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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A mulher na Praia, por José Caseiro


A Mulher na Praia
por José Caseiro



Abril de 1974. 
Portugal ficou em festa naquele dia 25, mas havia lá longe na ex-província de Moçambique e já na cidade da Beira, os militares da CART 3503, sem que tivessem a noção do que se estava a passar em Lisboa.

Estavam tristes, não por saberem da revolução, mas por terem o embarque marcado de regresso para a Metrópole no dia 26 e assim se verem obrigados a ficar mais uns dias.

Chegamos a Portugal no dia 28 de Abril de 1974, a CART 3503, sendo a primeira companhia a regressar a Portugal após o 25 de Abril. Regressavam agora, não porque a revolução lhes encurtara a comissão mas sim porque a sua comissão tinha sido longa de mais, porque já fazia 28 meses que lá estávamos, e sempre no pior sítio da guerra em Moçambique, sempre em Mueda, distrito de Cabo Delgado.

Já em Lisboa, com uma chegada muito discreta, quase sem familiares à nossa espera porque quase todos que tinham intenções de irem para Lisboa esperar-nos foram informados por telegrama para não irem, porque o nosso regresso tinha sido adiado e sem data marcada.

Chegado a casa e depois de todos aqueles abraços e beijos a festejarmos o meu regresso, foi tempo, nos dias seguintes, de ir visitar os restantes familiares e amigos e desfrutar este mar maravilhoso na praia de Matosinhos, praia onde passei a maior parte da minha infância e mocidade, praia esta que ao seu lado tem o porto marítimo e de pesca de Leixões, onde os seus barcos saem ao anoitecer para a faina de pesca, e onde, pela manhã as mulheres dos pescadores tinham por hábito irem sentar-se na praia viradas para a entrada do porto esperando que barco onde o seu marido trabalhava regressasse da fauna da pesca.

E cada barco era conhecido por um pormenor, que ao longe só elas reconheciam. 
Depois dirigiam-se para o cais de descarga, levando-lhes o pequeno-almoço.

Como de costume após a chegada do ultramar desfrutava-se um mês de férias, para aqueles que podiam, porque infelizmente alguns, por necessidade iam logo trabalhar, nem tinham tempo para descansar a cabeça, eu felizmente tive a possibilidade de desfrutar até mais que um mês e sempre que podia ia até à praia caminhar, saboreando aquele cheiro da maresia e relaxando com o ondular daquelas ondas calmas da praia de Matosinhos.

Entretanto havia uma mulher vestida de negro que sempre que eu ia caminhar junto à praia lá estava, e enquanto as outras mulheres após a chegada dos maridos iam saindo da praia aquela mulher ali permanecia até tarde.

A mulher do pescador quando de luto, usava um lenço negro que punha na cabeça e cobria grande parte da cara, o que tornava difícil identificá-la ao primeiro olhar, mas a minha curiosidade foi mais forte que eu, a pouco a pouco, fui passando mais próximo para tentar descobrir de quem se tratava, e para meu espanto, aquela mulher era a mãe de um soldado português que tinha morrido no ultramar bem próximo de Mueda em Moçambique, foi meu amigo de infância, tinha embarcado no mesmo dia, no mesmo barco que eu, só que ia em rendição individual, fez a picada de Porto Amélia até Mueda com a nossa companhia, esteve em Mueda alguns dias à espera da companhia porque esta ia rodar para uma zona melhor, pensavam eles, e todo este tempo sempre que podia estava com ele, entretanto a companhia onde ele foi integrado passou por Mueda e ele lá seguiu com ela para o tal lugar que eles pensavam que seria melhor que o buraco onde tinham estado.

Os meses foram passando sem que eu tivesse notícias deste amigo de infância, até que aquele dia fatídico chegou.

