Diversas Crónicas, Vivências, Fotos e outras Recordações traduzidas em texto, de autores diversos da sua passagem pela Guerra, nos territórios da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, nos anos idos de 1961 a 1975...
Estive de cama 3 semanas com os rins avariados e foi o enfermeiro Agapito quem me safou com injecções directas nos rins a frio e desmaiado.
Quando me levantei para ir comer à messe, pesava 42 quilos.
Veio um ataque e pedi ao Sampaio de Op. Especiais que estava num abrigo - Pá - leva-me à minha zona de defesa e ele agarrou-me pelo blusão do camuflado e depois de umas centenas de metros sentou-me no banco do meu obús e depois foi só fazer o que tinha de ser feito.
Nunca senti amargura mas no final de cada ataque, o pessoal trazia 3 ou 4 grades de Laurentina fresquinha, eu bebia de seguida umas 5 ou 6 e ficava em paz comigo mesmo!
Esse ataque em 2 de Abril de 1974 começou às 8:05 da manhã e só acabou às 12:40.
Usei granadas de fumo para proteger o nosso pelotão das águas, anulei duas rampas e fartei-me de usar espoletas de tempo para as outras mas não conseguia nada até que pela rádio ouvi: Daqui Diogo Neto - meu caro Santos, dê-me referências pois vou de Mueda com uma esquadrilha de Fiat.
Depois de seguir as minhas indicações com humildade superior, o Gen. Diogo Neto foi com os restantes, fantástico!
Este triste incidente marcou-me imenso, quer pela data do acontecimento, quer pela maneira como ocorreu e também por privar com alguns homem desta Companhia.
O preço do Pão
publicada por António Silvestre
Olhei para o relógio, eram 10 horas da manhã do dia 31 de Dezembro de 1973 e ali íamos nós a caminho das Bananeiras, uma dúzia de viaturas e cerca de sessenta homens, privilegiados, que tínhamos tido o bónus de ir passar a passagem do ano às Bananeiras.
O pretexto era arranjar a ponte para que a coluna, que no princípio do ano viria de Porto Amélia, conseguisse chegar a Mueda .
Isso era o pretexto, pois a finalidade principal era afastar de Mueda a maioria dos homens da 3503, companhia que em Janeiro faria 24 meses de comissão, em que a insatisfação e até mesmo a revolta já grassava tanto entre os graduados como entre os soldados.
Assim, a caminho das Bananeiras, zona a 15Kms de Mueda, famosa pelas emboscadas aí já acontecidas e pelas minas normalmente aí colocadas, seguiam cerca de 40 homens da 3503 mais 20 e tal homens da engenharia com algumas máquinas.
Os atiradores tinham por missão montar a segurança e fazer a protecção aos homens da engenharia enquanto durassem os trabalhos do arranjo da picada e da reconstrução da ponte.
Comandavam esses homens, o capitão Almeida e o alferes Silvestre, ambos da 3503, que por diversas vezes tinham levantado a voz em defesa dos homens da companhia e portanto não era conveniente estarem em Mueda no dia 1, onde estava previsto haver um almoço de Ano Novo com algumas individualidades vindas de Nampula, de Lourenço Marques e talvez até algum ministro da Metrópole, os quais faziam o sacrifício de nesse dia se deslocarem às zonas de guerra para, diziam eles, levantar o moral das tropas, algumas das quais já há quase 24 meses ali se encontravam.
Para evitar que Suas Excelências apanhassem algum susto enquanto estivessem em Mueda, a maioria das tropas operacionais eram colocadas no mato, quer em patrulhamentos afastados quer alguns próximos do arame farpado, de modo que os combatentes da Frelimo se mantivessem o mais longe possível e sem possibilidades de efectuar qualquer ataque.
Assim, além destes homens, outros elementos da 3503 e de outras companhias, foram colocados no mato em defesa afastada de Mueda e também esses estavam portanto impedidos de incomodar as altas individualidades.
Voltei a olhar para o relógio, era meio-dia e avistávamos finalmente a ponte das Bananeiras onde já se encontravam os homens de Nancatári que nos vinham reforçar enquanto durasse a nossa permanência ali.
