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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

As Buganvílias de Cabo Delgado..., por José Nobre

 

José Nobre

23/11/2020
Recordações em tempos de Covid.

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Moçambique – Agosto de 1967 – Outubro de 1969.
As Buganvílias de Cabo Delgado.

Cheguei a Muidumbe em finais de Outubro de 1967, depois de ter estado em Lourenço Marques, durante dois meses. 

Passei do oitenta para o oito. 
Agora sim, estava na zona de guerra, em pleno Cabo Delgado, na fatídica zona de Mueda. 
Voltei, voltamos, muitas vezes a Mueda, era lá que nos íamos reabastecer e foi nessa picada, entre Muidumbe e Mueda, passando por Miteda e Nangololo, que sofremos as primeiras emboscadas, que levantamos as primeiras minas e onde sentimos o medo, para o qual não estávamos preparados. 

Por estranho que pareça, não anotei a data da primeira emboscada. 
Sei que foi em Novembro. 
Passamos Nangololo, lá onde a tropa dormia dentro de uma igreja, um altar limpo e florido, o único local que estava limpo dentro daquela igreja, o resto eram camas, malas, caixas de ração de combate, armas, granadas......e o Senhor crucificado, numa cruz de pau-preto, olhando para todos aqueles que deambulavam de um lado para o outro, que escreviam cartas e aerogramas, sentados nos degraus do altar e que dormiam, por vezes, dentro do confessionário. 
De religiosos, nem sinal, zarparam todos para Mueda, ao primeiro sinal de perigo, deixando a igreja entregue aos militares. 

Pela primeira vez vi uma igreja em autogestão, cada um rezava quando queria e como sabia. 
Era estranho, mas quando chegávamos a Nangololo, muitos de nós, pelo sim e pelo não, lá íamos rezar, uma oração ou outra, aos pés do Cristo, pregado numa cruz de pau preto.

Depois arrancávamos em direção a Miteda.
Motores em marcha, e os nossos camaradas, sentados nos bancos dos unimogues, ou em cima da carga das berliets, armas em riste e o olhar no capim que circundava a picada. 
Lama e mais lama, horas e horas para percorrer, trinta quilómetros até Miteda.
Chovia nessa manhã. 
O Pedro maconde, o pisteiro, ia a meu lado, sentado no unimogue, olhando para a picada, para as árvores, tentando descobrir o mais pequeno sinal de perigo. 
Ele, já tinha feito aquele percurso, dezenas de vezes, com outras companhias militares que nos antecederam em Muidumbe, conhecia aquela picada, como a palma das suas mãos.

Ouviu-se o primeiro tiro, as viaturas pararam, saltamos para a picada e o arraial começou. 
Não levei a minha G3, quando saltei da viatura, abriguei-me por detrás do rodado da viatura e assim fiquei, quase paralisado, era o meu baptismo de fogo, a primeira vez que ouvia o som das armas do inimigo. 

O Pedro maconde, aproximou-se, rastejando, e perguntou-me. 
Onde está a arma do tropa? 
Disse-lhe que a tinha deixado na viatura. 
Foi busca-la e entregou-ma. 
Não disparei uma única bala. 
Ouvi-as a bater na carroçaria das viaturas, a assobiarem, ouvi o som das nossas granadas e da metralhadora que estava montada na Berliet, rebenta-minas. 

O radio-telegrafista, tentava entrar em contacto com Mueda, tentava dar as coordenadas do local da emboscada. 
Durou minutos que pareceram horas. 
No final tivemos quatro feridos, um deles com muita gravidade, uma rajada de metralhadora nas pernas e o meu camarada Quintela, ele que sempre me acompanhou, desde a recruta , com um tiro numa nádega e os outros dois, com pequenas escoriações, provocadas pelo salto que deram para a picada, quando a emboscada começou.
Voltou o silêncio. 
Pesado. 
O enfermeiro tratava do ferido mais grave, o telegrafista pedia a Mueda, o envio urgente de um Heli, para a evacuação dos feridos. 

Nós, depois de muitos minutos, em que não se ouviu um tiro, começamos a fazer o reconhecimento do local. 
Começamos a limpar uma zona para o Heli pousar. 
Vinte minutos depois, ouvimos o som do motor do Heli e os nossos camaradas foram evacuados. 
Um deles nunca mais o voltamos a ver, faleceu no hospital de Mueda. 

