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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A estranheza do regresso a casa, por Manuel Bastos

Luís Leote

Cacimbo
Mais uma bela "poesia" de Manuel Bastos!!!
Comprem o Livro..... " Cacimbados - A Vida por um fio "


A estranheza do regresso a casa
....
O táxi passa no Largo da Capela e o sino dá as horas.
Não sei quantas.
As quatro cornetas do relógio elétrico da torre de Aguim esganiçam-se com as ave-marias e depois berram as horas a que ninguém dá atenção.
Acho que as pessoas se habituaram àquele despropósito de decibéis como se habituam a um mau cheiro.

O táxi desce lentamente a rua da Portela com o condutor a esperar pacientemente que as pessoas se afastem.

As pessoas em Aguim conversam nas ruas e afastam-se apenas por gentileza quando um carro quer passar, o que parece ser entendido pelo taxista que não dá sinais de indignação ou sequer de impaciência.

Agora me lembro que o taxista me fez uma pergunta há imenso tempo e respondo meio distraído:
– Sim, isto da perna foi na guerra.
– Foi na Guiné?

É difícil imaginar agora que as pessoas hão de desaparecer das ruas, que um dia a urbanidade há de contaminar esta povoação como uma virose e destruir completamente a sua pitoresca ruralidade e então, por não terem nada que fazer nos campos as pessoas hão de sair das suas casas para os empregos o mais rapidamente possível, deixando as ruas vazias.

É sempre difícil imaginar que uma coisa a que nos habituámos e que criou a identidade de algo que nos era familiar há de desaparecer para sempre, para dar lugar a uma outra coisa no mesmo sítio, não porque seja melhor, não porque constitua uma evolução, mas apenas e tão só porque tudo neste mundo parece estar condenado a cumprir a regra mais cruel e estúpida de toda a criação: tudo tem de ter um fim.

Mas agora e aqui, está tudo na mesma e é isso justamente que me surpreende.
O mesmo ritmo, a mesma respiração, a mesma atmosfera, a mesma vida; como se eu não tivesse saído daqui há mais de meia hora.

Cheguei a casa.
Parece que deixei o filme da “Aldeia da Roupa Branca” a meio, que depois assisti à pior parte do "Dia mais Longo", mas que entretanto regressei.
Tudo na mesma em Aguim e eu muito mais velho.
Segundo a teoria da relatividade, deveria ser o contrário.

Deixei o taxista de novo sem resposta…
– Não foi na Guiné, foi em Moçambique.
– Aquilo lá está mau, não está?

A luz sólida traz-me à memória, por contraste, a luz fluida de África.
Os objetos aqui mais tangíveis, quase ferindo os olhos, como coisas inorgânicas, áridas, quase feitas só de luz, sem a humidade omnipresente da selva que dá a todas as coisas uma viscosidade animal.

Dá-me a ideia que ainda não penetrei totalmente neste mundo, que ainda não me é possível perceber todos os pormenores.
O próprio som no exterior do táxi tem dissonâncias estranhas, como se as vozes das pessoas por quem passamos fossem declamadas com o tom mal colocado e os ruídos que me chegam aos ouvidos tivessem uma estranheza, um desconserto, a fazerem lembrar uma filarmónica a afinar os instrumentos antes do espetáculo.
Parece que estou num plateau durante a rodagem de um filme, sem pertencer ao elenco.

O táxi penetra no cenário, num travelling lento e os figurantes ignoram-no.
Ou antes, passam eles por nós, desfilando de um lado e do outro.

– Aquilo lá está mesmo mau.
– Mas pra si acabou.


Olho a toda a volta tentando prestar atenção a tudo o que me vai envolvendo, tentando apreender os pormenores.
As pessoas rindo despreocupadas.
Duas mulheres falando em voz alta a uma distância de vinte metros, sem esperar que se aproximem uma da outra e continuando a falar alto, mesmo quando já estão frente a frente.
Um gato sobre um muro.
Um cão passando por baixo e o gato enfolando à sua passagem e a esvaziar depois lentamente, à medida que o cão se afasta.

No Sobreirinho, um carro de bois faz com que o taxista pare o táxi.
Uma junta de bois babando-se de dolência e extenuação, arrastando uma enorme carrada de estrume. Os bois, à vez, vão largando sobre o alcatrão do Largo do Sobreirinho, à medida que passam por nós, tartes frescas e fumegantes de bosta.

O taxista abre o vidro como se tivesse sentido convidado para fruir o aroma daquele festim escatológico.
Eu também abro o meu e sinto o cheiro quente do estrume e depois o aroma fresco da bosta.
De janelas abertas, o som do exterior aumenta e torna-se mais natural como se tivéssemos ambos regulado o equalizador de uma aparelhagem sonora.