A companhia de Nancatári, a 3501, companhia do nosso batalhão, formada juntamente com a nossa, dois anos antes em Penafiel, era portanto constituída por amigos comuns, alguns das mesmas terras da Metrópole e que embora a apenas 28 Kms de distância, as circunstâncias não permitiam que se vissem há muitos meses.
Os abraços foram muito, durante alguns minutos contaram-se histórias e recordaram-se amigos já desaparecidos.
De Nancatári tinham vindo dois pelotões, um que ficaria connosco e outro que regressaria a Nancatári imediatamente, pois o aquartelamento distava apenas 12Kms e como todo o trajecto tinha sido picado nessa manhã, decerto não tinha havido tempo para os homens da Frelimo colocarem novas minas.
Mas nessa noite era a noite de passagem de ano, pelo que ficou combinado que logo de manhã um grupo comandado pelo Capitão Almeida que não conhecia Nancatári, iria a esse aquartelamento buscar pão mole, algumas bebidas e talvez mais qualquer iguaria que nos ajudasse a passar melhor o dia de Ano Novo no mato.
Depois deles partirem ali ficámos nós, a pensar que na Metrópole a maioria das pessoas da nossa idade estavam preocupadas com o local onde iriam passar o reveillon ou com o que levariam vestido e nós ali, preocupados em organizar a defesa para o caso de nessa noite sermos atacados.
Quando o sol se pôs e se fez noite, já instalados debaixo das viaturas ou em valas, cada um de nós bem abastecidos de bebidas que tínhamos trazido para a ocasião, resolvemos festejar, sozinhos e em silêncio, outros em pequenos grupos, fomos bebendo e pensando na Metrópole, bebendo e pensando na Metrópole, pensando na Metrópole e bebendo, até que à meia noite nos esquecemos onde estávamos e alguns mais efusivos resolveram mandar algumas granadas e alguns tiros para o ar, fazendo dessa forma com que alguns animais da selva soubessem pela primeira vez nas suas vidas que aquela era a noite de passagem de ano.
A pouco e pouco os corpos foram cedendo ao cansaço e o sono tomou conta da maioria dos homens, apenas os que estavam de sentinela tinham que esperar de olhos bem abertos a sua vez de serem substituídos por outros nessa tarefa.
Seis e meia da manhã, uma vintena de homens preparavam-se para ir a Nancatári, quando um rebentamento muito próximo nos fez tomar consciência que, dia de Ano Novo ou não, estávamos na guerra e estávamos a ser atacados.
Ao segundo rebentamento apercebemos-nos que tudo se passava a dois ou três Kms de distância, o que confirmámos imediatamente a seguir quando começámos a ouvir as kalashs da Frelimo e a resposta de algumas G3.
Alguém gritou: devem ser os homens de Nancatári que nos vêm trazer o prometido pão quente.
Imediatamente os homens que já estavam preparados para ir a Nancatáti saltaram para cima das viaturas e sob o comando do Capitão Almeida arrancaram picada fora nessa direcção.
Passados dois ou três Kms depararam-se com uma situação dramática de meia dúzia de homens a tentarem sobreviver e a defenderem-se estoicamente a si próprios e a cerca de uma dezena de companheiros que bastante feridos não estavam em condições de o fazer.
A Frelimo durante a noite tinha montado um fornilho (várias minas ligadas entre si) e preparado uma emboscada para atacar os elementos que sobrevivessem às minas.
Eram uma dúzia e meia de homens que lutavam pela vida, heróis anónimos, que tinham arriscado, voluntariamente as suas vidas para levarem aos seus camaradas no mato o tão prometido pão mole e mais alguns mantimentos.
A chegada de reforços impediu que a Frelimo levasse até ao fim os seus intentos, mas já não impediu vários homens de perderem a vida e outros de ficarem feridos com mais ou menos gravidade.
O pão, esse não me lembro se chegámos a comê-lo, mas foi sem dúvida o pão mais caro de que alguma vez tive conhecimento. Não pagámos em escudos, nem em qualquer outra moeda, pagámos em sangue e em vidas, pois o preço final saldou-se por 4 mortos e 8 feridos.