O Quintela foi transferido para o hospital de Nampula e só voltou à nossa companhia militar, quando já estávamos em Moatize, quase um ano depois. 
Não é fácil ver um camarada estendido na picada, enquanto o enfermeiro tenta estancar o sangue e lhe dá uma dose de morfina, para não sentir as dores.

Depois da emboscada, dormimos em Miteda.
No dia seguinte arrancamos para Muidumbe, lá onde as buganvilias, nasciam, cresciam por todo o lado. 

As vermelhas eram as mais bonitas, encostadas à nossa caserna, regadas e mimadas por todos. 
O vermelho, no verdejante vale de Muidumbe, lá onde envelhecíamos, pouco a pouco. 

Muitos anos mais tarde, tive bouganvilias no quintal da minha casa, vermelhas, como as de Muidumbe.

( Apontamentos – Muidumbe e outros locais – Moçambique – Cabo Delgado )

quinta-feira, 4 de junho de 2020

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes..., por Manuel Sousa

Manuel Sousa

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes

I -O Planalto em 1970

A Operação Nó Górdeo não estava a correr conforme os altos comandos tinham previsto.

Aquela que foi considerada a maior operação militar levada a cabo durante a guerra do ultramar, fez confluir para o Planalto dos Macondes (também conhecido como Planalto de Mueda), uma quantidade enorme de meios humanos e materiais, nunca antes vistos, com o objectivo de dar um golpe de misericórdia à Frelimo e assim pôr fim à guerra em Moçambique.


Foi tudo planeado e os militares corresponderam àquilo que lhes era exigido de forma abnegada e corajosa. 

Mas, houve um pequeno grande lapso dos nossos estrategas: avisar o inimigo que íamos atacar em força.

Um avião Dakota com um potente altifalante, sobrevoava toda a região e na língua nativa, pediam às populações para se entregarem nas povoações sob controle militar e abandonarem o mato e deixarem de apoiar os “terroristas” pois a tropa portuguesa ia ocupar as aldeias.

Obviamente que demos tempo suficiente para que os guerrilheiros da Frelimo se retirassem para locais mais seguros, levando consigo parte das populações que lhes serviam de apoio, deixando para trás os velhos que já não os podiam acompanhar nas marchas intermináveis pelo mato. 

Deu-se assim início a operações de guerrilha em locais até aí mais ou menos calmos. 

Como alguém já disse, foi como dar um murro num vespeiro.

Na retirada, a Frelimo deixou para trás as minas que enterraram nas picadas, onde sabiam que mais tarde as nossas tropas haveriam de passar.

A nós militares, o alto comando mandou-nos construir palhotas e providenciou-se para que houvesse alimentos para os milhares de guerrilheiros e populações que previam se iam entregar ás nossas forças armadas, com medo de serem mortos ou capturados de forma a que fossem recebidos com a hospitalidade possível.


Em Muidumbe, onde estavam sediados dois pelotões do Esquadrão de Cavalaria 1, o Pelotão nº1 e o nº2, ao qual eu pertencia, estava previsto que se entregassem mil e tal elementos. 

Havia palhotas construídas para os abrigar.

Ninguém se entregou.

E o “BOCAS”, um velho Dakota da Força aérea, continuava com um potente altifalante a sobrevoar o mato e a pedir aos guerrilheiros e civis que se entregassem às nossas F.A. 

Lançava panfletos divulgando as vantagens que havia se se pusessem do lado das Forças Portuguesas.

Mas os Macondes são um povo especial. 

Sabem o que querem e, por bem, são leais até à morte. 

Por mal, no seu território, são invencíveis.

E esse mal, já algumas das nossas autoridades administrativas civis, o tinham feito. 

Mas isso é outra história.


O planalto é arborizado por uma vegetação rasteira, composta de densas lianas resistentíssimas, impenetráveis e que raramente atinge dois metros de altura, que envolvem as árvores que delas não se conseguem libertar. 

Por baixo deste céu verde, não se vê o sol e são poucos os locais onde a claridade penetra. 

Vista do ar, parece um mar verde-escuro, com umas raríssimas pequenas clareiras.

Nesse tufo para nós impenetrável, existem túneis cavados na vegetação por onde os Macondes se deslocam a pé, abaixados, protegidos do sol e da vista de intrusos, deixando para trás, em locais que só eles sabem as suas explosivas armadilhas que tantos mortos e estropiados nos causaram.


Claro que as nossas tropas, à custa de muito sangue derramado, lá foram aprendendo a deslocarem-se por esses túneis cavados na vegetação, improvisando duma forma extremamente simples os seus detectores de armadilhas. 

