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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

domingo, 22 de janeiro de 2017

Operação Canacassala..., por M. Aldeias

Operação Canacassala
ou
A última operação da Força de intervenção na região dos Dembos.

Acampamento no Canacassala, em Dezembro de 1972
O local onde, de 4 a 21 de Janeiro de 1973, a Força de Intervenção (FI) instalou a sua base provisória tinha sido uma criteriosa e excelente escolha estratégica. Situava-se no cimo de um enorme morro, perto da antiga ponte sobre o rio Onzo e junto da famigerada e perigosa picada “Via Láctea”, que saía de Nambuangongo, a cerca de 180 kms a norte de Luanda, e se embrenhava sinuosa e caprichosamente algumas dezenas de quilómetros pela majestosa, agreste e selvagem floresta dos Dembos. Era uma zona muito acidentada, de difícil acesso e com florestas virgens impressionantes, que cobriam de um manto verde a perder de vista os vales que serpenteavam os morros.
Era algures no seio desta medonha, misteriosa e densa mata, aproveitando-se das excelentes e únicas condições de refúgio que lhes proporcionava, que o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) tinha instalado, desde há algum tempo, o quartel-general da 1ª Região Militar. Daqui saíam os seus astutos e destemidos guerrilheiros para montar minas, emboscadas e ataques aos aquartelamentos das nossas tropas, disseminados por esta vasta e remota região.
Ao contrário das tropas de quadrícula, que apenas actuavam e tinham sobre a sua responsabilidade as zonas onde estavam instaladas, a FI encontrava-se baseada em Luanda, donde saía por períodos de duas a três semanas para qualquer local do norte de Angola onde o inimigo estivesse mais activo e agressivo. Efectuava vários tipos de acções, desde emboscadas a golpes de mão, destruição de bases inimigas, e também nomadizações, que consistiam no patrulhamento apeado de determinadas zonas, para procurar indícios da guerrilha e criar instabilidade nas suas tropas. Findas estas difíceis e extenuantes operações, regressava a Luanda e aí recuperava da intensa actividade operacional a que fora sujeita.
O Batalhão de Caçadores 3848 era constituído pela Companhia de Comandos e Serviços (CCS) e três companhias operacionais: os Escorpiões, os Carolas e os Panteras, que tinham adquirido uma vasta e inigualável experiência operacional durante os dezasseis longos meses passados como tropa de quadrícula na conturbada região de Nambuangongo, uma zona de guerra por excelência.
Agora, estas três companhias estavam acampadas na nova base de Canacassala, onde, nos últimos dias, vinham desencadeando várias operações de nomadização, emboscadas e golpes de mão às bases IN com o intuito de aliviar a pressão que o MPLA estava a exercer na zona.
A derradeira e mais desgastante operação estava reservada para Os Carolas. Tinha como objectivo assaltar e destruir as bases IN referenciadas e prosseguir em nomadização até ao aquartelamento da Beira Baixa, onde seriam recolhidos para regressarem em coluna a Luanda.
Aproveitando-se da escuridão protectora da noite, Os Carolas saíram, levando à frente como guia um homem natural da zona e elemento de um dos Grupos Especiais de tropas nativas, os GEs, como eram habitualmente conhecidos.
Com cerca de trinta anos, aparentando boa robustez física, o nosso guia GE envergava uma farda exactamente igual à nossa, ou seja, camuflado, boné e botas para todo o terreno. Na cara brilhavam-lhe dois olhos inteligentes e perspicazes e uns dentes brancos como a cal, que contrastavam coma cor escura da pele. A meio da testa, sobressaía uma profunda cicatriz provocada por um ferimento de bala. De mãos fortes e calejadas, segurava numa a espingarda metralhadora, enquanto com a outra empunhava a catana, com que ia cortando o labiríntico emaranhado de lianas e outros arbustos que lhe surgiam no caminho. Abria desta forma um estreito e apertado túnel, por onde, em fila indiana e no maior silêncio, íamos progredindo lentamente. A meio da fila onde me encontrava, o silêncio era apenas quebrado pelo leve ruído das botas que pisavam as folhas secas.
Teria sido muito menos extenuante e cansativo avançar pelos trilhos existentes na mata, se isso não fosse perigoso e arriscado, porque eram propícios a emboscadas, a minas escondidas e outras perigosas armadilhas. Apesar da enorme tentação em os utilizarmos, o bom senso impunha-nos o sacrifício e a segurança: a abertura de novos trilhos nunca antes utilizados através de uma densa, misteriosa e quase impenetrável selva. Além do mais, ainda estava fresco na nossa memória o enorme buraco provocado por um desses temíveis e traiçoeiros engenhos, que, dias antes, levara a perna a um camarada nosso.
Caminhávamos há já alguns dias de armas aperradas, olhos e ouvidos sempre atentos, através da imensa e enigmática floresta tropical, que nos impunha respeito e nos fazia sentir pequenos e insignificantes. Procurávamos sempre movimentar-nos com a maior celeridade possível, mas sem nunca descurarmos as precauções e o silêncio, para evitar sermos referenciados. Até porque o inimigo era astuto, destemido e profundo conhecedor da floresta. E também ele mostrava grande mobilidade e agressividade, flagelando constantemente e com dureza as nossas forças. Daí que o medo da morte, o inimigo, a fome, a sede e o cansaço, constituíam verdadeiros desafios às nossas capacidades de resistência, jovens soldados tornados guerrilheiros pelas circunstâncias e endurecidos por mais de vinte meses de guerra no mato angolano. Este oceano de imensas dificuldades era agravado pelo receio constante de sofrermos alguma baixa no interior de uma floresta virgem e inacessível, onde seria impossível proceder a qualquer evacuação. E também não seria tarefa fácil carregar com os mortos ou feridos às costas. Tudo isto contribuía para aumentar a angústia e ansiedade, aumentando-nos o desejo de sairmos daqui o mais rapidamente possível.
A progressão tornava-se cada vez mais penosa, difícil e extenuante. A luz solar penetrava com dificuldade por entre a intrincada vegetação. O odor das folhas putrefactas inebriava-nos. Pequenos mosquitos entravam-nos pelos olhos, nariz e boca, deixando um desagradável e repugnante sabor amargo. O calor e a humidade colava-nos à pele o camuflado já rasgado, sujo e com um cheiro nauseabundo e asqueroso.
Durante esta terrível, árdua e espinhosa odisseia, entrámos por duas vezes no interior de bases militares IN que, por razões de ordem táctica, se encontravam afastadas da base principal e funcionavam como unidades de defesa alargada. Aqui, a vegetação rasteira fora retirada, ficando apenas as árvores de grande porte que, com as frondosas e espessas copas, evitavam que estas fossem referenciadas pela aviação.
