Mostrar mensagens com a etiqueta Vale de Miteda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vale de Miteda. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de maio de 2020

Lata de sardinhas..., por José Monteiro

16/05/2020

Lata de sardinhas


Em Mueda, a minha flat era constituída por operacionais e especialistas, sendo estes enfermeiro, transmissões, mecânico e vago-mestre. 

Ali convivemos 13 meses, fazíamos as nossas festas nocturnas até altas horas da madrugada. 
Todos os dias havia militares fora do quartel, quer em operações, quer em patrulhas. 
Quando um dos operacionais saia, se fosse a horas que os " meninos " estavam a dormir, fazíamos barulho com a preparação da saída, quer a vestir, quer a calçar, quer a preparar o cantil e as rações de combate e muitas vezes os " dorminhocos " eram presenteados com alguns conteúdos das rações de combate que não gostássemos. 

Claro que também sempre fomos presenteados com mimos verbais e algumas vezes com restos de rações.
Já não era chéquinha, já tinha alguns bons meses de comissão, já conhecia bem o terreno.
Fizemos uma operação, preparada para 4 dias, mas que acabou por levar mais tempo, tendo havido necessidade de sermos reabastecidos, quer em rações de combate quer em água.
Já não me lembro muito bem do nome da base a assaltar, mas lembro-me que passamos a noite sempre a andar e apenas descansamos aos primeiros sinais do alvorecer.

Foi no Vale de Miteda, do lado esquerdo da picada que vai para Nancatar. 
O terreno tinha muito relevo, as paragens eram curtas e apenas para a alimentação e onde descansávamos, verdadeiramente, era durante as noites. 
Era tempo de muita chuva e bastante frio nocturno, todos nós começamos a ficar exaustos e alguns graduados foram junto do comandante da coluna para comunicar a situação.
De repente, ouve-se , ao longe, " Tropa ué, tropa ué " seguido de um disparo. 
Era sinal que já tínhamos sido detectados pelos guerrilheiros e estes estavam a avisar a população civil, que sempre existia perto das bases, para os alimentar com as suas machambas.

Perante tal situação apenas havia uma de duas soluções, regressar ao quartel, ou prosseguir para a base. 
Foi esta última que o comandante ordenou.
A partir dali, os comandantes de secção avisaram o seu pessoal para aumentarem a distância entre cada um e olho bem aberto, porque eles poderão estar à nossa espera na base.

Não se ouviu mais gritaria, nem tiros, apenas a chuva que continuava a cair. 
Dois grupos de combate, cerca de 50 militares, ficando uma secção a proteger a retaguarda e as restantes fazem um semicirculo e entramos na base. 
Felizmente ninguém estava para nos " receber ".

Não era uma grande base, já sabíamos antecipadamente, era um local de passagem e de acolhimentos dos guerrilheiros, que aproveitavam para " educar " os civis para a sua luta.
Procedimento habitual nestas situações, palhotas inspeccionadas e incendiadas logo de seguida, fazendo jus ao nome, dado pela Rádio Moscovo, "os incendiarios da 1710 ".

" Ala que se faz tarde ", expressão militar que quer dizer, vamos embora que os gajos podem fazer " chover " morteirada sobre nós.

A chuva não parava , e nós também não paramos para almoçar, sempre a andar e enfiámo-nos numa zona de floresta bastante densa, onde se caminhava apenas abrindo caminho à catanada.
As secções sucediam-se à frente, para rendição, e mais uma vez foi chamada à atenção do comandante para haver uma pequena paragem e assim sucedeu.

" Está no ir, está no ir ", ouviu-se a voz do comandante, todos nós, lentamente,nos levantamos e recomeçamos a caminhar.

Na última noite, finalmente a chuva parou e o céu apresentava-se bastante estrelado, a antecipar um nascer do dia limpo e com sol. 
Deixámos de ouvir os galos e o choro de crianças, sinal de que não estávamos perto dos guerrilheiros nem de machambeiros.

