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quinta-feira, 21 de maio de 2020

A grande viagem!, por António Júlio Sarmento

A grande viagem!

O começo de uma viagem, que para muitos será, o princípio do fim das suas jovens Vidas!

Depois de toda a tropa, entrar nas carruagens e depois de uma ronda pelas mesmas, para ver se estava tudo em ordem e acomodados, foi dado o sinal de partida.


O comboio começou a sua viagem em direcção ao Sul, levando mais uma vez centenas de jovens soldados, que iriam tirar uma especialidade depois de uns meses de recruta. 

E no percurso da viagem até Lisboa, as carruagens iam ficando vazias à medida, que os jovens soldados, iam sendo distribuídos pelos vários quartéis das regiões militares ao longo do percurso,até chegar a Santa Apolónia.

Muito de nós íamos tirar uma especialidade, para mais tarde, irmos fazer parte de batalhões, que iriam ser mandados para a guerra colonial.

Para muitos foi o princípio do fim das suas jovens Vidas, pois naquela altura, todos éramos poucos, para ir para uma guerra, que nenhum de nós desejou ou provocou e assim durante longos e amargurados anos milhares de jovens foram sacrificados.

Muitos morreram, outros, ficaram feridos e com mazelas, para toda a Vida.

Nesses anos de sacrifício e dor, para muitos de nós, há uma grande verdade, da qual nos podemos orgulhar. 

Aí nasceu uma grande e perfícua amizade,e camaradagem, que perdurará até ao fim dos nossos dias.

A imagem pode conter: comboio e ar livre

domingo, 18 de novembro de 2018

Partidas..., por José Nobre

José Nobre
17/11/2018
tag
Partidas.
Agosto de 1967 – Outubro de 1969.


As estações de comboio deveriam ter bóias de salvação. 

Lembrou-se do dia em que partiu, uma tarde quente de finais de Julho, ia para Estremoz. 
Tinham sido os últimos dias, antes de embarcar para o ultramar, para Moçambique. 
O Comboio aproximava-se, segurou-lhe a mão, apertou-a com força e murmurou as últimas palavras, não se recorda quais. 
Bruscamente deixou-a na estação, correu para a janela e viu-a acenando até que o comboio desapareceu, engolido pela primeira curva. 

Levou algum tempo a recuperar. 
Agora seriam dois anos. 
Não te esqueças de escrever à mãe, disse-lhe a irmã. 
Tinha deixado tudo naquela estação do ramal de Lagos, tentou ordenar as ideias, conter as emoções, não conseguiu, sentiu-se como um náufrago.
As estações de comboio deveriam ter bóias de salvação.

Era domingo, o teu vestido de verão ficava-te bem. 
Caminhamos juntos durante algum tempo, silenciosos. 
Eram as últimas horas na tua companhia. 
Na noite anterior tinham sido os últimos beijos, os últimos desejos. 
Agora estava ali, parado, olhando para ti, como se fosse a última vez, como se fosse a primeira vez. 

Guardei durante muito tempo o som da tua voz, o sabor dos teus beijos. 
Agora, és uma imagem, uma fotografia que trago sempre comigo e onde escreveste – Nunca te esquecerei.
3 de Agosto de 1967. 
Lá estava o Niassa, no Cais da Fundição em Santa Apolónia, esperando por nós, para nos levar para bem longe de tudo, de todos. 
Ia-mos para terras que não conhecíamos, sem saber se voltaríamos, o bilhete de regresso era uma lotaria.
"Quem fala de partir, de despedidas….
Quantas vezes parti na minha vida,
me despedi de vez de gentes e de lugares
a que voltei para encontra-los outros…..
Nem contar posso. E às vezes despedir
foi só pisar com vã melancolia,
as ruas de cidades onde não deixava
ninguém que me lembrasse."