Tudo indiciava que os ocupantes as tinham abandonado de forma precipitada e brusca ao pressentirem a nossa chegada, porque o lume estava ainda aceso e livros e vários utensílios encontravam-se espalhados pelo chão ou em cima das mesas.
Dentro destas bases ficávamos vulneráveis. As balas assobiavam e cantavam a morte sobre as nossas cabeças, porque o IN mantinha-se oculto na mata circundante, observando-nos e reagindo com intensidade e violência. Sob esta sensação indescritível de hecatombe destruidora, avançávamos costas com costas, disparando e correndo em busca da protecção da mata. Era crucial e imperioso abandonar rapidamente estes locais onde reinava o medo, o terror e a morte, onde o perigo nos espreitava constantemente, não nos dando sequer tempo ou oportunidade de proceder à destruição destas bases disseminadas na selva.
Ao quinto dia de progressão, já bastante debilitados pela fome e pela sede, extremamente cansados, já inclusive distanciados uns dos outros na fila, começámos a sair do imenso verde desta floresta hostil, adversa e infindável. Porém, o inimigo dava-nos as boas vindas ao espaço aberto e ao tórrido sol Africano. Foram momentos de ansiedade terrível e indescritível com as balas mais uma vez a entoarem a sinfonia da morte.
O IN utilizava metralhadoras pesadas com um matraquear sepulcral, rouco e cavernoso, e as irritantes costureirinhas com aquele estampido metálico, enervante e contundente, e com as suas rajadas cadenciadas e irritantes, que ficaram para sempre na memória de todos os que tiveram a malfazeja sorte de com elas se confrontarem no palco da guerra colonial, fazendo-nos recordar as máquinas de costura das nossas mães na longínqua e saudosa metrópole.
Através do capim que nos feria as mãos, deixando-as em sangue, e nos dava pelo peito, rastejando com grande sofrimento, alcançámos ilesos a segurança precária dum alto morro, onde rapidamente montámos um círculo de segurança e ficámos em posição mais vantajosa em relação ao astucioso e matreiro inimigo.
Durante esta longa, tenebrosa e aterradora epopeia, tínhamos penetrado profundamente em território IN e efectuado um desvio bastante acentuado do itinerário previsto. Foi quando o nosso guia confessou estar perdido. Não fora a utilização das comunicações pela rádio, dificilmente alcançaríamos uma zona para recolha do pessoal. Pouco depois da comunicação com a sede, tivemos a ajuda de um heli-canhão, que nos ajudou a referenciar a nossa posição. Encontrávamo-nos a seis dias de marcha do quartel mais próximo. Mas a sua acção não se limitou à nossa referenciação no espaço operacional. Antes de regressar à base, contribuiu para pôr o inimigo temporariamente em debandada. Fomos também informados, via rádio, de que o plano de operações não incluía uma possível evacuação, devido à escassez de meios aéreos, e que, depois de reabastecidos de ração de combate e água, teríamos que prosseguir a marcha. Uma tarefa, sem dúvida, quase impossível de concretizar, dadas as depauperadas e extenuantes condições físicas em que nos encontrávamos.
No cume de um aterrador e apavorante morro, livres de surpresas desagradáveis, mas sem a protecção das copas da vegetação angolana, sem comida, sem água e bastante debilitados pelas agruras do clima, estávamos a ser violentamente fustigados pelo escaldante, abrasador e sufocante sol africano e, pior ainda, cercados por um inimigo inclemente e cada vez mais belicoso, hostil, forte e destemido. Tudo contribuía para nos colocar num feixe de nervos e com a nossa já bastante fragilizada resistência física e psicológica cada vez mais em baixo. O nosso aspecto estava longe de ser o melhor: barbas por fazer, camuflados rotos, cobertos de lama e com um cheiro pestilento, muito pior que um bando de salteadores. Éramos um flagrante contraste. De um lado, aquela paisagem edílica, verde e  luxuriante aos nossos pés; do outro, um grupo completamente estoirado e a necessitar urgentemente de um revigorante repouso. E a situação a degradar-se cada vez mais, Mas, quando o desespero parecia ser a nossa situação das próximas horas ou talvez dias, recebemos pela rádio a melhor informação: dentro de poucas horas, os helicópteros da força aérea efectuariam a evacuação de todo o pessoal.
Recebida a notícia, os nossos olhares deixaram de admirar o vasto oceano verde que se espraiava à volta do morro, para começarem a esquadrinhar ansiosamente a linha do horizonte. E respirámos de alívio quando do nada se começaram a vislumbrar, a uma distância razoável, três pontos negros que aumentavam progressivamente e desapareciam por detrás de um ou outro morro, para logo voltarem a aparecer “rapando” a colina seguinte. Não havia dúvidas! Ali estavam os helicópteros que nos vinham socorrer.
O ruído tornou-se ensurdecedor. O heli-canhão descrevia círculos por sobre as nossas cabeças, fazendo fogo sobre o inimigo próximo, que de imediato bateu em retirada, dispersando-se em fuga no meio do mato. Então, à vez, os dois helis mais pequenos, equipados com duas macas, uma de cada lado, deram início à evacuação, começando pelos mais debilitados, enquanto o restante pessoal procurava manter a segurança. Ao fim de algum tempo, com o apoio de helicópteros com maior capacidade, os Pumas, que tão relevantes serviços prestaram , terminava uma operação desgastante de seis dias consecutivos em plena selva angolana.
Não foi aqui narrado um décimo do sofrimento e aflição por que passaram os jovens soldados de vinte anos, durante esta árdua, penosa e fatigante odisseia, em que, na primavera da vida, se viram atirados para o lodaçal de uma desmerecida, injusta e cruel guerra.
Já em Luanda, fomos todos sujeitos a várias juntas médicas, que atribuíram a inoperacionalidade a 92% dos intervenientes desta operação e preconizaram também um considerável número de medidas a serem implementadas durante um período de 22 dias, para debelar a crise.
No final deste período, todo o pessoal foi sujeito a uma nova junta médica, a 15 de Fevereiro de 1973, a qual definitivamente determinou que o Batalhão de Caçadores 3848, «O excelente e valoroso» fosse ingloriamente considerado inoperacional.
A 27 de Fevereiro de 1973, iniciou-se a deslocação da CCS e das diferentes companhias, ou seja, a C. Caç. 3386 (Os Carolas) e C. Caç. 3387 (Os Escorpiões) para os confins do sertão angolano, bastante distantes da zona de guerra, onde permanecemos na paz dos Deuses até ao final da comissão.
M. Aldeias - maldeias@gmail.com

