridos.
 
De imediato seguiu uma coluna de socorro onde fui.
Pouco depois os Alouette III estavam na sede da companhia para evacuar os militares que entretanto tínhamos trazido para ali.
 
É impossível descrever os cenários no local e depois na companhia e, se pudesse, não o faria com certeza.
Tenho as imagens fortemente marcadas na minha memória, já lá vão quase 50 anos.
 
Na fotografia estão assinalados os onze que caíram em combate e os que ficaram gravemente feridos. Não indico os seus nomes.
Tenho-os firmemente gravados no meu coração.
Tinha eu 23 anos.
Era a idade aproximada de todos os militares deste grupo de combate e da maioria daqueles que pegaram em armas para defender o que nos disseram ser parte de Portugal e disso estávamos convencidos.
Os "turras", segundo soubemos mais tarde, estavam à nossa espera há bastantes dias.
 
Eis o testemunho resumido de três dias da minha vida na primeira comissão em África.
Como eu, muitos outros e ás vezes em piores circunstância, viverem em horas, anos das suas vidas, e trouxeram consigo as dores de alma, para as quais não há hospitais e medicamentos que as curem.
 
Lembro-me muitas vezes destes meus infortunados Camaradas de Armas e muito especialmente o faço neste período, no seu aniversário que ocorre neste dia.
Rogo a Deus que os tenha na paz dos justos.
 
A vida de um combatente, daqueles que carregavam a G-3 e todo o seu equipamento às costas e andavam pelo mato ou pelas picadas, distâncias sem fim, sujeitos aos tiros e minas e também às doenças, à fome, à sede e ao cansaço, foi uma epopeia gigantesca que merece o respeito e a gratidão de todos os Portuguesas, seja qual for o quadrante político em que se encontrem.
 
Infelizmente, parece não acontecer algumas vezes, o que sinceramente muito lamento e me contrista.
 
Há dias soube que numa assembleia municipal, um deputado que foi um militar da Força Aérea, ao que parece dos serviços administrativos ou de guarnição, num arrazoado mal construído, falou como combatente para justificar uma lamentável atitude política que repudiava a consagração de um dia na vida da comunidade (que julga representar) para homenagear os Filhos da Terra que caíram em combate, ou em razão dele, ao serviço de Portugal.
Este senhor deputado pode ter as posições que quiser, mas nunca deve invocar que está a fazê-lo em nome dos combatentes, porque não o foi.
É que, nesse tempo, os militares da FA que combatiam e bem, eram os Paraquedistas. os Pilotos e as guarnições dos helicópteros, dos T-6, dos Do-27 e dos Fiats (GU-91) que apoiavam as forças terrestres nas missões de apoio de combate, nos assaltos helitransportados, nas evacuações de feridos, no apoio de fogo às operações que se desenrolavam. (Na Marinha, envolvidos em combate, eram os Destacamentos de Fuzileiros Especiais e as guarnições das lanchas de desembarque).
O serviço dos outros militares da FA, do Exército ou da Marinha era importante ou mesmo muitíssimo importante, mas, por mais complexo que ele fosse, estava a "anos-luz" das dificuldades e perigos vividos pelos combatentes que de facto o eram.
 
A proposta que foi apresentada, teve como base um largo consenso da sociedade civil, por intermédio das suas instituições mais representativas.
Infelizmente não passou na dita assembleia por ter sido rejeitada pelos deputados eleitos por um partido que tinha a obrigação moral de a acolher com agrado e apoiá-la com veemência.
 
Como disse um político português que os mortos só se choram, quando os vivos não os merecerem, teremos de lamentar profundamente o acontecido numa Terra que tanto prezo, e afirmar como tristes são os sinais destes tempos. »
___________________________________
https://www.facebook.com/homenagemaosmilitaresportugueses

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ECAV 1, por Manuel Sousa


Luís Coimbra
Luís Coimbra,
ex- Alferes Mil.º de Cavalaria
actualmente Tenente-Coronel (Ref.)
 