De repente, e contra o que era habitual, recebemos a ordem para o regresso ao quartel, e que o encontro com o esquadrão seria nas águas.

Chegamos a Mueda, ainda bastante de noite, os unimogs param em frente da caserna e cada um regressa ao seu local. 

Por mim, não consigo fazer o meu percurso habitual. 
Não havia casqueiro, o padeiro estava a aquecer o forno, as cantinas e as messes fechadas. 
Não consegui, limpar-me por dentro, com uma cervejola fresquinha. 

Dirigi-me para a flat Nº 2, a minha, onde os " meninos " estavam a dormir. 
Entrei, com aquelas botas de " ballet " e dirigi-me para o 
meu quarto, imediatamente seguido por " mimos " dos " meninos ", que entretanto tinham acordado.

O meu objectivo era, como habitualmente, comer uma lata de ração, tomar banho e, finalmente, meter-me entre os lençóis. 
Seguindo esse pensamento, fui por baixo da cama, e descobri uma lata de sardinhas em tomate. Acto continuo, devia estar mesmo muito cansado, coloquei a lata a aquecer na pequena lamparina, pertença do enfermeiro, e sentei-me na minha cama para me despir. 

A imagem pode conter: comida

Ouviu-se um estoiro que acorda , novamente, os camaradas da flat. 
As paredes do duche ficaram cheias de fragmentos de sardinhas e de tomate, voltei a ouvir " mimos " dos meus camaradas de dormitório. 

O tempo fez esquecer esses " mimos ", mas provavelmente o mais suave teria sido " Checa de merda ", pois , com o cansaço, tinha-me esquecido de abrir a lata. 

Já não tomei banho e enfiei-me dentro dos lençóis, sujo por fora e por dentro.

Linda-a-Velha, Julho de 2017

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Guerra das Abelhas, por José Monteiro

Jose Monteiro 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais uma pequena história vivida em Cabo Delgado, Mueda, no período de Maio/67 a Junho/68.
Guerra das abelhas
 
Vale de Miteda,1968.
 
Mais uma operação se seguiu, na rotina de operacionais em Mueda, desta feita ao nível de dois pelotões, incluindo o meu.
 
Tínhamos como objetivo o ataque a uma sub-base inimiga, cuja prisioneira, que foi connosco, sabia onde estava localizada....
 
Formação na parada do quartel, com noite completamente fechada e escura, azáfama habitual nestas circunstâncias, com abastecimento de rações de combate e material de guerra.
 
Lá fomos em bicha de pirilau, saindo pelo lado direito em direção aos "cães de guerra" e aí descemos para o Vale, fora da picada, em absoluto corta mato.
 
Como a noite estava completamente cerrada, a distancia entre cada um de nós encurtou e, por vezes, tínhamos que tocar no companheiro da frente para nos certificarmos da nossa presença.
 
Toda a noite foi passada a caminhar e de manhã, já com muito mais cuidado, tentámos ficar no caminho do objetivo e já de noite fizemos o circulo normal de segurança, para aí pernoitarmos.
 
Aí ouvíamos, ao longe, choros de crianças, o que nos dizia que estaríamos muito perto do aldeamento.
Pela manhã formamos novamente e fizemos a aproximação, com as primeiras secções a dividirem-se, um pouco, para a esquerda e direita e assim podermos entrar no acampamento.
 
A entrada foi rápida e não foi disparado um único tiro, pois só foi encontrado uma pessoa idosa (kokuana) e várias galinhas, que imediatamente foram apanhadas, atitude quase normal nestes casos.

Saímos imediatamente do local, começando o regresso ao quartel.
 
Um companheiro do meu pelotão que normalmente levava o morteiro 60mm, aproveitou e colocou-o, com uma corda, ás costas da kokuana, aproveitando, assim, para descansar um pouco do seu peso.
 
Fizemos uma paragem, salvo erro para almoço, quando ouvimos uns fogachos e gritarias de "tropa ué", "tropa ué" e neste momento, sem ninguém saber como e porquê, dá-se um ataque de abelhas que leva alguns companheiros a fugirem do local.
 
