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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Eu canto p’r’a minha terra, Cancioneiro do Niassa

Eu canto p’r’a minha terra,
Já que não posso lá estar!
E canto p’ra distrair
Quem passa o tempo a chorar!
Canto também, até
mesmo sem rima;
Eu canto porque já estou
apanhado pelo clima!

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

No Lunho, Todos nós temos
Uma missão a cumprir:
“LERPAR” de tacho e correio
E de resto, toca a rir...
Passo, também aqui,
Tempos felizes,
Vendo corridas aéreas
De patos e de perdizes.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

Temos também, como capa,
Oficiais e sargentos,
Que em vez de pé, dizem pata
E são todos rabujentos.
O capitão, porém,
É nosso amigo;
A quem souber cumprir bem,
Dá reforços de castigo.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Em frente ao Neutel D'Abreu - "GORONGOZA"..., do Cancioneiro do Niassa, publicado por Abel Lima

 
 
Do cancioneiro do Niassa:
NEUTEL D'ABREU - "GORONGOZA"

Em frente ao Neutel D'Abreu
A quem roubaram a espada
Existe a Gorongoza
Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos
E de outros animais
Costumam apelidá-los
De Senhores Oficiais

A messe de oficiais
A messe de oficiais

Numas cadeiras de verga
Expostas no grande hall
Lá estão as vacas malhadas
Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos
Que trabalham no quartel
Mal percebem coitadinhos
Que são putas a granel

A messe de oficiais

A messe de oficiais

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Hino do Lunho, Cancioneiro do Niassa

No céu cinzento, sob o astro mudo
Batem as hélices na tarde esquentada,
Vêm em bandos, com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas, à chegada:
Só mandam vir, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.

A toda a parte chegam helicópteros,
Poisam nos tandos, poisam nas picadas...
Trazem no ventre “os cabeças d’ouro”
Que de guerrilhas não percebem nada.

São os reizinhos do Niassa todo.
Senhores por escolha, mandadores sem punho,
Aceitam cunhas e dizem que não,
Passam a ronda sobre os céus do Lunho.
‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,
Só mandam vir e não fazem nada.

Quantos “mercedes”, senhor capitão,
Até agora foram fornicadas?!
Eu bem lhe disse que pusesse os homens
Detectando minas, fazendo emboscadas.

Lendo os papéis, lá na sua ZAC,
Gritam p’ra nós, mui enfurecidos:
- Foi de propósito, foi de propósito,
Foi de propósito que ela foi estoirada.

No chão do medo tombam os vencidos,
Ouvem-se os tiros na noite abafada,
Jazem nos fossos vítimas d’um credo
E não se esgota o sangue da manada.
‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,
Só mandam vir e não fazem nada.

Comem cabrito, comem cabrito,
Comem cabrito e n´s feijoada.
Fazendo a estrada sobre um chão de greda
Fazem-se aterros, pontes e pontões,

Ouvem-se os tiros lá na emboscada
Aqui no Lunho é que há leões!!!
Ouve-se um estrondo, todo o chão tremendo,
Saltam as chispas com grande estupor,

Soam as tubas: - O que terá sido?
- Mudou o chefe deste sector.
Acaba a guerra, eu cá sou bom
Sou candeeiro e também fogão!

- Só quero feridos à segunda-feira!...
- Não quero mais evacuações!...
- O inimigo deve conhecer-se,
Vamos chamá-lo para as inspecções.

Agora queriam arrasar o LUNHO,
Deixar a estrada e largar a pista!
...Ele é que é bom, já ninguém duvida,
Deixa contente qualquer terrorista.

Encher o peito de metal brilhante,
É essa a sua aspiração.
Por isso deixa os turras sózinhos
Dentro a linha de contenção.

- Deixem crescê-los,organizar-se,
Depois eu vou deitar-lhes a mão!
Tremem as paredes de qualquer quartel,
Falam militares, anda tudo à bulha!...

Ri-se o capitão, ri-se o coronel,
Com esta merda da mini-patrulha!
Estranha maneira de tratar o cancro,
Que se propaga por nossa nação!...

Ele será leigo ou talvez ceifeiro.
Mas nunca médico cirurgião.
‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,
Só mandam vir e não fazem nada.

Senhor comandante de batalhão,
Invente mais uma operação
E distribua mais uma ração,
Mais quatro noites a dormir no chão...
‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,
Só mandam vir e não fazem nada.

Por uma ponte sem terminação,
O nosso sangue foi sacrificado,
Mas aleluia!, não será lembrada,
Pelos cabeças de ar condicionado.
‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,
Só mandam vir e não fazem nada.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ventos de guerra, Cancioneiro do Niassa

De quantos sacrifícios senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
De quantas noites perdidas no mato
é feita a vida de um guerreiro

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

De quantos tiros senhores que me ordenam
é feita a vida de um soldado
De quantas minas senhores que em mim mandam
é feita a vida de um guerreiro

Quem limpa senhores as manchas de sangue
que os jovens deixam na picada
Quem limpa senhores lágrimas choradas
por noivas e mães adoradas

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

De quantas saudades senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
E quantas loucuras senhores que me ordenam
contém a vida de um guerreiro

De quantos desgostos senhores que em mim mandam
é feita a vida de um soldado
E quanto vinho senhores que me ordenam
se deve beber p’ra esquecer

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo

E quantas vezes senhores que em mim mandam
se deve expor a vida ao perigo
E quantos gritos se devem soltar
p’ra se acreditar que está vivo

Quantas ideias tombadas na luta
quantas esperanças perdidas
Quanto sangue deve um jovem verter
antes que o chamem de homem

São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo
Que a hora que passa é de perigo