Mostrar mensagens com a etiqueta tropa ué. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tropa ué. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A grande viagem!, por António Júlio Sarmento

A grande viagem!

O começo de uma viagem, que para muitos será, o princípio do fim das suas jovens Vidas!

Depois de toda a tropa, entrar nas carruagens e depois de uma ronda pelas mesmas, para ver se estava tudo em ordem e acomodados, foi dado o sinal de partida.


O comboio começou a sua viagem em direcção ao Sul, levando mais uma vez centenas de jovens soldados, que iriam tirar uma especialidade depois de uns meses de recruta. 

E no percurso da viagem até Lisboa, as carruagens iam ficando vazias à medida, que os jovens soldados, iam sendo distribuídos pelos vários quartéis das regiões militares ao longo do percurso,até chegar a Santa Apolónia.

Muito de nós íamos tirar uma especialidade, para mais tarde, irmos fazer parte de batalhões, que iriam ser mandados para a guerra colonial.

Para muitos foi o princípio do fim das suas jovens Vidas, pois naquela altura, todos éramos poucos, para ir para uma guerra, que nenhum de nós desejou ou provocou e assim durante longos e amargurados anos milhares de jovens foram sacrificados.

Muitos morreram, outros, ficaram feridos e com mazelas, para toda a Vida.

Nesses anos de sacrifício e dor, para muitos de nós, há uma grande verdade, da qual nos podemos orgulhar. 

Aí nasceu uma grande e perfícua amizade,e camaradagem, que perdurará até ao fim dos nossos dias.

A imagem pode conter: comboio e ar livre

domingo, 17 de maio de 2020

Lata de sardinhas..., por José Monteiro

16/05/2020

Lata de sardinhas


Em Mueda, a minha flat era constituída por operacionais e especialistas, sendo estes enfermeiro, transmissões, mecânico e vago-mestre. 

Ali convivemos 13 meses, fazíamos as nossas festas nocturnas até altas horas da madrugada. 
Todos os dias havia militares fora do quartel, quer em operações, quer em patrulhas. 
Quando um dos operacionais saia, se fosse a horas que os " meninos " estavam a dormir, fazíamos barulho com a preparação da saída, quer a vestir, quer a calçar, quer a preparar o cantil e as rações de combate e muitas vezes os " dorminhocos " eram presenteados com alguns conteúdos das rações de combate que não gostássemos. 

Claro que também sempre fomos presenteados com mimos verbais e algumas vezes com restos de rações.
Já não era chéquinha, já tinha alguns bons meses de comissão, já conhecia bem o terreno.
Fizemos uma operação, preparada para 4 dias, mas que acabou por levar mais tempo, tendo havido necessidade de sermos reabastecidos, quer em rações de combate quer em água.
Já não me lembro muito bem do nome da base a assaltar, mas lembro-me que passamos a noite sempre a andar e apenas descansamos aos primeiros sinais do alvorecer.

Foi no Vale de Miteda, do lado esquerdo da picada que vai para Nancatar. 
O terreno tinha muito relevo, as paragens eram curtas e apenas para a alimentação e onde descansávamos, verdadeiramente, era durante as noites. 
Era tempo de muita chuva e bastante frio nocturno, todos nós começamos a ficar exaustos e alguns graduados foram junto do comandante da coluna para comunicar a situação.
De repente, ouve-se , ao longe, " Tropa ué, tropa ué " seguido de um disparo. 
Era sinal que já tínhamos sido detectados pelos guerrilheiros e estes estavam a avisar a população civil, que sempre existia perto das bases, para os alimentar com as suas machambas.

Perante tal situação apenas havia uma de duas soluções, regressar ao quartel, ou prosseguir para a base. 
Foi esta última que o comandante ordenou.
A partir dali, os comandantes de secção avisaram o seu pessoal para aumentarem a distância entre cada um e olho bem aberto, porque eles poderão estar à nossa espera na base.

Não se ouviu mais gritaria, nem tiros, apenas a chuva que continuava a cair. 
Dois grupos de combate, cerca de 50 militares, ficando uma secção a proteger a retaguarda e as restantes fazem um semicirculo e entramos na base. 
Felizmente ninguém estava para nos " receber ".

Não era uma grande base, já sabíamos antecipadamente, era um local de passagem e de acolhimentos dos guerrilheiros, que aproveitavam para " educar " os civis para a sua luta.
Procedimento habitual nestas situações, palhotas inspeccionadas e incendiadas logo de seguida, fazendo jus ao nome, dado pela Rádio Moscovo, "os incendiarios da 1710 ".

" Ala que se faz tarde ", expressão militar que quer dizer, vamos embora que os gajos podem fazer " chover " morteirada sobre nós.

A chuva não parava , e nós também não paramos para almoçar, sempre a andar e enfiámo-nos numa zona de floresta bastante densa, onde se caminhava apenas abrindo caminho à catanada.
As secções sucediam-se à frente, para rendição, e mais uma vez foi chamada à atenção do comandante para haver uma pequena paragem e assim sucedeu.

" Está no ir, está no ir ", ouviu-se a voz do comandante, todos nós, lentamente,nos levantamos e recomeçamos a caminhar.

Na última noite, finalmente a chuva parou e o céu apresentava-se bastante estrelado, a antecipar um nascer do dia limpo e com sol. 
Deixámos de ouvir os galos e o choro de crianças, sinal de que não estávamos perto dos guerrilheiros nem de machambeiros.