O carro de bois segue pela rua da Lomba e o táxi faz os últimos 100 metros atrás dele, ao ralenti.

– É verdade… Para mim acabou.
– Você tem saudades disto, não tem?

Algo muda em mim repentinamente.
Como quando temos uma dúvida e de repente se nos faz luz; como quando estamos dolentes com a preguiça matinal, sem vontade de abrirmos os olhos e de repente sentimos a lucidez da vigília; como quando estamos distraídos no meio de uma multidão de estranhos e de repente um rosto familiar sorri para nós.
Realizou-se tudo em meu redor como se eu tivesse acordado.
Cheguei a casa.

Parece impossível, agora, que tenha deixado para trás tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanta ansiedade, tanta dor.
Parece que atravessei um túnel imenso e que acabei agora de sair para a luz do dia.
Um passado de que já não faço parte.
Uma história que não quer ser contada, uma história que já não sinto a menor vontade de contar.

– Tenho mesmo saudades disto…

Cheguei a casa.
A 50 metros à minha frente, a minha mãe e a Ti Maria do Zé Sécio conversam ao sol.


Manuel Bastos
In....Cacimbados - A Vida por um fio.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Guerra colonial: «Cacimbados: A vida por um fio», recomendado por Luís Leote


Este Livro.
Guerra colonial: «Cacimbados: A vida por um fio»



Lisboa – Com uma prosa cativante, onde o humor e tragédia se cruzam espontaneamente, «Cacimbados» de Manuel Bastos, transporta-nos 35 anos atrás para a realidade brutal de luta e sobrevivência de milhares de portugueses coagidos a combater na Guerra Colonial....

Narrando alguns episódios de uma companhia de Artilharia posicionada em Mueda, Moçambique, Manuel Bastos reconstrói um tempo e um espaço carregados de acção.


Com uma expressividade minuciosa, Manuel Bastos vai ao encontro do pormenor para transforma-lo num mundo de significados, sentimentos e reflexões filosóficas sobre a condição humana dos combatentes. 
Conta-nos como «no chão, está um grupo silencioso de fantasmas preparando-se para passar a noite.»

No seu livro, Manuel Bastos, conta o soldado que nunca vacilara «nas picagens das minas, nos golpes de mão, nas emboscadas», cujo rosto nunca «acusa a menor perturbação de espírito», mas que encontra um dia para chorar «de pé apoiado na G3 como se fosse um cajado de pastor».

Manuel Correia Bastos natural de Aguim, conselho de Anadia, foi mobilizado em 1972 para Moçambique onde foi gravemente ferido em combate um ano depois. 

Na sua obra «Cacimbados: A vida por um fio» relata a sua experiência de guerra e os seus efeitos traumáticos.
Titulo: «Cacimbados: A vida por um fio»
Autor: Manuel Bastos
Editor: Babel Editores

Abraço e tenham um Feliz Natal. !!!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Cândido Sorriso de Gioconda


Sobre mim um rosto de mulher mansamente sorridente olha-me com ar profissional, como se olha uma peça de lombo de porco num talho, para avaliar o seu estado de frescura.
Eu estou estranhamente calmo também, deve ser do que o enfermeiro Costa me mandou prá veia.
Ela, que veste uma t-shirt branca em vez da parte de cima da farda, sente-me o pulso e verifica a válvula do saco de soro, mais como se seguisse um ritual do que se acudisse a uma necessidade. 

Haverei de vê-la, um dia numa bicha para o cinema em Lisboa, pôr um marinheiro KO, que lhe apalpou o rabo.
Chutou os sapatos de salto alto, um para cada lado, arregaçou a saia travada até cima, rodopiando sobre si mesma e partiu-lhe a cana do nariz com um calcanhar.
E tudo com aquele ar mansamente sorridente.
 
Agora, olhando-a a repartir a sua serena atenção pelo meu pulso, pelo saco do soro e pelo que resta da minha perna esquerda, entrapada numa ligadura mal amanhada, a sair por entre as tiras do camuflado, que parecem ter sido rasgadas criteriosamente para terem a mesma largura; agora, ali, ninguém diria que seria capaz de partir o nariz a um marujo.

Equilibra-se fazendo um bailado acrobático, à medida que o helicóptero progride, ora adornando para um lado e para o outro, ora dando solavancos que fazem estalar a maca debaixo de mim. O helicóptero tem as portas abertas e ela não parece temer ser lançada borda fora. Dança, dando pequenos paços, fletindo as pernas, passando uma, às vezes, por cima de mim, para o outro lado da maca, sem quase nunca precisar de se apoiar nas mãos, entretidas na sua função de auscultação, palpação e regulação; às vezes dando pequenos piparotes com o indicador no tubo do soro, às vezes aliviando o garrote que me aperta a coxa, às vezes pousando a palma suavemente sobre a minha testa.
 
