Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida
Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida
Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida
Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida
Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde pr’a sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida
Frente à morte na luta pela vida
Diversas Crónicas, Vivências, Fotos e outras Recordações traduzidas em texto, de autores diversos da sua passagem pela Guerra, nos territórios da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, nos anos idos de 1961 a 1975...
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Frente à morte na luta pela vida, Cancioneiro do Niassa
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Lisboa, Portugal
segunda-feira, 28 de abril de 2014
De Luanda a Nambuangongo, por José Gonçalves

Será que há por aí algum camarada, que tivesse feito, em 1962, a viagem que descrevo a seguir? Ficava contente por isso, creio que há muitos que a fizeram, posteriormente, correndo estes e outros perigos
De Luanda a Nambuangongo
(17-18Dez1962)
| Luanda |
Chegou a madrugada, esperada e não desejada,
Da partida de Luanda, sem fanfarra nem banda
Pela calada da noite ainda cerrada.

Caxito
Primeira paragem no Caxito. Onde nos foi dito;
A partir daqui, bala câmara e olhos bem abertos.
Ordens dadas às companhias, pelotões e secções
Pela cadeia de comando. Houve tremores discretos.
O caminho, traçado em segredo
Trazia perigos. Reacção imediata, diferente
Em cada um. Dores de barriga, choro, o medo
A ceder à realidade do lugar, sabendo que à frente
Havia guerra, um flagelo na terra.
A próxima paragem no roteiro da viagem
Era Quicabo. Ali vimos, já cadáver o Szabo!
Foi emboscado e morto.
Quicabo
Chegaram também feridos soldados da sua secção!
Via-se um avião e outro avião, os efe oitenta e quatro
Que nos morros lançavam bombas de retaliação!
Foi ali em Quicabo, que vimos e sentimos guerra.
E a primeira morte a caminho do norte...
O norte era já ali, cheio de vida. Eu senti
A natureza, admiravelmente linda,
Pródiga em cores, reflexos, flores e ainda
Um sol diferente rompendo a nebelina,
Fazendo aparecer, árvores imponentes,
Nunca sonhadas, mas sempre reais.
Nos seus ramos, convivem aves e outros animais.
Observações feitas num piscar de olhos.
O tempo era de reacção à emboscada.
De saltos para o chão, para as urtigas e abrolhos,
Quando os tiros numa curva inesperada
Espantaram macacos e aves exóticas lindas...
Após o que se sentiu, um silèncio de morte.
Não havia mortos nem feridos. Que sorte!
Sete Curvas
Quase noite e as Sete Curvas já ali...
Começara, entretanto, a chover e, a picada
Lamacenta e escorregadia, como nunca vi.
Era uma ratoeira para qualquer viatura,
Das noventa e quatro da coluna em movimento.
Nessa noite a picada tornou-se menos segura,
Devido à chuva, ao abatimento
Em vários pontos, o que implicou
Uma paragem até ser dia.
Montou-se a guarda o que levou
Quem não estava de serviço, como eu
A proteger-se , porque se temia
Um qualquer ataque a qualquer hora.
A protecção escolhida foi o abrigo
Que a valeta proporcionava, embora
Numa noite de chuva contínua como aquela,
Naquele local de curvas apertadas, onde a flora
Por tão densa, não permitia ao inimigo
O contacto que aquele tipo de guerra aconselhava.
Dormiu-se com a água a passar-nos por baixo,
Num desconforto inimaginável.
Ao raiar do dia, ainda chovia!
Mas a natureza, sempre amável,
Rapidamente nos ofereceu o calor.
Beira Baixa
A Beira Baixa, pequena povoação,
Foi, entretanto alcançada. Estava ocupada
Pelos Para Quedistas, que com emoção
Receberam os Cavaleiros do Totobola!
Alcunha do comandante da unidade.
Um destemido e intrépido militar
Que se celebrizou pela sua acção em Angola.
Mais alguns quilómetros vagarosos,
Ainda devido, aos efeitos das chuvadas,
E atingimos o Onzo, uma grande fazenda,
Onde militares, sempre engenhosos
Edificaram o aquartelamento. E a lenda
Começou nesse dia. O curso da guerra
Iria sofrer alterações. A vontade tudo move...
Aqui chegou o “três noventa e nove”,
Batalhão de Cavalaria,
Que se dirigia para Norte.
E, depois de um caminho longo,
Alcançou nesse dia,
A terra, onde a guerra
Produzia morte...
Essa terra chamava-se NAMBUANGONGO!
FFSet2010
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Nambuangongo, Angola
domingo, 30 de março de 2014
Para que não se perca a memoria, por Luís Leote

"Para que não se perca a memória."
"Para que não se perca a memória."
Deixo, pois, aqui relatados, não 26 meses de permanência em terras do Norte de Moçambique, mas, principalmente, cerca de 9 meses, "vividos" na Serra do Mapé, algures no distrito de Cabo Delgado (lá para os lados das "Terras Sagradas" da etnia Maconde), designadas, à data, pelos "entendidos" nas lides da guerra, por "Terra de Ninguém".
... Eram cento e poucos "bons rapazes", quase todos eles oriundos das belas terras transmontanas, trabalhadores braçais, na sua maioria, ignorantes em política, como quase todos nós, "Doutores" em amizade, "Irmãos" em camaradagem, resumindo, como era uso dizer-se, "carne para canhão". Pioneiros que foram na "conquista" da Serra "acomodaram-se", em vésperas de um Natal, em 4 buracos escavados no chão, com as próprias mãos e os parcos meios de que dispunham.
Em cada um desses buracos, amontoaram-se uma trintena de homens, armas, munições e pouco mais, para além das inseparáveis e "amistosas" rações de combate e algumas grades de cerveja.
Rodeados de algum arame farpado e de umas "trincheiras", feitas à pressa, com a selva a 50 metros, estavam "prontos e determinados" a defender aquele "pedaço de Portugal" (pouco maior que um campo de futebol) ironicamente chamado "Pousada da Serra do Mapé".
| Cruzamento para Cruz Alta (Serra Mapé) |
Bastaram cerca de 2 semanas, após a "tomada do objetivo", para que, num já esperado raiar do sol, toda a serra "acordasse", estrondosamente, ao som das morteiradas, das "bazucadas", das canhonadas e do sibilar das incontáveis "7.62" disparadas pelas sobejamente conhecidas armas de assalto, as "KALASH", entre outras.
| AK 47 - Kalashnikov |
Bastou a "eternidade" de duas horas, para que 7 dos "bons rapazes", os tais que bebiam cerveja e comiam as rações de combate (por nada mais haver, a não ser o capim), deixassem de o fazer para sempre, enquanto outros, mais de uma dezena e meia, algumas horas depois, conseguissem ser evacuados para o "hospital" de Mueda, com graves ferimentos e mutilações para o resto da vida.
Testemunho de um Furriel Mil° 1968-1970
Nota: A Companhia que fomos render na Serra do Mapé.
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Macomia, Moçambique
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