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Eu canto p’r’a minha terra, Cancioneiro do Niassa

Eu canto p’r’a minha terra,
Já que não posso lá estar!
E canto p’ra distrair
Quem passa o tempo a chorar!
Canto também, até
mesmo sem rima;
Eu canto porque já estou
apanhado pelo clima!

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

No Lunho, Todos nós temos
Uma missão a cumprir:
“LERPAR” de tacho e correio
E de resto, toca a rir...
Passo, também aqui,
Tempos felizes,
Vendo corridas aéreas
De patos e de perdizes.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

Temos também, como capa,
Oficiais e sargentos,
Que em vez de pé, dizem pata
E são todos rabujentos.
O capitão, porém,
É nosso amigo;
A quem souber cumprir bem,
Dá reforços de castigo.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Frente à morte na luta pela vida, Cancioneiro do Niassa

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida

Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida

Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida

Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde pr’a sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida

Frente à morte na luta pela vida

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

EU VI NA TVI, EU HOJE CUSPO FOGO..., por Manuel Lopes

  • «EU VI NA TVI, EU HOJE CUSPO FOGO»
    Todos nós vimos a triste realidade na TVI, o que nós não queríamos, pois dói muito.

    Amigos irmãos camaradas COMBATENTES. Ainda... á muito coisa para mostrar e contar, muitas maldades e traições que a todo o momento nos fazem sofrer e corroer o nosso corpo e o nosso ser, a nós «COMBATENTES E NOSSOS FAMILIARES» vou contar um triste acontecimento que se passou comigo talvez á dez anos, para mim foi um crime, um ataque, um bombardeamento, talvez igual aos que sofremos na guerra do ultramar, este foi feito por alguém a quem eu apelido de «terrorista, porco, assassino».
    Eu fiz-me sócio da associação APOIAR Portuguesa dos Veteranos de Guerra em 2001, onde eu me sentia muito bem apoiado, quando eu precisava de qualquer informação telefonava, eram pessoas impecáveis, incansáveis, os nossos amigos da APOIAR quiseram saber tudo a respeito á minha saúde, como eu me sentia da parte sistema nervoso, como estava a ser medicado e se andava a ser vigiado, o que os informei, pediram-me cópias e dados a respeito a medicação, consultas e internamentos, de tudo, eu enviei tudo pelo correio e, telefonei no momento, os nossos amigos da APOIAR, ao receberem telefonaram-me com urgência, informando que iam enviar tudo de volta e, que já tinham entrado em contacto com uma unidade hospitalar na minha Cidade de Leiria, não vou mencionar o nome pois, as pessoas competentes não merecem ser enxovalhadas pela atitude do tal terrorista, onde eu ia ser consultado e passava a ser vigiado, para eu estar atento pois, ia receber uma carta com urgência a avisar-me para me apresentar.
    Passada uma semana recebi a carta com a data e a hora e local para me apresentar na consulta, para levar toda a documentação que tinha enviado e recebido da APOIAR.
    Na data certa apresentei-me, convencido que ia ser medicado com a medicação certa para resolver o meu problema que me atormentava o sistema nervoso, as noites sem dormir, os sonhos das matas dos DEMBOS, tudo isso.
    Foi chocante, doloroso, triste, revoltante, foi como se tivesse levado uma rajada no meu peito, ainda hoje «cuspo fogo», mas, foi verdade, fui atendido por um médico que tinha idade de ser meu filho, que, me pediu-me o envelope com toda a documentação, os tais que eu tinha enviado para a APOIAR e eles me tinham devolvido com folhas muito importantes assinadas por eles, o senhor que dizia ser médico, ao ler e ver que eu tinha andado na GUERRA do ULTRAMAR, agarrou na minha papelada, olhando para mim a sorrir, rasgou e colocou no cesto do lixo, eu, ao ver tudo aquilo perguntei o que estava a fazer, respondeu, «QUE EU FAZIA PARTE DOS TAIS QUE SE CONSIDERAVAM HERÓIS, QUE QUERÍAMOS VIVER SEM TRABALHAR, VIVER À CUSTA DELE E DE OUTROS QUE TRABALHAVAM DE NOITE E DE DIA, QUE O NOSSO PROBLEMA ERA FALTA DE NOS OBRIGAREM A TRABALHAR E, SERMOS CONTROLADOS A TOQUE DE CHICOTE», que ele, também tinha andado na guerra nas três províncias e, tinha que trabalhar, eu ao ver e ouvir tal crime, como uma mola, levantei-me da cadeira, caminhei para ele, fixei o meu olhar no dele, penso que os meus olhos deviam estar maiores que as lentes dos meus óculos e a quererem saltar, só exclamei que era injusto o que eu estava a ver e a ouvir, dei mais um passo em frente, o tal senhor médico, recuou, agarrou no cesto dos papeis, saio porta fora correndo pelo corredor fora olhando para trás, talvez com medo de acontecer o que ele merecia, nem os papeis rasgados me deixou, para eu poder ir á secretaria, ou falar com o diretor da unidade para contar o que se tinha passado, fiquei de pés e mãos atadas, fiquei muito nervoso, muito revoltado e desiludido, saí porta fora, não vi o tal senhor, nem valia a pena abrir a boca pois, não tinha dados para poder mostrar e justificar o que me tinha acontecido, só me restou voltar para casa com a triste história para contar, não comuniquei a APOIAR a quem peço imensa desculpa por ter deixado de ser sócio, pois, fiquei muito revoltado e desiludido com tal atitude desse tal «turra».
    «MANUEL KAMBUTA DOS DEMBOS»

domingo, 13 de novembro de 2016

De lenço na mão, por Firmino Ruas Mendes


De lenço na mão.


Terminou há pouco a transmissão da grande reportagem emitida pela TVI - MULHERES DA GUERRA - que vi atentamente e que, a cada minuto que passava, me faziam tolher os nervos, me enegreciam a alma, me paravam a respiração e me deixava sem palavras.

Foram poucos minutos de emissão, mas largos na sua plenitude, na recordação das memórias inexoráveis da desgraça, das lembranças de anos perdidos, da dor e da tristeza.

Bebi, sábias palavras, saídas da boca de mulheres e filhos. 

Pensei nos meus que da guerra, felizmente, apenas sabem o que o Pai lhes conta.

Cheguei ao fim, emocionei-me, chorei e vou guardar o lenço que me enxugou aquelas gotas salgadas, para, junto do meu espólio "pós mortem", sirvam como memória futura.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Não sei o que me espera, por Manuel Kambutas dos Dembos

«NÃO SEI O QUE ME ESPERA»
Estou triste como a noite escura
Não sei o que amanhã me vai acontecer
Sei onde vou e porque vou e devo ir
Para ver à tardinha o anoi...tecer
Não vale a pena lamentar
A nossa vida é uma passagem
Tentemos vivê-la com dignidade
Para fazer dela uma miragem
Dos fracos não fala a história
Mas havia de falar
Todos aparecemos no mundo
Para nele caminhar.


«MANUEL KAMBUTA DOS DEMBOS»

domingo, 30 de outubro de 2016

Espera-me..., por Álvaro Giesta

O comboio levou-me para o leste em direção à fronteira com a Zâmbia.
Eram nove e quinze da manhã, daquele dia chuvoso de Dezembro de 71. Dia 12.
Exatamente como imaginava!

Apenas viajámos de dia.
À noite, pernoitámos em Silva Porto.
A partir daqui e até ao Luso, à frente da máquina que puxava as carruagens, ia outra a servir de rebenta minas.

 E os meus poemas começaram a nascer… sobre o joelho, onde apoiava o papel, escrevia:
 
“Espera-me. ...
Até quando não sei dizer-te,
mas afianço-te
com fé
que voltarei!
Espera-me nas tuas manhãs vazias
nas minhas tardes longas
nas nossas noites frias
e não escondas de mim essa lágrima
teimosa
onde está escrito
“não te vejo nunca mais”
Não esqueças o que fomos ontem
se o amanhã não existir
ou não voltar,
recorda o hoje
permanentemente
mesmo que não haja cartas
que nos possam recordar.
 
Nova Lisboa, Angola
12 de Dezembro de 1971
- para uma comissão de 14 meses no Leste de Angola
C. Caç. 205 (Cacolo), integrada no Batalhão de Caçadores 2911 (Henrique de Carvalho)
 
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Álvaro Giesta
 

sábado, 29 de outubro de 2016

ENVIO DE MILITARES PARA ÁFRICA, por Manuel Magrinho


Manuel Angelina Gerou Magrinho
ENVIO DE MILITARES PARA ÁFRICA



Esta história que vou contar
Se passou com todos nós
Não foi fácil de deixar...
Pais irmãos e avós
Fomos para África enviados
Como se fosse mercadoria
Uns voltavam estropiados
Outros,nunca mais ninguem os via
Tudo para nós era estranho
Pouco ou nada nos diziam
Aprendiamos á nossa conta
Quando na guerra nos metiam
Foram tempos bem dificeis
Que nossa geração passou
Atingindo toda a familia
Que a todos muito marcou
Pais, que seus filhos levaram
Para muitas milhas daqui
Chegava um, partia o outro
Tornando-os muito infeliz
Comigo assim se passou
Depois do meu irmão chegar
O martirio continuou
Depois de eu abalar.