Entretanto em Mueda as tais altas individualidades tiveram direito ao seu almoço com as tropas, tendo ao fim do dia partido novamente de avião para as suas comissões em terras do Sul, sem qualquer perigo de minas ou de emboscadas.
Partiam contudo com as consciências tranquilas, pois já podiam dizer que tinham passado um dia em zona de guerra e tinham voltado sãos e salvos.
Quem sabe, até talvez tivessem direito a mais uma condecoração.
Entretanto no mato, onde ainda ficámos vários dias, não voltámos a ser reabastecidos, pelo que nos restantes dias comemos sempre pão duro.
publicada por António Silvestre | 15:17
5 Comentários:
Awnónimo disse...
Este é o tipo de escrita que qualquer ex-Combatente entende.
Os meus parabéns ao António Silvestre.
Conheço (já lá vão trinta e tal anos) a localização das Bananeiras e Nancatari.
Um abraço pela inspiração da sua escrita.
João Azevedo
7 de Janeiro de 2008 às 15:21
Azevedo disse...
Não. Não sou um anónimo.
Estive realmente em Mueda durante 18 meses consecutivos, em colunas de segurança, constantes, num periodo de minas em que o IN pretendia atrasar a ampliação do AM de Mueda, para receber os Fiat's para a "malfadada" Nó Górdio.
Última operação em que participei, sediado no Sagal.
Fui um homem sempre da picada com o ESQ. CAV. 2 de Mueda e sei apreciar um bom texto, este que tive o prazer de publicar no "O COMBATENTE DA ESTRELA". que mereceu o maior aplauso de todos quantos o leram. Ver www.cazevedo.com.sapo.pt . É com estes textos que se compreende a guerra que travámos.
Obrigado camarada Silvestre.
Boas Festas.
João Azevedo
Ex-Alferes Miliciano
7 de Janeiro de 2008 às 15:24
joaquim disse...
Olá camaradas de armas,sou antigo combatente estive em moçambique em Nancatari em princípios de 1974, e lembro-me bem de ter ouvido essa situação do fim do ano na picada das bananeiras.
No que diz respeito á picada de Nancatari Mueda, fiz duas picadas para lá e sei bem o perigo que representa as "bananeiras",pois fomos alvo de ataques ,e tive de rebentar algumas minas anti-carro nessa picada.
Um grande abraço para todos os ex combatentes.
Furriel mil.Dias C. Caç.4153
3 de Maio de 2010 às 22:04
Silverio, trms disse...
Também estive em Nancatari, AGO69/JUL70, CCAÇ 2450, conheço as Bananeiras e ponte do rio Mueda que a FRELIMO dinamitou em JUN70 antes da Nó Górdio, local onde 1 furriel e 1 alferes da minha companhia ficaram sem perna e pé, respectivamente, numa segurança a coluna Nampula/Mueda.
Um muito obrigado ao Silvestre pelo artigo, transcrevendo com muita realidade a situação vivida e aquilo que pensavam as "chefias" sobre a tropa de base.
Votos de bom ano.
Joaquim Silvério
Ex-furriel miliciano
3 de Janeiro de 2011 às 17:29
Inácio disse...
Apesar de já terem passado 40 anos, lembro-me perfeitamente desse tragico incidente. Estava em Muirite, local onde pessoal de Nancatari ia receber as colunas que vinha da da picada de Montepuez,a fim de as acompanhar ate Mueda. Por termos privado algumas vezes com pessoal desta companhia ao recebermos a notícia, ficámos em choque.
Um abraço para o pessoal de Nancatari.
5 de Abril de 2014 às 15:27
José CaseiroPedro Inácio Eu sou da C.ART. 3503 por acaso eu não fui para as bananeiras na passagem de ano de 73 para 74 porque tinha saído para o mato no dia 25 de Dezembro, dia de Natal e andei três dias lá, embora a maior parte do pessoal fosse do meu pelotão, mas ao fim de dois anos de Mueda, ali já não havia pelotões, era o pessoal que estava disponível. Quanto ao acidente saber que tinham morrido amigos quando estava-mos quase no final da comissão foi chocante, mas esta companhia ainda veio a ter mais azares depois deste, quanto ao Silvestre é um amigo do coração, um irmão é tudo que se possa dizer de um ser humano nosso amigo.
Tínhamos acabado de chegar ao Niassa, a 12 de Agosto/71, “chequinhas” de todo.
Checa era a palavra que, em Moçambique, designava o Maçarico, o novato, o recém-chegado.
Ficou a CCS em Metangula, verdadeira estância turística, enquanto as Companhias 3393 e 3392 foram para Nova Coimbra e Lunho, respetivamente.
Estávamos no período de adaptação à guerra propriamente dita.
Até ali tudo não passava de teoria, agora as coisas eram mesmo a sério e muito diferentes de tudo o que se tinha aprendido durante os meses de “prática” no pacífico rectângulo europeu.
Agora eram mesmo as nossas vidas que se encontravam em jogo.
Os conselhos dos “velhinhos” eram escutados atentamente e cada um procurava tirar destes conselhos o maior partido possível.
Velhinhos eram os militares que nós, Checas, íamos render nas respectivas missões, e que já tinham muitos meses de Ultramar e, por isso mesmo muita experiência.
Ouvi-los era um acto de inteligência e que apenas nos poderia trazer alguma vantagem.
Casos houve, muitos, em que o desprezo por estes conselhos teve consequências bem trágicas.
Ainda não tinha decorrido um mês e o Major Z, que tinha no Lunho um primo, o Furriel S, decidiu dar repouso aos operacionais do Lunho.
Criou um sistema de rotação em que um pelotão do Lunho era substituído por um pelotão da CCS.
Na CCS apenas havia um Pelotão de Reconhecimento (Pel.Rec.) e foi a este que tocou a sorte de substituir o pelotão do Lunho.
Claro que a ideia caiu na CCS como uma bomba.
A CCS era conhecida, na gíria militar, como os heróis do arame farpado.
Estávamos todos convencidos que a acção militar se limitaria a fazer as picagens nas deslocações entre as nossas companhias – Nova Coimbra e Lunho.
Puro engano, em menos de um mês aí vai um pelotão para o pior buraco do Batalhão e um dos piores do Niassa – o famoso Lunho.
Quando a ordem surgiu não faltaram manifestações de desagrado.
Nenhum dos visados gostou da ideia, bem pelo contrário.
Maldita sorte!
Este desagrado era potenciado pela intenção que estava por trás desta decisão.
Todos sabíamos que a verdadeira finalidade era dar algum privilégio ao primo do major.
Como era possível que ainda não tivesse decorrido um mês e já houvesse necessidade de dar descanso a pelotões do Lunho.
Não tinha decorrido qualquer acto de guerra que justificasse tal decisão.
A indignação ia bem para além dos directamente visados nesta artimanha.
Mas, a tropa é assim mesmo, manda quem pode e obedece quem deve.
Claro que o pelotão do Lunho que foi rendido era o do primo do Major.
Lá foram para o Lunho os heróis do arame farpado, bem a contra gosto.
No famoso dia 23, à noite, a vida corria como de costume.
Na messe de Sargentos e Oficiais celebrava-se o nascimento de um filho do 1º Sargento Jesus (de Chaves) e a noite foi de farra!
A comida mas, principalmente a bebida, foi até dizer, chega.
Quando a festa acabou poucos seriam, ou nenhuns, os oficiais e sargentos que estivessem sóbrios.
Tinham comido bem e bebido ainda melhor.
Foi uma bebedeira quase geral.
Aos tropeções, acabada a festa, dirigiram-se para as camas em que a maior parte caiu sem ter já tino para se despir.
Adormeceram como anjos – anjos trôpegos, claro..
Nas guaritas as sentinelas iam olhando para o vazio sonolentamente.
Nessa noite o pessoal de serviço era todo da CCS e uma das sentinelas era o Miraldo.
De olhos arregalados perscrutava a escuridão do mato.
Qual sono qual carapuça!
Estava bem atento, o Lunho não permitia descuidos, só a sua fama era suficiente para despertar o mais sonolento dos soldados.
Ainda por cima estávamos muito próximos do aniversário da Frelimo.
Face à aproximação desta data as ordens eram mesmo de aumentar o cuidado e reforçar até as vigias.