De repente, e contra o que era habitual, recebemos a ordem para o regresso ao quartel, e que o encontro com o esquadrão seria nas águas.

Chegamos a Mueda, ainda bastante de noite, os unimogs param em frente da caserna e cada um regressa ao seu local. 

Por mim, não consigo fazer o meu percurso habitual. 
Não havia casqueiro, o padeiro estava a aquecer o forno, as cantinas e as messes fechadas. 
Não consegui, limpar-me por dentro, com uma cervejola fresquinha. 

Dirigi-me para a flat Nº 2, a minha, onde os " meninos " estavam a dormir. 
Entrei, com aquelas botas de " ballet " e dirigi-me para o 
meu quarto, imediatamente seguido por " mimos " dos " meninos ", que entretanto tinham acordado.

O meu objectivo era, como habitualmente, comer uma lata de ração, tomar banho e, finalmente, meter-me entre os lençóis. 
Seguindo esse pensamento, fui por baixo da cama, e descobri uma lata de sardinhas em tomate. Acto continuo, devia estar mesmo muito cansado, coloquei a lata a aquecer na pequena lamparina, pertença do enfermeiro, e sentei-me na minha cama para me despir. 

A imagem pode conter: comida

Ouviu-se um estoiro que acorda , novamente, os camaradas da flat. 
As paredes do duche ficaram cheias de fragmentos de sardinhas e de tomate, voltei a ouvir " mimos " dos meus camaradas de dormitório. 

O tempo fez esquecer esses " mimos ", mas provavelmente o mais suave teria sido " Checa de merda ", pois , com o cansaço, tinha-me esquecido de abrir a lata. 

Já não tomei banho e enfiei-me dentro dos lençóis, sujo por fora e por dentro.

Linda-a-Velha, Julho de 2017

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Guerra das Abelhas, por José Monteiro

Jose Monteiro 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais uma pequena história vivida em Cabo Delgado, Mueda, no período de Maio/67 a Junho/68.
Guerra das abelhas
 
Vale de Miteda,1968.
 
Mais uma operação se seguiu, na rotina de operacionais em Mueda, desta feita ao nível de dois pelotões, incluindo o meu.
 
Tínhamos como objetivo o ataque a uma sub-base inimiga, cuja prisioneira, que foi connosco, sabia onde estava localizada....
 
Formação na parada do quartel, com noite completamente fechada e escura, azáfama habitual nestas circunstâncias, com abastecimento de rações de combate e material de guerra.
 
Lá fomos em bicha de pirilau, saindo pelo lado direito em direção aos "cães de guerra" e aí descemos para o Vale, fora da picada, em absoluto corta mato.
 
Como a noite estava completamente cerrada, a distancia entre cada um de nós encurtou e, por vezes, tínhamos que tocar no companheiro da frente para nos certificarmos da nossa presença.
 
Toda a noite foi passada a caminhar e de manhã, já com muito mais cuidado, tentámos ficar no caminho do objetivo e já de noite fizemos o circulo normal de segurança, para aí pernoitarmos.
 
Aí ouvíamos, ao longe, choros de crianças, o que nos dizia que estaríamos muito perto do aldeamento.
Pela manhã formamos novamente e fizemos a aproximação, com as primeiras secções a dividirem-se, um pouco, para a esquerda e direita e assim podermos entrar no acampamento.
 
A entrada foi rápida e não foi disparado um único tiro, pois só foi encontrado uma pessoa idosa (kokuana) e várias galinhas, que imediatamente foram apanhadas, atitude quase normal nestes casos.

Saímos imediatamente do local, começando o regresso ao quartel.
 
Um companheiro do meu pelotão que normalmente levava o morteiro 60mm, aproveitou e colocou-o, com uma corda, ás costas da kokuana, aproveitando, assim, para descansar um pouco do seu peso.
 
Fizemos uma paragem, salvo erro para almoço, quando ouvimos uns fogachos e gritarias de "tropa ué", "tropa ué" e neste momento, sem ninguém saber como e porquê, dá-se um ataque de abelhas que leva alguns companheiros a fugirem do local.
 
Foto de Jose Monteiro.
 
Nunca tinha visto nada assim.
A desorganização militar foi total.
Com o passar do tempo fez-se o reagrupamento e alguns estavam muito mal tratados e houve necessidade de chamar o hélio para evacuação, pois alguns já não conseguiam ver, tal o inchaço na zona da vista.
Aproveitando a confusão a kokuana esboçou uma tentativa de fuga, e foi prontamente capturada.

A operação acabou ali mesmo, tendo regressado novamente ao quartel rapidamente.
 
Linda-a-Velha, Novembro de 2012

 
José Silva Abelhas, um dos grandes inimigos da tropa!
 
 
Januario Batista Jorge A fluidez da tua escrita é um encantamento e contrasta com a espontaneidade com que as abelhas deixam o enxame para nos fazer os seus habituais "mimos ".
Gostei muito ... Bem hajas !!!
 
Duilio Caleca Bonita narrativa, gostei.
Quanto ao ataque de abelhas, lembrei-me que uma vez, foi algo que senti no corpo e não gostei.

 
Bernardino Martins Duilio Caleca Cheguei mesmo agora a casa, correu tudo bem, passei por Tunes para saber as condições da nossa conversa, amanhã vás-me mandar por email.
 
 
Antonio Fialho Fialho Sem duvida uma grande arma (defesa) do inimigo. Pois por muito cuidado que houvesse eramos quase sempre detetados.
Impossível não haver qualquer barulho.
Abraço a todos