M. Magrinho

21/10/2014

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A HISTÓRIA SECRETA DOS MIRAGE PORTUGUESES, por José Matos

A HISTÓRIA SECRETA DOS MIRAGE PORTUGUESES
Texto: José Matos
Artigo publicado em duas partes nas revistas Mais Alto de Nov/Dez 2012 e Jan/Fev de 2013
Ilustração do que poderia ter sido o Mirage IIIEPL com as cores da época     Imagem: Paulo Alegria
 
Durante grande parte da guerra colonial, os jactos de combate da Força Aérea Portuguesa (FAP) foram decisivos em todas as frentes do conflito e praticamente intocáveis até ao aparecimento do míssil Strela na Guiné.
A intensificação da guerra nesta colónia levou a FAP a procurar um novo avião de combate capaz de executar quer missões de combate aéreo quer de ataque terrestre.
A escolha recaiu no caça supersónico francês Mirage.
No entanto, as negociações entre os dois países seriam difíceis com a França a levantar várias restrições quanto ao uso dos aviões nas colónias portuguesas, principalmente na Guiné.
Ao longo de 1974, a questão dos Mirage é discutida várias vezes com as autoridades francesas, que insistem em não permitir o estacionamento dos aviões na Guiné por causa das relações privilegiadas que Paris tem com o Senegal.
O número de aviões negociado (32 unidades) indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo português enviar o caça francês para Angola e Moçambique, mas a história secreta dos Mirage portugueses acabaria com a Revolução de Abril, embora a França acabasse por autorizar a venda deste caça de elevada performance. 


Embora dispondo de jatos de combate F-84 Thunderjet, em Angola e do Fiat G.91, na Guiné e em Moçambique para operações de contra-guerrilha, as forças portuguesas em África sentiam falta de um avião de elevada performance capaz de levar uma boa carga de armas e efetuar bombardeamentos em profundidade no território inimigo e, no caso, de incursões sem proteção aérea, capacidade de combate aéreo.
Em poucas palavras, a Força Aérea precisava de um caça moderno, não só para ataque ao solo, como também para missões de defesa aérea e que tivesse um papel dissuasor no conflito africano.
 
Uma vez que Portugal estava sujeito a um embargo de armas decretado pela ONU, as possibilidades de escolha eram muito reduzidas e as chefias da Força Aérea consideravam que o Mirage francês era, neste contexto, a melhor opção.
O interesse pelo caça da Dassault começa a desenhar-se em 1968/69, quando a Força Aérea desenvolve vários estudos exaustivos sobre o rearmamento da FAP (1). 
A aviação militar tinha entrado na era supersónica e aviões como o Mirage representavam esta nova tendência.
Esta nova realidade estava espelhada nas definições do futuro caça da FAP, que constavam do estudo principal de rearmamento desenvolvido pela Força Aérea a partir da diretiva M-19 do chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), de Outubro de 1968.
O estudo em questão visava o reapetrechamento global da Força Aérea e, num dos capítulos, definia os requisitos do futuro caça, que devia ser um avião bimotor, capaz de atingir Mach 2 em voo horizontal e com uma velocidade ascensional que permitisse atingir os 40 mil pés em tempo inferior a 5 minutos.
Além destas especificações gerais, o estudo resultante da referida diretiva definia também outros requisitos operacionais, que incidiam sobre a capacidade de armamento, a possibilidade de utilizar pistas em altitude, em climas quentes (como era o caso de África), além da capacidade de fazer um voo direto entre a ilha do Sal, em Cabo Verde, e Lisboa.
O caça francês conseguia cumprir praticamente todos estes requisitos (exceto na questão do motor), sendo, desta forma, a melhor escolha (2). 
 
A opção pelo Mirage é reforçada em 1970, numa informação que o general CEMFA Brilhante de Paiva envia ao secretário de Estado da Aeronáutica, José Pereira do Nascimento, em que considera que “no que respeita à aviação de caça a preferência deve recair nitidamente no Mirage, independentemente da maior economia do F-5.
Trata-se de aviões de caça de elevada performance e, a escolha de uma máquina de características inferiores, já nesta data, conduzir-nos-ia à obsolescência mesmo antes dos aviões entrarem em serviço.” (3) 

O problema dos caças americanos

O trabalho produzido demora, no entanto, algum tempo a chegar ao conhecimento do ministro que tutela a Defesa, o general Viana Rebelo, pois só em Abril de 1971, o secretário de Estado informa o ministro, referindo claramente que a prioridade da FAP é a aquisição de aviões de caça modernos quer para uso em África, quer para a defesa do continente.
O plano de rearmamento prevê a compra de 64 aviões, 28 para a defesa da metrópole e 36 para a defesa das colónias, mas Pereira do Nascimento admite numa primeira fase do plano a “redução da quantidade a adquirir, para ganhar experiência e avaliar da evolução da situação, mas numa posição que permita atuar, se necessário, com alguma eficácia”.
Desta forma, o governante considera que um quantitativo de 30 aviões (27 monolugares + 3 bilugares) será suficiente, estimando que o custo da aquisição ascenda a 2,2 milhões de contos.
 
Na longa lista de aviões analisados, o Mirage surge como o preferido, pois segundo o documento é “o avião cujas características mais se aproximam das especificações propostas, não obstante ser monomotor.”
Ainda na lista de preferências, o Northrop F-5A surge como segunda opção e o Phantom F-4C, como terceira, embora o governante português admita que a pouca compreensão dos EUA em relação à política portuguesa em África, não permita a aquisição de qualquer avião de origem americana, restando apenas o Mirage.(4)  
De facto, Washington tinha uma posição crítica sobre a guerra colonial portuguesa e era praticamente impossível que vendesse qualquer tipo de avião que pudesse ser usado em África, restando a Portugal apenas a opção francesa.

O bom aliado francês

Desde final dos anos 50, que existe uma boa relação entre Portugal e a França no campo político e militar.
Portugal apoia claramente a guerra francesa pela manutenção da Argélia e também a política do general De Gaulle de criar uma força nuclear francesa independente da NATO e aceita a instalação na ilha das Flores, nos Açores, de uma estação de rastreio de mísseis balísticos.
O acordo é assinado a 7 de Abril de 1964, sem qualquer pedido de contrapartidas pela parte portuguesa, estando implícito no espírito do acordo que as facilidades concedidas por Portugal teriam uma influência positiva em qualquer ajuda militar que Paris pudesse prestar a Lisboa.
E, de facto, o Governo francês apoia claramente o esforço militar de Portugal em África entre 1960 e 1970, pois o próprio De Gaulle considera que o interesse da França é coincidente com a permanência de Portugal no continente africano. (5)  
A França torna-se assim no maior fornecedor de armas a Portugal entre 1964 e 1971, com vendas que ascendem a 700 milhões de francos franceses. (6)
Mas, com a chegada de Georges Pompidou ao Eliseu, em 1969, a política externa francesa começa a mudar verificando-se uma maior aproximação aos países africanos, designadamente os de língua francesa, uma política que vai provocar problemas nos fornecimentos de armas a Portugal.
Basta dizer que no período de 1972/1974 as vendas francesas decaem para 190 milhões de francos, o que mostra bem a mudança de relação entre Paris e Lisboa.
Um sinal desta mudança é dado pelo próprio ministro dos Estrangeiros francês, Maurice Schumann, ao seu homólogo português, Rui Patrício, durante uma visita que este faz a Paris em Janeiro de 1971. Durante as conversações no Quai d’Orsay, o governante francês refere claramente que “a França tinha acordos muito rigorosos com os Estados francófonos e um acordo mesmo de defesa com o Senegal” e que Portugal devia evitar criar problemas com o Senegal.(7) 
Esta extrema sensiblidade da França em relação ao Senegal marcará todo o processo de  negociações em torno dos Mirage.

Os primeiros contactos

Em finais de Abril de 1971, o ministro Viana Rebelo analisa então os planos da FAP, que são depois enviados ao Conselho Superior da Defesa Nacional, sendo decidido efetuar os primeiros contactos de prospeção junto das autoridades francesas.
Em meados de Novembro, o director de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa francês, o general Hughes de l'Estoile, visita Portugal para uma conferência no Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional e tem encontros com as autoridades militares portuguesas e com o ministro Viana Rebelo.
Já depois destes encontros, o general avista-se com o embaixador francês em Lisboa, Jacques Tiné, com o intuito de se inteirar acerca das intenções portuguesas a respeito do Mirage.
O embaixador comenta com o oficial francês que sobre o assunto tem ouvido várias versões.
Numa das versões, os portugueses estariam interessados em 20 a 30 aviões para distribuir pela “metrópole e os três territórios de África”, noutra versão estavam apenas interessados em 12 aviões para estacionar na metrópole.
 
No entanto, percebe-se pelo desenrolar do diálogo, que Tiné considera que o mais provável é que os Mirage sejam usados na metrópole e nas colónias. Ora, a diplomacia francesa não vê com bons olhos o estacionamento na Guiné ou, em alternativa, na ilha do Sal, em Cabo Verde, onde a Força Aérea tinha uma base, pois mesmo aí os Mirage conseguem operar (embora no limite do seu raio de ação) sobre a zona Guiné-Senegal, um facto confirmado pelo general francês.
Em suma, a diplomacia francesa não quer criar problemas com o Senegal por causa de Portugal. L´Estoile revela ao embaixador a conversa que teve com os chefes militares e o com ministro Viana Rebelo, em que foi manifestado claramente o interesse português em ter “aviões supersónicos, nomeadamente para a defesa dos territórios em África” e que, nesse sentido, Lisboa não estava disponível para aceitar qualquer restrição quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois “os aviões eram pela sua natureza móveis e deviam de intervir onde o perigo estivesse presente.(8) 
O general suspeita que seja esta posição que o ministro português vai defender junto do seu homólogo francês, num encontro previsto para Paris, em Dezembro.
De facto, em 21 e 22 de Dezembro, Viana Rebelo desloca-se a Paris para tratar da renovação do acordo das Flores e dos problemas pendentes relativos ao fornecimento de material de guerra por parte da França.
Rebelo encontra-se com o ministro de Estado e da Defesa, Michel Debré, e a discussão incide principalmente na renovação do acordo luso-francês dos Açores, assim como nas encomendas de material de guerra que estavam atrasadas. (9) 
Rebelo é, certamente, informado nessa altura que, poucos dias antes, a questão dos Mirage tinha sido debatida na Comissão Interministerial de Estudos de Exportação de Material de Guerra (CIEEMG na sigla francesa), uma comissão constituída por delegados de 5 ministérios e que decide a venda ou não de material bélico ao exterior.(10)

O pedido português


O Mirage 5 foi uma das aeronaves em equação

A 17 de Dezembro, a CIEEMG tinha analisado um pedido português para uma possível aquisição de 18 caças Mirage III ou 5 e, durante a reunião, o representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha levantado várias objeções ao negócio considerando que a presença do caça francês nas colónias portuguesas provocaria protestos contra a França, nomeadamente no Senegal e na Guiné-Conacri, sendo, por isso, contra a venda dos aviões a Portugal.
A reunião da CIEEMG termina sem grandes conclusões e é decidido submeter o assunto à consideração do primeiro-ministro Chaban-Delmas.
Dois meses depois, em Fevereiro, Delmas comunica a sua posição à CIEEMG autorizando os contactos com o Governo português e salientando que antes de qualquer autorização de venda deverão ser fixadas as condições de estacionamento dos aviões. (11) 
Mas em Lisboa, o assunto vai-se arrastando e percebe-se que o Governo de Marcelo Caetano não tem orçamento para tais aquisições.
Basta dizer que a verba total para reequipamento das forças armadas nessa época era de 1.5 milhões de contos (12) , o que dava para comprar 25 aviões Mirage a preços de 1969.
A própria Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros (DAEF) do Quai d’Orsay dá conta disso em Maio de 1972, depois de uma comunicação do embaixador francês em Lisboa, que relatava o forte interesse dos militares portugueses em adquirir o avião.(13) 
Em nota ao próprio ministro, a DAEF refere que da parte portuguesa, o assunto está em “ponto morto” e que não vê pressa em o Governo português concluir qualquer acordo.(14) 
É óbvio já nesta altura que existe um certo afastamento entre os dois governos relativamente à política seguida em África por Portugal, o que afeta as relações militares.
Essa perceção é transmitida pelo próprio adido militar da embaixada francesa, comandante Gicquel, ao capitão-de-mar-e-guerra Souto Cruz da Comissão Luso-Francesa, numa conversa que tem com este no início de Dezembro.
Durante a conversa, o militar francês refere “que existem dentro do Governo e da Administração francesas, correntes de opinião muito diversas algumas das quais desfavoráveis à política ultramarina” portuguesa e que “tanto o primeiro-ministro como o ministro do Estado encarregado da Defesa Nacional são obrigados, por vezes, a contemporizar com essas correntes de opinião que se manifestam mesmo dentro da coligação governamental” e chega mesmo a sugerir que certas licenças de exportação de materiais de guerra sejam obtidas através de países amigos, como o caso da Espanha. (15)
Só em 1973 é que a posição portuguesa sobre os Mirage sofre alguma evolução e, no início de Março, Viana Rebelo contacta o embaixador francês em Lisboa, novamente com a intenção de comprar o caça da Dassault.
O ministro reafirma o interesse português no avião e que a decisão final depende de conversações com o Ministério das Finanças.
Rebelo refere ainda que “os encargos militares são pesados”, mas que a aquisição de caças a reacção figura na lista de prioridades do governo.
Em resposta, o embaixador francês faz notar ao ministro que qualquer decisão francesa estará sempre “subordinada à conclusão de um acordo sobre o estacionamento dos aparelhos”. (16) 
Já depois deste contacto, Viana Rebelo faz chegar às autoridades francesas, o interesse português em comprar entre 50 a 100 aviões Mirage F1.(17) 
Este novo pedido é analisado em reunião do CIEEMG, a 20 de Dezembro, mantendo-se as restrições que já existiam antes em relação ao pedido anterior.
Mas, não deixa de ser surpreendente, a magnitude do pedido e o interesse português por um modelo tão recente que seria certamente muito mais caro do que o Mirage III ou 5.
Entretanto, em Junho, uma delegação da FAP liderada pelo próprio general CEMFA, visita o salão Bourget, onde manifesta interesse pelo Mirage 5, pelo F1 e também pelo Alpha Jet. (18)