A Frelimo costumava, no seu aniversário, efectuar sempre alguma acção que pudesse dar algum estrilho na imprensa, nacional e internacional.
O problema era que nunca se sabia onde iria ser efectuada essa acção pelo que todos os quartéis estavam de sobreaviso e prevenção para esta eventualidade.
Entre a meia-noite e a uma da nanhã, o Miraldo que, juntamente com o Barbeiro e o Carvalho, se encontrava de sentinela num posto avançado, constituído por dois bidões de areia e troncos atravessados, começou a ver, ao longe, na direcção do rio Lunho, umas luzes a movimentarem-se.
Estas luzes apareciam e desapareciam por trás dos arbustos, tornando-se, assim, intermitentes.
Alertou os colegas e com a HK21, que havia naquele posto, fez alguns disparos na direcção das luzes.
Estes disparos, efectuados tiro a tiro sem que houvesse qualquer resposta, alertaram o pessoal e não tardou que aparecesse o Capitão Lapa e o Furriel Martins, da CCS, para averiguarem a razão dos mesmos.
Informado do avistamento das luzes o Capitão Lapa deduziu tratar-se de pirilampos e quase repreendeu o Miraldo por ter disparado.
- Vocês são checas e estão com medo.
Ainda não estão habituados a isto.
Checas éramos todos, queria ele dizer que, por se tratar de pessoal da CCS, reagiam como “heróis do arame farpado” sem o calo dos soldados do Lunho.
Dito isto, e como tudo tinha um aspecto normal, retirou-se juntamente com o Furriel.
O Miraldo, não muito convencido, continuou a fazer a sua vigia concentrando a sua atenção na direcção das luzes que tinha visto.
Perto das três da Manhã as luzes voltaram a aparecer mas desta vez já muito próximas da Companhia de Engenharia e, além das luzes, conseguiu vislumbrar também alguns vultos.
Não, não havia dúvidas, não eram pirilampos, andava por ali alguém e este alguém apenas podiam ser guerrilheiros (Turras) sem boas intenções.
Alerta os colegas e com a HK21 começa a fazer fogo de rajada na direcção dos vultos e luzes.
Do meio do mato respondem as Kalashnikov em direção ao quartel.
Das outras guaritas, alertados pelos tiros, começaram também a disparar e tornou-se infernal o barulho que este tiroteio provocava.
Não tardou nada e todos os postos de sentinela disparavam desenfreadamente no sentido das luzes que os tiros das Kalashnikov rasgavam na escuridão.
No silêncio da noite aqueles disparos soaram como trovões.
O pessoal que dormia nas casernas acordou sobressaltado sem se aperceber bem do que se passava. Mas foi um instante!
Apressadamente pegaram nas armas e cartucheiras e, muitos ainda meio despidos, correram para os abrigos que previamente lhes tinham sido atribuídos onde foram engrossar o terrível trovão do tiroteio.
No meio deste barulho infernal mas sobrepondo-se-lhe ouviu-se uma formidável explosão - A ponte do Lunho (Ex-Libris daquele lugar) acabava de ir pelos ares.
Os sargentos e oficiais ainda “anestesiados” acordaram atarantados, sem saber a razão dos disparos.
A forte explosão chamou-os num ápice à realidade.
Era um ataque não havia dúvida.
Pegaram nas armas e cartucheiras e toca a andar em direcção aos abrigos.
O tiroteio era cada vez mais intenso com a chegada do pessoal vindo das camaratas.
Ainda não tinham chegado todos aos abrigos quando começam a cair bombas de armas pesadas.
Uma perto da messe mas do lado de fora do quartel, outra perto da caserna e outra perto das transmissões e parque auto mas também do lado de fora do quartel. Embora perto nenhuma acertou nos alvos mas continuavam a cair cada vez mais perto, umas ao lado e outras dentro do quartel.
O tiroteio aumentava e distinguiam-se perfeitamente os disparos das G3, das Kalashnikov e das metralhadoras pesadas que se encontravam nas guaritas.
A estes disparos sobrepunham-se as granadas das armas pesadas que iam caindo cadenciadamente cada vez mais perto dos respectivos alvos.
