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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

sábado, 26 de abril de 2014

... LAIVOS DE VALENTIA, por Joaquim Coelho


... LAIVOS DE VALENTIA


Nangade - Moçambique
.
Clamo à terra que absorve os líquidos
que se desprendem pestilentos,
dos vossos corpos já putrefactos...
que nos atormentam a saudade
da vida jovial que já não tendes.
Esta ténue esperança na alvorada
vai animando as nossas vontades
para que levemos a mensagem da paz
até aos confins dos tempos,
enquanto sofremos nos corpos
os efeitos da distorção dos valores
e os povos de crenças ancestrais
almejam viver a sua libertação,
sem as grilhetas da escravidão.
Entrincheirado na selva de incertezas,
ouso afrontar as regras da hierarquia
e perguntar, com laivos de valentia:
onde estás liberdade luminosa
que busco em todos os quadrantes,
para sair desta estranha escuridão
gesta que a pátria renega ao poder.
Jamais poderemos ter contemplações
com os usurpadores das liberdades,
escabrosa corja de ladrões,
manipuladores das nossas vontades,
pseudo governantes doutros destinos,
nos cânticos de rançosos hinos.
Brilha a luz no firmamento do povo
que chora a desdita duma guerra;
as vontades lutam contra o estorvo,
sobem até ao cimo da serra,
e desfraldam a bandeira da liberdade
pondo fim à repugnante chacina.
As vozes clamam o fim da atrocidade
castigando essas aves rapina.
A claridade alastra nas fileiras
desta geração severamente sacrificada,
enquanto os povos dormem nas esteiras
e a raça vai sendo dizimada;
escapei das grades, por um triz,
contornei a selva de aldrabões,
em busca de cada dia mais feliz
com o nascimento de novas nações.
Então, meus companheiros de jornada,
os nossos mortos serão reconfortados,
os vivos recompensados na parada
e os oprimidos libertados.
Tenho vontade de gritar este protesto
que vai fervilhando dentro de mim
custa-me viver a guerra que detesto
enquanto os heróis chegam ao fim.

Nangade, Setembro de 1966
Joaquim Coelho