Só mesmo o engenho desses soldados, inventaria um detector constituído por uma cana e um cordel.

Mas, como os guerrilheiros e populações não se entregavam e as principais Bases inimigas foram encontradas pelas tropas especiais Portuguesas abandonadas, era necessário incendiar a vegetação para lhes podermos “pôr a vista em cima”.

Mais uma vez a genialidade dos comandos manda largar pela Força Aérea bombas incendiárias “Napalm”, para incendiar esta vegetação que servia de abrigo aos nossos inimigos. 

Mas as lianas nem sequer ardiam.

O tipo que inventou a Napalm nunca esteve no Planalto de Mueda e esqueceu-se de pôr no Manual de Instruções que esta bomba não servia para fazer arder aqueles arbustos Macondes. 

Esqueceu-se também de avisar que por qualquer razão, ali, muitas delas não explodiam. 

Ou por serem mal largadas ou porque a vegetação amortecia o embate no solo.

Da mesma forma que nós capturávamos o material que os guerrilheiros abandonavam em fuga, eles aproveitavam e guardavam o que podiam do nosso. 

Entre ele, bombas da aviação que não explodiam.



II – Nangololo – entregaram-se dois guerrilheiros.

Enquanto a Engenharia Militar tentava aumentar e alargar a pista de aviação, com os enormes Caterpillars D -12 abrindo mato nas lianas Macondes, com as lagartas a derrapar, os homens do Esquadrão e não só, faziam a protecção aos operadores das máquinas. 

E, quando o Caterpillar já não tinha força para arrancar e partir as lianas, as motos serras ajudavam na tarefa.

Era muita gente na pista uns meio fardados meio desfardados, negros, brancos, asfaltadores da engenharia, militares emboscados nos limites da pista, Panhards para cima e para baixo, homens a pé ou de Unimog, pista acima e pista abaixo.

O quartel do Batalhão de Nangololo era um luxo. 

Estava num dos extremos da pista. 

Tinha uma Igreja que servia de camarata para aquele pessoal todo e uma bateria de artilharia que substituía o relógio do campanário da Igreja a dar horas. 

Durante a noite, de hora a hora, lá se disparavam uns obuses para a serra do Mapé, fazendo estremecer tudo e acordando toda a gente. 

Toda a gente talvez não, mas pelo menos aqueles que como eu, não estavam habituados aquele estranho modo de dar horas. 

Quando o vento soprava mais forte, o feijão macaco atacava todos.

O aquartelamento até tinha uma porta de armas com uma cancela de pau, para não deixar entrar intrusos no recinto. 

Aquilo parecia ser a sério.


No outro extremo da mesma pista a cerca de 2 quilómetros, eram as instalações e comando do Esq., Cav. 1 que, incompatibilizado com o comando do Batalhão, era constituído por quatro tendas cercadas por uma corda, cerco interrompido pela entrada guardada por um garboso soldado também para impedir entradas de intrusos sem prévia autorização do capitão.

O gabinete do sargento amanuense era em cima de uma Mercedes Benz de seis toneladas, onde se sentava sobre umas caixas de madeira cheias de granadas de morteiro e escrevia à máquina e tratava de toda a papelada com o esmero possível.

Um belo dia aproximam-se dois homens da sentinela do Batalhão de Nangololo e perguntam pelo Comandante. 

Uma pergunta tão estranha num dia tão normal fez com que a sentinela lhes respondesse: “- Eh! Pá, o que é que vocês querem?”

“Queremo-nos entregar!”

Só depois é que a sentinela reparou que as armas dos dois não eram iguais à dele, mas sim Kalashnikovs russas.

Apontou-lhes a G3 assustado, eles entregaram as armas e lá chamou alguém para os acompanhar ao Comandante.

Eles, dois militares da Frelimo, aproveitaram a confusão que havia na pista de Nangololo passaram pelas nossas seguranças, e no meio dos nossos militares para se entregarem.

Se não se tivessem apresentado, teriam almoçado na cantina dos nossos soldados, dormido na camarata e podiam ter seguido viagem no dia seguinte.


Haviam casos anedóticos destes. Já tinha acontecido um ano antes em Nova Guarda. 

Estávamos sentados à porta de uma cantina a comer a ração de combate e aproximam-se de nós dois africanos, dirigem-se ao Alferes que estava sem os galões e dizem-lhe: vimo-nos entregar. Entregaram-nos as armas e levamo-los para Vila Cabral. Como sabiam quem era o alferes se estava sem galões?