Estava eu e o meu grupo de combate, nesse dia, de segurança às Águas quando se começou a ouvir o barulho dos hélis a aproximarem-se de Mueda vindo da direcção onde se encontrava a companhia do meu amigo de infância, olhando para os hélis, algo estranho senti, uma dúvida se levantou que me levou a perguntar a mim mesmo: - Será que…? 
- Tentei esquecer, porque não tinha nenhum indício de quem se tratava e do que se tratava, mas como as más notícias correm depressa, rapidamente soube que tinha sido uma viatura que pisou uma mina anti carro e que a rebentou, originando mortos e feridos graves.

A notícia de que havia mortos preocupou-me, pelo algo estranho que senti quando os hélis estavam a passar por mim, minutos antes. 
Tendo um bom relacionamento com o 1º sargento do hospital, na primeira oportunidade que tive fui pedir-lhe que me deixasse ver os nomes dos feridos e dos mortos que tinham dado entrada naquele dia, na esperança de não encontrar lá o nome do meu amigo.

Foi um choque enorme, um nó na garganta, uma raiva. 
Foram mil e um pensamentos e palavrões que dirigi naquele momento aos autores da morte daquele meu amigo de infância, quando li o seu nome na lista dos mortos.

Pedi para ir ver o corpo mas não foi possível, porque tinha ido para a casa mortuária e esta já se encontrava fechada.

Bastante abalado fui para a flat escrever um aerograma a uma pessoa amiga e vizinha dos pais do falecido, aerograma que levaria, em média, quatro a cinco dias a chegar ao destino, pensando eu, que quando o aerograma chegasse, os pais já eram conhecedores da morte do filho, e aquele aerograma seria a explicação de como aconteceu, o que, segundo a informação que me deram, com a explosão, foi projectado, e ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e teve morte imediata. 

Só que o aerograma chegou no mesmo dia que os dois telegramas que foram enviados aos pais, o primeiro da parte da manhã a dizer que o filho tinha sido gravemente ferido e o segundo da parte da tarde a dizer que não tinha resistido aos ferimentos e tinha falecido.

A pessoa amiga a quem escrevi, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho, deparou com os vizinhos aos gritos e com os pais em pranto pela morte do filho, esteve um pouco junto deles e foi depois para casa, onde só então viu na caixa do correio o meu aerograma. 

Diz-se que as más notícias correm velozes, mas quando chegam todas ao mesmo tempo, fazem pensar que o destino é demasiado cruel.

Passados mais de ano e meio após a morte deste meu amigo vou encontrar a sua mãe ali sentada na praia olhando para o mar dia após dia, achei que deveria ir falar com ela para a confortar um pouco, porque ela sabia que o seu filho tinha ido comigo para o ultramar e que tinha estado comigo em Mueda, mas para mim estava a ser difícil. 

Como seria o início da minha conversa com ela? 
Lá comecei por lhe perguntar se tinha algum familiar a andar ao mar, ao que me respondeu que não; deu-me um grande abraço e beijos de satisfação por me ver, sabendo que eu tinha chegado recentemente do ultramar. 

Aproveitando aquela satisfação de me ver perguntei-lhe:
- Então porque vem todos os dias aqui para praia?
A resposta foi rápida, e deixou-me por momentos sem palavras:
- Venho para aqui esperar pelo navio que levou o meu querido filho para o ultramar e que o há-de trazer de volta para os meus braços.

Sem palavras e sem saber o que fazer, lá encontrei forças para continuar a conversa dizendo-lhe:
- Mas já trouxeram o seu filho porque... 
- Ia dizer-lhe que o filho já tinha falecido há mais de ano e meio, mas ela interrompeu-me: - Dizem-me que o meu filho já veio, mas não acredito, porque ele quando partiu para o ultramar prometeu-me que voltaria para me abraçar, e já lá vão mais de dois anos e ele não voltou para os meus braços.

Quantas mães depois de terem perdido os seus filhos na guerra do ultramar se sentaram à porta de casa, ou aguardaram num caminho, numa estrada, olhando para o infinito na esperança que o seu querido filho aparecesse com as malas nas mãos a correr para os seus braços? 
Como a mãe daquele meu amigo… 

Uma espera em vão, porque o seu filho estava morto e enterrado.
Será que esta mãe, agora já falecida, teria encontrado o seu querido filho na outra vida, e tê-lo-ia abraçado fortemente conforme desejou enquanto viva?