O Tigre, um soldado negro, apontador de morteiro, instala o morteiro e começa a ripostar com morteiradas na direcção em que lhe parecia estarem colocadas as armas pesadas dos guerrilheiros. Segundo se dizia na altura, o Tigre chegava a colocar no ar 10 granadas de morteiro antes que a primeira rebentasse.
Quando a primeira caía seguia-se uma cadência impressionante de morteiradas.
Para além da cadência o Tigre foi de uma felicidade extrema pois passado pouco tempo deixaram de se ouvir as bombas das armas pesadas.
Restava apenas o tiroteio das guaritas e abrigos e resposta das Kalashnikov.
A noite foi avançando e o dia começou a dar os primeiros sinais de querer nascer.
As munições começavam a escassear e muitos tinham mesmo gasto todas as cartucheiras de que dispunham.
Os guerrilheiros, face ao silêncio das suas armas pesadas e perante a resposta firme do quartel vendo gorados os seus intentos procuraram embrenhar-se no mato e pôr-se a salvo.
O pessoal do quartel, agora mais encorajado ao pressentir a fuga dos guerrilheiros, redobrou o tiroteio e este só parou quando deixaram de ouvir as Kalashnikov.
Pouco a pouco foi-se estabelecendo o silêncio e, com os primeiros alvores da manhã, todos os olhos procuravam indícios da presença dos guerrilheiros.
Nada!
Todos se tinham posto a salvo no meio do mato, o seu elemento natural.
Tudo isto não durou mais que uma hora mas foi, sem dúvida, a hora mais comprida da vida de quantos a viveram.
Foi feita uma verificação geral e concluiu-se que não havia feridos da nossa parte. Tomaram-se medidas para prevenir novos ataques. Com a chegada do dia e o silêncio instalado começaram, finalmente, a bater mais devagar os corações daqueles bravos soldados que, apesar da falta de experiência deram uma prova enorme de coragem e valor. Tinham ganho a primeira batalha das suas vidas e pelas suas vidas.
Numa inspecção mais pormenorizada verificaram-se muitas paredes com estilhaços das granadas das armas pesadas e alguns estragos de material mas nada de muita monta.
Feita a verificação no exterior viram-se muitos rastos de sangue.
A ponte, a famosa ponte do Lunho, apresentava um rombo que a tornava intransitável.
Um dos tramos da ponte tinha voado e repousava a uns bons metros de distância.
Concluiu-se depois que o ataque tinha sido planeado ao pormenor, da seguinte forma:
- Para os lados do Chissindo, sobranceiro ao vale em que se encontrava o quartel, os guerrilheiros tinham instalado três armas pesadas, dois obuses e um canhão sem recuo (ou dois canhões sem recuo e um obus) dirigindo-as para os pontos estratégicos: Messe de sargentos e oficiais e transmissões, que sencontravam perto umas das outras; casernas dos soldados; parque de viaturas.
Estas armas foram colocadas durante o dia e direccionadas com todo o cuidado;
- Durante a noite os guerrilheiros procuraram envolver o quartel tentando ocupar posições que lhe dessem alguma vantagem sobre o quartel;
- O ataque seria despoletado pelas armas pesadas estando já colocados no terreno os guerrilheiros que após os primeiros rebentamentos apanhariam, de surpresa, os nossos soldados a sair das casernas em direcção aos abrigos.
A acção destinava-se mesmo a tomar o quartel do Lunho ou, pelo menos, causar elevados danos.
Foi o caso da ponte que era a menina dos olhos da companhia e, constituiu, por si só, um pesado revés. .
Veio a saber-se mais tarde que naquele ataque foram mortos cinco guerrilheiros e dois vieram a morrer em função dos ferimentos sofridos.
Também no sítio onde estiveram montadas as armas pesadas se vieram a verificar muitos rastos de sangue.
O Tigre acertou em cheio!
E agora fica a pergunta que me não sai da cabeça desde aquela data: O que aconteceria se não tem havido a “providencial” substituição do pelotão do primo do Major por um pelotão da CCS.
Qual teria sido o desfecho?
Não quero tirar ilações ilegítimas mas esta pergunta nunca mais me abandonou e não sou capaz de encontrar uma resposta.
Teria sido igual o desfecho se não se tivessem sucedido estes “acasos”?