Baixa-se para me gritar ao ouvido, tentando sobrepor-se à percussão do rotor e ao silvo da turbina do helicóptero: − Tudo bem? − Tenho frio! − É normal! E o cheiro a suor de mulher ficou um pouco a pairar à minha volta.
 
O piloto bate no separador que divide o seu cubículo do resto do habitáculo e fecha violentamente a mão direita sobre o pulso da mão esquerda em sinal de ela deve segurar-se.
 
Só agora percebo os pequenos estalidos na fuselagem do Alouette III − estamos a ser alvejados.
O piloto faz o aparelho adornar completamente, mergulhando para o lado esquerdo e eu vejo a selva ao fundo debaixo de mim.
Uma bota apenas, como um ponto de mira, a meio da porta aberta, a apontar o perigo lá em baixo e o calmo sorriso da enfermeira, agora deitada a meu lado, no chão do habitáculo, com um braço estendido para o saco do soro, passando-me por cima e o cheiro a mulher que traz um pouco de humanidade ao que resta de mim.
 
As feromonas femininas a inundar o macho ferido e a trazê-lo de volta para a vida. Pode ter sido do que o Costa me injetou na veia, mas não tenho nem medo nem pressa. Nem os impactos dos projéteis das Kalashs no helicóptero me assustam.
Aquele sorriso impávido e profissional da enfermeira e a sua atenção mais ao ato médico do que a mim, inspira-me uma segurança quase total.

Se me dissessem agora que aquela enfermeira haveria um dia de ser decapitada pela hélice de uma DO, durante uma evacuação, eu converter-me-ia a uma religião qualquer, só para pedir a deus que a poupasse.
 
Aquele sorriso quase esfíngico, quase angélico, quase humano, quase feminino; a um palmo do meu rosto, a encobrir o medo – porque decerto ela se sente, modestamente, com menos direito a ele do que eu, dedicada à sua missão de salvar, a única missão nobre que há numa guerra; aquele sorriso profissional, que inspira confiança sem violar os limites pudicos da intimidade; aquele sorriso camarada sem o humilhante paternalismo da piedade, fez renascer em mim o amor-próprio e gerar um profundo sentimento de gratidão.
 
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte tive a cobardia dos ateus perante a impotência, face à finitude absurda da vida, e dei por mim a pedir a deus que fosse mentira, que não passasse de uma das muitas mentiras da gerra.
 
Lentamente, com o tempo, a sua imagem desvaneceu-se, o cheiro bom das suas feromonas esfumou-se e o seu sorriso que ministrava como um lenitivo, apenas na dose certa, feneceu devagar na minha memória.
 
Mas quando à minha frente, largando sangue, como se uma fita vermelha lhe saísse pelo nariz, um marujo com ar de rufia se levanta a medo do chão; quando olho para o vulto feminino descalço à frente dele, de saia arregaçada até às calcinhas com aquele ar de Gioconda, sereno, quase terno, de quem se sente na maternal obrigação de cuidar dos desvalidos, a ponto de me parecer ouvi-la dizer: "Tudo bem?... É normal!", não contive as duas grossas gotas de água que inundaram os meus olhos e toda a estrutura racional que sustenta as minhas convicções de ateu, abalaram de alto a baixo.
 
Acho que foi aí que se operou em mim a mais gigantesca transformação metafísica de toda a minha vida.
Entre acreditar que deus não existe e não acreditar que deus existe há mais que um simples trocadilho, há a memória desse cândido sorriso de Gioconda a lembrar-me quão insignificantes somos nós perante os grandes conflitos da existência.
 
A minha falta de fé deixou de ter a arrogância dos que apenas possuem certezas, sejam crentes ou ateus, para passar a ser a simples e modesta assunção da incapacidade de conter dentro de mim, este ser exíguo e perecível, o conceito absoluto e sempiterno de deus.
 
Estarei condenado a ser um limitado descrente, onde não cabe a transcendência divina, mas não nego que todo o meu ser se deslumbra com a sua beleza, enquanto entidade poética.
© Manuel Bastos (*)

Manuel Correia de Bastos, ex-Furriel Mil.º da Companhia de Artilharia 3503, esteve em Mueda (Moçambique), desde 12 de Fevereiro de 1972 até ter sido ferido em combate em 4 de Junho devido à deflagração de uma mina antipessoal.