Mas, voltando a Nangololo.

A CCS (Companhia de Comando e Serviços) fez uma tentativa de levantamento de rancho (greve à alimentação) e, de castigo, foram mandados fazer um patrulhamento a pé no mato. 

Estes militares não saíam habitualmente do aquartelamento.

Após duas horas de caminho, foram emboscados. 

As rajadas ouviram-se perfeitamente no Quartel e o capitão Faria Afonso, meu comandante, que tinha a sua tenda de comando no extremo da pista de aviação de Nangololo, mete a Panhard a corta mato, conforme pôde, pois haviam umas clareiras próximas do Quartel onde tinha sido uma antiga machamba. 

Cruza-se com os militares da CCS que já vinham de regresso com um ferido ás costas.

O Capitão Faria Afonso tenta encontrar os atacantes pois segundo ele deveriam ainda andar por perto, mas encontra apenas um acampamento abandonado com algumas palhotas e sepulturas.

O acampamento era, provavelmente, utilizado pelos guerrilheiros que ao aperceberem-se da aproximação da companhia de Nangololo, abriram fogo sobre os militares desprevenidos, atingindo um deles.

Os guerrilheiros quando sentiram a Panhard fugiram levando consigo tudo o que puderam deixando para trás, além dos mortos sepultados, as palhotas e um casal de velhos que devido à avançada idade não os puderam acompanhar.

Os militares do Esquadrão destruíram tudo, queimando as palhotas e destruindo as sepulturas.

Isto aconteceu, dois dias antes da Frelimo colocar na picada habitualmente patrulhada pelo Esquadrão, as bombas que a nossa Força Aérea largou e não explodiram.



III - 17 de julho de 1970

Nesse dia 17 de julho de 1970, uma patrulha composta por duas Panhards, uma Berliet preparada para rebentar minas e um Unimog com atiradores, saiu de Miteda para Nangololo.

Como o percurso era curto, normalmente fazia-se a “picagem” num dos sentidos, regressando rapidamente para não “dar tempo aos guerrilheiros colocarem minas”.



Mas nesse dia, os militares demoram-se mais tempo em Nangololo do que o normal e, no regresso, a primeira Panhard cujo chefe de carro era o Furriel Milº. Carlos Alberto Almeida Dias, conduzida pelo Daniel Viegas fez explodir uma bomba. 

O cesto (torre) da Panhard foi arrancado do resto da estrutura e projectado a cerca de vinte metros ficando a arder com dois militares lá dentro enquanto as munições e granadas que transportava explodiam e a gasolina fazia arder tudo, não deixando que alguém se aproximasse dos destroços. 

O Viegas, recebeu sob si o impacto directo da bomba e o seu lugar de condutor “abriu-se” como se de uma lata de sardinhas se tratasse.

O soldado condutor do rebenta minas, o Matos, também morreu com um estilhaço da explosão.

Quem testemunhou o estado em que ficaram os corpos da tripulação da Panhard, fez-me um relato que não me atrevo aqui a reproduzir. Os militares sobreviventes ficaram em estado de choque sem saber que fazer.




Quando em Nangololo se soube do desastre, foram dadas ordens para a coluna regressar, mas o capitão Faria Afonso não as acatou dirigiu-se para o local do rebentamento e deu ordens para que se avançasse. 

O Capitão Faria Afonso já tinha idade para ser Major, mas alguns castigos atrasaram a promoção. Tinha-lhe aparecido a oportunidade de ser promovido por bravura e distinção.

O seu condutor de Panhard, o soldado Bramão Miranda traumatizado com o sucedido, implorou ao capitão que voltassem para trás. Mas este insistiu para que se contornasse o buraco causado pela explosão e avançasse. 

O Bramão responde-lhe: “Meu capitão, é melhor mandarmos fazer picagem antes de avançarmos, podem haver mais minas por aí.” 

Ao que o capitão lhe responde: “Se estás com medo, sai daí, conduzo eu a Panhard”. 

O Bramão deu o seu lugar ao capitão e chorou de raiva. 

Todos sabíamos que ele era um valente soldado, nunca tinha medo ou não fosse transmontano. Nunca ninguém lhe tinha dito que era covarde. 

Antes do capitão arrancar com a auto-metralhadora, o Bramão, a chorar, subiu para o lugar do capitão. 

Poucos metros mais à frente uma nova explosão sob a Panhard, destruindo-a e com ela os seus ocupantes.

