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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

sábado, 1 de abril de 2017

A Pistola 9 mm Walther m/961, por Duílio Caleça


Tempo em serviço 1939 - act.
Calibre 9 x 19 mm Parabelum
Operação recuo curto com culatra fechada
Velocidade de saída do projéctil 365 m/s
Alcance eficaz 50 m
Peso 884 g (carregada)
Comprimento total 216 mm
Alimentação carregador
Miras alça e ponto de mira
Variantes P1, P38K, P38SD e P4

A Walther P38 é uma pistola de 9 mm desenvolvida pela empresa alemã Walther para serviço na Wehrmacht. 
O objectivo era a substituição da pistola Luger P08, cuja produção estava prevista para terminar em 1942.
O conceito da P38 foi aceite pelos militares em 1938, mas a sua produção para testes só foi iniciada em 1939. 
A Walther começou a sua fabricação na fábrica de Zella-Mehlis, produzindo três séries de pistolas de teste. 
A terceira série foi considerada em condições e produção normal da arma foi iniciada em 1940.
A produção manteve-se até depois do final da Segunda Guerra Mundial.

Uso em Portugal
A P38 foi adaptada pelas Forças Armadas Portuguesas em 1961 como Pistola 9 mm Walther m/961, substituindo a Parabellum então em serviço. 
Equipou desde logo as tropas em combate na Guerra do Ultramar. 
Desde essa altura até à actualidade mantém-se como a pistola padrão do Exército Português

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!, por António Feijó


 
Enviado pelo nosso camarada António Feijó.
 
Obrigado pela partilha!
 
« EM MEMÓRIA DE UNS MEUS CAMARADAS DE ARMAS QUE MORRERAM EM COMBATE!
 
CHAI, Cabo Delgado, Moçambique.
(Sector B da Zona de Intervenção Norte da Região Militar de Moçambique).

Esta fotografia foi tirada em 24 de Dezembro de 1967, por volta das 10h00.
Era a formatura da Companhia de Cavalaria n.º 1602, aquando da visita do General Augusto dos Santos, Comandante-Chefe das Forças Armadas em Moçambique e do Brigadeiro Costa Gomes.

Na frente deste Pelotão está o Alferes Bourbon que era o seu comandante.
O outro alferes sou eu, adjunto do Comandante de Companhia (até há alguns dias antes desta data, era o comandante interino na ausência do capitão que tinha sido evacuado por ter sofrido um grave acidente).

Na noite desse dia fizemos a nossa consoada.
Era a última que se passava na guerra.
A comissão estava a terminar e todos pensávamos regressar ao seio das nossas famílias, para as nossas terras.

No dia 25 preparamo-nos para ir render o posto avançado n.º 11 (Nantomba), que tínhamos junto ao rio M'salo, muito perto do esporão da Serra Mapé.
Não me recordo a distância certa a que estava: rondava os 20 km, creio.
Às cinco da manhã do dia 26, falei com o Alferes Bourbon antes da sua partida.
Uma coluna-auto ia transportar o seu grupo de combate, mais a secção que ia render aquela que se encontrava no posto há 20 dias, mais cinco dias dos quinze dias que lhe competia.
 
A irregularidade nos prazos de rendição tinha por objetivo evitar a rotina de horários que era propiciadora a emboscadas montadas contra nós.
 
Foi a última vez que falei com ele, como foi, também, a última que saudei alguns dos militares que já se encontravam nas viaturas com as armas na mão.
 
Não tinham chegado as sete horas quando ouvimos longínquas explosões e tiros e, logo de seguida a comunicação rádio a dar conta que a coluna havia caído numa emboscada, havendo mortos e feridos.
 
De imediato seguiu uma coluna de socorro onde fui.
Pouco depois os Alouette III estavam na sede da companhia para evacuar os militares que entretanto tínhamos trazido para ali.
 
É impossível descrever os cenários no local e depois na companhia e, se pudesse, não o faria com certeza.
Tenho as imagens fortemente marcadas na minha memória, já lá vão quase 50 anos.
 
Na fotografia estão assinalados os onze que caíram em combate e os que ficaram gravemente feridos. Não indico os seus nomes.
Tenho-os firmemente gravados no meu coração.
Tinha eu 23 anos.
Era a idade aproximada de todos os militares deste grupo de combate e da maioria daqueles que pegaram em armas para defender o que nos disseram ser parte de Portugal e disso estávamos convencidos.
Os "turras", segundo soubemos mais tarde, estavam à nossa espera há bastantes dias.
 
Eis o testemunho resumido de três dias da minha vida na primeira comissão em África.
Como eu, muitos outros e ás vezes em piores circunstância, viverem em horas, anos das suas vidas, e trouxeram consigo as dores de alma, para as quais não há hospitais e medicamentos que as curem.
 
Lembro-me muitas vezes destes meus infortunados Camaradas de Armas e muito especialmente o faço neste período, no seu aniversário que ocorre neste dia.
Rogo a Deus que os tenha na paz dos justos.
 
A vida de um combatente, daqueles que carregavam a G-3 e todo o seu equipamento às costas e andavam pelo mato ou pelas picadas, distâncias sem fim, sujeitos aos tiros e minas e também às doenças, à fome, à sede e ao cansaço, foi uma epopeia gigantesca que merece o respeito e a gratidão de todos os Portuguesas, seja qual for o quadrante político em que se encontrem.
 