Foto de Jose Monteiro.
 
Nunca tinha visto nada assim.
A desorganização militar foi total.
Com o passar do tempo fez-se o reagrupamento e alguns estavam muito mal tratados e houve necessidade de chamar o hélio para evacuação, pois alguns já não conseguiam ver, tal o inchaço na zona da vista.
Aproveitando a confusão a kokuana esboçou uma tentativa de fuga, e foi prontamente capturada.

A operação acabou ali mesmo, tendo regressado novamente ao quartel rapidamente.
 
Linda-a-Velha, Novembro de 2012

 
José Silva Abelhas, um dos grandes inimigos da tropa!
 
 
Januario Batista Jorge A fluidez da tua escrita é um encantamento e contrasta com a espontaneidade com que as abelhas deixam o enxame para nos fazer os seus habituais "mimos ".
Gostei muito ... Bem hajas !!!
 
Duilio Caleca Bonita narrativa, gostei.
Quanto ao ataque de abelhas, lembrei-me que uma vez, foi algo que senti no corpo e não gostei.

 
Bernardino Martins Duilio Caleca Cheguei mesmo agora a casa, correu tudo bem, passei por Tunes para saber as condições da nossa conversa, amanhã vás-me mandar por email.
 
 
Antonio Fialho Fialho Sem duvida uma grande arma (defesa) do inimigo. Pois por muito cuidado que houvesse eramos quase sempre detetados.
Impossível não haver qualquer barulho.
Abraço a todos
 

sexta-feira, 25 de março de 2016

O Apontador de Morteiro, por José Monteiro



Mais uma pequeno história vivida , no período militar, em Cabo Delgado.
APONTADOR DE MORTEIRO

Mais uma saída para uma operação no Vale de Miteda, com segurança dada pelo esquadrão de cavalaria, ao longo das picadas....
                    

As armas que levávamos, além das G3, eram a basuka e o morteiro de 60, e deste apenas o cano, portanto sem o estribo e a mira.
As granadas de morteiro eram levadas numa sacola igual ás que transportávamos as refeições e por regra estavam sempre junto ao apontador.
Só que, não me recordo porquê, o apontador não foi nessa operação.

Abandonámos o esquadrão e lá fomos nós pelo mato dentro para o nosso objetivo, que desta vez não era assalto a base mas sim de marcar presença e possível contacto com o inimigo.

Á noite, fizemos o respetivo circulo de segurança para a pernoita.
O silêncio da noite ouvia-se, perfeitamente, choros de bebes o que pronunciava a presença de população bem perto.
Todos nós estávamos atentos, por mim, como sempre dormi mal, passei quase toda a noite em vigilância aos turnos.
                    

De manhã, sempre presente os barulhos da véspera, tivemos que sair da zona de proteção da floresta e entrámos num campo mais aberto e muito mais plano.
Com as cautelas devidas, lá fomos andando quando de repente sofremos uma flagelação, vinda de longe.
Paramos imediatamente e como perto de mim estava o camarada que transportava o morteiro, imediatamente lhe disse "segura no tubo que os tipos calam-se", e dito isto coloco a primeira granada, coloco a segunda e faço um tempo de espera para ouvir onde elas rebentavam e assim poder corrigir o próximo tiro.
Esperei... esperei e nada, entretanto eles pararam com o fogacho e eu cheguei á conclusão que não tinha tirado as cavilhas de segurança ás granadas.
Já não me lembro a quem competia retirar a cavilha, se ao municiador se ao apontador.

Ao certo sei que as pressas e a falta de experiência, muitas vezes dão nisto.
Provavelmente, mais tarde, apareceram montadas em algum fornilho, nas nossas picadas.


Linda - a - Velha, Agosto de 2011
 
Foto de Jose Monteiro.



 
 
 
Bernardino Martins Pois foi o resultado delas para eles não serviam para nada.
 
 
Joaquim Jota Mateus Este é daqueles segredos que não se podem divulgar!!!!
Só contar as vitórias, as derrotas conta o outro!!!
 