Um novo titular na Defesa

Em Novembro de 1973, acontece uma remodelação no governo de Marcelo Caetano e Silva Cunha, que era ministro do Ultramar, substitui Viana Rebelo.
É ele que dá um novo impulso à negociação dos Mirage e que consegue obter garantias por parte do Ministério das Finanças de uma verba suplementar de 6 milhões de contos para reequipamento das forças armadas. (19)
Em Janeiro de 1974, Silva Cunha recebe um memorando do secretário de Estado da Aeronáutica, general Tello Polleri, com uma série de aquisições previstas, num valor global de 5,8 milhões de contos.(20) 
O documento é depois revisto em Fevereiro em termos de valores e prevê a aquisição de várias aeronaves destinadas à Força Aérea: 68 helicópteros Alouette III, 1 helicóptero SA 330 Puma, 50 aviões de transporte C-212 Aviocar, 120 aviões Reims-Cessna FTB 337 e ainda um lote de 32 Mirage 5.
É já evidente nesta altura, que Portugal tem grandes dificuldades em adquirir material de guerra e que só em França e Espanha é que pode comprar aviões. O memorando descarta definitivamente a hipótese do Mirage F1 por ser demasiado cara e pelo facto do prazo de entrega ser cerca de 4 anos e aponta o Mirage 5 como a opção mais adequada. O documento refere ainda que o preço unitário desta versão de ataque, mais ferramentas, componentes e sobressalentes é de 103 mil contos (versão monolugar) e 108 mil contos (versão bilugar), embora possa ter algumas variações ao longo do período de fornecimento, estimado entre 2 a 3 anos.
É também referida a intenção da Força Aérea em adquirir mais aviões Fiat G.91 para continuar a assegurar as missões de ataque até dispor dos Mirage e que necessita para isso, de uma reserva financeira de 500 mil contos, o que implica que o número dos Mirage passe de 32 para 25 aparelhos.
Não é referida a origem dos Fiat, mas pelo valor envolvido presume-se que sejam aviões de origem alemã já usados.
Em Dezembro de 1973, a Força Aérea tem conhecimento que a Luftwaffe pretende desativar durante o ano de 1974, 50 a 60 jatos G.91 R/3 com uma média de 1800 a 2000 horas de voo e existe interesse da parte portuguesa em comprar alguns destes aviões.(21) 
O problema é que o Governo alemão proibiu a venda dos G.91 a qualquer país estrangeiro, justamente com o receio que o destino final seja sempre Portugal. (22)
Bona não quer ver mais Fiat de origem alemã envolvidos na guerra de África e não está disponível para fazer qualquer cedência a este nível.
O general Tello Polleri ainda tenta explorar junto de Espanha a possibilidade destes aviões serem comprados pelas Construcciones Aeronáutica S.A (CASA), para depois serem vendidos a Portugal, mas sem sucesso.(23)
Todas estas aquisições dependem obviamente do financiamento extraordinário previsto pelas Finanças e que está a ser negociado com a África do Sul sob a forma de um empréstimo.
Depois de alguns meses de negociações, o acordo final é assinado no dia 8 de Março de 1974, pelo embaixador português em Pretória e o South África Reserve Bank, sendo o empréstimo de 150 milhões de rands (6 milhões de contos no câmbio da época).
O empréstimo é negociado em condições muito vantajosas para Portugal com uma taxa de juro de 3%, sendo o dinheiro transferido em prestações mensais de 5 milhões de rands até um máximo de 50 milhões por ano e durante um período de 3 anos. (24)
Ao abrigo do acordo, a primeira prestação de 5 milhões de rands é disponibilizada e Silva Cunha pode assim prosseguir com as negociações relativas ao Mirage.
O dinheiro sul-africano chega numa altura em que se avolumam na Guiné indícios de uma eventual ameaça aérea por parte da Guiné-Conakry. 

O problema da Guiné

Das três frentes de guerra que Portugal tem em África, a situação na Guiné é que inspira mais cuidado e preocupação nos militares e governantes portugueses.
De facto, as forças portuguesas enfrentam nesta colónia uma guerrilha bem organizada e bem armada, inclusivamente com mísseis terra-ar, com total liberdade de movimentos nos países vizinhos. O aparecimento dos mísseis terra-ar SA-7 Strela em finais de Março de 1973 marcam uma nova fase na guerra e causam apreensão em Lisboa e no comando militar na Guiné.
Em apenas duas semanas, o PAIGC abate 5 aviões, entre os quais 2 Fiat G.91, provocando a morte a 4 pilotos. Perante esta nova ameaça, as chefias da Força Aérea reúnem-se em Lisboa, a 24 de Abril de 1973, e enfatizam a necessidade de novos meios aéreos de combate face a uma possível escalada da guerra na Guiné.
Nas prioridades da FAP surge, mais uma vez, o Mirage, dada a sua capacidade de combate aéreo e ataque ao solo e a possibilidade de ser usado em missões de retaliação.
O caça francês era “o único avião de altas qualidades incluído no plano de rearmamento da Força Aérea” e, nesse contexto, o melhor equipado para fazer frente à nova ameaça dos mísseis terra-ar. No entanto, as chefias da FAP não deixam de chamar à atenção para o facto de ser preciso estudar (face ao Strela e às restrições de voo que o míssil impõe), se o Mirage 5 é o modelo mais aconselhável para a Força Aérea “ou se este necessita de equipamentos complementares para ataques ao solo com precisão fora do alcance do míssil”, ficando este estudo a cargo da 3ª Repartição do EMFA. (25)
O pedido do Mirage para a Guiné é reforçado pelo próprio comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné (ZACVG), o coronel Moura Pinto, durante uma visita que o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), o general Costa Gomes, faz à Guiné em Junho de 1973, para avaliar a situação militar no terreno.
Costa Gomes recebe do comando militar em Bissau uma longa lista de pedidos de tropas e de armamento em que constam 12 aviões Mirage pedidos por Moura Pinto. A ideia do comandante da ZACVG é substituir completamente os T-6G e os Fiat pelo caça francês. (26)
Entretanto, começam a surgir notícias no domínio público de que a guerrilha está a treinar pilotos na União Soviética para usar aviões MiG a partir da Guiné-Conacri.
Um jornal que dá eco deste assunto é o inglês Daily Telegraph que, a 2 de Agosto de 1973, publica um artigo da autoria do correspondente em Lisboa, o jornalista Bruce Loudon, em que diz que a guerrilha “está apenas a seis meses de atingir uma capacidade de ataque aéreo com caças MiG russos.”
O jornalista refere ainda que cerca de 40 guerrilheiros estão a receber cursos de pilotagem na Rússia. (27)
Começam, assim, a circular notícias sobre o possível uso de meios aéreos por parte da guerrilha ou do envolvimento da própria Força Aérea Guineana (FAG) em ações contra as tropas portuguesas.
Do outro lado da fronteira, os MiG-17F da FAG estão praticamente parados, mas com ajuda de militares cubanos, começam a aumentar o seu grau de operacionalidade.
Pilotos e técnicos cubanos chegam a Conacri em Fevereiro e Maio de 1973 e incrementam os voos de patrulha na zona de fronteira, de forma a precaver incursões portuguesas em território guineano. (28) 
 
Preocupado com a situação militar na Guiné, o chefe do Governo, dá ordens para que a pequena colónia seja dotada de novos meios de defesa aérea (29), usando para esse efeito o empréstimo sul-africano.
Neste seguimento, o Ministério da Defesa encomenda, em França, em Janeiro de 1974, dois pelotões de mísseis Crotale R440, um deles para a defesa de Bissau, ficando prevista a entrega do primeiro para Maio de 1974 e a do segundo 18 meses depois para a defesa de Cabinda. (30) 
Existem receios em Angola, de que a compra de caças Mirage 5 pelo Zaire possa constituir uma ameaça aérea para aquele território rico em petróleo.
Desenvolvem-se também contactos junto do Departamento de Estado norte-americano para a compra de mísseis portáteis FIM-43A Redeye, que serão depois fornecidos por “caminhos tortuosos” por sugestão de Henry Kissinger, envolvendo Israel e um intermediário alemão, pois os americanos não os podiam fornecer diretamente devido ao embargo de armas. (31)
São também analisados sistemas de radar para o controle do espaço aéreo.
Neste contexto, faltava apenas um avião com elevada capacidade retaliação sobre os países vizinhos, que pudesse dissuadir qualquer ataque aéreo contra a Guiné portuguesa.
O Mirage encaixava bem nesse papel, o problema era a forma como a sua presença seria encarada pelos países limítrofes.
E é isso que preocupa os governantes franceses.

As restrições francesas

A 20 de Fevereiro de 1974, o ministro francês da Defesa, Robert Galley, envia uma carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Michel Jobert, dando conta do interesse português em comprar entre 26 a 28 Mirage III ou 5 e das condições que a França devia exigir a Portugal. (32) 
Galley é da opinião que o estacionamento do Mirage na Guiné portuguesa não deve ser autorizado pelo Governo Francês, pois não deixaria de suscitar reações negativas por parte dos países vizinhos desta colónia.
Mesmo nas ilhas de Cabo Verde, onde Portugal tinha uma base na ilha do Sal, o estacionamento não devia ser autorizado, pois os caças podiam facilmente ser deslocados para a Guiné.
No entanto, considera que não vê problema nenhum no estacionamento em Angola e Moçambique, isto porque a França também já tinha vendido o avião à África do Sul com o argumento de que o Mirage não era vocacionado para missões de contra-guerrilha.
De facto, entre 1963 e 1974, a Africa do Sul tinha recebido 16 Mirage IIICZ e 17 IIIEZ (33)  e, sendo assim, Portugal não seria o único país a ter este tipo de caça na África austral.

Mirage IIIEZ sul-africano
 
Galley referia ainda que se, por um lado, a França devia ter as precauções indispensáveis relativamente à sua política africana, por outro, devia também levar em linha de conta as facilidades que tinha na ilha das Flores, relevantes para a Força Nuclear Estratégica francesa e terminava pedindo a opinião de Jobert sobre o assunto.
Uma semana depois, a Direção dos Assuntos Africanos e Malgaxes (DAM) do Quai d’Orsay responde dizendo que, no seu entender, a restrição de estacionamento dos Mirage devia também ser estendida a Angola e Moçambique, pois países vizinhos como a Zâmbia, a Tanzânia, o Congo ou o Zaire podiam reagir mal, o que seria contrário aos interesses franceses.(34) 
Na opinião da DAM, a analogia com a África do Sul não era convincente, pois os Mirage sul-africanos tinham sido vendidos para defender o território nacional daquele país, enquanto que os Mirage portugueses seriam usados na guerra de guerrilha, podendo, nesse caso, a França ser acusada de apoiar a política colonial portuguesa.
Mais uma vez, a diplomacia francesa demarcava-se da política portuguesa em África, embora esquecendo que Pretória também usava os seus Mirage em operações de contra-guerrilha e não apenas para defender o seu território nacional.(35)
Já depois desta troca de correspondência, o assunto é discutido na CIEEMG e Galley não aceita a posição do representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e considera que as restrições de estacionamento dos Mirage devem ser apenas aplicadas à Guiné portuguesa e a Cabo Verde.
Perante a falta de consenso, a questão é remetida ao primeiro-ministro Pierre Messmer, que acaba por concordar com a posição do ministro da Defesa.

O Mirage IIIEPL

No seguimento desta decisão, desloca-se a Lisboa, no dia 3 de Abril, o diretor adjunto dos Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, Philippe Esper, para negociar com as autoridades portuguesas as condições de estacionamento dos aviões, os prazos de entrega e a formação de pilotos e de técnicos. (36)
Poucos dias depois desta visita, o general Hughes de l'Estoile, envia uma comunicação ao ministro Jobert com a carta que o ministro da Defesa pretende enviar ao seu homólogo português. Jobert fica assim a par dos contornos da operação.
Em primeiro lugar, o interesse português já não é pelo Mirage 5, mas sim pela versão IIIE, que por ser para Portugal passa a designar-se Mirage IIIEPL.

Mirage IIIE  francês

O documento não refere o número de aviões que Portugal quer comprar, mas, por documentos posteriores, sabe-se que o pedido português é de 32 Mirage IIIEPL, provavelmente 29 monolugares e 3 bilugares, embora isto não seja claro nos documentos consultados.
Os aviões bilugares ficariam na BA5 em Monte Real para conversão dos pilotos e os monolugares seriam distribuídos entre a metrópole e as colónias com especial prioridade para a Guiné.
O número de aviões previsto indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo de Caetano enviar o caça francês para Angola e Moçambique, onde as chefias da Força Aérea se queixavam da falta de jatos de combate, sendo as queixas mais prementes em Angola, onde o comando da 2ª Região Aérea, chega mesmo a sugerir em Maio de 1974, o empréstimo temporário de 6 aviões Impala (Aermachi 326B) da Força Aérea sul-africana para cobrir as necessidades de caças a jato na 2ª RA. (37) 
A hipótese de usar estes jatos em Angola, já tinha sido formulada em 1972, com vista a substituir os F-84G que operavam naquela colónia,(38)  mas o secretário de Estado da Aeronáutica, Pereira no Nascimento, tinha dado na altura parecer negativo a esta hipótese, desaconselhando “a integração do Impala na frota de aeronaves do Ultramar”. (39) 
Em relação ao prazo de entrega, o Governo francês compromete-se a entregar os primeiros 6 aviões (3 monolugares e 3 bilugares) em Dezembro de 74, na hipótese de que seja assinado um contrato até ao final de Abril, o que supera as expectativas portuguesas que esperavam os primeiros aviões só em 1976.
Em relação aos pilotos e técnicos, o compromisso é no sentido de que 6 pilotos e 10 mecânicos possam começar a sua formação em França em Novembro, um mês antes da entrega dos aviões. Quanto à utilização dos aparelhos em África, a proibição de estacionamento na Guiné e nas ilhas de Cabo Verde mantém-se. (40)
Obviamente que a posição francesa não agrada ao Governo português, que considera inaceitável que os caças sejam proibidos de operar a partir de Cabo Verde.
O ministro Silva Cunha manifesta desagrado com este tipo de exigência (41)  e o assunto chega também ao conhecimento do ministro dos Estrangeiros, Rui Patrício, que já no dia 24 de Março, tinha abordado o assunto com o ministro Jobert durante um breve encontro no aeroporto de Lisboa.
No referido encontro, Jobert tinha manifestado ao ministro português as suas reservas quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois seria uma situação que não deixaria de provocar rumores e problemas à diplomacia francesa em África.(42)
Em resposta, Patrício dá a entender que a questão dos Mirage pode ser vinculada à cooperação franco-portuguesa na ilha das Flores, dando como exemplo o acordo americano da base das Lajes, que Lisboa tinha hesitado em renovar devido aos problemas que a sua utilização, durante a guerra de Yom Kippur, tinha provocado entre Portugal e os países árabes.
O governante português estava, naquela altura, a negociar com o Departamento de Estado norte-americano a permanência americana nos Açores e as negociações estavam a ser difíceis, pois Washington não fornecia a Portugal uma série de equipamento militar que o Governo português exigia no âmbito das contrapartidas do acordo das Lajes.
Além dos mísseis Redeye para a defesa da Guiné, Lisboa queria também 4 aviões de transporte C-130 Hércules, que os EUA não queriam fornecer devido ao uso que poderiam ter em África. (43)
No entanto, a argumentação de Patrício não tem qualquer efeito em Jobert, nem na posição do Governo francês.
Para a diplomacia francesa, o que importa são as relações com as antigas colónias e não a política colonial portuguesa.
Ilustração do Mirage IIIEPL com mísseis ar-ar       Imagem: Paulo Alegria

Uma das configurações possíveis para ataque a alvos terrestres dos Mirage IIIEPL  Imagem: Paulo Alegria