Esquadrão de Cavalaria 1
Vila Cabral
 
Passou a comandar o ECav1 após a morte do Cap. Faria Affonso, em 17Jul1970, durante a operação "Nó Górdio"
Imagem cedida por Carlos Coutinho
 
Porto Amélia
 
Quartel que o Esqº construiu em Porto Amélia
 
Um grupo do Esqº
 
A primeira formatura do Esqº em Porto Amélia
 
Clique na imagem para ampliação
Um grupo do Esqº na minha despedida
 
Um momento de lazer no refeitório do quartel em P. Amélia; o militar em pé à esqª é o Augusto Silva; era o único militar do Esqº que não tinha pelotão; saía com todos eles, todos os dias, acompanhando os condutores do rebenta-minas; por isso mesmo atribui-lhe um estatuto especial, aceite por todos, que era o seguinte: ele tinha uma mulher que arranjou no aldeamento, então, dormia com ela todos os dias, e nem vinha ao quartel; para isso os condutores do rebenta-minas levavam-lhe arma, e coluna para perto da cubata onde viva e recolhiam o Augusto Silva no inicio das escoltas e deixavam-no no mesmo sítio no regresso; e porquê? porque a este militar muitos de nós deviam a sua vida, pois ele era um verdadeiro caça-minas, com um olho de lince incrível; detectou minas sem fim; seguia sempre em pé com uma concentração absoluta na estrada e, porque por lá passava todos os dias sabia distinguir qualquer alteração que se verificasse na mesma; recebeu o prémio Governador Geral e foi louvado por mim e pelo Comandante--Chefe. Ah, e foi colocado no Esqº por castigo, pepois de cumprir um pena na Chefina (penso que era assim quese designava uma determinada prisão)
 
Clique na imagem para ampliação

Sala de refeições construída pelo Esq. 1 em Porto Amélia
 
 
Informação de Manuel Sousa, ex- Furriel Mil.º de Reconhecimento de Cavalaria, do Esquadrão de Cavalaria 1:
 
A esta última foto, posterior à minha passagem pelo Esquadrão, eu Sousa, não posso deixar de fazer o seguinte comentário:
 
Como era tradição no Esq. 1 as refeições eram de muito boa qualidade e igual para todos: oficiais, sargentos e praças que partilhavam o mesmo espaço. Como também se pode ver nas fotos a presença de crianças era possível pois a linguagem era cuidada, sobretudo na presença de oficiais. Também se pode reparar em todas as fotos que, apesar de serem militares operacionais, todos se apresentavam sempre cuidadosamente fardados ou vestidos à civil. A Disciplina era uma exigência constante mas a camaradagem e partilha também o era.
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Memórias da Mataca - “Terra de minas, entre os cafres.”, por Manuel Correia



Verdade, verdadinha, é mesmo este, o significado que o dicionário online de Português atribui à palavra Mataca.
 
Sem dúvidas…terra de minas. Entre os negros…as minas da Mataca!
 
Foi há muito tempo!
Sei que eras das transmissões de Infantaria da C.Caç.2555, sei que eras um bom rapaz, sei que éramos amigos, sei que éramos todos uma família.
Não me lembro do teu nome, porque deve estar enrodilhado nalguma cicatriz da minha memó...ria, mas lembro-me, isso sim, que espalhavas um pouco da tua alegria por aqueles que te rodeavam.

O sol já espreitava na crista da serra Mapé, quando saímos da Mataca para Macomia!
Era necessário ir buscar qualquer coisa para enganar o estômago, nem que fosse um pouco de feijão-frade recheado com gorgulho.
Trinta kilómetros não são muito para os nossos dias, mas, naquele tempo e naquelas circunstâncias, demorava-se quase um dia a percorrer o trajeto.
 
É que palmilhar a serra Mapé era dobrar o nosso cabo das Tormentas.