Bernardino Martins Mas esta de não tirar as cavilhas, eram como os comprimidos "melhoral", não teve consequências, um dos graves problemas era o esquecimento da munição de salva para no caso do dilagrama, esse sim tivemos consequências graves.
 
 
Duilio Caleca Fomos todos "checas" e com muita falta de preparação.
Felizmente que somos um povo do "desenrrasca".

 
 
António Lopes Este era 80, vcs.
Levavam este peso pesado?
 
Mário Silva Tirando as tropas especiais, ninguém levava qualquer instrução e conhecimento sobre o palco de guerra que iríamos apanhar, eu por mim vi que quando cheguei, limitei-me a ouvir os mais velhinhos e mais nada, de resto é o habitual, desenrascas-te.
 

quinta-feira, 10 de março de 2016

A "costureirinha", por José Monteiro


 
Mais um pequeno texto sobre a nossa vivência em Cabo Delgado.
 
Dos vários sons que ainda hoje, passados muitos anos, perduram na minha memória, este provocado pela "costureirinha" é dos que ainda estão gravados.

Sempre que me lembro de ti, só vejo vegetação densa e muito verde, picadas de terra batida e areia, e muitos camaradas deitados.
 
Alguns não chegaram a levantar-se por tua culpa.
 
Aquele som metálico e o teu "falar", bastante rápido e... cadenciado, fizeram sempre parte de mim, enquanto estive em Mueda.
 
Raramente foste referenciada pelo teu nome técnico, mas sim pela tua alcunha, que era conhecida de todos nós.
 
Muitas das vezes era por ti que a emboscada se iniciava, e nesse breves momentos todos nós íamos rapidamente para o chão, não por respeito por ti, mas por medo das consequências.

Apenas uma única vez peguei em ti, numa operação no Vale de Miteda, em conjunto com um pelotão de outra companhia do meu batalhão.
 
O guerrilheiro da Frelimo vinha a fazer proteção a alguns "machambeiros" e encontrou-se connosco num trilho, já bastante perto de uma base.

Tu foste para o nosso aquartelamento, o guerrilheiro lá ficou.

Linda-a-Velha, Novembro de 2013

 

 
 
Pedro Ranito PPSH chamávamos-lhe "pepeschauer" para além de costureirinha claro.
 

 
Jose Carlos Dantas Também tive uma, mas não dava muito jeito para andar a bordo.
Aqui na final da pista de Mueda do lado do vale ....


 
Armando Guterres De 14 de Fev 72 que a ouvi pela primeira vez e em Março que a ouvi em dois dias seguidos, dormida na picada, sai do mato em Março de 74 e nunca mais a ouvi.
 

 
Duilio Caleca Esse som nunca mais nos saiu dos ouvidos.
 

 
Eduardo Graca Edy Ouvi muita musica dessa costureira e não tenho saudades....
 

 
 
António Manuel Rodrigues Tek,tek,tek.
 

 
José Alves Alves Mais uma vez o nosso amigo José Monteiro faz uma excelente descrição sobre aquela temivel arma, denominada por " costureirinha". 
Continua, pois os nossos filhos e netos necessitam de saber tudo quanto nos martirizou,
 

 
Augusto Mota Por sinal ouvi o som delas algumas vezes, numa delas fatal para dois colegas da companhia, fazes uma excelente descrição dela.
 

 
Jose Luis Rodrigues ERA A ARMA QUE OS RUSSOS USAVAM NA 2ª GRANDE GUERRA
 

 
Abdul Osman Esta era a minha arma preferida, 99 balas de 9 mm.
Enquanto o piloto dos hélis tinham uma Kalash, nós os mecânicos podíamos requisitar uma FBP, G3 ou a PPS( pesshawer) enquanto estive em Mueda voava com esta arma.
 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Águas de Nangololo em 13/7/1970, por Joaquim Hilario G. Lima

 
 
Sobre o episódio ocorrido nas águas de Nangololo, em 13 de Junho de 1970, é descrito nas páginas 85/87 do livro "Memórias de uma guerra" (todo em verso e documentado com muitas fotos), da autoria do amigo Joaquim Hilario G. Lima, que pertenceu ao BART2901 (CCS, CART2646, 2647 e 2648), aí estacionado desde 28 de Fevereiro de 1970 até 13 de Março de 1971.