( Jorge de Sena )

Olhou para a G3 pendurada na cama, carregada, com o cano virado para o tecto da caserna. 
Tinha o segundo carregador debaixo do travesseiro. 
Estava em Nangade, lá bem no norte de Moçambique, em Cabo Delgado. 
Nessa noite esvaziaram uma garrafa de Martini misturado com conhaque e fumaram maconha. 
Quase três horas da manhã. 
O único que ainda tinha a vela acesa era o Tavira, continuava a escrever, para a mulher, para a mãe e para a madrinha. 
Era um dos que mais escrevia, era um dos que mais cartas e aerogramas recebia. 
Olhou para a G3, boa altura para enfiar um tiro nos cornos, acabava ali a merda toda. 
Ponto final, sem parágrafo. 
Os outros que se lixassem, não tinha nada a perder, a morte seria oficializada como morto em combate.
No exército português não existem suicídios. 
Teria ainda tempo de ouvir o disparo, depois, o nada, o zero absoluto. 
Uma bala, uma só bala e partiria para outra viagem. 
Puxou a manta para cima, tapou o nariz, o frio e a humidade gelavam-lhe os ossos. 
Não deixou de fixar a G3, cinzenta, desafiava-o. 
– Não tens coragem, és igual aos outros, podes escolher a cabeça, a boca. 
Não sofrerás muito, será rápido e limpo, basta uma simples pressão sobre o gatilho…e Pluf, vás pró caralho, tu e os teus problemas, que pensas um dia resolver. 
Então cabrão? 
Despacha-te. 
Levantou a mão e acariciou a coronha, sentiu o frio metálico, o mesmo frio que lhe ia na alma e que a garrafa de Martini não tinha conseguido aquecer. 
Nunca tinha pensado no suicídio. 
Olhou novamente para a G3. 
Viu o diabo, estava fardado de camuflado.
Espetados na forquilha, à direita Salazar, à esquerda o Cardeal Cerejeira. 
Dançava, rodopiava, ria. 
Um rabo enorme batia contra as outras camas, afastava-se para depois voltar. 
Sorria. 
O suicídio? 
E depois? 
A G3 continuava pendurada na cama, imóvel, fria e a cheirar a óleo. 
O gatilho tal como um sexo à espera de uma carícia. 
Queres fazer amor chéri? 
Não pagas nada, está tudo incluído, ofereço-te a bala, uma só, nunca sabemos se existirão outros pretendentes. 
Sabes? 
É uma bala bem portuguesa e fabricada no Braço de Prata, nada têm a ver com aquelas gajas que vêm da China, da Rússia ou da Checoslováquia. 
Balas anónimas, chegam sem avisar. 
Não têm graça nenhuma, não te dão a oportunidade de participares na tua própria morte. 
Comigo és o dono e senhor, decides como e quando. 
Então filho? 
Não vou ficar a noite toda à tua espera, a olhar para ti, ou sim ou sopas. 
Agarrou-a com carinho, encostou a ponta do cano ao ouvido direito, acariciou o gatilho muito ligeiramente, e ficou imóvel durante longos minutos. 
Adormeceu.

Nunca mais bebo Martin misturado com Conhaque. 
Nunca mais fumo maconha. 
Não sou eu que estou aqui. 
Dói-me a cabeça. 
Que horas são? 
Que dia é hoje? 
Onde estou? 
A caserna acorda pouco a pouco. 
Tenho vontade de vomitar. 
Já vomitei. 
Preciso de um café, de uma aspirina. 
Ó mãe… doe-me a cabeça.

"Sabia antigamente de palavras
E nelas eu dizia
Como é forçoso estar vivo
Mas não é fácil relembrar
De que espuma eram feitas
As primeiras sortidas
Alguma coisa do que eu sou e fui
Foi em viagem
Pela madrugada conforme
E nem uma vez
Deixou de repicar aos meus sentidos
A mesma toada miúda."

( José Afonso )

Em Memoria do Amável, do Biubiu, do Braga e do Guerra e de todos aqueles que morreram na guerra ultramarina.Eu, nunca me esquecerei de vocês. RIP.
Apontamentos – Portimão – Estremoz – Moçambique – (Revistos em Paris -1975 e Portimão - 2004 )
PS – Optei por utilizar o vernáculo dos apontamentos originais……por respeito a todos aqueles que viveram comigo….”aqueles “ vinte e seis meses em terras africanas.
José Nobre - Soldado Condutor - 044483/67 - Moçambique - Agosto 1967 - Outubro 1969.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Texto do blog de um ex-militar - Luís Dias...