Quando chegam reforços de Miteda, recolheu-se conforme se pôde o que restava dos corpos dos seis tripulantes das Panhards e do condutor Matos da Berliet rebenta minas.

Mais à frente, no sentido Nangololo - Miteda, após picagem, foram encontradas mais duas bombas da nossa Força Aérea, “ligadas” a duas minas anti-carro cada uma delas.

Só assim soubemos o que provocou a destruição das Panhards, caso contrário, só poderíamos especular.

Nessa noite ficaram dois furriéis e alguns soldados a guardar os destroços e o que restava dos corpos. Hoje passados 50 anos, os furriéis, continuam a fazer tratamentos psiquiátricos.

Há quem diga, mas isto são suposições, que esta acção da Frelimo que já estava numa fase de retirada do planalto, foi a retaliação contra o Esquadrão, pela acção levada a cabo pelo capitão Faria Afonso, dias antes, no acampamento encontrado próximo de Nangololo.

Eu soube dos acontecimentos nesse mesmo dia à noite. 

Estava em Muidumbe e liguei o C42, rádio de FM da Panhard, tentando ouvir as conversas dos guerrilheiros que comunicavam nesta onda de frequência. 

Mas, acabei por sintonizar os meus camaradas de Nangololo e Muidumbe a falar sobre estes acontecimentos. 

Comuniquei-os aos meus camaradas de Muidumbe que também ficaram em estado de choque.

No dia seguinte de manhã, quando o 1º pelotão que estava em patrulha regressou, saiu o 2º pelotão para a picada da Capoca, como se nada tivesse acontecido.



Passados cinquenta anos, ponho-me a imaginar como seria bom beber um copo com o Daniel Viegas como faço com o Mealha, passar um fim de semana no Alqueva com o Almeida Dias, como faço com o Viriato ou dar um abraço ao Bramão com dou ao Banza.

Estes homens partiram prematuramente, mas procuro imaginá-los com os cabelos brancos filhos e netos, como eu. 

É bom que alguém os recorde pois eram militares destemidos, disciplinados, extrovertidos e duma coragem a toda a prova.

O Capitão Faria Afonso recebeu uma Cruz de Guerra de 1ª classe por este “ato de bravura.”

Os outros que com ele morreram, apenas foram vítimas das loucuras dos homens.

Já quase ninguém fala deles.



Nesse dia 17 de julho de 1970 morreram do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria 1 de Moçambique, os seguintes sete militares:


1-Capitão Jaime Alvim Faria Afonso, natural de Lisboa;
2, Furriel Carlos Alberto Almeida Dias. natural de Lourenço Marques;
3- Soldado Duarte Tomás Bramão Miranda, natural de Bragança e residente em Lourenço Marques;
4- José Manuel Matos, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
5- Daniel Viegas, natural de Olhão e residente em Lourenço Marques;
6- 1º cabo Victor Manuel Silva, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
7- 1º cabo Mangas Pereira, natural de Ourém e residente em Lourenço Marques.

Manuel Serafim de Matos Sousa
Ex-furriel Milº de cavalaria

Notas finais:
O camarada Manuel Pereira Martins no seu livro “Memórias de um Tempo Perdido” também descreve este acontecimento de 17-7-1970. 
São factos que ambos acompanhamos e que não podem ser plagiados. 
Apenas descritos com mais um ou outro pormenor;

Há quem defenda que esta guerra deveria ter continuado;

Mas a guerra continua em Cabo Delgado mas com outros protagonistas,

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Avô, Avô, olha o que eu encontrei..., por António Júlio Sarmento

Antonio Julio Sarmento para PICADAS DO CABO DELGADO
2020-02-29
Tempos revoltos, tempos difíceis!
Pegou na foto, já amarelecida pelo tempo e foi ter com o Avô.
Avô, Avô, olha o que eu encontrei.

Sentado na poltrona, lá estava o Avô dormitando e talvez sonhando com uma Vida, cheia de memórias e vivências já passadas.

Avô olha o que eu encontrei, quando é que foi tirada esta foto? 
Quem são estes militares? 
Tu também estás aí?
Sim estou, Pedro, na tua escola os professores nunca falaram da guerra colonial?
Não Avô nunca ouvimos, falar nisso.

Infelizmente, hoje isso é uma realidade, mas o Avô vai-te contar, o que foi esse tempo de guerra e sofrimento, com morte, feridos e sequelas , para muitos jovens, naquela maldita guerra.

Naquele tempo o serviço militar era obrigatório, não é como hoje, que só vai para o serviço militar, quem quer naquele tempo ou se ia ou fugia-se. 

Naquele tempo haviam as chamadas províncias ultramarinas. 
As gentes dessas terras, chegaram à conclusão que, já era tempo de seguirem em frente e tomarem as rédeas e governo das mesmas. 
Tentaram dialogar e acertar a melhor forma de o fazer.
Mas como sabes, vivíamos nesse tempo numa ditadura.

Esses governantes nunca chegaram a acordo rejeitando, qualquer solução pacífica.
Eles revoltaram-se pegaram em armas, para conseguirem a sua independência.
Então durante quatorze anos eu e muitos jovens daquele tempo, fomos mandados para África, defender esses territórios.

Aí lutámos com bravura aí morremos ou ficámos feridos, com mazelas para toda a Vida. 
Essa fotografia, que tens na mão foi tirada numa altura, em que tivemos uma emboscada.
Estávamos a pôr numa maca improvisada um Camarada, que tinha sido ferido com gravidade e estávamos à espera do helicóptero, para se fazer a evacuação para o hospital militar mais próximo.

Como vês a nossa juventude não foi uma Vida fácil.

É verdade Avô, por aquilo, que me contas, vocês foram uns bravos soldados, tenho pena, que os nossos governantes tenham apagado e esquecido esse período triste e dramático da nossa História.

Resta-nos, Avô as tuas memórias e testemunhos de muitos outros militares, felizmente ainda vivos, para nos contarem e nos recordarem esses tempos. 

A grande viagem!, por António Júlio Sarmento

A grande viagem!

O começo de uma viagem, que para muitos será, o princípio do fim das suas jovens Vidas!

Depois de toda a tropa, entrar nas carruagens e depois de uma ronda pelas mesmas, para ver se estava tudo em ordem e acomodados, foi dado o sinal de partida.


O comboio começou a sua viagem em direcção ao Sul, levando mais uma vez centenas de jovens soldados, que iriam tirar uma especialidade depois de uns meses de recruta. 

E no percurso da viagem até Lisboa, as carruagens iam ficando vazias à medida, que os jovens soldados, iam sendo distribuídos pelos vários quartéis das regiões militares ao longo do percurso,até chegar a Santa Apolónia.

Muito de nós íamos tirar uma especialidade, para mais tarde, irmos fazer parte de batalhões, que iriam ser mandados para a guerra colonial.

Para muitos foi o princípio do fim das suas jovens Vidas, pois naquela altura, todos éramos poucos, para ir para uma guerra, que nenhum de nós desejou ou provocou e assim durante longos e amargurados anos milhares de jovens foram sacrificados.

Muitos morreram, outros, ficaram feridos e com mazelas, para toda a Vida.

Nesses anos de sacrifício e dor, para muitos de nós, há uma grande verdade, da qual nos podemos orgulhar. 

Aí nasceu uma grande e perfícua amizade,e camaradagem, que perdurará até ao fim dos nossos dias.

A imagem pode conter: comboio e ar livre

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O heli-canhão!, por António Júlio Sarmento

O heli-canhão!
O caminho era sinuoso, a progressão ia-se fazendo devagar e com cuidado.
Era uma zona onde se sabia, que existiam, bolsas de guerrilheiros dispersos numa vasta área.

Dá-se o encontro de um momento para o outro, ouvem-se o barulho das armas, com gritos de dor e ordens à mistura.

O combate estava a ser duro e mortífero. 
Valeu - nos um heli-canhão, que nos seguia à distancia assim conseguimos com a sua ajuda, inverter a situação. 

Mesmo assim ainda tivemos um morto e dois feridos. 
Nessa noite, quase não dormi, vinha-me à lembrança o combate desse dia como de um filme se tratasse, os mortos os feridos os gritos de dor o barulho das armas essa noite passeia em claro pensando nesse dia horrível.

Moçambique, histórias e factos, passados durante a guerra colonial no século passado.


Resultado de imagem para helicanhão

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

UMA ESTÓRIA DE GUERRA..., por Joaquim Antero Ferreira

No rescaldo dos acontecimentos do dia 5 de Janeiro de 1969, no Aquartelamento da Cruz Alta, na Serra do Mapé, para além dos 7 Camaradas que pereceram, nesse fatídico dia, foram evacuados mais uma dezena de outros, comigo incluído, gravemente feridos, para a pista do campo de aviação de Macomia.

No local, a confusão era total. 
A juntar ao barulho ensurdecedor provocado pelos helicópteros, que chegavam com a sua carga humana de mortos e feridos (par...a de imediato regressarem à Serra para evacuar mais Camaradas), sobreponham-se os gritos dos feridos em conflito com as ordens e contra-ordens dos diversos intervenientes no socorro, sendo de destacar as do Comandante do Batalhão (que gostava de "estar em todas") desde que previamente estivesse garantida toda a segurança!

Depois de ter sido feita a triagem, os mortos por lá permaneceram, para serem, posteriormente, sepultados no Cemitério da Missão.

Os feridos, depois de nos serem prestados os primeiros socorros, lá fomos, gradualmente evacuados para o "Hospital" de Mueda, onde ficámos até ao dia seguinte, juntamente com outros Camaradas que lá se encontravam.

No dia seguinte, alguns de nós, acabámos por ser evacuados para o HM 125, em Nampula, dado a gravidade dos ferimentos. 

Decorridos 28 dias, regressei à Serra.

Ainda hoje, decorridos que são 48 anos, após este fatídico acontecimento, ainda tenho bem presente, lá no sítio onde se guardam as memórias, todos os sentimentos de dor, raiva, desespero e impotência que este acontecimento me provocou.
Comentários
Luis Pinto Coelho Octávio Galvão de Figueiredo...cruzei-me com ele em inúmeras situações...desde a crise de Macau (por minha curiosidade de eventos históricos; as autoridades chinesas - no tempo de Mao, exigiram a sua demissão de comandante da polícia e saída do território, na época da revolução cultural por volta de 1966) a Chaves em Novembro de 1967, Oasse em 29 de Outubro de 1968 em representação do Comandante do sector B e depois de 25 de Abril de 1974, como elemento do Conselho da Revolução, distribuidor de armas a Edmundo Pedro, relacionado com o Grupo dos 9 (no PREC), e nos Açores, como representante da República na Região Autónoma....
Conversei com ele, na praia da Caparica, uma vez nos anos 80..de forma informal, sobre Moçambique.

Luis Pinto Coelho Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. 
Um potencial revolucionário impressionante. 
Os Guardas Vermelhos surgiram. 
O governo ficou debaixo de fogo. 
De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. 

Macau estava há alguns meses sem Governador. 
Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. 
Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. 
Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. 
A arrogância ao diálogo. 
O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. 

Não podia ter sido pior. 
Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. 
Pior, usaram de arrogância colonialista. 
As tensões exacerbaram-se. 
As posições extremaram-se.

No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. 
As escolas estavam mobilizadas. 
Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. 
Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. 
Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. 
Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. 
Lá estavam guardadas armas e munições. 
Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. 

Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. 
Não havia outra solução. 

O condutor da camioneta é a primeira vítima. 
O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. 
A confusão é enorme. 
Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. 
A multidão dispersa-se. 
Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. 
O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. 

No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. 
No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. 

Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. (in: http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-123-em-1966.html)
Um blogue sobre a história de Macau. 
A blog about Macau's history.
macauantigo.blogspot.com

Joaquim Santos Octávio Q. G. de Figueiredo, um homem que me deu sorte! 
Em 1967 no final do curso em Tavira, discursou a desejar felicidades e boa sorte a todos os instruendos. 
Em 1970 em Tomar, na recepção ao meu Batalhão, desejando a todos felicidades para a vida civil.

Americo Maceiras Caetano E eu a ouvir os rebentamentos em Macomia. Para chegarmos lá a cima para socorro duramos para nós um século...

Sofremos tanto como vós, pois estava lá uma secção de Sapadores.... Terrível dia!! 
O pelotão por culpa desse maldito Octávio Q. G. de Figueiredo voltámos a ter o mesmo pesadelo a 18 de Dezembro 1969 na Cantina Oliveira e pior ainda nos primeiros dias de Fevereiro quando do rebentamento de uma mina quando regressávamos de Tete a caminho de Ribaué.


Jose Monteiro Acontecimentos destes nunca se esquecem.

D'Abranches Leitão G. José Recordações trágicas. ... que só quem as viveu...e sofreu...pode escrever como o caro amigo Joaquim Antero Ferreira! Estive no mesmo "barco", Serra do Mapé ....mas com mais sorte! Abraço fraterno, caro amigo!

D'Abranches Leitão G. José Recordo a minha "estada"....no HM125...

A cadeira de rodas, tinha uma história engraçada, digna de ser relatada!
Era única e por conseguinte quando alguém precisava de ir tirar radiografias ou fazer outro exame e que necessitasse de ser transportado sentado, eu ficava na cama, no meu quarto, até que a dita cadeira me fosse devolvida!

