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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Frente à morte na luta pela vida, Cancioneiro do Niassa

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida

Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida

Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida

Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde pr’a sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida

Frente à morte na luta pela vida

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Pai partiu para a Guiné..., por Maria Gabriela Serrão

Partilhei de - Maria Gabriela Serrão - José Serrão
Guiné

"Um dia, porém, ali desembarcou a guerra, capaz de todas as variedades da morte.
Em diante, tudo mudou e a vida se tornou demasiado mortal." Mia Couto
...
Faz hoje, dia 11 de Novembro, 43 anos que o Pai partiu para a Guiné...
Este dia sempre foi um misto de sentimentos aqui por casa...
Umas horas do dia, o Pai mais triste...
Outras horas mais feliz...
Porque apesar de tudo, esses tempos trazem consigo também boas recordações, bons amigos, bons cheiros, bons sabores, boas cumplicidades...
Até o hábito de fumar cachimbo...

Tenho a felicidade de conhecer muitos amigos do meu Pai que com ele estiverem e apesar de não ter vivido nessa época, ouvi, recolhi e tenho fotos, cartas, bilhetes de avião, descrições, .... de alguns e principalmente do meu Pai...

Que orgulho imenso do meu Pai, do S., do M., do B.D., do I., do D., do A. e de muitos mais amigos que aprendi a conhecer e conviver...
Muitos deles nascidos naquela terra com cor de sangue e barro, mas de uma beleza imensa...
Muitos transportam AINDA (sim, pq o tempo parece não passar por eles...) a mágoa dos companheiros que lá ficaram deixados, as sepulturas que não foram visitadas, os corpos que lá permanecem, os amigos que foram fuzilados, os acordos de Argel, os negociadores (mandatados por quem?), as famílias dos militares africanos, a falta de reconhecimento por parte de alguns... de militares com uma coragem e bravura fora do vulgar (porquê? porque a cor da pele é diferente daquele que transportamos?? Nem quero opinar sobre isso...)...

Ouço muitas vezes mágoa e revolta com misto de alegria e cumplicidade...
Uma confusão de sentimentos?!
Não acho...
Parece-me que foram criados laços num determinado espaço de tempo, que não são passíveis de serem quebrados, que ultrapassam a cor da pele, a localização do solo, o distanciamento inerente aos anos ou até mesmo a religião...
Sim, porque tenho conhecido muçulmanos que mostraram-me a verdade dos Islão...
Que obviamente são contra o terrorismo e apenas praticam a sua fé...
Parece-me cada vez mais que passados 43 anos...
O tempo não apaga e só propaga a saudade de uma terra que tanto sofrimento lhes trouxe...
Mas também tanta cumplicidade!
Meu Deus!!

Agradeço o 25 de Abril também pelo facto de ter feito o meu Pai e outros regressarem...
Pois por esses dias ainda lá andavam...
Regressou com saúde, pelo menos física e assim conheceu a nossa Mãe e mais tarde constituíram a nossa família...

Mas ainda hoje chora o facto de 4 dias antes de 25 Abril 74 ter perdido um grande amigo, cujo filho ainda hoje o contacta...

Bem hajam a todos e ao Pai...
Adoro-te e sinto um orgulho imenso de todo o teu percurso...
És e serás sempre um dos meus exemplos... ponto de referência e orientação
Maria Gabriela Serrão

Nota: Escolhi esta foto tirada pelo meu Pai... Porque acho brilhante e simboliza uma paz imensa numa terra linda que viveu e vive um turbilhão de emoções... Guiné
— com José Serrão.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Ventos de guerra, Cancioneiro do Niassa

De quantos sacrifícios senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
De quantas noites perdidas no mato
é feita a vida de um guerreiro

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

De quantos tiros senhores que me ordenam
é feita a vida de um soldado
De quantas minas senhores que em mim mandam
é feita a vida de um guerreiro

Quem limpa senhores as manchas de sangue
que os jovens deixam na picada
Quem limpa senhores lágrimas choradas
por noivas e mães adoradas

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

De quantas saudades senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
E quantas loucuras senhores que me ordenam
contém a vida de um guerreiro

De quantos desgostos senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
E quanto vinho senhores que me ordenam
se deve beber p’ra esquecer

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

E quantas vezes senhores que em mim mandam
se deve expor a vida ao perigo
E quantos gritos se devem soltar
p’ra se acreditar que está vivo

Quantas ideias tombadas na luta
quantas esperanças perdidas
Quanto sangue deve um jovem verter
antes que o chamem de homem

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo