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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Ataque a lança misseis 122 mm, por Alexandre Nogueira dos Santos

 
 
Duilio Caleca, nunca consegui entrar num abrigo Pá.
 
Estive de cama 3 semanas com os rins avariados e foi o enfermeiro Agapito quem me safou com injecções directas nos rins a frio e desmaiado.
 
Quando me levantei para ir comer à messe, pesava 42 quilos.
 
Veio um ataque e pedi ao Sampaio de Op. Especiais que estava num abrigo - Pá - leva-me à minha zona de defesa e ele agarrou-me pelo blusão do camuflado e depois de umas centenas de metros sentou-me no banco do meu obús e depois foi só fazer o que tinha de ser feito.
 
Nunca senti amargura mas no final de cada ataque, o pessoal trazia 3 ou 4 grades de Laurentina fresquinha, eu bebia de seguida umas 5 ou 6 e ficava em paz comigo mesmo!
 
Esse ataque em 2 de Abril de 1974 começou às 8:05 da manhã e só acabou às 12:40.
 
Usei granadas de fumo para proteger o nosso pelotão das águas, anulei duas rampas e fartei-me de usar espoletas de tempo para as outras mas não conseguia nada até que pela rádio ouvi: Daqui Diogo Neto - meu caro Santos, dê-me referências pois vou de Mueda com uma esquadrilha de Fiat.
 
Depois de seguir as minhas indicações com humildade superior, o Gen. Diogo Neto foi com os restantes, fantástico!
 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A HISTÓRIA SECRETA DOS MIRAGE PORTUGUESES, por José Matos

A HISTÓRIA SECRETA DOS MIRAGE PORTUGUESES
Texto: José Matos
Artigo publicado em duas partes nas revistas Mais Alto de Nov/Dez 2012 e Jan/Fev de 2013
Ilustração do que poderia ter sido o Mirage IIIEPL com as cores da época     Imagem: Paulo Alegria
 
Durante grande parte da guerra colonial, os jactos de combate da Força Aérea Portuguesa (FAP) foram decisivos em todas as frentes do conflito e praticamente intocáveis até ao aparecimento do míssil Strela na Guiné.
A intensificação da guerra nesta colónia levou a FAP a procurar um novo avião de combate capaz de executar quer missões de combate aéreo quer de ataque terrestre.
A escolha recaiu no caça supersónico francês Mirage.
No entanto, as negociações entre os dois países seriam difíceis com a França a levantar várias restrições quanto ao uso dos aviões nas colónias portuguesas, principalmente na Guiné.
Ao longo de 1974, a questão dos Mirage é discutida várias vezes com as autoridades francesas, que insistem em não permitir o estacionamento dos aviões na Guiné por causa das relações privilegiadas que Paris tem com o Senegal.
O número de aviões negociado (32 unidades) indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo português enviar o caça francês para Angola e Moçambique, mas a história secreta dos Mirage portugueses acabaria com a Revolução de Abril, embora a França acabasse por autorizar a venda deste caça de elevada performance. 


Embora dispondo de jatos de combate F-84 Thunderjet, em Angola e do Fiat G.91, na Guiné e em Moçambique para operações de contra-guerrilha, as forças portuguesas em África sentiam falta de um avião de elevada performance capaz de levar uma boa carga de armas e efetuar bombardeamentos em profundidade no território inimigo e, no caso, de incursões sem proteção aérea, capacidade de combate aéreo.
Em poucas palavras, a Força Aérea precisava de um caça moderno, não só para ataque ao solo, como também para missões de defesa aérea e que tivesse um papel dissuasor no conflito africano.
 
Uma vez que Portugal estava sujeito a um embargo de armas decretado pela ONU, as possibilidades de escolha eram muito reduzidas e as chefias da Força Aérea consideravam que o Mirage francês era, neste contexto, a melhor opção.
O interesse pelo caça da Dassault começa a desenhar-se em 1968/69, quando a Força Aérea desenvolve vários estudos exaustivos sobre o rearmamento da FAP (1). 
A aviação militar tinha entrado na era supersónica e aviões como o Mirage representavam esta nova tendência.
Esta nova realidade estava espelhada nas definições do futuro caça da FAP, que constavam do estudo principal de rearmamento desenvolvido pela Força Aérea a partir da diretiva M-19 do chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), de Outubro de 1968.
O estudo em questão visava o reapetrechamento global da Força Aérea e, num dos capítulos, definia os requisitos do futuro caça, que devia ser um avião bimotor, capaz de atingir Mach 2 em voo horizontal e com uma velocidade ascensional que permitisse atingir os 40 mil pés em tempo inferior a 5 minutos.
Além destas especificações gerais, o estudo resultante da referida diretiva definia também outros requisitos operacionais, que incidiam sobre a capacidade de armamento, a possibilidade de utilizar pistas em altitude, em climas quentes (como era o caso de África), além da capacidade de fazer um voo direto entre a ilha do Sal, em Cabo Verde, e Lisboa.
O caça francês conseguia cumprir praticamente todos estes requisitos (exceto na questão do motor), sendo, desta forma, a melhor escolha (2). 
 
A opção pelo Mirage é reforçada em 1970, numa informação que o general CEMFA Brilhante de Paiva envia ao secretário de Estado da Aeronáutica, José Pereira do Nascimento, em que considera que “no que respeita à aviação de caça a preferência deve recair nitidamente no Mirage, independentemente da maior economia do F-5.
Trata-se de aviões de caça de elevada performance e, a escolha de uma máquina de características inferiores, já nesta data, conduzir-nos-ia à obsolescência mesmo antes dos aviões entrarem em serviço.” (3) 

O problema dos caças americanos

O trabalho produzido demora, no entanto, algum tempo a chegar ao conhecimento do ministro que tutela a Defesa, o general Viana Rebelo, pois só em Abril de 1971, o secretário de Estado informa o ministro, referindo claramente que a prioridade da FAP é a aquisição de aviões de caça modernos quer para uso em África, quer para a defesa do continente.
O plano de rearmamento prevê a compra de 64 aviões, 28 para a defesa da metrópole e 36 para a defesa das colónias, mas Pereira do Nascimento admite numa primeira fase do plano a “redução da quantidade a adquirir, para ganhar experiência e avaliar da evolução da situação, mas numa posição que permita atuar, se necessário, com alguma eficácia”.
Desta forma, o governante considera que um quantitativo de 30 aviões (27 monolugares + 3 bilugares) será suficiente, estimando que o custo da aquisição ascenda a 2,2 milhões de contos.
 
Na longa lista de aviões analisados, o Mirage surge como o preferido, pois segundo o documento é “o avião cujas características mais se aproximam das especificações propostas, não obstante ser monomotor.”
Ainda na lista de preferências, o Northrop F-5A surge como segunda opção e o Phantom F-4C, como terceira, embora o governante português admita que a pouca compreensão dos EUA em relação à política portuguesa em África, não permita a aquisição de qualquer avião de origem americana, restando apenas o Mirage.(4)  
De facto, Washington tinha uma posição crítica sobre a guerra colonial portuguesa e era praticamente impossível que vendesse qualquer tipo de avião que pudesse ser usado em África, restando a Portugal apenas a opção francesa.

O bom aliado francês

Desde final dos anos 50, que existe uma boa relação entre Portugal e a França no campo político e militar.
Portugal apoia claramente a guerra francesa pela manutenção da Argélia e também a política do general De Gaulle de criar uma força nuclear francesa independente da NATO e aceita a instalação na ilha das Flores, nos Açores, de uma estação de rastreio de mísseis balísticos.
O acordo é assinado a 7 de Abril de 1964, sem qualquer pedido de contrapartidas pela parte portuguesa, estando implícito no espírito do acordo que as facilidades concedidas por Portugal teriam uma influência positiva em qualquer ajuda militar que Paris pudesse prestar a Lisboa.
E, de facto, o Governo francês apoia claramente o esforço militar de Portugal em África entre 1960 e 1970, pois o próprio De Gaulle considera que o interesse da França é coincidente com a permanência de Portugal no continente africano. (5)  
A França torna-se assim no maior fornecedor de armas a Portugal entre 1964 e 1971, com vendas que ascendem a 700 milhões de francos franceses. (6)
Mas, com a chegada de Georges Pompidou ao Eliseu, em 1969, a política externa francesa começa a mudar verificando-se uma maior aproximação aos países africanos, designadamente os de língua francesa, uma política que vai provocar problemas nos fornecimentos de armas a Portugal.
Basta dizer que no período de 1972/1974 as vendas francesas decaem para 190 milhões de francos, o que mostra bem a mudança de relação entre Paris e Lisboa.
Um sinal desta mudança é dado pelo próprio ministro dos Estrangeiros francês, Maurice Schumann, ao seu homólogo português, Rui Patrício, durante uma visita que este faz a Paris em Janeiro de 1971. Durante as conversações no Quai d’Orsay, o governante francês refere claramente que “a França tinha acordos muito rigorosos com os Estados francófonos e um acordo mesmo de defesa com o Senegal” e que Portugal devia evitar criar problemas com o Senegal.(7) 
Esta extrema sensiblidade da França em relação ao Senegal marcará todo o processo de  negociações em torno dos Mirage.

Os primeiros contactos

Em finais de Abril de 1971, o ministro Viana Rebelo analisa então os planos da FAP, que são depois enviados ao Conselho Superior da Defesa Nacional, sendo decidido efetuar os primeiros contactos de prospeção junto das autoridades francesas.
Em meados de Novembro, o director de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa francês, o general Hughes de l'Estoile, visita Portugal para uma conferência no Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional e tem encontros com as autoridades militares portuguesas e com o ministro Viana Rebelo.
Já depois destes encontros, o general avista-se com o embaixador francês em Lisboa, Jacques Tiné, com o intuito de se inteirar acerca das intenções portuguesas a respeito do Mirage.
O embaixador comenta com o oficial francês que sobre o assunto tem ouvido várias versões.
Numa das versões, os portugueses estariam interessados em 20 a 30 aviões para distribuir pela “metrópole e os três territórios de África”, noutra versão estavam apenas interessados em 12 aviões para estacionar na metrópole.
 
No entanto, percebe-se pelo desenrolar do diálogo, que Tiné considera que o mais provável é que os Mirage sejam usados na metrópole e nas colónias. Ora, a diplomacia francesa não vê com bons olhos o estacionamento na Guiné ou, em alternativa, na ilha do Sal, em Cabo Verde, onde a Força Aérea tinha uma base, pois mesmo aí os Mirage conseguem operar (embora no limite do seu raio de ação) sobre a zona Guiné-Senegal, um facto confirmado pelo general francês.
Em suma, a diplomacia francesa não quer criar problemas com o Senegal por causa de Portugal. L´Estoile revela ao embaixador a conversa que teve com os chefes militares e o com ministro Viana Rebelo, em que foi manifestado claramente o interesse português em ter “aviões supersónicos, nomeadamente para a defesa dos territórios em África” e que, nesse sentido, Lisboa não estava disponível para aceitar qualquer restrição quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois “os aviões eram pela sua natureza móveis e deviam de intervir onde o perigo estivesse presente.(8) 
O general suspeita que seja esta posição que o ministro português vai defender junto do seu homólogo francês, num encontro previsto para Paris, em Dezembro.
De facto, em 21 e 22 de Dezembro, Viana Rebelo desloca-se a Paris para tratar da renovação do acordo das Flores e dos problemas pendentes relativos ao fornecimento de material de guerra por parte da França.
Rebelo encontra-se com o ministro de Estado e da Defesa, Michel Debré, e a discussão incide principalmente na renovação do acordo luso-francês dos Açores, assim como nas encomendas de material de guerra que estavam atrasadas. (9) 
Rebelo é, certamente, informado nessa altura que, poucos dias antes, a questão dos Mirage tinha sido debatida na Comissão Interministerial de Estudos de Exportação de Material de Guerra (CIEEMG na sigla francesa), uma comissão constituída por delegados de 5 ministérios e que decide a venda ou não de material bélico ao exterior.(10)

O pedido português


O Mirage 5 foi uma das aeronaves em equação

A 17 de Dezembro, a CIEEMG tinha analisado um pedido português para uma possível aquisição de 18 caças Mirage III ou 5 e, durante a reunião, o representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha levantado várias objeções ao negócio considerando que a presença do caça francês nas colónias portuguesas provocaria protestos contra a França, nomeadamente no Senegal e na Guiné-Conacri, sendo, por isso, contra a venda dos aviões a Portugal.
A reunião da CIEEMG termina sem grandes conclusões e é decidido submeter o assunto à consideração do primeiro-ministro Chaban-Delmas.
Dois meses depois, em Fevereiro, Delmas comunica a sua posição à CIEEMG autorizando os contactos com o Governo português e salientando que antes de qualquer autorização de venda deverão ser fixadas as condições de estacionamento dos aviões. (11) 
Mas em Lisboa, o assunto vai-se arrastando e percebe-se que o Governo de Marcelo Caetano não tem orçamento para tais aquisições.
Basta dizer que a verba total para reequipamento das forças armadas nessa época era de 1.5 milhões de contos (12) , o que dava para comprar 25 aviões Mirage a preços de 1969.
A própria Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros (DAEF) do Quai d’Orsay dá conta disso em Maio de 1972, depois de uma comunicação do embaixador francês em Lisboa, que relatava o forte interesse dos militares portugueses em adquirir o avião.(13) 
Em nota ao próprio ministro, a DAEF refere que da parte portuguesa, o assunto está em “ponto morto” e que não vê pressa em o Governo português concluir qualquer acordo.(14) 
É óbvio já nesta altura que existe um certo afastamento entre os dois governos relativamente à política seguida em África por Portugal, o que afeta as relações militares.
Essa perceção é transmitida pelo próprio adido militar da embaixada francesa, comandante Gicquel, ao capitão-de-mar-e-guerra Souto Cruz da Comissão Luso-Francesa, numa conversa que tem com este no início de Dezembro.
Durante a conversa, o militar francês refere “que existem dentro do Governo e da Administração francesas, correntes de opinião muito diversas algumas das quais desfavoráveis à política ultramarina” portuguesa e que “tanto o primeiro-ministro como o ministro do Estado encarregado da Defesa Nacional são obrigados, por vezes, a contemporizar com essas correntes de opinião que se manifestam mesmo dentro da coligação governamental” e chega mesmo a sugerir que certas licenças de exportação de materiais de guerra sejam obtidas através de países amigos, como o caso da Espanha. (15)
Só em 1973 é que a posição portuguesa sobre os Mirage sofre alguma evolução e, no início de Março, Viana Rebelo contacta o embaixador francês em Lisboa, novamente com a intenção de comprar o caça da Dassault.
O ministro reafirma o interesse português no avião e que a decisão final depende de conversações com o Ministério das Finanças.
Rebelo refere ainda que “os encargos militares são pesados”, mas que a aquisição de caças a reacção figura na lista de prioridades do governo.
Em resposta, o embaixador francês faz notar ao ministro que qualquer decisão francesa estará sempre “subordinada à conclusão de um acordo sobre o estacionamento dos aparelhos”. (16) 
Já depois deste contacto, Viana Rebelo faz chegar às autoridades francesas, o interesse português em comprar entre 50 a 100 aviões Mirage F1.(17) 
Este novo pedido é analisado em reunião do CIEEMG, a 20 de Dezembro, mantendo-se as restrições que já existiam antes em relação ao pedido anterior.
Mas, não deixa de ser surpreendente, a magnitude do pedido e o interesse português por um modelo tão recente que seria certamente muito mais caro do que o Mirage III ou 5.
Entretanto, em Junho, uma delegação da FAP liderada pelo próprio general CEMFA, visita o salão Bourget, onde manifesta interesse pelo Mirage 5, pelo F1 e também pelo Alpha Jet. (18)

Um novo titular na Defesa

Em Novembro de 1973, acontece uma remodelação no governo de Marcelo Caetano e Silva Cunha, que era ministro do Ultramar, substitui Viana Rebelo.
É ele que dá um novo impulso à negociação dos Mirage e que consegue obter garantias por parte do Ministério das Finanças de uma verba suplementar de 6 milhões de contos para reequipamento das forças armadas. (19)
Em Janeiro de 1974, Silva Cunha recebe um memorando do secretário de Estado da Aeronáutica, general Tello Polleri, com uma série de aquisições previstas, num valor global de 5,8 milhões de contos.(20) 
O documento é depois revisto em Fevereiro em termos de valores e prevê a aquisição de várias aeronaves destinadas à Força Aérea: 68 helicópteros Alouette III, 1 helicóptero SA 330 Puma, 50 aviões de transporte C-212 Aviocar, 120 aviões Reims-Cessna FTB 337 e ainda um lote de 32 Mirage 5.
É já evidente nesta altura, que Portugal tem grandes dificuldades em adquirir material de guerra e que só em França e Espanha é que pode comprar aviões. O memorando descarta definitivamente a hipótese do Mirage F1 por ser demasiado cara e pelo facto do prazo de entrega ser cerca de 4 anos e aponta o Mirage 5 como a opção mais adequada. O documento refere ainda que o preço unitário desta versão de ataque, mais ferramentas, componentes e sobressalentes é de 103 mil contos (versão monolugar) e 108 mil contos (versão bilugar), embora possa ter algumas variações ao longo do período de fornecimento, estimado entre 2 a 3 anos.
É também referida a intenção da Força Aérea em adquirir mais aviões Fiat G.91 para continuar a assegurar as missões de ataque até dispor dos Mirage e que necessita para isso, de uma reserva financeira de 500 mil contos, o que implica que o número dos Mirage passe de 32 para 25 aparelhos.
Não é referida a origem dos Fiat, mas pelo valor envolvido presume-se que sejam aviões de origem alemã já usados.
Em Dezembro de 1973, a Força Aérea tem conhecimento que a Luftwaffe pretende desativar durante o ano de 1974, 50 a 60 jatos G.91 R/3 com uma média de 1800 a 2000 horas de voo e existe interesse da parte portuguesa em comprar alguns destes aviões.(21) 
O problema é que o Governo alemão proibiu a venda dos G.91 a qualquer país estrangeiro, justamente com o receio que o destino final seja sempre Portugal. (22)
Bona não quer ver mais Fiat de origem alemã envolvidos na guerra de África e não está disponível para fazer qualquer cedência a este nível.
O general Tello Polleri ainda tenta explorar junto de Espanha a possibilidade destes aviões serem comprados pelas Construcciones Aeronáutica S.A (CASA), para depois serem vendidos a Portugal, mas sem sucesso.(23)
Todas estas aquisições dependem obviamente do financiamento extraordinário previsto pelas Finanças e que está a ser negociado com a África do Sul sob a forma de um empréstimo.
Depois de alguns meses de negociações, o acordo final é assinado no dia 8 de Março de 1974, pelo embaixador português em Pretória e o South África Reserve Bank, sendo o empréstimo de 150 milhões de rands (6 milhões de contos no câmbio da época).
O empréstimo é negociado em condições muito vantajosas para Portugal com uma taxa de juro de 3%, sendo o dinheiro transferido em prestações mensais de 5 milhões de rands até um máximo de 50 milhões por ano e durante um período de 3 anos. (24)
Ao abrigo do acordo, a primeira prestação de 5 milhões de rands é disponibilizada e Silva Cunha pode assim prosseguir com as negociações relativas ao Mirage.
O dinheiro sul-africano chega numa altura em que se avolumam na Guiné indícios de uma eventual ameaça aérea por parte da Guiné-Conakry. 

O problema da Guiné

Das três frentes de guerra que Portugal tem em África, a situação na Guiné é que inspira mais cuidado e preocupação nos militares e governantes portugueses.
De facto, as forças portuguesas enfrentam nesta colónia uma guerrilha bem organizada e bem armada, inclusivamente com mísseis terra-ar, com total liberdade de movimentos nos países vizinhos. O aparecimento dos mísseis terra-ar SA-7 Strela em finais de Março de 1973 marcam uma nova fase na guerra e causam apreensão em Lisboa e no comando militar na Guiné.
Em apenas duas semanas, o PAIGC abate 5 aviões, entre os quais 2 Fiat G.91, provocando a morte a 4 pilotos. Perante esta nova ameaça, as chefias da Força Aérea reúnem-se em Lisboa, a 24 de Abril de 1973, e enfatizam a necessidade de novos meios aéreos de combate face a uma possível escalada da guerra na Guiné.
Nas prioridades da FAP surge, mais uma vez, o Mirage, dada a sua capacidade de combate aéreo e ataque ao solo e a possibilidade de ser usado em missões de retaliação.
O caça francês era “o único avião de altas qualidades incluído no plano de rearmamento da Força Aérea” e, nesse contexto, o melhor equipado para fazer frente à nova ameaça dos mísseis terra-ar. No entanto, as chefias da FAP não deixam de chamar à atenção para o facto de ser preciso estudar (face ao Strela e às restrições de voo que o míssil impõe), se o Mirage 5 é o modelo mais aconselhável para a Força Aérea “ou se este necessita de equipamentos complementares para ataques ao solo com precisão fora do alcance do míssil”, ficando este estudo a cargo da 3ª Repartição do EMFA. (25)
O pedido do Mirage para a Guiné é reforçado pelo próprio comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné (ZACVG), o coronel Moura Pinto, durante uma visita que o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), o general Costa Gomes, faz à Guiné em Junho de 1973, para avaliar a situação militar no terreno.
Costa Gomes recebe do comando militar em Bissau uma longa lista de pedidos de tropas e de armamento em que constam 12 aviões Mirage pedidos por Moura Pinto. A ideia do comandante da ZACVG é substituir completamente os T-6G e os Fiat pelo caça francês. (26)
Entretanto, começam a surgir notícias no domínio público de que a guerrilha está a treinar pilotos na União Soviética para usar aviões MiG a partir da Guiné-Conacri.
Um jornal que dá eco deste assunto é o inglês Daily Telegraph que, a 2 de Agosto de 1973, publica um artigo da autoria do correspondente em Lisboa, o jornalista Bruce Loudon, em que diz que a guerrilha “está apenas a seis meses de atingir uma capacidade de ataque aéreo com caças MiG russos.”
O jornalista refere ainda que cerca de 40 guerrilheiros estão a receber cursos de pilotagem na Rússia. (27)
Começam, assim, a circular notícias sobre o possível uso de meios aéreos por parte da guerrilha ou do envolvimento da própria Força Aérea Guineana (FAG) em ações contra as tropas portuguesas.
Do outro lado da fronteira, os MiG-17F da FAG estão praticamente parados, mas com ajuda de militares cubanos, começam a aumentar o seu grau de operacionalidade.
Pilotos e técnicos cubanos chegam a Conacri em Fevereiro e Maio de 1973 e incrementam os voos de patrulha na zona de fronteira, de forma a precaver incursões portuguesas em território guineano. (28) 
 
Preocupado com a situação militar na Guiné, o chefe do Governo, dá ordens para que a pequena colónia seja dotada de novos meios de defesa aérea (29), usando para esse efeito o empréstimo sul-africano.
Neste seguimento, o Ministério da Defesa encomenda, em França, em Janeiro de 1974, dois pelotões de mísseis Crotale R440, um deles para a defesa de Bissau, ficando prevista a entrega do primeiro para Maio de 1974 e a do segundo 18 meses depois para a defesa de Cabinda. (30) 
Existem receios em Angola, de que a compra de caças Mirage 5 pelo Zaire possa constituir uma ameaça aérea para aquele território rico em petróleo.
Desenvolvem-se também contactos junto do Departamento de Estado norte-americano para a compra de mísseis portáteis FIM-43A Redeye, que serão depois fornecidos por “caminhos tortuosos” por sugestão de Henry Kissinger, envolvendo Israel e um intermediário alemão, pois os americanos não os podiam fornecer diretamente devido ao embargo de armas. (31)
São também analisados sistemas de radar para o controle do espaço aéreo.
Neste contexto, faltava apenas um avião com elevada capacidade retaliação sobre os países vizinhos, que pudesse dissuadir qualquer ataque aéreo contra a Guiné portuguesa.
O Mirage encaixava bem nesse papel, o problema era a forma como a sua presença seria encarada pelos países limítrofes.
E é isso que preocupa os governantes franceses.

As restrições francesas

A 20 de Fevereiro de 1974, o ministro francês da Defesa, Robert Galley, envia uma carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Michel Jobert, dando conta do interesse português em comprar entre 26 a 28 Mirage III ou 5 e das condições que a França devia exigir a Portugal. (32) 
Galley é da opinião que o estacionamento do Mirage na Guiné portuguesa não deve ser autorizado pelo Governo Francês, pois não deixaria de suscitar reações negativas por parte dos países vizinhos desta colónia.
Mesmo nas ilhas de Cabo Verde, onde Portugal tinha uma base na ilha do Sal, o estacionamento não devia ser autorizado, pois os caças podiam facilmente ser deslocados para a Guiné.
No entanto, considera que não vê problema nenhum no estacionamento em Angola e Moçambique, isto porque a França também já tinha vendido o avião à África do Sul com o argumento de que o Mirage não era vocacionado para missões de contra-guerrilha.
De facto, entre 1963 e 1974, a Africa do Sul tinha recebido 16 Mirage IIICZ e 17 IIIEZ (33)  e, sendo assim, Portugal não seria o único país a ter este tipo de caça na África austral.

Mirage IIIEZ sul-africano
 
Galley referia ainda que se, por um lado, a França devia ter as precauções indispensáveis relativamente à sua política africana, por outro, devia também levar em linha de conta as facilidades que tinha na ilha das Flores, relevantes para a Força Nuclear Estratégica francesa e terminava pedindo a opinião de Jobert sobre o assunto.
Uma semana depois, a Direção dos Assuntos Africanos e Malgaxes (DAM) do Quai d’Orsay responde dizendo que, no seu entender, a restrição de estacionamento dos Mirage devia também ser estendida a Angola e Moçambique, pois países vizinhos como a Zâmbia, a Tanzânia, o Congo ou o Zaire podiam reagir mal, o que seria contrário aos interesses franceses.(34) 
Na opinião da DAM, a analogia com a África do Sul não era convincente, pois os Mirage sul-africanos tinham sido vendidos para defender o território nacional daquele país, enquanto que os Mirage portugueses seriam usados na guerra de guerrilha, podendo, nesse caso, a França ser acusada de apoiar a política colonial portuguesa.
Mais uma vez, a diplomacia francesa demarcava-se da política portuguesa em África, embora esquecendo que Pretória também usava os seus Mirage em operações de contra-guerrilha e não apenas para defender o seu território nacional.(35)
Já depois desta troca de correspondência, o assunto é discutido na CIEEMG e Galley não aceita a posição do representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e considera que as restrições de estacionamento dos Mirage devem ser apenas aplicadas à Guiné portuguesa e a Cabo Verde.
Perante a falta de consenso, a questão é remetida ao primeiro-ministro Pierre Messmer, que acaba por concordar com a posição do ministro da Defesa.

O Mirage IIIEPL

No seguimento desta decisão, desloca-se a Lisboa, no dia 3 de Abril, o diretor adjunto dos Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, Philippe Esper, para negociar com as autoridades portuguesas as condições de estacionamento dos aviões, os prazos de entrega e a formação de pilotos e de técnicos. (36)
Poucos dias depois desta visita, o general Hughes de l'Estoile, envia uma comunicação ao ministro Jobert com a carta que o ministro da Defesa pretende enviar ao seu homólogo português. Jobert fica assim a par dos contornos da operação.
Em primeiro lugar, o interesse português já não é pelo Mirage 5, mas sim pela versão IIIE, que por ser para Portugal passa a designar-se Mirage IIIEPL.

Mirage IIIE  francês

O documento não refere o número de aviões que Portugal quer comprar, mas, por documentos posteriores, sabe-se que o pedido português é de 32 Mirage IIIEPL, provavelmente 29 monolugares e 3 bilugares, embora isto não seja claro nos documentos consultados.
Os aviões bilugares ficariam na BA5 em Monte Real para conversão dos pilotos e os monolugares seriam distribuídos entre a metrópole e as colónias com especial prioridade para a Guiné.
O número de aviões previsto indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo de Caetano enviar o caça francês para Angola e Moçambique, onde as chefias da Força Aérea se queixavam da falta de jatos de combate, sendo as queixas mais prementes em Angola, onde o comando da 2ª Região Aérea, chega mesmo a sugerir em Maio de 1974, o empréstimo temporário de 6 aviões Impala (Aermachi 326B) da Força Aérea sul-africana para cobrir as necessidades de caças a jato na 2ª RA. (37) 
A hipótese de usar estes jatos em Angola, já tinha sido formulada em 1972, com vista a substituir os F-84G que operavam naquela colónia,(38)  mas o secretário de Estado da Aeronáutica, Pereira no Nascimento, tinha dado na altura parecer negativo a esta hipótese, desaconselhando “a integração do Impala na frota de aeronaves do Ultramar”. (39) 
Em relação ao prazo de entrega, o Governo francês compromete-se a entregar os primeiros 6 aviões (3 monolugares e 3 bilugares) em Dezembro de 74, na hipótese de que seja assinado um contrato até ao final de Abril, o que supera as expectativas portuguesas que esperavam os primeiros aviões só em 1976.
Em relação aos pilotos e técnicos, o compromisso é no sentido de que 6 pilotos e 10 mecânicos possam começar a sua formação em França em Novembro, um mês antes da entrega dos aviões. Quanto à utilização dos aparelhos em África, a proibição de estacionamento na Guiné e nas ilhas de Cabo Verde mantém-se. (40)
Obviamente que a posição francesa não agrada ao Governo português, que considera inaceitável que os caças sejam proibidos de operar a partir de Cabo Verde.
O ministro Silva Cunha manifesta desagrado com este tipo de exigência (41)  e o assunto chega também ao conhecimento do ministro dos Estrangeiros, Rui Patrício, que já no dia 24 de Março, tinha abordado o assunto com o ministro Jobert durante um breve encontro no aeroporto de Lisboa.
No referido encontro, Jobert tinha manifestado ao ministro português as suas reservas quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois seria uma situação que não deixaria de provocar rumores e problemas à diplomacia francesa em África.(42)
Em resposta, Patrício dá a entender que a questão dos Mirage pode ser vinculada à cooperação franco-portuguesa na ilha das Flores, dando como exemplo o acordo americano da base das Lajes, que Lisboa tinha hesitado em renovar devido aos problemas que a sua utilização, durante a guerra de Yom Kippur, tinha provocado entre Portugal e os países árabes.
O governante português estava, naquela altura, a negociar com o Departamento de Estado norte-americano a permanência americana nos Açores e as negociações estavam a ser difíceis, pois Washington não fornecia a Portugal uma série de equipamento militar que o Governo português exigia no âmbito das contrapartidas do acordo das Lajes.
Além dos mísseis Redeye para a defesa da Guiné, Lisboa queria também 4 aviões de transporte C-130 Hércules, que os EUA não queriam fornecer devido ao uso que poderiam ter em África. (43)
No entanto, a argumentação de Patrício não tem qualquer efeito em Jobert, nem na posição do Governo francês.
Para a diplomacia francesa, o que importa são as relações com as antigas colónias e não a política colonial portuguesa.
Ilustração do Mirage IIIEPL com mísseis ar-ar       Imagem: Paulo Alegria

Uma das configurações possíveis para ataque a alvos terrestres dos Mirage IIIEPL  Imagem: Paulo Alegria

Na véspera da revolução

Mas, o ministro português não desiste e, no dia 24 de Abril, encontra-se com o embaixador francês em Lisboa, Bernard Durand.
Patrício sabe que a Força Aérea precisa dos aviões em África e salienta ao embaixador que a compra dos Mirage representa para Portugal “um investimento considerável” e que se destina a exercer “um efeito de dissuasão sobre o adversário”, principalmente, no caso da Guiné portuguesa, que podia a qualquer momento ser atacada por aviões MiG da Guiné-Conacri.
O receio de um ataque a este nível era patente em vários dos relatórios do comando militar em Bissau e o ministro tinha conhecimento desta informação e, sendo assim, não podia aceitar as restrições quanto ao estacionamento dos aviões em África, pois daria “a impressão de renunciar à defesa da Guiné-Bissau.”
No decorrer da conversa, nota-se que a preocupação do embaixador francês incide principalmente na questão do Senegal e, sabendo disso, Rui Patrício chega mesmo a dizer que, se for necessário, Portugal pode dar garantias ao Senegal de que nenhuma operação com os Mirage será realizada contra o seu território.
Esta informação será transmitida, ainda nesse dia, ao gabinete do ministro francês dos Estrangeiros, mas, no dia seguinte, o golpe militar de Abril mudaria completamente o regime e o negócio dos Mirage acabaria definitivamente cancelado.
No entanto, a posição assumida por Rui Patrício na véspera da revolução, mostra que a proibição de estacionamento em Cabo Verde era obviamente inadmissível e que se a França não cedesse nessa questão, o negócio não se podia concretizar.
Ironicamente, por essa altura, a venda terá sido autorizada pelo primeiro-ministro francês, Pierre Messmer, embora com a referida restrição. Sabemos isso por uma nota da DAEF, que, em finais de Maio desse ano, referia claramente que a venda de 32 Mirage IIIE tinha sido aprovada pelo primeiro-ministro pelo valor de 750 milhões de francos (MF), mas com a restrição dos aviões não serem enviados para a Guiné Bissau, nem para as ilhas de Cabo Verde, uma limitação com a qual o Governo português não tinha concordado. (44)
A DAEF considera também que o novo governo saído da revolução de Abril não dará, provavelmente, seguimento à compra dos Mirage devido às perspetivas de independência que se tinham criado em relação à Guiné Bissau.
Uma observação correta, pois com o fim da guerra, a prioridade era sair de África e o Mirage deixava de fazer sentido.


Agradecimentos: Christophe Villecroix do Arquivo do Ministère des Affaires Étrangères et Européenne pela ajuda na pesquisa e também ao Arquivo Histórico da Força Aérea (SDFA/AHFA), ao Arquivo da Defesa Nacional (ADN), ao Arquivo Histórico Diplomático e ao Arquivo Histórico-Militar.

(1) Estudo do rearmamento da Força Aérea no âmbito da diretiva de 10 de Fevereiro de 1969 do CEMGFA – Arquivo da Defesa Nacional (ADN), F3/23/52/2.
(2) Estudo de Rearmamento da Força Aérea, Estado Maior da Força Aérea, 31 de Maio de 1969, SDFA/AHFA.
(3) Informação do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea para o Secretário de Estado da Aeronáutica, Assunto: Estudo de Rearmamento da Força Aérea, 23 de Janeiro de 1970 (SDFA/AHFA).
(4) Ofício nº 289 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, 19 de Abril de 1971, ADN, F1/07/35/51.
(5) Carta da Embaixada de Portugal em França para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, 3 de Abril de 1971, Arquivo Histórico Diplomático (AHD), PEA 685.
(6) Nota da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 19 de Fevereiro de 1976, Archive du Ministère des Affaires Étrangères (AMAE), Europe 1971-1976 - Portugal- Caixa 3501.
(7) Apontamento de Luís Navega, Chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre as conversações no Quai D`Orsay de 21 e 22 de Janeiro de 1971, 2 de Fevereiro de 1971, AHD, PEA Confidencial, Maço 23.
(8) Nota da Embaixada Francesa em Lisboa para o Diretor dos Assuntos Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 26 de Novembro de 1971, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(9) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Luso-Francês sobre os Açores e fornecimentos de material de guerra francês, 16 de Outubro de 1972, ADN, F1/7/31/19.
(10) Relatório da 1ª reunião Luso-Francesa para revisão do acordo geral de 7 de Abril de 64, Comissão Luso-Francesa, Secretariado-Geral da Defesa Nacional, 15 de Julho de 1971, ADN/F1/7/31/19.
(11) Nota n.º 137 da Direção da Europa para o Ministro, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(12) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril” Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 312.
(13) Telegrama nº 216-219 da Embaixada de França em Lisboa, 17 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(14) Nota n.º 260 da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, 19 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(15) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Geral Luso-Francês sobre os Açores - Material de guerra francês, 12 de Dezembro de 1972, ADN/F1/7/31/19.
(16) Telegrama nº 158-159 da Embaixada Francesa em Lisboa para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1 de Março de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(17) Nota da Direção da Europa Meridional para a Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(18) Ficha de vendas de armamento a Portugal, 14 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(19) Silva Cunha, p. 312
(20) Memorando da Secretaria de Estado da Aeronáutica, Assunto: Programa de Forças – Aquisições Previstas (1ª revisão), 4 de Fevereiro de 1974, SDFA/AHFA.
(21) Memorando do Estado-Maior da Força Aérea, 25 de Janeiro de 1974, SDFA/AH, 3ª Divisão/EMFA 71/74, Processo 400.121.
(22) Carta de Alberto Maria Bravo & Filhos, Assunto: Aviões G-91, 4 de Dezembro de 1973, AHD PEA 655.
(23) Carta do Secretário de Estado da Aeronáutica para o General Enrique Jimenez Benamu, 25 de Fevereiro de 1974, AHD PEA 655.
(24) Memorial sobre o acordo do empréstimo de 150 milhões de rands firmados com a R.A.S., Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), 18 de Setembro de 1975, ADN F3/20/48/64.
(25) Ata da reunião de 24 de Abril de 1973, na biblioteca do EMFA, sobre a ameaça antiaérea no Ultramar, pp. 9 e 21, ADN F3/17/37/64. 
(26) Anexo D à acta da reunião de Comandos de 15 de Maio de 1973, Bissau, Arquivo Histórico Militar AHM/DIV/2/4/314/2.
(27) Bruce Loudon, “Portuguese rebels to get Russian MiGs” Daily Telegraph, 2 de Agosto de 1973, ADN, SGDN 3500.
(28) Humberto Trujillo Hernández, El Grito del Baobab, Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 2008, pp. 110-111.
(29) Marcello Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974, p. 180
(30) Silva Cunha, p. 318. 
(31) João Hall Themido “Dez anos em Washington 1971-1981”, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 145-146.
(32) Carta n.º 7221 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 20 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(33) Salvador Huertas, Dassault-Breguet Mirage III/5, Osprey Air Combat, Londres, 1990, p. 134.
(34) Nota nº 23/DAM-2 da Direção dos Assuntos Africanos e Malgaxes, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 27 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(35) Jack Gee, Mirage – warplane for the world, Macdonald, Londres, 1971, p. 65.
(36) Ficha para M. De Margerit: Aviões Mirage para Portugal (estacionamento), 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(37) Nota nº 1632 c/p do Comando-Chefe das Forças Armadas de Angola para o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Necessidade de aviões de caça a jato para a 2ª RA, 4 de Maio de 1974, ADN/Fundo Geral Cx.7702.
(38) Nota do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Cedência de Aviões de Ataque ao Solo, sem data, ADN/F1/42/186/59.
(39) Ofício nº 620 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, Assunto: Aviões Aeromachi MB-326M (Impala), 7 de Julho de 1972, ADN, F1/42/186/62.
(40) Nota nº 75133 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Aviões de combate para Portugal, 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(41) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.
(42) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.Nota sobre o encontro entre M. Jobert e M. Patrício no aeroporto de Lisboa, no dia 24 de Março de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(43) Carta do ministro dos Negócios Estrangeiros para o embaixador de Portugal em Washington, Lisboa, 23 de Abril de 1974, ADN, F3/14/29/4.
(44) Nota da Direção dos Assuntos Económicos e Financeiros, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 31 de Maio de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!, por António Feijó


 
Enviado pelo nosso camarada António Feijó.
 
Obrigado pela partilha!
 
« EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!
 
CHAI, Cabo Delgado, Moçambique.
(Sector B da Zona de Intervenção Norte da Região Militar de Moçambique).

Esta fotografia foi tirada em 24 de Dezembro de 1967, por volta das 10h00.
Era a formatura da Companhia de Cavalaria n.º 1602, aquando da visita do General Augusto dos Santos, Comandante-Chefe das Forças Armadas em Moçambique e do Brigadeiro Costa Gomes.

Na frente deste Pelotão está o Alferes Bourbon que era o seu comandante.
O outro alferes sou eu, adjunto do Comandante de Companhia (até há alguns dias antes desta data, era o comandante interino na ausência do capitão que tinha sido evacuado por ter sofrido um grave acidente).

Na noite desse dia fizemos a nossa consoada.
Era a última que se passava na guerra.
A comissão estava a terminar e todos pensávamos regressar ao seio das nossas famílias, para as nossas terras.

No dia 25 preparamo-nos para ir render o posto avançado n.º 11 (Nantomba), que tínhamos junto ao rio M'salo, muito perto do esporão da Serra Mapé.
Não me recordo a distância certa a que estava: rondava os 20 km, creio.
Às cinco da manhã do dia 26, falei com o Alferes Bourbon antes da sua partida.
Uma coluna-auto ia transportar o seu grupo de combate, mais a secção que ia render aquela que se encontrava no posto há 20 dias, mais cinco dias dos quinze dias que lhe competia.
 
A irregularidade nos prazos de rendição tinha por objetivo evitar a rotina de horários que era propiciadora a emboscadas montadas contra nós.
 
Foi a última vez que falei com ele, como foi, também, a última que saudei alguns dos militares que já se encontravam nas viaturas com as armas na mão.
 
Não tinham chegado as sete horas quando ouvimos longínquas explosões e tiros e, logo de seguida a comunicação rádio a dar conta que a coluna havia caído numa emboscada, havendo mortos e feridos.
 
De imediato seguiu uma coluna de socorro onde fui.
Pouco depois os Alouette III estavam na sede da companhia para evacuar os militares que entretanto tínhamos trazido para ali.
 
É impossível descrever os cenários no local e depois na companhia e, se pudesse, não o faria com certeza.
Tenho as imagens fortemente marcadas na minha memória, já lá vão quase 50 anos.
 
Na fotografia estão assinalados os onze que caíram em combate e os que ficaram gravemente feridos. Não indico os seus nomes.
Tenho-os firmemente gravados no meu coração.
Tinha eu 23 anos.
Era a idade aproximada de todos os militares deste grupo de combate e da maioria daqueles que pegaram em armas para defender o que nos disseram ser parte de Portugal e disso estávamos convencidos.
Os "turras", segundo soubemos mais tarde, estavam à nossa espera há bastantes dias.
 
Eis o testemunho resumido de três dias da minha vida na primeira comissão em África.
Como eu, muitos outros e ás vezes em piores circunstância, viverem em horas, anos das suas vidas, e trouxeram consigo as dores de alma, para as quais não há hospitais e medicamentos que as curem.
 
Lembro-me muitas vezes destes meus infortunados Camaradas de Armas e muito especialmente o faço neste período, no seu aniversário que ocorre neste dia.
Rogo a Deus que os tenha na paz dos justos.
 
A vida de um combatente, daqueles que carregavam a G-3 e todo o seu equipamento às costas e andavam pelo mato ou pelas picadas, distâncias sem fim, sujeitos aos tiros e minas e também às doenças, à fome, à sede e ao cansaço, foi uma epopeia gigantesca que merece o respeito e a gratidão de todos os Portuguesas, seja qual for o quadrante político em que se encontrem.
 
Infelizmente, parece não acontecer algumas vezes, o que sinceramente muito lamento e me contrista.
 
Há dias soube que numa assembleia municipal, um deputado que foi um militar da Força Aérea, ao que parece dos serviços administrativos ou de guarnição, num arrazoado mal construído, falou como combatente para justificar uma lamentável atitude política que repudiava a consagração de um dia na vida da comunidade (que julga representar) para homenagear os Filhos da Terra que caíram em combate, ou em razão dele, ao serviço de Portugal.
Este senhor deputado pode ter as posições que quiser, mas nunca deve invocar que está a fazê-lo em nome dos combatentes, porque não o foi.
É que, nesse tempo, os militares da FA que combatiam e bem, eram os Paraquedistas. os Pilotos e as guarnições dos helicópteros, dos T-6, dos Do-27 e dos Fiats (GU-91) que apoiavam as forças terrestres nas missões de apoio de combate, nos assaltos helitransportados, nas evacuações de feridos, no apoio de fogo às operações que se desenrolavam. (Na Marinha, envolvidos em combate, eram os Destacamentos de Fuzileiros Especiais e as guarnições das lanchas de desembarque).
O serviço dos outros militares da FA, do Exército ou da Marinha era importante ou mesmo muitíssimo importante, mas, por mais complexo que ele fosse, estava a "anos-luz" das dificuldades e perigos vividos pelos combatentes que de facto o eram.
 
A proposta que foi apresentada, teve como base um largo consenso da sociedade civil, por intermédio das suas instituições mais representativas.
Infelizmente não passou na dita assembleia por ter sido rejeitada pelos deputados eleitos por um partido que tinha a obrigação moral de a acolher com agrado e apoiá-la com veemência.
 
Como disse um político português que os mortos só se choram, quando os vivos não os merecerem, teremos de lamentar profundamente o acontecido numa Terra que tanto prezo, e afirmar como tristes são os sinais destes tempos. »
___________________________________
https://www.facebook.com/homenagemaosmilitaresportugueses

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Episódios Nangololo 1970, por João Maria Ribeiro Silva

 
 
Resumo da Pag. 300 - 306 .... sobre a história deste avião que ficou na pista de Nangololo com o trem de aterragem partido .... e que durante uns dias tinhamos... de sair do arame farpado para o guardar de noite ....

Pag.300 -

A GUERRA NA PICADA Deitado sobre uma maca de lona colocada em chão frio e húmido, aquele companheiro era a imagem real do pesadelo que me atormentava.
Via-o sofrido , angustiado com lágrimas de uma amargura infinita.
Sofria na carne e no intimo os horrores de uma guerra que tudo lhe desfez ........

A Força Aérea não voava de noite......
Quando conhecemos a decisão de evacuar os feridos de táxi aéreo vindo de Nampula, mais confuso fiquei.
Mueda ficava ali ao lado ...

O facto de o aquartelamento se encontrar completamente ás escuras, não podia facilitar a sua localização.
Alguém se lembrou com o recurso a tochas feitas com latas de cerveja vazias .... que estavam no lixo.
Colocamos gasóleo com óleo queimado e com a ajuda dos farois de uma viatura, iluminámos as bermas da pista para a balizar.

Uma horas mais tarde com o negrume da noite à distância de uma mão por cima das nossas cabeças, quando o ruido se ouviu sobre nós, como que ligadas em cadeia as tochas se iluminaram.
O piloto não conseguiu localizar-nos devido à densa neblina, alvitravam uns......
Será que regressou a Nampula?, inquiriam outros.

Uma hora mais tarde, com muitos de nós já descrentes chega-nos um temido zumbido.
De novo corremos para a pista e ela se iluminou.
Inesperadamente ouço um ruído abafado e constato que a aeronave guinou com a asa esquerda a roçar pelo chão até parar no arame farpado.

Quando vi um corpo meio desnudado com uma perna decepada, senti-me desorientado.
Por fim perguntei ao piloto: de onde vem ele?
De Muidumbe.
Ficámos então a saber que já vinha a caminho de Nangololo quando lhe transmitiram o pedido de Muidumbe para evacuar um ferido grave ......

A FORÇA AÉREA NÃO VOAVA DE NOITE MAS OS PILOTOS CIVIS SIM ...
ARRISCAVAM A VIDA.
Pensamento meu ......

  • Antonio Sa em que ano foi isto? este avião ficou lá para sempre? não é deste que o nosso alferes tirou o banco para descançar das caminhadas e a c.cav. 3561 tirou os rádios?
  • Duilio Caleca Será ???? Nangololo ????
  • Antonio Sa ? ao fundo não é a caserna do pessoal das "daimleres"?
     
  • Duilio Caleca Aguardemos para esclarecer.
  • Mas que os bancos fizeram muito jeito, lá isso fizeram.
     
  • Antonio Sa é fácil tenho fotos eu deitado em cima da asa que mandei para a família a dizer que estava a voar nas nuvens e vejo a matricula da aeronave.
     
  • João Maria Ribeiro Silva CAROS AMIGOS LEIAM O RESUMO DA HISTÓRIA DESTE AVIÃO EM NANGOLOLO -1970 - QUE DESCREVO POR BAIXO DO AVIÃO ....
     
  • Antonio Sa amigo João Maria por baixo não tem mais nada.
     
  • Duilio Caleca Eu passei alguns meses a iluminar a pista com latas de cerveja com gasóleo e um pavio acesso e só vi aviões civis, pela calada noite sem iluminação alguma, não fosse os mísseis fazer das suas.
  • Depois deu-se o 25.
  • Coincidências.
     
  • Armando Guterres Na Mataca também ficou uma noite, aterrou apesar de estar avisado que a pista estava encharcada.
  • No dia seguinte com a pista seca lá seguiu à sua vida.
  • Outra vez, com a informação dada no Chai de pista operacional na Mataca, ao sobrevoar a Mataca com um lindo sol e sem nuvens "uma maravilha" seguimos para Macomia porque as valas do aquartelamento estavam cheias da água da chuva...
     
  • Antonio Sa creio que não é o mesmo avião, numa foto que encontrei as janelas não são redondas. mas amanhã tiro duvidas com outras fotos.
     
  • Antonio Sa ó Duilio o padre fazia procissão na pista?
     
  • Antonio Sa Segundo contaram o piloto esteve lá e tomou umas cervejolas.
  • Quando levantou pensou que já ia no ar virou e deu com a asa na pista e lá ficou.
     
  • João Maria Ribeiro Silva Antonio Sa, o avião ao aterrar partiu o trem de aterragem, de noite, como relata o resumo que escrevi, tirado do livro a Guerra na Picada do meu camarada António Soares, em Nangololo no ano de 1970.
  • Vindo de Muidumbe com um ferido grave, para levar outro de Nangololo também com um ferido grave.
  • Conclusão tiveram de ficar a noite toda no acampamento, gemendo com dores (sem um perna cada um) à espera do Heli para os levar para Mueda ... misérias da guerra ...........

  • Antonio Sa João Maria, ok não existe ligação nenhuma são dois casos diferentes entre estes dois aviões.
  • Santos Silva Teve um furo ou kkkkk!!!
     
  • António Soares A diferença entre os dois aviões também é temporal: um acidente aconteceu em 1970 e o outro em 1972.
     
  • João Maria Ribeiro Silva e já agora Santos Silva se ler o resumo que escrevi sobre o acidente , perceberá o que aconteceu ... na pista encontravam-se pequenos montes de terra, para tapar os buracos, que iam aparecendo ..... por azar tivemos uma evacuação nesse dia de um ferido grave e aconteceu o desastre, por ser de noite cerrada ..... AZAR ....
     
  • Abel Lima Sobre o livro " A Guerra da Picada".

  • Finalmente ...
    Um livro que descreve com realismo, não só o dia a dia em Nangololo, mas também o estado de espírito dos militares que lá permaneciam meses a fio;

  • Um livro que relata episódios de guerra e que, em minha opinião, será muito bem compreendido e melhor apreciado por todos aqueles que por lá passaram durante e depois dos acontecimentos e fará refletir muitos outros, especialmente aqueles que, ainda hoje, afirmam que a guerra ou melhor a guerrilha estava ganha ou então que ela nunca existiu ou ainda que podíamos e devíamos dar continuidade àquele estado de coisas.
  •  
  • Arrisco-me mesmo a afirmar que até aqueles que estiveram em Nangololo, no início do conflito, também ficarão surpreendidos se lerem o livro.
  • Pena esta edição não ser documentada com as muitas fotos que o autor possui e já divulgou no Facebook.
  • Sairia muito valorizado;
    Um livro que traduz a triste realidade que se vivia por aquelas paragens.
  •  
  • Estes dramas agora contados passavam, na altura, de boca em boca e iam chegando ao conhecimento dos "checas".
  •  
  • Recordo que, dois anos depois, o episódio da água servia ainda de exemplo e era lembrado sempre que era necessário lá descer;
  • Um livro que vem esclarecer algumas dúvidas que me acompanhavam há longos anos relativamente às Companhias que nos antecederam em Nangololo e confirmar aquilo que eu sempre pensei e defendi sobre os motivos que determinaram o abandono dos chamados destacamentos de Miteda e de Muidumbe deixando apenas Nangololo, sob o comando de um capitão.
  •  
  • Tal aconteceu porque a situação se agravava de dia para dia e a partir de determinada altura tornou-se quase impossível continuar a fazer a chamada "guerra na picada".
  • As perdas humanas e de material ultrapassavam tudo aquilo que, mesmo para os "donos da guerra", sempre bem mais preocupados com o material, seria razoável e tolerável.
  • Em tempos eu escrevi algures que os militares continuaram em Nangololo apenas para "marcar presença" na zona, já que estrategicamente o local não teria grande interesse militar, mas o autor é mais exato e concordo com ele quando afirma, não recordo bem se com estas palavras, que a presença de militares naqueles locais servia para "entreter e manter ocupada a guerrilha" evitando que ela se estendesse para sul. Por outras palavras "carne para canhão".

  • Estive no local dois anos depois do autor do livro e durante 20 meses (julho 72/fevereiro 74).
  • O que mudou:
    Os reabastecimentos, enquanto foi possível, passaram a fazer-se por via aérea, abandonando-se as perigosas colunas (durante a nossa permanência apenas foram efetuadas duas entre Mueda e Nangololo, com os resultados que são conhecidos e não vou repetir aqui);
  • Por este motivo os bens alimentares eram escassos e por vezes faltavam.
  • Tempos houve em que chegou mesmo a esgotar a cerveja e outros em que esta teve de ser racionada;
    As picadas da zona, sem uso, foram absorvidas pela vegetação e praticamente desapareceram;
    A engenharia dotou o destacamento de um furo (90 m de profundidade, segundo constava) com bomba para retirar a água, deixando de ser necessário o abastecimento periódico na perigosa nascente, recorrendo-se a esta apenas nos casos de avaria, o que aconteceu por diversas vezes;
    Desapareceram do local as patentes superiores a capitão;
    Também nunca lá vi um médico e o padre capelão apareceu duas ou três vezes;
    O isolamento era total e sem Miteda e Muidumbe, passou a ser Mueda o destacamento mais próximo.
  • Mas a grande maioria do pessoal, presente em Nangololo, nunca lá foi;
  • As cercas de arame farpado que delimitavam o perímetro do destacamento deixaram de estar armadilhadas;
    Passaram a existir 2 geradores elétricos, funcionando um como reserva para os casos de avaria;
    Alguns pelotões construíram, de forma muito artesanal, as suas próprias casernas abrigo subterrâneas, recorrendo a grandes troncos de árvores e bidões de combustível;
  • Repetiu-se em 1973 o episódio da evacuação noturna, feita por um avião civil, nos mesmos moldes (desta vez sem o acidente do avião) e pelos mesmos motivos;
  • Passaram a fazer-se operações de vários dias a corta-mato na densa mata, algumas delas com os militares a serem largados no objetivo (ou perto dele) por helicópteros, sendo o regresso a Nangololo feito a pé.
  • Os reabastecimentos no mato, em regra, eram a cada 3 dias;
  • Mas a "guerrilha" depressa se adaptou às novas realidades e a partir de determinada altura também os meios aéreos começaram a sentir-se fortemente ameaçados e, consequentemente, o contacto com o exterior tornou-se ainda mais difícil;
  • Passaram a aparecer mais trilhos armadilhados;
  • A pista, na altura com cerca de 2,5 km, era picada (varrida) diariamente, por um pelotão, e mesmo assim foram lá detetadas, num só dia, pela minha Companhia (CCAV3561) e levantadas, sem consequências, mais de 30 minas, algumas delas anticarro (foi quase obrigatória a opção pelo levantamento para evitar a destruição da pista, dado que, ao tempo, ela constituía quase a única garantia de ligação com o exterior);
  • As flagelações com morteiros e canhões eram frequentes e no dia 4 de fevereiro de 1974, durante um ataque que se prolongou durante quase todo o dia, foi mesmo efetuado um disparo de 122;
  • Por essa altura surgiram mensagens relâmpago, provindas dos "altos comandos", informando que estaria a ser planeada e preparada por parte do IN uma tentativa de golpe de mão, envolvendo um elevado número de efetivos da guerrilha, o que obrigou a medidas excecionais de segurança.
  • Talvez devido ao facto do pessoal ter sido prevenido, gorando-se desta forma o efeito surpresa, tal não veio a concretizar-se.

    Voltando ao livro
    Li, gostei e aconselho a sua leitura.
    Parabéns e muito obrigado António Soares
     
  • Duilio Caleca Obrigado Abel Lima por transcreveres a verdade do que efetivamente se passou onde nós amargámos uma parte da nossa juventude.
    Só mesmo quem passou por elas.
     
  • Abel Lima Duilio Caleca - Bem reaparecido após as merecidas férias. Apenas comentei um livro, que considero excelente, cujo autor é um ex-camarada António Soares, membro do picadas, que não conheço pessoalmente e que esteve em Nangololo antes de nós. Vale a pena a sua leitura. Abraço.