(Passo a citar)

O DIA MAIS FATÍDICO
Enquanto em Lisboa festejavam
As marchas dos Santos populares.
Lá longe, nossos olhos choravam
Os mortos e feridos militares.

Treze de Junho sete da manhã,
Não se previa sermos alvejados.
Pequeno almoço de amargo maná,
Fermento que gerou desventurados.

E nessa noite, o "IN" engendrou,
No reabastecimento de água.
A picada de engenhos minou
E nos emboscou à morteirada.

Diariamente os soldados iam,
Água preciosa ao charco buscar.
Picada minada e todos morriam,
Corpos desfeitos voavam no ar.

Como descrever aquela tragédia?
Oito mortos desfeitos nesse dia ...
Feroz inimigo não nos deu trégua,
E aconteceu o que não se previa.

Vê-se na imagem destes soldados,
Toda a tristeza da dor que sentiam.
Apanharam amigos aos bocados,
E empilhados a seus pés os viam.

Restos mortais assim transportados,
Momentos antes ainda eram vidas.
Agora à nossa frente retalhados,
Foram horas de dor muito sentidas.

Todos os corpos identificados,
Em lençóis brancos, sinal de pureza.
Neles embrulhados e sepultados,
Entregues à terra mãe natureza.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vivencias na guerra colonial - Operação ZETA versus Operação Nó Górdio, por Joaquim Coelho


OPERAÇÃO ZETA - de 6 a 11 de Junho de 1969


Realizada entre Nangade e Mocimboa do Rovuma, nos Pântanos de Malambuage
Tropas de Intervenção:
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP31 (Beira)
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP32 (Nacala)
- 2 pelotões e a secção de logística da 1ª CCP do BCP32 (Nacala)
- 10ª companhia de Comandos
- 2 companhias de Cavalaria (Mueda e Nangade) – 2375 e 2376
- Oficiais e sargentos do BCP32 em apoio ao Comando Operacional
- Pessoal e aviões da Força Aérea
- Viaturas e condutores do Exército

Outros meios em ação:
-- Sete aviões de transporte (4 Nordatlas e 3 Dakotas)
-- Dez aviões de combate (8 T6 ligeiros e 2 PV2 pesados)
-- Uma Dornier DO27, no comando operacional
-- Um “Heli-canhão” com metralhadora pesada
-- Diversos helicópteros de transporte e apoio
-- Mais de trinta condutores-auto


Narrativa:

Os guerrilheiros da Frelimo andavam numa azáfama medonha para introduzir as mais recentes remessas de material de guerra, fornecido pelos amigos chineses e checos, nas bases avançadas da Serra do Mapé e do Vale de Miteda.
Não imaginavam que havia alguém a preparar “ajuda” em tão importante missão; mas sabiam que a época das chuvas danificava as vias de comunicação terrestres, limitando os movimentos das tropas portugueses no planalto dos macondes!

Enquanto isso, em Nacala, o calor atrofiava a respiração e causava fastio frente aos pratos de “carne de porco à alentejana”, e os paraquedistas do batalhão da Beira já mastigavam as últimas grafadas de “bacalhau com grão-de-bico” na certeza de que a próxima ração quente seria uma incerteza.
Mesmo o pessoal recentemente regressado das zonas de guerra não mostrava relutância em avançar para novas missões; pois, ao verem chegar os oficiais do comando operacional, os comandantes das esquadras de aviões e de helicópteros para reunirem com o Estado-maior, os paraquedistas pressentiam que estava na forja alguma missão de grande envergadura.

