Mostrar mensagens com a etiqueta cart3503. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cart3503. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Texto do blog de um ex-militar - Luís Dias...

Copiámos este texto do blog de um ex-militar - Luís Dias.
quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011.
Dedicamos em especial ao compadre Jose Augusto Palminha.

FAZ HOJE 40 ANOS QUE FUI PARA A TROPA
Camaradas e Amigos
Hoje acordei com uma data a martelar-me a cabeça, sonhei com ela. 

Hoje é dia 12 de Janeiro de 2011 e faz precisamente 40 anos que ingressei na vida militar.

Há quatro décadas, um mês depois de fazer 20 anos, de mala feita e cabelo cortado curto, (na altura usava-o bastante comprido) juntamente com o meu amigo de infância João Ribeiro, apanhávamos o comboio em Santa Apolónia, deixando para trás a família, os nossos amigos, o nosso bairro de Alfama e partíamos para uma vida diferente, desconhecida, apresentando-nos no chamado "Destacamento" da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.

A recruta no EPC foi muito dura, com muito frio, muita chuva e especialmente com muita lama, que nos decorava o fardamento e se ia soltando, uma parte, devido ao batimento compassado das nossas botas, no asfalto das ruas de Santarém, quando em passo de corrida regressávamos da denominada zona de terraplanagem. 

Por vezes, para conseguir que ela saísse chegávamos a passar pelos chuveiros fardados. 

A ginástica matinal em plena parada, em camisa interior, num Janeiro gélido, era uma prova que nos acordava de forma inigualável para o resto do dia. 

Lembro-me da instrução nocturna em noites de chuva forte, em que colocávamos jornais entre a camisa interior e a farda, para não sentirmos tanto a força da água que nos castigava a pele e nos deixava enregelados. 

Andávamos quase sempre molhados e eu passei a odiar (e ainda hoje não gosto) sentir a roupa molhada junto ao corpo (ainda não sabia o que me havia de esperar na Guiné!!!). 

A prova do salto para o desconhecido - uma queda numa ribeira de águas de esgotos, o acordarem-nos de madrugada com os gritos: "Têm 5 minutos para formarem na parada!" e as contínuas corridas equipados de G3 e capacete, para baixo e para cima do vale de Santarém eram momentos bem sentidos. 

Havia, como se costuma dizer, toda uma panóplia de exercícios e corridas que nos iam deixando de rastos. 

Todos os minutos de intervalo eram por nós aproveitados para dormitar um pouco. 

O rigor das formaturas para ir de fim-de-semana (cabelos, barba, fardamento) e a acção psicológica dos altifalantes nas casernas a debitarem música militar e conselhos para nos deitar o moral abaixo, aliado à má alimentação, era tudo bem organizado para nos lixar a vida, nos despersonalizar.

Eu e o meu amigo João, juntamente com outro rapaz (Tavares) que conhecíamos da Escola Comercial Patrício Prazeres, ficámos no mesmo pelotão (2º) e no 5ºesquadrão: O João era o número 311, eu o 312 e o Tavares o 313 (éramos inseparáveis). 

Engraçado é que este número de ordem que me foi atribuído no ingresso no quartel fazia parte do meu número mecanográfico - o nº 03127471 - e o resto do número colocado ao contrário 71-74, em vez de 7471, foram os anos que eu vivi na tropa, ou seja, entrei em Janeiro de 1971 e saí em Abril de 1974 (uns dias antes do 25 de Abril).
Terminada a recruta cada um foi para seu lado. 

Eu fui fazer a especialidade de atirador, como cadete, para a Escola Prática de Infantaria, em Mafra, o meu amigo João seguiu para Tavira, para tirar a especialidade de armas pesadas e o nosso amigo Tavares já não recordo para onde foi porque nunca mais o vi.

Em 18 de Dezembro desse ano, já como Alferes Miliciano, embarquei para a Guiné, integrando a CCAÇ3491. 

"É muito..!", do BCAÇ3872, donde regressaria em 4 de Abril de 1974.

