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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Eu canto p’r’a minha terra, Cancioneiro do Niassa

Eu canto p’r’a minha terra,
Já que não posso lá estar!
E canto p’ra distrair
Quem passa o tempo a chorar!
Canto também, até
mesmo sem rima;
Eu canto porque já estou
apanhado pelo clima!

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

No Lunho, Todos nós temos
Uma missão a cumprir:
“LERPAR” de tacho e correio
E de resto, toca a rir...
Passo, também aqui,
Tempos felizes,
Vendo corridas aéreas
De patos e de perdizes.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

Temos também, como capa,
Oficiais e sargentos,
Que em vez de pé, dizem pata
E são todos rabujentos.
O capitão, porém,
É nosso amigo;
A quem souber cumprir bem,
Dá reforços de castigo.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...


quinta-feira, 17 de março de 2016

A EMBOSCADA, por Joaquim Santos

Joaquim Santos
DIA 23 DE FEVEREIRO DE 1969 (há 47 anos)
.
Passaram muitos anos, mas a recordação daquele dia 23 de Fevereiro de 1969, esteve sempre presente, embora algo difusa em alguns pormenores, que o tempo levou consigo como recordação.
 
Este foi um tempo estacionário, sem horizontes, vivido dia após dia, pela incerteza e a ansiedade resultante da imprevisibilidade das diversas situações em ações de guerrilha no interior da África.
 
Num aquartelamento improvisado, onde tudo era rudimentar, onde quase tudo faltava e onde tudo teria de ser feito, melhorando sucessivamente as instalações, tendo em vista a segurança daquele reduto, para uma estadia que poderia ser prolongada e onde para além de tudo, teria de se manter uma atividade operacional regular.
 
Recordo-me da primeira vez que vi aquele local.
Olhei as viaturas carregadas de militares, “novinhos em folha” acabados de chegar da Metrópole, deslumbrados por se sentirem envolvidos pela natureza africana.
Os nossos rostos deixavam transparecer um misto de medo e receio do desconhecido.
Concentrados na observação do meio envolvente, alimentando o nosso imaginário, onde tudo seria possível, desde os ataques do inimigo até às investidas das feras camufladas no meio da vegetação, ao longo da picada que nos conduziria aquele local, o Vuende.
A coluna militar aproximava-se lentamente e foi então que vislumbrei, no meio da confusão das viaturas e do pó que nos envolvia, aquela clareira rodeada de vegetação com três construções rudimentares em tijolo de cimento, chapas de zinco e duas outras de construção artesanal, dentro de um perímetro demarcado por uma vedação, com três arames farpados de fácil acesso a qualquer intruso…
Naquele momento tive uma sensação de apatia total, apeteceu-me retroceder, mas nesse desalento, algo renasceu em mim que me impeliu a enfrentar e ultrapassar esta “prova de fogo” como um desafio às minhas capacidades físicas e intelectuais.
 
Desde o momento da mobilização, sempre julguei estar preparado psicológica e operacionalmente para as mais diversas situações, não só pela formação e preparação recebida, como também pelo empenhamento que assumi ser fundamental para enfrentar as dificuldades num meio hostil e desconhecido.
Muito antes de ser chamado a cumprir o serviço militar, tive consciência que iria viver esta guerra por dentro e não através dos jornais e das diversas publicações dos correspondentes das Agências Internacionais nos diversos teatros de guerra, na época - Vietnam (Dien Bien Phu) com os Franceses primeiro e depois com os U.S.A., a Argélia e no ex-Congo Belga.
 
Foi assim, com esta “bagagem” que entrei na recruta na E.P. de Cavalaria em Santarém, tendo escolhido a especialidade de atirador e no C.I.S.M. em Tavira, a opção da mobilização para Moçambique.
 
Com o decorrer do tempo, aquele local - Vuende - passou a ser o centro do mundo, o lugar e a casa de todos aqueles que durante 21 meses, aguentaram a incerteza do dia seguinte, a impossibilidade de pensar o futuro...
Transformaram as tristezas em alegrias no meio da amizade e camaradagem.
Ali se festejavam Aniversários e Natais de todas as Famílias.
 
Quando se saía durante alguns dias, para as mais diversas atividades operacionais, era sempre bom regressar aquele local.
 
Nesse domingo de Fevereiro, também acabamos por regressar de acordo com o previsto.
Depois de três dias de patrulhamento no “mato”, na zona do Cauére, onde a atividade inimiga se fazia sentir em algumas ações ofensivas naquela região, através de flagelações, emboscadas e com alguma frequência na colocação de minas anti-carro, cujo efeito desmoralizador e devastador provocava feridos e mortos nas nossos fileiras.
 
Nos dois dias anteriores, a progressão pelo mato ao longo dos trilhos, decorreu normalmente, apesar do cansaço que se fazia sentir, não só pelas distâncias já percorridas através de serras e vales, com armas e equipamento, como também pelo clima quente e muito húmido, com um aroma acre e doce que exalava da vegetação.
 
Vigilantes, caminhavam carregando cada um dentro si, alimentando o seu pensamento, com ausências, sempre presentes, de pais e irmãos, mulheres e filhos, amigos e namoradas.
Outros trocavam as suas histórias, outros haviam que falavam de futebol e também do tempo que teimava em não passar.
 
Detivemos duas mulheres e uma criança, no segundo dia, que se deslocavam em sentido oposto e conforme se veio a verificar, tinham ido levar alimentação ao inimigo, estacionado algures numa base itinerante.
 
Após uma ligeira revista superficial pelos seus haveres, encontramos duas pequenas folhas escritas.
Eram portadoras de uma mensagem dirigida a outros elementos do inimigo que operavam na mesma zona de intervenção.
Nesse mesmo dia, tivemos um encontro fugaz com dois indivíduos, que ao avistarem-nos se puseram em fuga, no meio duma extensão de capim muito alto, o que indiciava pertencerem ao inimigo.
De imediato, se fez uma perseguição na tentativa de capturá-los, mas o terreno e a vegetação dificultaram a nossa ação, tendo sido feitos alguns disparos infrutíferos.
 
Toda a zona onde atuávamos, tinha sido alvo ao longo de vários meses, de diversas operações que incluíam forças terrestres, aéreas e hélio transportadas.
Talvez por isso, as forças inimigas estivessem, no momento, mais reativas?
 
No final da tarde, início da noite, escolhemos um local para pernoitar, comer a nossa ração de combate e montar a segurança que iria ficar vigilante durante a noite.
 
Recordo ainda aquelas noites de isolamento total, com uma orquestra de ruídos e sonorizações de intensidades diferentes, que nos obrigavam a dormir com um olho aberto e arma encostada ao corpo.
 
Não era fácil adormecer… e muitas vezes ficava a usufruir da escuridão da noite, com os olhos fechados durante algum tempo e ao abri-los ficar com uma sensação de vertigem, daquele céu cravado de estrelas, que se tornava ainda mais luminoso e parecia desabar sobre todos nós!
 
Na manhã do terceiro dia, levantámo-nos antes de romper o Sol.
Ingerimos alguns alimentos e entretanto, foram feitas algumas recomendações aos Soldados para que fossem atentos e se possível em silêncio, mantendo as distâncias; tendo sido alertados para um possível contacto com elementos da guerrilha, dadas as situações anteriormente verificadas.
 
Iniciámos o regresso em sentido contrário, para um local, algures na picada, aonde as nossas viaturas esperavam e nos trariam de regresso ao aquartelamento.
Sentia-se ao caminhar a humidade das ervas e do capim que persistentemente roçavam pelas nossas pernas, encharcando calças e botas, e que rapidamente secavam aos primeiros raios de Sol que começavam a despontar entre a vegetação.
 
O andamento cadenciado, o peso da arma macerando os ombros, o cansaço, a transpiração a despontar nos nossos corpos à medida que avançava o tempo a caminho da emboscada, desde sempre prevista mas nunca desejada… .
Ao fim de duas horas - 08h:50 - quando já próximos duma elevação relativamente baixa, aproximadamente com três metros e meio de altura no ponto mais elevado - pelo meio da qual seguia o trilho - com três metros de largura, que naquele ponto rasgava transversalmente a própria elevação. Obviamente, aquele corte de terreno terá sido feito para passagem de viaturas há muitos anos!... . Depois dos primeiros Soldados terem já atravessado, irrompeu um intenso tiroteio de armas automáticas, metralhadoras e rapidamente todos se deitaram pelo chão, ripostando de imediato e tentando abrigar-se onde fosse possível… só que o terreno não o permitia.
Mais de um terço do grupo ficou entalado entre “muros”.
Os restantes ficaram nos extremos, com mais possibilidades de fazerem o envolvimento e com melhor posição de fogo.
Durante alguns minutos, todos os nossos sentidos foram solicitados para que fosse possível aliar o raciocínio ao instinto de sobrevivência, debaixo de fogo.
Ouvia-se, juntamente com o estampido dos disparos, alguém que estava ferido e se queixava de dores, outros que tentavam dar algumas indicações e ainda uma série de variados problemas, com que cada um se teve de defrontar no limite das suas capacidades.
 
Ao fim de três ou talvez quatro longos minutos, tudo terminou após um disparo de bazuca que conseguimos efetuar e que levou o inimigo a retirar…
De imediato se fez avaliação da situação relativamente aos três feridos e às munições disponíveis.
 
Depois de montada a segurança no local, foram efetuados os primeiros socorros, apresentando um Soldado um ferimento de alguma gravidade.
Nesta situação, tentou-se a comunicação via rádio para evacuação, mas como acontecia com alguma frequência e tínhamos a perceção disso mesmo, por experiências anteriores, estávamos isolados!..
 
Ou por incapacidade do equipamento ou simplesmente por ninguém escutar, devido ao facto de não estar dentro da hora da exploração rádio!
 
Reiniciámos o regresso até ao local de encontro com as nossas viaturas, mais cedo que o previsto, com dois feridos amparados e outro em estado mais grave, em maca improvisada.
A deslocação, ao longo destes últimos quilómetros, foi feita sob uma tensão psicológica que se refletia nos rostos apreensivos, na precaução e no silêncio…
Não havia um sorriso, uma palavra, apenas o som das passadas e das botas esmagando as folhas, ao longo do caminho. .
 
Dado o estado dos feridos e sem possibilidades de comunicação, os três Furriéis que comandavam o pelotão, resolveram de comum acordo, que um deles teria de ir com um Soldado ao aquartelamento, distante alguns quilómetros e trazer as viaturas para recolher os feridos e os restantes elementos do grupo.
 
Após a evacuação para o Hospital Militar de Tete (norte de Moçambique), assim como a apresentação do relatório ao Capitão Comandante da Companhia, descrevendo os factos ocorridos durante esses três dias o Brigadeiro Comandante do Sector de Téte, mandou que o Furriel que comandava o pelotão, se apresentasse no Comando de Operações do nosso Batalhão, (Bat.Caç.2842).
 
O Brigadeiro também aí se deslocou e questionou-o sobre a ação, propriamente dita, na presença do Comandante de Batalhão e do Comandante de Operações, frente á grande carta militar que cobria toda a parede - o Furriel explicou todas as situações ocorridas, indicando na carta a posição das ocorrências, ao mesmo tempo que respondia ás questões colocadas pelos seus superiores.
Após as explicações, ficou surpreendido e perplexo?!
Ocorreram diversos casos semelhantes ao longo de dois anos e nunca teve conhecimento de qualquer reunião com o Comando...
Então o porquê desta reunião excecional?
Terá sido por o Alferes, Comandante do pelotão, não estar presente na ação?
Ou teria pensado o nosso Brigadeiro, depois das grandes operações efetuadas conjuntamente com as forças Rodesianas, que disponibilizavam os seus meios aéreos (helicópteros e tripulação) que o seu sector estaria “limpo” naquele distrito?
 
Uma noite, aproximadamente pelas 17h:30, começamos a ouvir um ruído ensurdecedor sobre o nosso aquartelamento e então, vimos surgir por cima da copa das árvores, os holofotes de 4 helicópteros sobre as nossas cabeças, aterrando dentro do nosso perímetro.
Para surpresa nossa, ficamos a saber que no dia seguinte, tínhamos pela frente uma operação que se prolongaria por alguns dias, durante os quais seríamos lançados diretamente nos locais de ação!
 
Outras operações se repetiram, mas esta provocou uma inesperada situação de terror, nas populações das aldeias em redor, devido ao barulho intenso na escuridão da noite e à forte iluminação que cegava por completo a visão dos aparelhos.
 
As populações - homens, mulheres e crianças - pegaram nos seus parcos haveres, abandonaram as aldeias aterrorizados e vieram refugiar-se junto do aquartelamento, sem terem a noção do que presenciavam!
Espantados por verem os aparelhos parados no ar, ficaram a observá-los incrédulos, durante essa noite e nos restantes dias!... .
 
Este relato, descreve apenas uma ação de combate, num dado momento, de um determinado dia, num determinado mês, num determinado ano!
 
Muitas outras aconteceram, a tantos outros como nós, que ao longo dos anos, ali foram cumprir em nome de Portugal a sua missão e por lá deixaram as suas vidas.
 
Narrado por: Guilherme Fernandes . .

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Dia em que Comandei a Companhia, por Manuel Correia de Bastos


O primeiro objetivo de um soldado é permanecer vivo, e não há soldado que não faça tudo para sobreviver; mas a um enfermeiro na guerra é exigido mais do que isso.
 
É necessário que se esqueça de si no momento mais perigoso e vá em socorro dos que tombaram, trocando a arma pelos produtos de enfermagem, que terá que manejar com os cuidados e assepsia possíveis no meio do pó, da terra, da confusão e do perigo de morte.

É a ele que cabe dizer-nos que tenhamos coragem, que não vamos morrer, quando ficamos feridos, e é a ele que cabe procurar o que resta de nós na picada ou no meio do capim quando somos feitos em pedaços por uma mina, e depois arrumar o que se pôde encontrar para que as nossas famílias, lá longe, venham a ter algo de nós para velar.

Quando se ouve o sinistro estampido de uma mina todos os soldados se atiram ao chão, rastejam e se protegem debaixo das viaturas.
Todos não. O cabo Costa levantou-se quando os outros se baixaram, e foi em busca dos feridos. Dirigiu-se ao Raimundo e preparou-se para o socorrer.
A cara dele numa pasta de sangue quase sem ver nada.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.

Não tinham passado mais de vinte segundos desde a explosão.
Vinte segundos em que se pode aprender o que não se aprendeu em vinte anos.
Vinte segundos que me fizeram dar um salto psicológico.
 
É frequente justificarem-se os atos insanos praticados na guerra, com a tensão vivida nos momentos de perigo.
Homens pacíficos; camponeses, operários, estudantes, empregados de escritório; transformados durante anos em predadores, sofrem um desgaste moral impensável em momentos de paz…
A síndrome da degradação moral.
A génese do distúrbio pós-traumático.
Mas… em casos por ventura raros; estou seguro, obtêm uma sublimação moral, um salto psicológico.
Se tem algum fundamento a resistência psicológica de que me gabo constantemente, devo-a a esses vinte segundos.
Tenho a certeza que se a guerra me tivesse dado oportunidade, teria saído de lá muito melhor do que entrei.
Um homem com a missão de salvar os seus pares no pior momento do perigo.
Um homem em risco de ficar cego por uma mina traiçoeira a pensar no seu camarada tombado na picada.
Vinte segundos da minha vida que guardo religiosamente como um legado de valor incalculável.
Há muito que a guerra acabou, e durante estes anos todos, alguns de nós guardam em silêncio imagens como estas.
É que, entretanto, outras guerras tiveram lugar, onde outros soldados com mais de vinte anos de vida, mas sem terem ainda os vinte segundos que lhes permitissem dar o salto psicológico que os fizessem crescer, julgam que é o gatilho das armas que empunham, que fazem deles heróis, ou homens dignos de admiração pelos outros representantes da sua espécie.
Alguns de nós, guardam em silêncio muitos vinte segundos como estes e olham para o lado incomodados, quando a televisão mostra em direto as guerras que não param de se suceder, transmitidas como espetáculos de circo.

Durante anos e anos, tenho revivido a imagem do enfermeiro Costa a tentar socorrer o Raimundo e depois a ir em busca do Lemos partido em dois no meio da picada, e por vezes tento imaginar o que seria ver essa imagem na televisão à hora do jantar, ou no café, no meio das risadas dos amigos, e acabei por perceber porque tantos de nós optam pelo silêncio.
É por pudor que o fazem.
Por não serem capazes de expor em público uma memória do foro íntimo.
Seria como subir a um coreto para chorar um desgosto profundo.
É algo demasiado valioso para ser tratado como um entretenimento passageiro, como um fruto que se sorve rapidamente cuspindo o caroço para o chão.
Os consumidores de emoções rápidas aprendem a não penetrar na essência das coisas; entendem das coisas apenas o que o olhar apreende; fazem com toda a informação o que fazem com a comida, mastigada à pressa entre duas tarefas urgentes e inadiáveis, dado que toda a fast-food é apenas para defecar.
 
Não poderão entender as emoções envolvidas numa frase assim, aparentemente banal, "Vai socorrer o Lemos", dita entre a vida e a morte, entre a coragem e o medo, entre o instinto primário de sobrevivência e o altruísmo, entre o cumprimento do dever e o sentido crítico.
Não poderão entender que um ato que envolva risco para quem o pratica só merece ser considerado corajoso se não for gratuito ou exibicionista, e se for consciente; isto é, é preciso sentir medo para se ser corajoso.

O Raimundo ia a comandar a companhia, foi ferido, recebeu o socorro corajoso do enfermeiro Costa, e fez ele próprio a triagem da emergência médica, secundarizando-se, ficando na berma da picada, escorrendo sangue do rosto, ainda sem saber se não ficaria cego.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.
Eu era agora o mais graduado da companhia.
E era preciso continuar, era preciso estar à altura do cargo que recebi do Raimundo, era preciso encobrir o medo, cabia-me a mim agora fingir coragem.
Mas fingir coragem, é na guerra, a única coragem possível.
Os helis vieram e levaram os feridos, a coluna organizou-se e continuou a sua missão.
A tensão, o medo e um ódio indefinido tomou conta de todos como era costume.

E longe dali, os que verdadeiramente mereciam ser objeto do nosso ódio, aqueles que não tinham coragem de tomar decisões com medo de mudar o rumo da história, por não estarem à altura dos cargos que ocupavam, continuaram ainda por muito tempo a manter tudo na mesma, até que um dia o nosso ódio não coube mais em nós, e apeámo-los do poleiro.
 
As mesmas mãos e as mesmas armas, e a mesma generosidade.
Quando um povo é capaz de lutar e descobre que não são justas as causas que lhe deram, inventa uma.
Depois seguiu-se um longo período de silêncio sobre a Guerra Colonial em que a nação inteira pareceu viver um coletivo distúrbio pós-traumático do stress de guerra.
Silêncio só entrecortado por uma falsa autocrítica de características tipicamente portuguesas, que se apressou a fazer alarde de todos os erros e crimes dos soldados portugueses, desculpando ou ignorando os dos seus opositores na mesma guerra; o que ainda assim teria algo de positivo se fosse genuína e contribuísse para uma reeducação coletiva, porque todos os crimes merecem denúncia e punição.
 
Mas infelizmente essa autoflagelação, essa ancestral e muito portuguesa lamúria auto punitiva, não passa de uma cobarde generalização dos erros dos nossos pares com o intuito de parecermos individualmente a excepção à regra.
A mesma pseudo-autocrítica que ao longo dos anos só tem contribuído para perpetuar o enaltecimento reverencial dos feitos alheios e cultivar a baixa auto estima nacional.
Mas se a má consciência pátria esquece os seus soldados assim que não precisa deles, ou se acha que é fingindo que nada aconteceu que paga a sua dívida para com a História, é porque não aprendeu nada.
Tão indignos são os governantes que não estão à altura da história por tentarem manter uma guerra injusta, como aqueles que se esquecem das suas vítimas.
E nós?
Será que nós não temos a obrigação de pôr o pudor de lado e contribuir com a nossa experiência para que os nossos filhos não permitam que cheguem ao poder aqueles que hão-de enviar os nossos netos para a guerra?

Há muitos anos, nesse dia em que eu tive que comandar a minha companhia, numa picada perdida no meio do mato, no norte de Moçambique, o enfermeiro Costa ainda teve que se erguer mais uma vez, quando soou de novo o sinistro baque de mais uma mina; e enquanto os outros se atiravam ao chão.
Durante alguns minutos, nos minutos mais perigosos que se podem viver numa guerra, teve que se esquecer novamente de si, porque a guerra lhe entregou a minha vida para salvar.
E o comando da companhia, como um testemunho, que eu recebera do Raimundo.
Nesses curtos minutos em que a vertigem da morte eminente nos leva todos os sentimentos e ficamos completamente despidos por dentro, só um olhar humano nos restitui a vida.
O olhar a fingir coragem, a única coragem genuína.

E até ao resto dos meus dias, aqueles momentos da mais genuína coragem que um homem pode testemunhar, criaram-me uma enorme responsabilidade; a de tudo fazer para que esta vida que o enfermeiro Costa salvou mereça a pena ser vivida; quanto mais não seja para que o seu ato heroico não se viesse a tornar num inglório, gratuito e inútil sacrifício.