Uma semana depois, começaram a chegar a Nacala os aviões Nordatlas, com equipamento nunca antes visto, movimentos que tiravam as dúvidas a quem não tivesse sintonizado os sinais prenunciados.
Mesmo os que, dias antes, haviam regressado da missão à Serra do Mapé, começaram a mentalizar-se para a operação que os chefes urdiam com elevada minúcia.
Sem querer fazer alarde, o cabo Fonseca aproveita o serviço de guarda ao aquartelamento e interpela o sargento Sampaio sobre os estranhos movimentos de material e aviões.
Mas o sargento rematou p’ro lado:
- Ora, que pergunta mais estrambólica.
Se a missão é secreta, como posso eu satisfazer a curiosidade do nosso cabo?
E, de rompante, entrou na casa da guarda.

O cabo ficou a matutar: “três aviões de transporte, nove aviões de combate, montes de pára-quedas… o general prepara algum golpe à leão”.

Os motores dos aviões começaram a roncar antes das seis da manhã, os Unimogues, num corre-corre, transportavam material de guerra, caixas de rações de combate e paraquedas para a placa de estacionamento dos aviões.
Quando o Calisto abriu os olhos já os ouvidos tilintavam com os turbo-hélice a zumbir; saltou para o duche de água hidrocarbonetada e espreguiçou o corpo ainda mal refeito da noitada no bar da estação de Nacala.
Homens e aviões, em movimento acelerado, preparam-se para uma grande operação no Norte de Cabo Delgado, lá para as margens do rio Rovuma, entre Mocimboa do Rovuma e o lago Nangade – talvez no Pântano de Malambuage…

A meio da manhã, o pessoal do pelotão da balizagem estava em Mueda a visionar as fotografias aéreas do local, onde iriam saltar e balizar a zona para lançamento de 186 homens preparados para uma complexa e perigosa missão – desmantelar as vias de infiltração da Frelimo.
As informações acreditadas em documentos recolhidos pelas nossas tropas nos acampamentos assaltados no Vale de Miteda e confirmadas por elementos da população local indiciavam movimentos de grande quantidade de guerrilheiros e material naquela zona, presumivelmente, destinado à região do planalto dos macondes até à Serra do Mapé, passando pelas cercanias de Muidumbe, Nangololo e Chai, a sul do rio Messalo.

Por ação concertada entre o comando do sector militar de Mueda, o comando das tropas para-quedistas e a Força Aérea, reuniram-se as condições para desencadear uma das mais bem organizadas operações militares.
Tratando-se duma zona de terrenos pantanosos, com muitos escarpados e arribas, arbustos rasteiros e linhas de água, logo os responsáveis pela logística perceberam a impossibilidade de assaltar os acampamentos da Frelimo, detetados por via aérea, sem que fossem postos em causa os princípios da surpresa e da eficácia.

Para ultrapassar essas dificuldades, foram preparadas duas companhias de para-quedistas, para tomarem a posição dominante do terreno por envolvimento aéreo, saltando de paraquedas.
Após terem saltado os precursores para a balizagem, apareceu o avião com o primeiro grupo de combate a sobrevoar a zona de intervenção… e os olhares dos mais nervosos procuravam diluir o imprevisto da chegada ao solo.
O sargento Arantes animou o pessoal, ironizando:
- Como podem ver pelas janelas do avião, há algumas nesgas de areia que permitem uma aterragem perfeita; devem evitar cair nos charcos ou no rio… pois, antes de enfrentarem os guerrilheiros, vejam se preservam as pernas dos apetites dos jacarés mais atrevidos!

Ao sinal dos "largadores", os homens do ar perfilaram-se na carlinga dos aviões, ajustaram os equipamentos e saíram apressados para o vácuo do espaço, que os separa das terras alagadiças nas margens do rio Rovuma. Enquanto apreciavam o serpentear das águas do rio e as nesgas de areia para onde apontavam a aterragem, os paraquedistas não esqueciam que podiam estar na mira de qualquer arma dum inimigo mais atento.
A chegada ao solo foi rápida, como mandam as regras em saltos operacionais, para logo se reunirem os grupos de combate com vista à defesa da zona e segurança dos companheiros que vão chegando ao solo – alguns com mais azar, caíram nos charcos cheios de bichos estranhos, mas ninguém se queixou dos jacarés!                         