Este meu amigo não deixou apenas uma mãe sem o filho, deixou também uma filha sem o pai, que nunca o haveria de conhecer, pois que quando este embarcou para Moçambique deixou a mulher grávida de poucos meses.

A guerra faz com que tantas desgraças juntas levem a pensar que o destino é mesmo demasiado cruel.

por José Caseiro |

domingo, 29 de maio de 2016

Xi patrão. ..não aguente mesmo!!!!!!!, por José G. D'Abranches Leitão



Chai - 1971



Alvorada!
O dia começa a "acordar"!!!
Os cheiros da noite....os ruídos. ... o cacimbo...as rotinas dentro do arame farpado!

Um cipaio aproxima-se da "porta d'armas"...e quer falar com o Alferes médico!
O sentinela. ...faz sinal a um companheiro que já ia de copo de cantil a fumegar...com o "café com leite "...
Vai dizer ao nosso Alferes médico que esta aqui o "Badalo " muito aflito....

- Senhor Médico. ...a minha mulher está a sangrar muito!!!
- O que é que lhe aconteceu?

Sangrar?
Caiu?
- Não Senhor Médico. ...a mulher deita sangue da..da...da....
- oh homem desembucha?
- mijar ...mijar senhor Médico! !!!
- Oh homem o que é que aconteceu?
- Mataco....toda a noite, senhor Médico!


- Vai la buscar a tua mulher!
Corre, grita-lhe o Alferes médico.
Moral da história!
A infeliz....tinha a vagina rasgada! Levou 27 pontos!

O "Badalo" dava jus ao nome.

Receita para a mulher....ir à enfermaria todos os dias para tratamento médico.

Receita para o "Badalo":
Um médico inspirado....arranja as anilhas dos frascos de comprimidos LM. ....que tinham um diâmetro apropriado (cálculo feito com uma margem de mais 2 a 3 cm do normal) e explica ao cipaio que....quando voltar a fazer "máquina "....em de colocar anel no pénis e só introduz até ao limite da anilha!
Como o  sigilo médico não imperava naquelas bandas.....durante o dia a conversa comum....foi a "historia da mulher do Badalo"!!!



- Xi patrão. ..não aguente mesmo!!!!!!!

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Tinham eles vinte anos, por Vitor Manuel Guerreiro

 
Tinham eles vinte anos
Tinham eles vinte anos
E os amores de tanta gente
Fosse ele um amor qualquer...
Havia sempre uma mulher
A chorar constantemente

Tinham eles vinte anos
Os rapazes da minha terra
Com sonhos no peito ardendo
Foram pela Pátria morrendo
Lutando naquela guerra
Tinham eles vinte anos
Os rapazes do meu País
São homens rindo e chorando
Que em silêncio suportando
Uma guerra que ninguém quis
Hoje com mais vezes vinte anos
São muito mais seus desenganos
Já ninguém sabe quem eles são
Não sabem quantos os estilhaços
Que lhes cortara a alma em pedaços
E lhes magoara o coração
São eles os heróis sem escola
Numa Pátria a apodrecer
Eles só querem gritar a revolta
Àqueles que nada querem saber
Leio estes versos em alta vós
Porque sou Português e o que fiz
Para jamais os jovens e nenhum de nós
Esqueçam os combatentes do meu país

Victor Manuel Guerreiro

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Cândido Sorriso de Gioconda


Sobre mim um rosto de mulher mansamente sorridente olha-me com ar profissional, como se olha uma peça de lombo de porco num talho, para avaliar o seu estado de frescura.
Eu estou estranhamente calmo também, deve ser do que o enfermeiro Costa me mandou prá veia.
Ela, que veste uma t-shirt branca em vez da parte de cima da farda, sente-me o pulso e verifica a válvula do saco de soro, mais como se seguisse um ritual do que se acudisse a uma necessidade. 

