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domingo, 12 de julho de 2020

Me deram uma amiga, foi uma espécie de casamento temporário..., por José Monteiro

Jose Monteiro para PICADAS DO CABO DELGADO

Linda-a-Velha, Julho de 2020

Já ia a subir o Índico, a bordo do Niassa, quando me deram uma amiga. 
Foi uma espécie de casamento temporário, ou contrato nupcial, como agora se usa.
Ficamos ligados pela meu número mecanográfico e pelo número de série da minha amiga. 
Prometi tratar muito bem dela para que respondesse sempre bem, quando necessitasse.

Em Mueda, quando estava no quartel, sempre esteve por baixo da cama ou à cabeceira, sempre muito perto da sua " ração ".
No mato, e em progressão lenta, muitas vezes a levei ao colo, nos braços, e algumas vezes, quando muito cansado, levei-a de qualquer maneira, que um homem, mesmo muito jovem, não é de ferro. 
Nas noites chuvosas e frias puxava-a para junto de mim, mas continuava fria. Sempre a tratei bem e até tinha um camarada que lhe dava " banho " de óleo todas as semanas, a quem eu pagava uma basuca, coisa barata.
Algumas vezes, já cansado, puxei-a pela bandoleira, mas sempre a considerei uma boa amiga. 
Dei-lhe ordens com o meu polegar direito, a que sempre obedeceu e nas emboscadas, com o meu coração a saltar de medo, bem a senti quentinha e a " falar " rapidamente.

Quando sai de Mueda, viajou comigo no barco para a Beira e desta localidade, de comboio para Moatize, nunca me separando da minha amiga, inclusivé dormiu comigo na carruagem cama, pois nessa época já se constavam ataques à via de caminhos de ferro. 
Chegados a Vila Coutinho, Tete, dei-lhe imenso descanso, muito bem merecido e só peguei nela para longas e belas nomadizações pela área que nos estava destinada, quando fomos destacados para Tsangano, na fronteira com o Malawi e quando nos enviaram em intervenção para a zona operacional do Béne.
Já não me lembro exactamente da localidade onde me " divorciei " dela, não considero traição pois foi um " casamento " forçado.

José Fernando Pascoal Monteiro

Linda-a-Velha, Julho de 2020
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé e ar livre

sexta-feira, 25 de março de 2016

O Apontador de Morteiro, por José Monteiro



Mais uma pequeno história vivida , no período militar, em Cabo Delgado.
APONTADOR DE MORTEIRO

Mais uma saída para uma operação no Vale de Miteda, com segurança dada pelo esquadrão de cavalaria, ao longo das picadas....
                    

As armas que levávamos, além das G3, eram a basuka e o morteiro de 60, e deste apenas o cano, portanto sem o estribo e a mira.
As granadas de morteiro eram levadas numa sacola igual ás que transportávamos as refeições e por regra estavam sempre junto ao apontador.
Só que, não me recordo porquê, o apontador não foi nessa operação.

Abandonámos o esquadrão e lá fomos nós pelo mato dentro para o nosso objetivo, que desta vez não era assalto a base mas sim de marcar presença e possível contacto com o inimigo.

Á noite, fizemos o respetivo circulo de segurança para a pernoita.
O silêncio da noite ouvia-se, perfeitamente, choros de bebes o que pronunciava a presença de população bem perto.
Todos nós estávamos atentos, por mim, como sempre dormi mal, passei quase toda a noite em vigilância aos turnos.
                    

De manhã, sempre presente os barulhos da véspera, tivemos que sair da zona de proteção da floresta e entrámos num campo mais aberto e muito mais plano.
Com as cautelas devidas, lá fomos andando quando de repente sofremos uma flagelação, vinda de longe.
Paramos imediatamente e como perto de mim estava o camarada que transportava o morteiro, imediatamente lhe disse "segura no tubo que os tipos calam-se", e dito isto coloco a primeira granada, coloco a segunda e faço um tempo de espera para ouvir onde elas rebentavam e assim poder corrigir o próximo tiro.
Esperei... esperei e nada, entretanto eles pararam com o fogacho e eu cheguei á conclusão que não tinha tirado as cavilhas de segurança ás granadas.
Já não me lembro a quem competia retirar a cavilha, se ao municiador se ao apontador.

Ao certo sei que as pressas e a falta de experiência, muitas vezes dão nisto.
Provavelmente, mais tarde, apareceram montadas em algum fornilho, nas nossas picadas.


Linda - a - Velha, Agosto de 2011
 
Foto de Jose Monteiro.



 
 
 
Bernardino Martins Pois foi o resultado delas para eles não serviam para nada.
 
 
Joaquim Jota Mateus Este é daqueles segredos que não se podem divulgar!!!!
Só contar as vitórias, as derrotas conta o outro!!!
 
Bernardino Martins Mas esta de não tirar as cavilhas, eram como os comprimidos "melhoral", não teve consequências, um dos graves problemas era o esquecimento da munição de salva para no caso do dilagrama, esse sim tivemos consequências graves.
 
 
Duilio Caleca Fomos todos "checas" e com muita falta de preparação.
Felizmente que somos um povo do "desenrrasca".

 
 
António Lopes Este era 80, vcs.
Levavam este peso pesado?
 
Mário Silva Tirando as tropas especiais, ninguém levava qualquer instrução e conhecimento sobre o palco de guerra que iríamos apanhar, eu por mim vi que quando cheguei, limitei-me a ouvir os mais velhinhos e mais nada, de resto é o habitual, desenrascas-te.
 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Prenda-me esse homem, por José Monteiro


Mais uma pequena história vivida em Mueda, nos anos de 1967/68.
Prenda-me esse homem
Havia uma camarada da minha companhia que, por consenso, foi decidido que nunca iria em operações para o mato, pois as suas condições psicológicas não o permitiam.
Como tal foi para a machamba do capitão e então ai encontrou o seu trabalho diário.

Certo dia, quando estava de sargento de dia, apareceu de visita o brigadeiro Remígio, responsável pelo sector, sediado em Nampula.
Formei a guarda, junto á porta de armas, e saudei militarmente o brigadeiro tendo este iniciado a tradicional inspeção à guarda, quando passa por nós o homem da machamba.
Ia completamente á vontade, calçando os seus chinelos de enfiar no dedo, sem quico e com a enxada ao ombro, tal como se estivesse na sua querida aldeia.
Aquela situação era completamente impossível passar despercebida ao brigadeiro, tendo este, já com a vós alterada, dito - PRENDA-ME ESSE HOMEM -. Ainda tentei explicar a situação, mas nada havia a fazer, pois era grande a distancia hierárquica para que me fizesse ouvir.
Prendi o meu camarada e quando o brigadeiro entrou no comando comuniquei o sucedido ao capitão da minha companhia que o mandou retirar da prisão logo após o brigadeiro sair de Mueda, para a guerra do ar condicionado.
Linda-a-Velha, Dezembro de 2012
 
Comments

Antonio Nascimento Grandes militares com o peito cravado de medalhas pelas lutas no mato da AC
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Alfredo Santos quem me pode explicar que lugar é este em Mueda eu estive lá em 72 e não me lembro de ver este edeficio
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Jose Monteiro Alfredo Santos, é o edificio do comando em 1967/68, visto do lado da picada. Penso que o mesmo ficou até 1974.
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Jose Capitao Pardal
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Antonio David Marques De 71 a 73 estive neste resort, Alfredo Santos, quase todos os dias passava aquela porta de armas.
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Alfredo Santos eu estive junto ao Gina e ao Santos pertenci ao P A A NÃO SEI SE CONHECEU UM ABRAÇO
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Antonio David Marques Alfredo Santos, PAA eram as antiaéreas?
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Aurelio Oliveira Todo o mundo que passou por Mueda conhece a porta de Armas do Aquartelamento.
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Alfredo Santos Sim eras as antiaéreas
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Jose Monteiro O que o Alfredo Santos quer dizer, penso eu, é o PAD, que entre 1967/68 ficava para os lados do Santos e perto da Intendência.
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Alfredo Santos não meu amigo Jose Monteiro é a sim P-A-A!!! Antiaéria
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Jose Monteiro Penso que em 1967/68 não havia anti-aérea ou não me lembro.
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José Pinheiro Óh Zé,és mesmo kokuana,...ahahah!!!

Jose Capitao Pardal
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Antonio David Marques O PAD também era entre o batalhão e a cantina do Santos.
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Jose Capitao Pardal
Escreve uma resposta...

Alfredo Santos as minhas refeições era no A M 51 PENSO EU
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Duilio Caleca Entre ar condicionado e guerra a situação é muito diferente.
Felizmente que consegui sobreviver a essas "alimárias", mas não foi fácil.

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Eduardo Silva e devez em quando levavas na "tarraqueta" pois havia um que aueria que tu e os teus homens fizessem 80km em 2 dias ???? lembras te Duilio Caleca
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Duilio Caleca Sim esse grande "Intelejumento" de nome Pires Veloso.
Eu chego à conclusão que essa gente devia viver noutra galáxia certamente.

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Santos Costa e prontes, e todos ficaram contentinhos da silva. Ahhhhh portugues, portugalllllll.
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Jose Carlos Galo Deviam ter agarrado no Brigadeiro e largá-lo no meio do mato com a enxada ás costas.
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Jose Monteiro Coitado no brigas, isso não se faz!!!!!!!!!!
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Duilio Caleca Só se estragava a enchada.
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Afonso Fernandes Aparece sempre uma foto diferente deste edifício


Artur Valente Mota quando eles tinham maus figados acontecia-lhe o que aconteceu ao amarelado que fez andar a lavar o dakota de ter deixado lá os miolos havia guarda de honra para o receber mas quem o recebeu foi a casa mortuaria .


Duilio Caleca Penso que esse "menino" foi a Nangololo "vomitar" papaias dizendo que nós éramos uns medricas que tínhamos mêdo de ir para a zona da Capoca e ele mandou o Dakota sobrevoar a zona só para nós vermos que não havia perigo. Azar o dele.
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Artur Valente Mota foi esse mesmo teve azar só deu trabalho ao pessoal da manutenção de ter de lavar o avião eu estava lá nesse dia na placa foi silencio absoluto penso que a monição ainda tocou nu ombro de um camarada mas entrou-lhe por debaixo dos queixos e saiu pelo teto do dakota .,


Duilio Caleca Assim constou Artur Valente Mota.
Claro que uma vida perdida é sempre de ter pena, mas imagina o que foi depois do amarelado ter "vomitado" tudo aquilo, para gente que já deitava guerra pelo olhos e que lhe dissémos que naquela zona havia uma antiaérea da Frelimo e que de quando em quando a ouvíamos cantar e o marmanjo em ar de corajoso do ar condicionado foi lá. Levou na ripa como seria de esperar.
Paz à sua alma.



 Artur Valente Mota pois era de admirar amigo Duilio havia oficiais mais graduados da FAP que conheciam o terreno e nunca falaram que não havia guerra tb desejo que ele descanse em paz mas que má fama tinha e a frelimo nesse dia acertou na muche não disparou para os pilotos se calhar até o viram entrar para dentro do avião abraço


Duilio Caleca Onde ele foi atingido, foi já em plena zona de mato a norte de Nangololo, só que sobrevoou bastante baixo em zona que nós já sabíamos que ia levar porrada. E levou. Felizmente que mais nenhum ocupante teve problemas. Agora não sei de quem foi a ordem de sobrevoar baixo com um Dakota em zona que já se sabia que levava chumbo. Nós por precaução comunicámos esse facto a Mueda, via rádio de que a aeronave tinha saído e para nos informarem da chegada. Felizmente que toda a tripulação chegou bem menos o dito cujo.
Não acredito em bruxas, mas que as aí, aí.



Duilio Caleca Mapa da zona em que foram alvejados a verde .
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Artur Valente Mota deve andar aqui camaradas que acompanharam a chegada ao AM e se calhar até os pilotos podem não estar aqui no grupo mas estão aqui em outro grupo melhor que eles ninguem conhecia como devia pilotar aquela aeronave esse acidente não se falou muito nele ,se fosse pessoal da tripulação seria sempre recordado como era pessoa que não ia acabar com a guerra caiu no esquecimento ,eu recordo-me que ele andava a visitar os acortelamentos e o batalhão estava á espera de lhe prestar a guarda de honra e prestou em outro sentido .