Assim, mais de duzentos paraquedistas saltaram sobre o Pântano Malambuage, surpreenderam e tomaram de assalto os redutos da Frelimo; abateram várias dezenas de guerrilheiros durante os combates mais renhidos, apreenderam grandes quantidades de material de guerra e cercaram toda a zona dos acantonamentos do inimigo.
Durante três dias, os paraquedistas consolidaram as posições dominantes, bateram o terreno entre o rio Rovuma e a Base Limpopo, em Balade, a sul do pântano, pesquisaram e levantaram minas e armadilhas da Frelimo, fizeram as ligações aos grupos de combate do Exército que cercavam a zona em forma de tampão a Sul, a Leste e a Oeste do rio Rovuma.
Nesses dias de intensa labuta, uma companhia de Comandos tomou o acampamento logístico aos guerrilheiros, a Sul do pântano, duas companhias de Cavalaria bateram as brenhas junto do lago Lidede e vale do rio Nange e assaltaram um hospital dos guerrilheiros, recolhendo diverso material de guerra e documentos, capturaram elementos inimigos e da população de apoio.
Outra companhia do Exército bateu as terras a oeste do pântano e ajudou os paraquedistas a recolher o material de salto.
A progressão no terreno pantanoso obrigou a um esforço desmesurado, e só a grande determinação de vencer os obstáculos e uma abnegada vontade de chegar ao fim da missão conseguiu catalisar todos aqueles homens para uma vitória memorável das campanhas africanas.
 
 

Durante toda a operação Zeta, o apoio aéreo foi importante, tendo participado uma Dornier 27 no comando operacional, um helicóptero armado de metralhadoras pesadas, oito aviões T6 de ataque aos grupos inimigos que tentavam escapar ao cerco, dois aviões bombardeiros PV2, quatro aviões Nordatlas e três Dakotas no lançamento dos paraquedistas. A ação de bombardeamento aos grupos fugitivos ajudou a amolecer o ímpeto combativo dos guerrilheiros e cortou-lhes as linhas de fuga.

Pela minuciosa recolha de informações, cuidadosamente testadas, e o consequente secretismo no planeamento em muito curto prazo, a Operação ZETA é uma das mais importantes missões militares realizadas em Moçambique.
Os resultados atestam o sucesso das nossas tropas, cuja coordenação excedeu as melhores perspetivas, atendendo à impossibilidade de acesso a uma zona controlada pelo inimigo e às distâncias de qualquer ponto de apoio sem ser apeado.

O Comandante do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 32, sedeado em Nacala, teve a seu cargo a coordenação de todas as Tropas em ação, especialmente o apoio aéreo, os percursores da balizagem, os meios de recolha dos para quedas, a logística para as colunas auto, que recolheram o pessoal e o material apreendido.
Os paraquedistas empenhados nas ações, que culminaram nesta operação, pertenciam ao BCP32 e ao BCP31.
A sua elevada mobilidade permitiu infligir uma estrondosa derrota aos guerrilheiros, desarticulando as suas linhas de infiltração a partir das bases na Tanzânia, nomeadamente do comando logístico de Nachingwea e do pessoal operacional vindo do centro de treino em Mtwara, utilizando a estrada de Mahuta a Newala, a norte do rio Rovuma. Era impressionante a quantidade de picadas, trilhos e esconderijos dissimulados e espalhados numa área superior a vinte campos de futebol; na maior parte, em direção ao local de travessia do rio, para a estrada que liga ao interior da Tanzânia. 

A ação conjunta de cerca de 680 homens determinados, pouco mais de uma dúzia de aviões e quatro dezenas de viaturas chegou para desbaratar mais de duas centenas de guerrilheiros, destruindo os seus abrigos, desmantelando os acampamentos de apoio logístico, queimando os víveres e celeiros e escorraçando os galináceos e cabritos para o mato.
Mas, alguns “habilidosos”, conseguem “iludir” as vistas dos chefes (guardando dentro dos camuflados e nas mochilas) e, no sossego do último dia, apresentam umas dezenas de galinhas para o churrasco coletivo; é que, depois do revés sofrido pelo inimigo, nada mais havia a temer nesta paz do diabo.