Haverei de vê-la, um dia numa bicha para o cinema em Lisboa, pôr um marinheiro KO, que lhe apalpou o rabo.
Chutou os sapatos de salto alto, um para cada lado, arregaçou a saia travada até cima, rodopiando sobre si mesma e partiu-lhe a cana do nariz com um calcanhar.
E tudo com aquele ar mansamente sorridente.
 
Agora, olhando-a a repartir a sua serena atenção pelo meu pulso, pelo saco do soro e pelo que resta da minha perna esquerda, entrapada numa ligadura mal amanhada, a sair por entre as tiras do camuflado, que parecem ter sido rasgadas criteriosamente para terem a mesma largura; agora, ali, ninguém diria que seria capaz de partir o nariz a um marujo.

Equilibra-se fazendo um bailado acrobático, à medida que o helicóptero progride, ora adornando para um lado e para o outro, ora dando solavancos que fazem estalar a maca debaixo de mim. O helicóptero tem as portas abertas e ela não parece temer ser lançada borda fora. Dança, dando pequenos paços, fletindo as pernas, passando uma, às vezes, por cima de mim, para o outro lado da maca, sem quase nunca precisar de se apoiar nas mãos, entretidas na sua função de auscultação, palpação e regulação; às vezes dando pequenos piparotes com o indicador no tubo do soro, às vezes aliviando o garrote que me aperta a coxa, às vezes pousando a palma suavemente sobre a minha testa.
 
Baixa-se para me gritar ao ouvido, tentando sobrepor-se à percussão do rotor e ao silvo da turbina do helicóptero: − Tudo bem? − Tenho frio! − É normal! E o cheiro a suor de mulher ficou um pouco a pairar à minha volta.
 
O piloto bate no separador que divide o seu cubículo do resto do habitáculo e fecha violentamente a mão direita sobre o pulso da mão esquerda em sinal de ela deve segurar-se.
 
Só agora percebo os pequenos estalidos na fuselagem do Alouette III − estamos a ser alvejados.
O piloto faz o aparelho adornar completamente, mergulhando para o lado esquerdo e eu vejo a selva ao fundo debaixo de mim.
Uma bota apenas, como um ponto de mira, a meio da porta aberta, a apontar o perigo lá em baixo e o calmo sorriso da enfermeira, agora deitada a meu lado, no chão do habitáculo, com um braço estendido para o saco do soro, passando-me por cima e o cheiro a mulher que traz um pouco de humanidade ao que resta de mim.
 
As feromonas femininas a inundar o macho ferido e a trazê-lo de volta para a vida. Pode ter sido do que o Costa me injetou na veia, mas não tenho nem medo nem pressa. Nem os impactos dos projéteis das Kalashs no helicóptero me assustam.
Aquele sorriso impávido e profissional da enfermeira e a sua atenção mais ao ato médico do que a mim, inspira-me uma segurança quase total.

Se me dissessem agora que aquela enfermeira haveria um dia de ser decapitada pela hélice de uma DO, durante uma evacuação, eu converter-me-ia a uma religião qualquer, só para pedir a deus que a poupasse.
 
Aquele sorriso quase esfíngico, quase angélico, quase humano, quase feminino; a um palmo do meu rosto, a encobrir o medo – porque decerto ela se sente, modestamente, com menos direito a ele do que eu, dedicada à sua missão de salvar, a única missão nobre que há numa guerra; aquele sorriso profissional, que inspira confiança sem violar os limites pudicos da intimidade; aquele sorriso camarada sem o humilhante paternalismo da piedade, fez renascer em mim o amor-próprio e gerar um profundo sentimento de gratidão.
 
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte tive a cobardia dos ateus perante a impotência, face à finitude absurda da vida, e dei por mim a pedir a deus que fosse mentira, que não passasse de uma das muitas mentiras da gerra.
 