Copiámos este texto do blog de um ex-militar - Luís Dias.
quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011.
Dedicamos em especial ao compadre Jose Augusto Palminha.

FAZ HOJE 40 ANOS QUE FUI PARA A TROPA
Camaradas e Amigos
Hoje acordei com uma data a martelar-me a cabeça, sonhei com ela. 

Hoje é dia 12 de Janeiro de 2011 e faz precisamente 40 anos que ingressei na vida militar.

Há quatro décadas, um mês depois de fazer 20 anos, de mala feita e cabelo cortado curto, (na altura usava-o bastante comprido) juntamente com o meu amigo de infância João Ribeiro, apanhávamos o comboio em Santa Apolónia, deixando para trás a família, os nossos amigos, o nosso bairro de Alfama e partíamos para uma vida diferente, desconhecida, apresentando-nos no chamado "Destacamento" da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.

A recruta no EPC foi muito dura, com muito frio, muita chuva e especialmente com muita lama, que nos decorava o fardamento e se ia soltando, uma parte, devido ao batimento compassado das nossas botas, no asfalto das ruas de Santarém, quando em passo de corrida regressávamos da denominada zona de terraplanagem. 

Por vezes, para conseguir que ela saísse chegávamos a passar pelos chuveiros fardados. 

A ginástica matinal em plena parada, em camisa interior, num Janeiro gélido, era uma prova que nos acordava de forma inigualável para o resto do dia. 

Lembro-me da instrução nocturna em noites de chuva forte, em que colocávamos jornais entre a camisa interior e a farda, para não sentirmos tanto a força da água que nos castigava a pele e nos deixava enregelados. 

Andávamos quase sempre molhados e eu passei a odiar (e ainda hoje não gosto) sentir a roupa molhada junto ao corpo (ainda não sabia o que me havia de esperar na Guiné!!!). 

A prova do salto para o desconhecido - uma queda numa ribeira de águas de esgotos, o acordarem-nos de madrugada com os gritos: "Têm 5 minutos para formarem na parada!" e as contínuas corridas equipados de G3 e capacete, para baixo e para cima do vale de Santarém eram momentos bem sentidos. 

Havia, como se costuma dizer, toda uma panóplia de exercícios e corridas que nos iam deixando de rastos. 

Todos os minutos de intervalo eram por nós aproveitados para dormitar um pouco. 

O rigor das formaturas para ir de fim-de-semana (cabelos, barba, fardamento) e a acção psicológica dos altifalantes nas casernas a debitarem música militar e conselhos para nos deitar o moral abaixo, aliado à má alimentação, era tudo bem organizado para nos lixar a vida, nos despersonalizar.

Eu e o meu amigo João, juntamente com outro rapaz (Tavares) que conhecíamos da Escola Comercial Patrício Prazeres, ficámos no mesmo pelotão (2º) e no 5ºesquadrão: O João era o número 311, eu o 312 e o Tavares o 313 (éramos inseparáveis). 

Engraçado é que este número de ordem que me foi atribuído no ingresso no quartel fazia parte do meu número mecanográfico - o nº 03127471 - e o resto do número colocado ao contrário 71-74, em vez de 7471, foram os anos que eu vivi na tropa, ou seja, entrei em Janeiro de 1971 e saí em Abril de 1974 (uns dias antes do 25 de Abril).
Terminada a recruta cada um foi para seu lado. 

Eu fui fazer a especialidade de atirador, como cadete, para a Escola Prática de Infantaria, em Mafra, o meu amigo João seguiu para Tavira, para tirar a especialidade de armas pesadas e o nosso amigo Tavares já não recordo para onde foi porque nunca mais o vi.

Em 18 de Dezembro desse ano, já como Alferes Miliciano, embarquei para a Guiné, integrando a CCAÇ3491. 

"É muito..!", do BCAÇ3872, donde regressaria em 4 de Abril de 1974.

O meu amigo João Ribeiro foi mobilizado para Moçambique, em 1972, como Furriel Miliciano (zona de Mueda), integrando a CART3503 "Unidos e firmes", do BART3876, donde regressou já depois do 25 de Abril.