O meu amigo João Ribeiro foi mobilizado para Moçambique, em 1972, como Furriel Miliciano (zona de Mueda), integrando a CART3503 "Unidos e firmes", do BART3876, donde regressou já depois do 25 de Abril.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A mulher na Praia, por José Caseiro


A Mulher na Praia
por José Caseiro



Abril de 1974. 
Portugal ficou em festa naquele dia 25, mas havia lá longe na ex-província de Moçambique e já na cidade da Beira, os militares da CART 3503, sem que tivessem a noção do que se estava a passar em Lisboa.

Estavam tristes, não por saberem da revolução, mas por terem o embarque marcado de regresso para a Metrópole no dia 26 e assim se verem obrigados a ficar mais uns dias.

Chegamos a Portugal no dia 28 de Abril de 1974, a CART 3503, sendo a primeira companhia a regressar a Portugal após o 25 de Abril. Regressavam agora, não porque a revolução lhes encurtara a comissão mas sim porque a sua comissão tinha sido longa de mais, porque já fazia 28 meses que lá estávamos, e sempre no pior sítio da guerra em Moçambique, sempre em Mueda, distrito de Cabo Delgado.

Já em Lisboa, com uma chegada muito discreta, quase sem familiares à nossa espera porque quase todos que tinham intenções de irem para Lisboa esperar-nos foram informados por telegrama para não irem, porque o nosso regresso tinha sido adiado e sem data marcada.

Chegado a casa e depois de todos aqueles abraços e beijos a festejarmos o meu regresso, foi tempo, nos dias seguintes, de ir visitar os restantes familiares e amigos e desfrutar este mar maravilhoso na praia de Matosinhos, praia onde passei a maior parte da minha infância e mocidade, praia esta que ao seu lado tem o porto marítimo e de pesca de Leixões, onde os seus barcos saem ao anoitecer para a faina de pesca, e onde, pela manhã as mulheres dos pescadores tinham por hábito irem sentar-se na praia viradas para a entrada do porto esperando que barco onde o seu marido trabalhava regressasse da fauna da pesca.

E cada barco era conhecido por um pormenor, que ao longe só elas reconheciam. 
Depois dirigiam-se para o cais de descarga, levando-lhes o pequeno-almoço.

Como de costume após a chegada do ultramar desfrutava-se um mês de férias, para aqueles que podiam, porque infelizmente alguns, por necessidade iam logo trabalhar, nem tinham tempo para descansar a cabeça, eu felizmente tive a possibilidade de desfrutar até mais que um mês e sempre que podia ia até à praia caminhar, saboreando aquele cheiro da maresia e relaxando com o ondular daquelas ondas calmas da praia de Matosinhos.

Entretanto havia uma mulher vestida de negro que sempre que eu ia caminhar junto à praia lá estava, e enquanto as outras mulheres após a chegada dos maridos iam saindo da praia aquela mulher ali permanecia até tarde.

A mulher do pescador quando de luto, usava um lenço negro que punha na cabeça e cobria grande parte da cara, o que tornava difícil identificá-la ao primeiro olhar, mas a minha curiosidade foi mais forte que eu, a pouco a pouco, fui passando mais próximo para tentar descobrir de quem se tratava, e para meu espanto, aquela mulher era a mãe de um soldado português que tinha morrido no ultramar bem próximo de Mueda em Moçambique, foi meu amigo de infância, tinha embarcado no mesmo dia, no mesmo barco que eu, só que ia em rendição individual, fez a picada de Porto Amélia até Mueda com a nossa companhia, esteve em Mueda alguns dias à espera da companhia porque esta ia rodar para uma zona melhor, pensavam eles, e todo este tempo sempre que podia estava com ele, entretanto a companhia onde ele foi integrado passou por Mueda e ele lá seguiu com ela para o tal lugar que eles pensavam que seria melhor que o buraco onde tinham estado.

Os meses foram passando sem que eu tivesse notícias deste amigo de infância, até que aquele dia fatídico chegou.

Estava eu e o meu grupo de combate, nesse dia, de segurança às Águas quando se começou a ouvir o barulho dos hélis a aproximarem-se de Mueda vindo da direcção onde se encontrava a companhia do meu amigo de infância, olhando para os hélis, algo estranho senti, uma dúvida se levantou que me levou a perguntar a mim mesmo: - Será que…? 
- Tentei esquecer, porque não tinha nenhum indício de quem se tratava e do que se tratava, mas como as más notícias correm depressa, rapidamente soube que tinha sido uma viatura que pisou uma mina anti carro e que a rebentou, originando mortos e feridos graves.

A notícia de que havia mortos preocupou-me, pelo algo estranho que senti quando os hélis estavam a passar por mim, minutos antes. 
Tendo um bom relacionamento com o 1º sargento do hospital, na primeira oportunidade que tive fui pedir-lhe que me deixasse ver os nomes dos feridos e dos mortos que tinham dado entrada naquele dia, na esperança de não encontrar lá o nome do meu amigo.

Foi um choque enorme, um nó na garganta, uma raiva. 
Foram mil e um pensamentos e palavrões que dirigi naquele momento aos autores da morte daquele meu amigo de infância, quando li o seu nome na lista dos mortos.

Pedi para ir ver o corpo mas não foi possível, porque tinha ido para a casa mortuária e esta já se encontrava fechada.

Bastante abalado fui para a flat escrever um aerograma a uma pessoa amiga e vizinha dos pais do falecido, aerograma que levaria, em média, quatro a cinco dias a chegar ao destino, pensando eu, que quando o aerograma chegasse, os pais já eram conhecedores da morte do filho, e aquele aerograma seria a explicação de como aconteceu, o que, segundo a informação que me deram, com a explosão, foi projectado, e ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e teve morte imediata. 

Só que o aerograma chegou no mesmo dia que os dois telegramas que foram enviados aos pais, o primeiro da parte da manhã a dizer que o filho tinha sido gravemente ferido e o segundo da parte da tarde a dizer que não tinha resistido aos ferimentos e tinha falecido.

A pessoa amiga a quem escrevi, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho, deparou com os vizinhos aos gritos e com os pais em pranto pela morte do filho, esteve um pouco junto deles e foi depois para casa, onde só então viu na caixa do correio o meu aerograma. 

Diz-se que as más notícias correm velozes, mas quando chegam todas ao mesmo tempo, fazem pensar que o destino é demasiado cruel.

Passados mais de ano e meio após a morte deste meu amigo vou encontrar a sua mãe ali sentada na praia olhando para o mar dia após dia, achei que deveria ir falar com ela para a confortar um pouco, porque ela sabia que o seu filho tinha ido comigo para o ultramar e que tinha estado comigo em Mueda, mas para mim estava a ser difícil. 

Como seria o início da minha conversa com ela? 
Lá comecei por lhe perguntar se tinha algum familiar a andar ao mar, ao que me respondeu que não; deu-me um grande abraço e beijos de satisfação por me ver, sabendo que eu tinha chegado recentemente do ultramar. 

Aproveitando aquela satisfação de me ver perguntei-lhe:
- Então porque vem todos os dias aqui para praia?
A resposta foi rápida, e deixou-me por momentos sem palavras:
- Venho para aqui esperar pelo navio que levou o meu querido filho para o ultramar e que o há-de trazer de volta para os meus braços.

Sem palavras e sem saber o que fazer, lá encontrei forças para continuar a conversa dizendo-lhe:
- Mas já trouxeram o seu filho porque... 
- Ia dizer-lhe que o filho já tinha falecido há mais de ano e meio, mas ela interrompeu-me: - Dizem-me que o meu filho já veio, mas não acredito, porque ele quando partiu para o ultramar prometeu-me que voltaria para me abraçar, e já lá vão mais de dois anos e ele não voltou para os meus braços.

Quantas mães depois de terem perdido os seus filhos na guerra do ultramar se sentaram à porta de casa, ou aguardaram num caminho, numa estrada, olhando para o infinito na esperança que o seu querido filho aparecesse com as malas nas mãos a correr para os seus braços? 
Como a mãe daquele meu amigo… 

Uma espera em vão, porque o seu filho estava morto e enterrado.
Será que esta mãe, agora já falecida, teria encontrado o seu querido filho na outra vida, e tê-lo-ia abraçado fortemente conforme desejou enquanto viva?

Este meu amigo não deixou apenas uma mãe sem o filho, deixou também uma filha sem o pai, que nunca o haveria de conhecer, pois que quando este embarcou para Moçambique deixou a mulher grávida de poucos meses.

A guerra faz com que tantas desgraças juntas levem a pensar que o destino é mesmo demasiado cruel.

por José Caseiro |

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O preço do Pão, nas "Bananeiras", por António Silvestre (CART 3503)

Transcrição do Blog "Histórias da CART 3503"

Este triste incidente marcou-me imenso, quer pela data do acontecimento, quer pela maneira como ocorreu e também por privar com alguns homem desta Companhia.

O preço do Pão
publicada por António Silvestre

Olhei para o relógio, eram 10 horas da manhã do dia 31 de Dezembro de 1973 e ali íamos nós a caminho das Bananeiras, uma dúzia de viaturas e cerca de sessenta homens, privilegiados, que tínhamos tido o bónus de ir passar a passagem do ano às Bananeiras.
O pretexto era arranjar a ponte para que a coluna, que no princípio do ano viria de Porto Amélia, conseguisse chegar a Mueda .


Isso era o pretexto, pois a finalidade principal era afastar de Mueda a maioria dos homens da 3503, companhia que em Janeiro faria 24 meses de comissão, em que a insatisfação e até mesmo a revolta já grassava tanto entre os graduados como entre os soldados.


Assim, a caminho das Bananeiras, zona a 15Kms de Mueda, famosa pelas emboscadas aí já acontecidas e pelas minas normalmente aí colocadas, seguiam cerca de 40 homens da 3503 mais 20 e tal homens da engenharia com algumas máquinas.

Os atiradores tinham por missão montar a segurança e fazer a protecção aos homens da engenharia enquanto durassem os trabalhos do arranjo da picada e da reconstrução da ponte.

Comandavam esses homens, o capitão Almeida e o alferes Silvestre, ambos da 3503, que por diversas vezes tinham levantado a voz em defesa dos homens da companhia e portanto não era conveniente estarem em Mueda no dia 1, onde estava previsto haver um almoço de Ano Novo com algumas individualidades vindas de Nampula, de Lourenço Marques e talvez até algum ministro da Metrópole, os quais faziam o sacrifício de nesse dia se deslocarem às zonas de guerra para, diziam eles, levantar o moral das tropas, algumas das quais já há quase 24 meses ali se encontravam.

Para evitar que Suas Excelências apanhassem algum susto enquanto estivessem em Mueda, a maioria das tropas operacionais eram colocadas no mato, quer em patrulhamentos afastados quer alguns próximos do arame farpado, de modo que os combatentes da Frelimo se mantivessem o mais longe possível e sem possibilidades de efectuar qualquer ataque.

Assim, além destes homens, outros elementos da 3503 e de outras companhias, foram colocados no mato em defesa afastada de Mueda e também esses estavam portanto impedidos de incomodar as altas individualidades.

Voltei a olhar para o relógio, era meio-dia e avistávamos finalmente a ponte das Bananeiras onde já se encontravam os homens de Nancatári que nos vinham reforçar enquanto durasse a nossa permanência ali.


A companhia de Nancatári, a 3501, companhia do nosso batalhão, formada juntamente com a nossa, dois anos antes em Penafiel, era portanto constituída por amigos comuns, alguns das mesmas terras da Metrópole e que embora a apenas 28 Kms de distância, as circunstâncias não permitiam que se vissem há muitos meses.
Os abraços foram muito, durante alguns minutos contaram-se histórias e recordaram-se amigos já desaparecidos.

De Nancatári tinham vindo dois pelotões, um que ficaria connosco e outro que regressaria a Nancatári imediatamente, pois o aquartelamento distava apenas 12Kms e como todo o trajecto tinha sido picado nessa manhã, decerto não tinha havido tempo para os homens da Frelimo colocarem novas minas.

Mas nessa noite era a noite de passagem de ano, pelo que ficou combinado que logo de manhã um grupo comandado pelo Capitão Almeida que não conhecia Nancatári, iria a esse aquartelamento buscar pão mole, algumas bebidas e talvez mais qualquer iguaria que nos ajudasse a passar melhor o dia de Ano Novo no mato.

Depois deles partirem ali ficámos nós, a pensar que na Metrópole a maioria das pessoas da nossa idade estavam preocupadas com o local onde iriam passar o reveillon ou com o que levariam vestido e nós ali, preocupados em organizar a defesa para o caso de nessa noite sermos atacados.

Quando o sol se pôs e se fez noite, já instalados debaixo das viaturas ou em valas, cada um de nós bem abastecidos de bebidas que tínhamos trazido para a ocasião, resolvemos festejar, sozinhos e em silêncio, outros em pequenos grupos, fomos bebendo e pensando na Metrópole, bebendo e pensando na Metrópole, pensando na Metrópole e bebendo, até que à meia noite nos esquecemos onde estávamos e alguns mais efusivos resolveram mandar algumas granadas e alguns tiros para o ar, fazendo dessa forma com que alguns animais da selva soubessem pela primeira vez nas suas vidas que aquela era a noite de passagem de ano.

A pouco e pouco os corpos foram cedendo ao cansaço e o sono tomou conta da maioria dos homens, apenas os que estavam de sentinela tinham que esperar de olhos bem abertos a sua vez de serem substituídos por outros nessa tarefa.

Seis e meia da manhã, uma vintena de homens preparavam-se para ir a Nancatári, quando um rebentamento muito próximo nos fez tomar consciência que, dia de Ano Novo ou não, estávamos na guerra e estávamos a ser atacados.
Ao segundo rebentamento apercebemos-nos que tudo se passava a dois ou três Kms de distância, o que confirmámos imediatamente a seguir quando começámos a ouvir as kalashs da Frelimo e a resposta de algumas G3.

Alguém gritou: devem ser os homens de Nancatári que nos vêm trazer o prometido pão quente.

Imediatamente os homens que já estavam preparados para ir a Nancatáti saltaram para cima das viaturas e sob o comando do Capitão Almeida arrancaram picada fora nessa direcção.

Passados dois ou três Kms depararam-se com uma situação dramática de meia dúzia de homens a tentarem sobreviver e a defenderem-se estoicamente a si próprios e a cerca de uma dezena de companheiros que bastante feridos não estavam em condições de o fazer.

A Frelimo durante a noite tinha montado um fornilho (várias minas ligadas entre si) e preparado uma emboscada para atacar os elementos que sobrevivessem às minas.


Eram uma dúzia e meia de homens que lutavam pela vida, heróis anónimos, que tinham arriscado, voluntariamente as suas vidas para levarem aos seus camaradas no mato o tão prometido pão mole e mais alguns mantimentos.

A chegada de reforços impediu que a Frelimo levasse até ao fim os seus intentos, mas já não impediu vários homens de perderem a vida e outros de ficarem feridos com mais ou menos gravidade.

O pão, esse não me lembro se chegámos a comê-lo, mas foi sem dúvida o pão mais caro de que alguma vez tive conhecimento. 
Não pagámos em escudos, nem em qualquer outra moeda, pagámos em sangue e em vidas, pois o preço final saldou-se por 4 mortos e 8 feridos.

Entretanto em Mueda as tais altas individualidades tiveram direito ao seu almoço com as tropas, tendo ao fim do dia partido novamente de avião para as suas comissões em terras do Sul, sem qualquer perigo de minas ou de emboscadas.