Durante a contagem do material, em Mueda, enquanto se preparava para a fotografia que recordaria a inesquecível missão, o cabo Fonseca virou-se para o sargento Sampaio e rematou:

- O meu sargento tem que se empenhar mais nas informações… nas informações, para não ficar mal à beira do cabo!

Além da preciosa documentação sobre a orgânica da Frelimo, foram apreendidos mais de 15 toneladas de valioso material de guerra, bicicletas e meios de passagem através do rio Rovuma.”

1 - Pelas Tropas Paraquedistas:

- 1723 granadas de morteiro 82mm; 2 morteiros 82mm completos e peças de outros; 182 espingardas Simonov e 200.700 cartuchos; 1 metralhadora pesada e 6 metralhadoras ligeiras; 63 granadas de mão e 21 armadilhas de itinerários; diversos equipamentos.

2 - Pelas tropas do Exército, especialmente pelos Comandos:

- 97 espingardas semiautomáticas e 18.200 cartuchos; 8 espingardas automáticas PPSH; 1 morteiro 82mm e 93 granadas de morteiro; 5 metralhadoras pesadas; dezenas de minas e armadilhas; diversas granadas defensivas; fardamento e diverso material de campanha.

in “O DESPERTAR DOS COMBATENTES… fotos, narrativas e poemas dos dias da guerra em Moçambique”, de Joaquim Coelho

Alguns dados estatísticos da “História das Tropas Paraquedistas Portuguesas"


Operação Nó Górdio


Desencadeada em toda a zona do planalto dos Macondes

Considerada a maior operação de sempre, envolveu tropas do Exército, Marinha e Força Aérea, num total aproximado de 8.200 homens.
Decorreu de 1 de Julho a 6 de Agosto de 1970, tendo por base operacional Mueda.
Enquanto a artilharia e os aviões bombardeavam as zonas onde se movimentava a Frelimo, as tropas especiais tomavam posições no terreno para o assalto final às bases principais dos guerrilheiros - Bases Nampula, Gungunhana e Moçambique.
A logística e a abertura de itinerários teve a participação ativa das unidades de engenharia, da administração militar e de reconhecimento.

Esquema da "Operação Nó Gordio", in Jornal 24 Horas

O cerco às bases da Frelimo demorou mais do que o previsto, uma vez que os itinerários eram difíceis; foram realizadas emboscadas e batidas em toda a zona central do planalto, desde Miteda, Nangololo, Muidumbe, Sagal e Mueda.
Participaram no cerco forças de artilharia, cavalaria e caçadores, tendo as tropas paraquedistas, comandos e fuzileiros avançado no terreno para o assalto às bases da guerrilha.

Estas, quando não explodiam, eram usadas pelo IN...como minas anticarro!!

Apesar do grande envolvimento de meios, os resultados ficaram aquém do esperado, tendo a Frelimo aproveitado para se instalar nas proximidades de Tete, por onde desenvolveu ações contra as tropas portuguesas que protegiam a construção da barragem de Cabora Bassa.
Durante o período em que decorreram as ações militares, as baixas nas nossas tropas foram pesadas: cerca de 50 mortos e 200 feridos, além das perdas de material.

Comparando os resultados com a Operação Zeta, constata-se que um décimo de efetivos, em menos de um quinto de tempo e material envolvido, resultaram na captura de seis vezes mais material de guerra do inimigo.
 
Quanto a perdas humanas, a Operação Nó Górdio foi desastrosa.

 Os mentores da Operação Nó Górdio              

                                                                                              Por: Joaquim Coelho

Comentários e sugestões para: jota_coelho@netcabo.pt
Ver informações no Blog: micaias.blogs.sapo.pt
Ver vídeos no blog: ultramarlembrar.blogspot.com