Kilómetro quarto… nem sei descrever com precisão o que se passou: Um estrondo sem medida, a grande aventura de voar sem asas, alguns feridos, uma berliet com a frontaria toda estragada, o Lameira a berrar pelo mato fora… que grande confusão!
Depois disto tudo e enquanto ouvia as lamúrias do Capitão Alcides, por a berliet estar danificada, vi o nosso entendido em Transmissões, com a cara toda enfarruscada e um sorriso sem convicção, a sair penosamente da cavidade que o rebentamento da mina tinha provocado.
Até me esqueci que a minha perna direita estava a sangrar e ri-me, ri-me com vontade, depois de ouvir o seu desabafo:
-Meu Alferes, estava-se ali tão quentinho!
 
Era assim na Mataca:
Palco de coisas simples, terra de minas e local de sinais contraditórios onde amizade; alegria e juventude conviviam com guerra; fome e sede… morte.
 
Hoje, bamboleando entre o pesadelo e a saudade, atrevo-me a afirmar que a Mataca, além de ter sido o degredo de muita gente, também foi uma grande escola, onde jovens mais ou menos ingénuos se tornaram em adultos experientes que aprenderam a superar as dificuldades da vida.
 
Hoje, a muitos anos de distância, continua a ser grande, o simbolismo da Mataca:
É muito bonito, sempre que uns poucos sexagenários da C.Caç.2555, comandados pelo nosso “Escrita,” continuam a transformar-se em adolescentes, quando, num alegre convívio, teimam em reavivar, por um dia, as recordações do tempo em que riram, trabalharam e sofreram juntos na “Terra de minas, entre os cafres”!
 
Manuel Correia
 





  •  
    Jorge Manuel Almeida Fonseca Luís Leote, uma pergunta inocente, fez parte da C.C. 2555?????
     
  •  
    Luís Leote Não, amigo Jorge Manuel Almeida Fonseca. Fiz parte da CCav 2750, que rendeu a CCac 2555, se não estiver enganado.
     
  •  
    Armando Guterres E eu fui substituir o Leote CCav 3507. E também cheirei a pólvora, só que estava uns carros atrás.
     
  •  
    Jorge Manuel Almeida Fonseca A 2555 tem muitas histórias que contar, o Cap. Alcides só esteve na Mataca 3 ou 4 meses.
  • Essa mina que deu cabo dessa Berliet foi a única que tivemos na picada para Macomia.
  • Isto logo nos primeiros tempos.
  • Neste dia não apareceu ninguém da aldeia para ir para a sede do Batalhão. o que foi interpretado como sinal de problemas
  • A partir dai não houve nenhuma coluna que não tivesse que ir sempre alguém da aldeia.
  • Os putos estiveram 15 dias sem sobras das refeições. Há mais histórias mas ficam para outro dia.

  •  
    Armando Guterres Todas as colunas foram feitas com população civil.
     
  •  
    Jorge Manuel Almeida Fonseca O José Cruz é que te sabe contar a história completa do Capitão Alcides..
  • Também é de 1ª apanha.
     
  •  
    Americo Maceiras Caetano Mataca, Coveque, Serra do Mapé e Macomia, triângulo da morte...
  • Um conterraneo está num lar porque esteve na Mataca em 1968/69.
  • Como Sapador da CCS em Macomia do BC 2837 socorri diversas colunas de Mataca a Macomia.
  • Meu amigo de escola primaria caiu, sofreu emboscadas e viveu a historia do Coveque.
  • Ficou traumatizado..
  • Como ele há mais... 
  •   Terreno mau....
  • Graças á coragem de muitos, muitos outros estão ainda entre nos, mas por ex. eu fui em rendição individual, substituir um colega que se foi... no Coveque.
     
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    Fernando Augusto Telles Montenegro Fotos que dizem o que era chuva no tempo dela.
  • Fiz picadas e colunas nestas condições muitas vezes.
  • A minha e todas as Mercedes da Engenharia não tinham capota nem para brisas, era levar com ela até aos ossos.