Partiam contudo com as consciências tranquilas, pois já podiam dizer que tinham passado um dia em zona de guerra e tinham voltado sãos e salvos.
Quem sabe, até talvez tivessem direito a mais uma condecoração.
Entretanto no mato, onde ainda ficámos vários dias, não voltámos a ser reabastecidos, pelo que nos restantes dias comemos sempre pão duro.

publicada por António Silvestre | 15:17

5 Comentários:
Awnónimo disse...
Este é o tipo de escrita que qualquer ex-Combatente entende.
Os meus parabéns ao António Silvestre.
Conheço (já lá vão trinta e tal anos) a localização das Bananeiras e Nancatari.
Um abraço pela inspiração da sua escrita.
João Azevedo
7 de Janeiro de 2008 às 15:21
Azevedo disse...
Não. Não sou um anónimo.
Estive realmente em Mueda durante 18 meses consecutivos, em colunas de segurança, constantes, num periodo de minas em que o IN pretendia atrasar a ampliação do AM de Mueda, para receber os Fiat's para a "malfadada" Nó Górdio.
Última operação em que participei, sediado no Sagal.
Fui um homem sempre da picada com o ESQ. CAV. 2 de Mueda e sei apreciar um bom texto, este que tive o prazer de publicar no "O COMBATENTE DA ESTRELA". que mereceu o maior  aplauso de todos quantos o leram. Ver www.cazevedo.com.sapo.pt . É com estes textos que se compreende a guerra que travámos.
Obrigado camarada Silvestre.
Boas Festas.
João Azevedo
Ex-Alferes Miliciano
7 de Janeiro de 2008 às 15:24
joaquim disse...
Olá camaradas de armas,sou antigo combatente estive em moçambique em Nancatari em princípios de 1974, e lembro-me bem de ter ouvido essa situação do fim do ano na picada das bananeiras.
No que diz respeito á picada de Nancatari Mueda, fiz duas picadas para lá e sei bem o perigo que representa as "bananeiras",pois fomos alvo de ataques ,e tive de rebentar algumas minas anti-carro nessa picada.
Um grande abraço para todos os ex combatentes.
Furriel mil.Dias C. Caç.4153
3 de Maio de 2010 às 22:04
Silverio, trms disse...
Também estive em Nancatari, AGO69/JUL70, CCAÇ 2450, conheço as Bananeiras e ponte do rio Mueda que a FRELIMO dinamitou em JUN70 antes da Nó Górdio, local onde 1 furriel e 1 alferes da minha companhia ficaram sem perna e pé, respectivamente, numa segurança a coluna Nampula/Mueda.
Um muito obrigado ao Silvestre pelo artigo, transcrevendo com muita realidade a situação vivida e aquilo que pensavam as "chefias" sobre a tropa de base.
Votos de bom ano.
Joaquim Silvério
Ex-furriel miliciano
3 de Janeiro de 2011 às 17:29
Inácio disse...
Apesar de já terem passado 40 anos, lembro-me perfeitamente desse tragico incidente. Estava em Muirite, local onde pessoal de Nancatari ia receber as colunas que vinha da da picada de Montepuez,a fim de as acompanhar ate Mueda. Por termos privado algumas vezes com pessoal desta companhia ao recebermos a notícia, ficámos em choque.
Um abraço para o pessoal de Nancatari.
5 de Abril de 2014 às 15:27



  • José Caseiro Pedro Inácio Eu sou da C.ART. 3503 por acaso eu não fui para as bananeiras na passagem de ano de 73 para 74 porque tinha saído para o mato no dia 25 de Dezembro, dia de Natal e andei três dias lá, embora a maior parte do pessoal fosse do meu pelotão, mas ao fim de dois anos de Mueda, ali já não havia pelotões, era o pessoal que estava disponível. Quanto ao acidente saber que tinham morrido amigos quando estava-mos quase no final da comissão foi chocante, mas esta companhia ainda veio a ter mais azares depois deste, quanto ao Silvestre é um amigo do coração, um irmão é tudo que se possa dizer de um ser humano nosso amigo.