Lentamente, com o tempo, a sua imagem desvaneceu-se, o cheiro bom das suas feromonas esfumou-se e o seu sorriso que ministrava como um lenitivo, apenas na dose certa, feneceu devagar na minha memória.
 
Mas quando à minha frente, largando sangue, como se uma fita vermelha lhe saísse pelo nariz, um marujo com ar de rufia se levanta a medo do chão; quando olho para o vulto feminino descalço à frente dele, de saia arregaçada até às calcinhas com aquele ar de Gioconda, sereno, quase terno, de quem se sente na maternal obrigação de cuidar dos desvalidos, a ponto de me parecer ouvi-la dizer: "Tudo bem?... É normal!", não contive as duas grossas gotas de água que inundaram os meus olhos e toda a estrutura racional que sustenta as minhas convicções de ateu, abalaram de alto a baixo.
 
Acho que foi aí que se operou em mim a mais gigantesca transformação metafísica de toda a minha vida.
Entre acreditar que deus não existe e não acreditar que deus existe há mais que um simples trocadilho, há a memória desse cândido sorriso de Gioconda a lembrar-me quão insignificantes somos nós perante os grandes conflitos da existência.
 
A minha falta de fé deixou de ter a arrogância dos que apenas possuem certezas, sejam crentes ou ateus, para passar a ser a simples e modesta assunção da incapacidade de conter dentro de mim, este ser exíguo e perecível, o conceito absoluto e sempiterno de deus.
 
Estarei condenado a ser um limitado descrente, onde não cabe a transcendência divina, mas não nego que todo o meu ser se deslumbra com a sua beleza, enquanto entidade poética.
© Manuel Bastos (*)

Manuel Correia de Bastos, ex-Furriel Mil.º da Companhia de Artilharia 3503, esteve em Mueda (Moçambique), desde 12 de Fevereiro de 1972 até ter sido ferido em combate em 4 de Junho devido à deflagração de uma mina antipessoal.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Beijo, Pai!

Encontrei no Facebook esta "obra prima"...
Situações idênticas quantas não terá havido, por esse Portugal fora...
Paulo Lopes (de Torres Novas), certamente, que não terá sido fácil a vida sem um pai...
Espero que não leves a mal e me autorizes a divulgação do teu texto no meu blog...
Só quem passa pelas situações as pode descrever como fazes...

Bem hajas...

Paulo Lopes (Torres Novas)

 
8 de Janeiro de 2014 às 15:45
 
Pai, é certo que ficou um vazio onde muito pouco pudeste deixar, deixando mesmo assim, tanto.
 
O tanto que foste obrigado a deixar para trás em prol de uma demagogia de grandes, quando tudo o que pedias era estar, após um dia de trabalho, com a tua família, concretamente a tua mulher, minha mãe e eu, o teu filho de apenas 3 anos de idade.
 
E os teus amigos… e a tua mãe e irmãos… Para trás ficaram todos, porque foste obrigado, trocando-os pela estupidez do poder de alguns, à imagem de uma espingarda e outro armamento, para matar aqueles que mais nada faziam do que defender o que no fundo sempre foi deles.
 
Durante alguns meses a saudade certamente foi amenizada pela companhia dos outros soldados que como tu combatiam nessas terras de Moçambique e que durante o mesmo tempo foram a tua família!
 
Pai… tanto ficou por fazer, e agora a quem reclamamos, senão a Deus? Porque aos homens não vale a pena…
Infelizmente tudo o que vivi até agora, faz-me desconfiar cada vez mais deles…
 
Pai… faz hoje 40 anos…
40 anos de privação de um pai que não pediu para partir para aquela maldita terra ultramarina, sem que ali tivesse alguma coisa…
 
Pai… porque morreste numa guerra estupida, que não era tua, faz hoje, repito 40 anos…
 
Um beijo para o Céu, onde estás certamente, na companhia dos anjos, compensando-te estes com coisas que essa guerra te tirou…
 
… Do teu filho.