O ataque ao Lunho foi amplamente divulgado, pela sua envergadura, e pelo facto de ter sido sofrido por uma companhia que era “Checa” naquelas paragens.
A tal ponto que este ataque passou a figurar, de autor que desconheço, no famoso Cancioneiro do Niassa.
Nesta canção é evidenciada, sobretudo, a aflição dos “Checas” perante um tal ataque e a falta de munições que a determinado ponto se começou a sentir.
Mas a verdade é que, embora Checas, portaram-se como veteranos e repeliram um dos piores ataques (para o batalhão foi mesmo o pior) que no Niassa aconteceram.
Este ataque ficou marcado de forma indelével na mente de quantos o viveram e é, ainda hoje, lembrado como um dos pontos mais significativos na passagem da juventude para a idade adulta.
Foi para muitos a verdadeira perda da inocência.
A partir daquele dia a vida nunca mais foi o que era.
Este texto baseia-se nos relatos que ouvi directamente dos intervenientes da CCS, neste ataque.
Amadeu Carvalho
P.S.
(Naquele mesmo local, alguns anos antes, em 31de Maio de 1965, foi alvo de uma acção semelhante a famosa Companhia 7 de Espadas – C. Cavª. 754 - de que fazia parte o, ainda mais famoso, ciclista Joaquim Agostinho.
Nesse dia tiveram 6 baixas e mais uma da Companhia de Nova Coimbra que foi em seu auxílio.
A Companhia de Joaquim Agostinho foi uma das que mais baixas sofreu naquela zona, a tal ponto que teve de ser evacuada para a Beira pois foi considerada inoperacional.
Quando uma companhia sofria muitas baixas era considerada psicologicamente incapaz de continuar no teatro de guerra.
Nesta altura ainda não existia o quartel do Lunho e as tropas ali estacionadas encontravam-se alojadas num bivaque (“aquartelamento” feito de tendas de campanha).
(Este apontamento referente à Cª 7 de Espadas foi feito com a colaboração de Eduardo Maria Nunes, do Batalhão de Caçadores 598, um dos que foi em auxílio de Joaquim Agostinho, no dia 31 de Maio de 1965.
O meu agradecimento.
Sobre mim um rosto de mulher mansamente sorridente olha-me com ar profissional, como se olha uma peça de lombo de porco num talho, para avaliar o seu estado de frescura.
Eu estou estranhamente calmo também, deve ser do que o enfermeiro Costa me mandou prá veia.
Ela, que veste uma t-shirt branca em vez da parte de cima da farda, sente-me o pulso e verifica a válvula do saco de soro, mais como se seguisse um ritual do que se acudisse a uma necessidade.
Haverei de vê-la, um dia numa bicha para o cinema em Lisboa, pôr um marinheiro KO, que lhe apalpou o rabo.
Chutou os sapatos de salto alto, um para cada lado, arregaçou a saia travada até cima, rodopiando sobre si mesma e partiu-lhe a cana do nariz com um calcanhar.
E tudo com aquele ar mansamente sorridente.
Agora, olhando-a a repartir a sua serena atenção pelo meu pulso, pelo saco do soro e pelo que resta da minha perna esquerda, entrapada numa ligadura mal amanhada, a sair por entre as tiras do camuflado, que parecem ter sido rasgadas criteriosamente para terem a mesma largura; agora, ali, ninguém diria que seria capaz de partir o nariz a um marujo.
Equilibra-se fazendo um bailado acrobático, à medida que o helicóptero progride, ora adornando para um lado e para o outro, ora dando solavancos que fazem estalar a maca debaixo de mim. O helicóptero tem as portas abertas e ela não parece temer ser lançada borda fora. Dança, dando pequenos paços, fletindo as pernas, passando uma, às vezes, por cima de mim, para o outro lado da maca, sem quase nunca precisar de se apoiar nas mãos, entretidas na sua função de auscultação, palpação e regulação; às vezes dando pequenos piparotes com o indicador no tubo do soro, às vezes aliviando o garrote que me aperta a coxa, às vezes pousando a palma suavemente sobre a minha testa.
Baixa-se para me gritar ao ouvido, tentando sobrepor-se à percussão do rotor e ao silvo da turbina do helicóptero: − Tudo bem? − Tenho frio! − É normal! E o cheiro a suor de mulher ficou um pouco a pairar à minha volta.
O piloto bate no separador que divide o seu cubículo do resto do habitáculo e fecha violentamente a mão direita sobre o pulso da mão esquerda em sinal de ela deve segurar-se.
Só agora percebo os pequenos estalidos na fuselagem do Alouette III − estamos a ser alvejados.
O piloto faz o aparelho adornar completamente, mergulhando para o lado esquerdo e eu vejo a selva ao fundo debaixo de mim.
Uma bota apenas, como um ponto de mira, a meio da porta aberta, a apontar o perigo lá em baixo e o calmo sorriso da enfermeira, agora deitada a meu lado, no chão do habitáculo, com um braço estendido para o saco do soro, passando-me por cima e o cheiro a mulher que traz um pouco de humanidade ao que resta de mim.
As feromonas femininas a inundar o macho ferido e a trazê-lo de volta para a vida. Pode ter sido do que o Costa me injetou na veia, mas não tenho nem medo nem pressa. Nem os impactos dos projéteis das Kalashs no helicóptero me assustam.
Aquele sorriso impávido e profissional da enfermeira e a sua atenção mais ao ato médico do que a mim, inspira-me uma segurança quase total.
Se me dissessem agora que aquela enfermeira haveria um dia de ser decapitada pela hélice de uma DO, durante uma evacuação, eu converter-me-ia a uma religião qualquer, só para pedir a deus que a poupasse.
Aquele sorriso quase esfíngico, quase angélico, quase humano, quase feminino; a um palmo do meu rosto, a encobrir o medo – porque decerto ela se sente, modestamente, com menos direito a ele do que eu, dedicada à sua missão de salvar, a única missão nobre que há numa guerra; aquele sorriso profissional, que inspira confiança sem violar os limites pudicos da intimidade; aquele sorriso camarada sem o humilhante paternalismo da piedade, fez renascer em mim o amor-próprio e gerar um profundo sentimento de gratidão.
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte tive a cobardia dos ateus perante a impotência, face à finitude absurda da vida, e dei por mim a pedir a deus que fosse mentira, que não passasse de uma das muitas mentiras da gerra.
Lentamente, com o tempo, a sua imagem desvaneceu-se, o cheiro bom das suas feromonas esfumou-se e o seu sorriso que ministrava como um lenitivo, apenas na dose certa, feneceu devagar na minha memória.
Mas quando à minha frente, largando sangue, como se uma fita vermelha lhe saísse pelo nariz, um marujo com ar de rufia se levanta a medo do chão; quando olho para o vulto feminino descalço à frente dele, de saia arregaçada até às calcinhas com aquele ar de Gioconda, sereno, quase terno, de quem se sente na maternal obrigação de cuidar dos desvalidos, a ponto de me parecer ouvi-la dizer: "Tudo bem?... É normal!", não contive as duas grossas gotas de água que inundaram os meus olhos e toda a estrutura racional que sustenta as minhas convicções de ateu, abalaram de alto a baixo.
Acho que foi aí que se operou em mim a mais gigantesca transformação metafísica de toda a minha vida. Entre acreditar que deus não existe e não acreditar que deus existe há mais que um simples trocadilho, há a memória desse cândido sorriso de Gioconda a lembrar-me quão insignificantes somos nós perante os grandes conflitos da existência.
A minha falta de fé deixou de ter a arrogância dos que apenas possuem certezas, sejam crentes ou ateus, para passar a ser a simples e modesta assunção da incapacidade de conter dentro de mim, este ser exíguo e perecível, o conceito absoluto e sempiterno de deus.
Estarei condenado a ser um limitado descrente, onde não cabe a transcendência divina, mas não nego que todo o meu ser se deslumbra com a sua beleza, enquanto entidade poética.
Manuel Correia de Bastos, ex-Furriel Mil.º da Companhia de Artilharia 3503, esteve em Mueda (Moçambique), desde 12 de Fevereiro de 1972 até ter sido ferido em combate em 4 de Junho devido à deflagração de uma mina antipessoal.