Na véspera da revolução

Mas, o ministro português não desiste e, no dia 24 de Abril, encontra-se com o embaixador francês em Lisboa, Bernard Durand.
Patrício sabe que a Força Aérea precisa dos aviões em África e salienta ao embaixador que a compra dos Mirage representa para Portugal “um investimento considerável” e que se destina a exercer “um efeito de dissuasão sobre o adversário”, principalmente, no caso da Guiné portuguesa, que podia a qualquer momento ser atacada por aviões MiG da Guiné-Conacri.
O receio de um ataque a este nível era patente em vários dos relatórios do comando militar em Bissau e o ministro tinha conhecimento desta informação e, sendo assim, não podia aceitar as restrições quanto ao estacionamento dos aviões em África, pois daria “a impressão de renunciar à defesa da Guiné-Bissau.”
No decorrer da conversa, nota-se que a preocupação do embaixador francês incide principalmente na questão do Senegal e, sabendo disso, Rui Patrício chega mesmo a dizer que, se for necessário, Portugal pode dar garantias ao Senegal de que nenhuma operação com os Mirage será realizada contra o seu território.
Esta informação será transmitida, ainda nesse dia, ao gabinete do ministro francês dos Estrangeiros, mas, no dia seguinte, o golpe militar de Abril mudaria completamente o regime e o negócio dos Mirage acabaria definitivamente cancelado.
No entanto, a posição assumida por Rui Patrício na véspera da revolução, mostra que a proibição de estacionamento em Cabo Verde era obviamente inadmissível e que se a França não cedesse nessa questão, o negócio não se podia concretizar.
Ironicamente, por essa altura, a venda terá sido autorizada pelo primeiro-ministro francês, Pierre Messmer, embora com a referida restrição. Sabemos isso por uma nota da DAEF, que, em finais de Maio desse ano, referia claramente que a venda de 32 Mirage IIIE tinha sido aprovada pelo primeiro-ministro pelo valor de 750 milhões de francos (MF), mas com a restrição dos aviões não serem enviados para a Guiné Bissau, nem para as ilhas de Cabo Verde, uma limitação com a qual o Governo português não tinha concordado. (44)
A DAEF considera também que o novo governo saído da revolução de Abril não dará, provavelmente, seguimento à compra dos Mirage devido às perspetivas de independência que se tinham criado em relação à Guiné Bissau.
Uma observação correta, pois com o fim da guerra, a prioridade era sair de África e o Mirage deixava de fazer sentido.


Agradecimentos: Christophe Villecroix do Arquivo do Ministère des Affaires Étrangères et Européenne pela ajuda na pesquisa e também ao Arquivo Histórico da Força Aérea (SDFA/AHFA), ao Arquivo da Defesa Nacional (ADN), ao Arquivo Histórico Diplomático e ao Arquivo Histórico-Militar.

(1) Estudo do rearmamento da Força Aérea no âmbito da diretiva de 10 de Fevereiro de 1969 do CEMGFA – Arquivo da Defesa Nacional (ADN), F3/23/52/2.
(2) Estudo de Rearmamento da Força Aérea, Estado Maior da Força Aérea, 31 de Maio de 1969, SDFA/AHFA.
(3) Informação do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea para o Secretário de Estado da Aeronáutica, Assunto: Estudo de Rearmamento da Força Aérea, 23 de Janeiro de 1970 (SDFA/AHFA).
(4) Ofício nº 289 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, 19 de Abril de 1971, ADN, F1/07/35/51.
(5) Carta da Embaixada de Portugal em França para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, 3 de Abril de 1971, Arquivo Histórico Diplomático (AHD), PEA 685.
(6) Nota da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 19 de Fevereiro de 1976, Archive du Ministère des Affaires Étrangères (AMAE), Europe 1971-1976 - Portugal- Caixa 3501.
(7) Apontamento de Luís Navega, Chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre as conversações no Quai D`Orsay de 21 e 22 de Janeiro de 1971, 2 de Fevereiro de 1971, AHD, PEA Confidencial, Maço 23.
(8) Nota da Embaixada Francesa em Lisboa para o Diretor dos Assuntos Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 26 de Novembro de 1971, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(9) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Luso-Francês sobre os Açores e fornecimentos de material de guerra francês, 16 de Outubro de 1972, ADN, F1/7/31/19.
(10) Relatório da 1ª reunião Luso-Francesa para revisão do acordo geral de 7 de Abril de 64, Comissão Luso-Francesa, Secretariado-Geral da Defesa Nacional, 15 de Julho de 1971, ADN/F1/7/31/19.
(11) Nota n.º 137 da Direção da Europa para o Ministro, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(12) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril” Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 312.
(13) Telegrama nº 216-219 da Embaixada de França em Lisboa, 17 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(14) Nota n.º 260 da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, 19 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(15) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Geral Luso-Francês sobre os Açores - Material de guerra francês, 12 de Dezembro de 1972, ADN/F1/7/31/19.
(16) Telegrama nº 158-159 da Embaixada Francesa em Lisboa para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1 de Março de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(17) Nota da Direção da Europa Meridional para a Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(18) Ficha de vendas de armamento a Portugal, 14 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(19) Silva Cunha, p. 312
(20) Memorando da Secretaria de Estado da Aeronáutica, Assunto: Programa de Forças – Aquisições Previstas (1ª revisão), 4 de Fevereiro de 1974, SDFA/AHFA.
(21) Memorando do Estado-Maior da Força Aérea, 25 de Janeiro de 1974, SDFA/AH, 3ª Divisão/EMFA 71/74, Processo 400.121.
(22) Carta de Alberto Maria Bravo & Filhos, Assunto: Aviões G-91, 4 de Dezembro de 1973, AHD PEA 655.
(23) Carta do Secretário de Estado da Aeronáutica para o General Enrique Jimenez Benamu, 25 de Fevereiro de 1974, AHD PEA 655.
(24) Memorial sobre o acordo do empréstimo de 150 milhões de rands firmados com a R.A.S., Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), 18 de Setembro de 1975, ADN F3/20/48/64.
(25) Ata da reunião de 24 de Abril de 1973, na biblioteca do EMFA, sobre a ameaça antiaérea no Ultramar, pp. 9 e 21, ADN F3/17/37/64. 
(26) Anexo D à acta da reunião de Comandos de 15 de Maio de 1973, Bissau, Arquivo Histórico Militar AHM/DIV/2/4/314/2.
(27) Bruce Loudon, “Portuguese rebels to get Russian MiGs” Daily Telegraph, 2 de Agosto de 1973, ADN, SGDN 3500.
(28) Humberto Trujillo Hernández, El Grito del Baobab, Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 2008, pp. 110-111.
(29) Marcello Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974, p. 180
(30) Silva Cunha, p. 318. 
(31) João Hall Themido “Dez anos em Washington 1971-1981”, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 145-146.
(32) Carta n.º 7221 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 20 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(33) Salvador Huertas, Dassault-Breguet Mirage III/5, Osprey Air Combat, Londres, 1990, p. 134.
(34) Nota nº 23/DAM-2 da Direção dos Assuntos Africanos e Malgaxes, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 27 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(35) Jack Gee, Mirage – warplane for the world, Macdonald, Londres, 1971, p. 65.
(36) Ficha para M. De Margerit: Aviões Mirage para Portugal (estacionamento), 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(37) Nota nº 1632 c/p do Comando-Chefe das Forças Armadas de Angola para o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Necessidade de aviões de caça a jato para a 2ª RA, 4 de Maio de 1974, ADN/Fundo Geral Cx.7702.
(38) Nota do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Cedência de Aviões de Ataque ao Solo, sem data, ADN/F1/42/186/59.
(39) Ofício nº 620 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, Assunto: Aviões Aeromachi MB-326M (Impala), 7 de Julho de 1972, ADN, F1/42/186/62.
(40) Nota nº 75133 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Aviões de combate para Portugal, 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(41) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.
(42) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.Nota sobre o encontro entre M. Jobert e M. Patrício no aeroporto de Lisboa, no dia 24 de Março de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(43) Carta do ministro dos Negócios Estrangeiros para o embaixador de Portugal em Washington, Lisboa, 23 de Abril de 1974, ADN, F3/14/29/4.
(44) Nota da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 31 de Maio de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.