Uma vez por semana íamos ver um filme ao cinema de Nampula!
Voluntários não faltavam para me acompanharem, segurando a cadeira, assegurando assim um bom lugar! 
O “coitadinho” devia ter pisado uma “mina” e merecia um bom lugar! 
Às vezes era difícil explicar porque era necessário a ajuda de 4 ou 5 “enfermos”!!!

Sempre que ouvia o Heli, sinal de que mais vítimas da “guerra” vinham para o hospital, lá estava o “apanhado do clima” na sua cadeira de rodas, junto à pista, para dar o apoio possível!

Viria a saber histórias de Mueda bem no coração de Cabo Delgado, outro inferno, onde havia uma hospital de campanha, que alguns companheiros que entretanto feridos me relataram como sendo muito rudimentar, sendo a sala de operações, digna de uma cena daqueles filmes em que as pessoas mais sensíveis não devem ver. 

Disseram-me que os mortos estavam espalhados pelo chão, nus, como também os vivos à espera de tratamento: as equipas de cirurgiões amputavam pernas, a torto e a direito, “cortando o mal pela raiz”.

Explicando melhor, contavam que muitas vezes só eram amputados pés, mas que mais tarde originavam “gangrenas”, já em Nampula ou mesmo no Hospital da Estrela em Lisboa, e lá teria o infeliz de se submeter a nova cirurgia e lá ficava sem a perna toda!

Um dia, entra pelo meu quarto dentro uma alta patente militar, indagando quem era o Furriel Milº Abranches Leitão! 
Com alguma timidez, lá levantei o braço, pensando que me iria anunciar “algum castigo” pelas tropelias e irreverências. 

Fui informado de que o Estado Maior do Exército tinha recebido um telegrama de Lisboa, para saber se o militar em questão ainda estava vivo! 
Vim a saber que a família “moveu montanhas” para sabe notícias minhas, pois desde a entrada no HM125, que tinha deixado de escrever. 
Uff!
A partir deste momento o Sargento enfermeiro, o tal do hematoma, começou a tratar-me com mais respeito! 
Porque seria.

D'Abranches Leitão G. José Acerca do hematoma do sarg enf°...recordo o que já escrevi. 

Um “sacana” de um Sarg. Enfermeiro, que normalmente acompanhava as ditas senhoras do MNF, considerou-me “apanhado do clima” e até perigoso, só porque um belo dia, num exercício rotineiro de alguns “peões” no corredor, com a minha, nossa (única) cadeira de rodas, o atropelei, pois não avisou que ia a passar!!! 

Julgo que o desgraçado ficou com um hematoma para toda a vida! 

Julgo também que as minhas barbas crescidas entretanto, o roíam de inveja, pois como militar de carreira tinha de andar bem “escamuteado”!

A dita fita métrica que vinha agarrada (brinde) a uma mini pasta de dentes, serviu para mais tarde medir a cama do Cunha, um Furriel Milº do Porto que estava a “lerpar”, mesmo na cama ao meu lado! 

Como o Alferes médico se tinha desenfiado, para o “Bagdad”, que era o Bar mais IN (selecto!) de Nampula, frequentado pelas altas patentes militares, deixou o pobre “vela” a tomar conta de nós. 
Este mesmo “vela” que tentava meter uma seringa nas veias do pobre Cunha, mas que apanhava tudo menos veias. 
Os braços do Cunha pareciam um crivo! 
Depois de obrigar o dito enfermeiro improvisado ir chamar o Alferes médico, começei a acalmar o Cunha, medindo-lhe a cama e perguntando-lhe:
- Queres o caixão em pau-rosa ou em pau-preto!!!??

Com esta “terapia” consegui que o pobre “moribundo” abrisse os olhos e me olhasse com um sorriso, o qual nunca cheguei a perceber!!!?? 

Mas pouco depois chegou o Alferes Médico e o Cunha continuou a jogar a lerpa connosco até ter alta. 
Tinha-se salvo!

Joaquim Antero Ferreira Ainda bem para o Cunha! 😀

D'Abranches Leitão G. José A camaradagem era uma constante! 
A brincadeira da medição da cama, foi bem aceite pelo Cunha. 
Aliás só estes momentos, nos animavam!!!

Joaquim Antero Ferreira Há quem lhe chame "Terapia de Choque"...e, pelos vistos, até resultou!...