Infelizmente, parece não acontecer algumas vezes, o que sinceramente muito lamento e me contrista.
 
Há dias soube que numa assembleia municipal, um deputado que foi um militar da Força Aérea, ao que parece dos serviços administrativos ou de guarnição, num arrazoado mal construído, falou como combatente para justificar uma lamentável atitude política que repudiava a consagração de um dia na vida da comunidade (que julga representar) para homenagear os Filhos da Terra que caíram em combate, ou em razão dele, ao serviço de Portugal.
Este senhor deputado pode ter as posições que quiser, mas nunca deve invocar que está a fazê-lo em nome dos combatentes, porque não o foi.
É que, nesse tempo, os militares da FA que combatiam e bem, eram os Paraquedistas. os Pilotos e as guarnições dos helicópteros, dos T-6, dos Do-27 e dos Fiats (GU-91) que apoiavam as forças terrestres nas missões de apoio de combate, nos assaltos helitransportados, nas evacuações de feridos, no apoio de fogo às operações que se desenrolavam. (Na Marinha, envolvidos em combate, eram os Destacamentos de Fuzileiros Especiais e as guarnições das lanchas de desembarque).
O serviço dos outros militares da FA, do Exército ou da Marinha era importante ou mesmo muitíssimo importante, mas, por mais complexo que ele fosse, estava a "anos-luz" das dificuldades e perigos vividos pelos combatentes que de facto o eram.
 
A proposta que foi apresentada, teve como base um largo consenso da sociedade civil, por intermédio das suas instituições mais representativas.
Infelizmente não passou na dita assembleia por ter sido rejeitada pelos deputados eleitos por um partido que tinha a obrigação moral de a acolher com agrado e apoiá-la com veemência.
 
Como disse um político português que os mortos só se choram, quando os vivos não os merecerem, teremos de lamentar profundamente o acontecido numa Terra que tanto prezo, e afirmar como tristes são os sinais destes tempos. »
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https://www.facebook.com/homenagemaosmilitaresportugueses

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vivencias na guerra colonial - Operação ZETA versus Operação Nó Górdio, por Joaquim Coelho


OPERAÇÃO ZETA - de 6 a 11 de Junho de 1969


Realizada entre Nangade e Mocimboa do Rovuma, nos Pântanos de Malambuage
Tropas de Intervenção:
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP31 (Beira)
- 2ª companhia de Paraquedistas do BCP32 (Nacala)
- 2 pelotões e a secção de logística da 1ª CCP do BCP32 (Nacala)
- 10ª companhia de Comandos
- 2 companhias de Cavalaria (Mueda e Nangade) – 2375 e 2376
- Oficiais e sargentos do BCP32 em apoio ao Comando Operacional
- Pessoal e aviões da Força Aérea
- Viaturas e condutores do Exército

Outros meios em ação:
-- Sete aviões de transporte (4 Nordatlas e 3 Dakotas)
-- Dez aviões de combate (8 T6 ligeiros e 2 PV2 pesados)
-- Uma Dornier DO27, no comando operacional
-- Um “Heli-canhão” com metralhadora pesada
-- Diversos helicópteros de transporte e apoio
-- Mais de trinta condutores-auto


Narrativa:

Os guerrilheiros da Frelimo andavam numa azáfama medonha para introduzir as mais recentes remessas de material de guerra, fornecido pelos amigos chineses e checos, nas bases avançadas da Serra do Mapé e do Vale de Miteda.
Não imaginavam que havia alguém a preparar “ajuda” em tão importante missão; mas sabiam que a época das chuvas danificava as vias de comunicação terrestres, limitando os movimentos das tropas portugueses no planalto dos macondes!

Enquanto isso, em Nacala, o calor atrofiava a respiração e causava fastio frente aos pratos de “carne de porco à alentejana”, e os paraquedistas do batalhão da Beira já mastigavam as últimas grafadas de “bacalhau com grão-de-bico” na certeza de que a próxima ração quente seria uma incerteza.
Mesmo o pessoal recentemente regressado das zonas de guerra não mostrava relutância em avançar para novas missões; pois, ao verem chegar os oficiais do comando operacional, os comandantes das esquadras de aviões e de helicópteros para reunirem com o Estado-maior, os paraquedistas pressentiam que estava na forja alguma missão de grande envergadura.

Uma semana depois, começaram a chegar a Nacala os aviões Nordatlas, com equipamento nunca antes visto, movimentos que tiravam as dúvidas a quem não tivesse sintonizado os sinais prenunciados.
Mesmo os que, dias antes, haviam regressado da missão à Serra do Mapé, começaram a mentalizar-se para a operação que os chefes urdiam com elevada minúcia.
Sem querer fazer alarde, o cabo Fonseca aproveita o serviço de guarda ao aquartelamento e interpela o sargento Sampaio sobre os estranhos movimentos de material e aviões.
Mas o sargento rematou p’ro lado:
- Ora, que pergunta mais estrambólica.
Se a missão é secreta, como posso eu satisfazer a curiosidade do nosso cabo?
E, de rompante, entrou na casa da guarda.

O cabo ficou a matutar: “três aviões de transporte, nove aviões de combate, montes de pára-quedas… o general prepara algum golpe à leão”.

Os motores dos aviões começaram a roncar antes das seis da manhã, os Unimogues, num corre-corre, transportavam material de guerra, caixas de rações de combate e paraquedas para a placa de estacionamento dos aviões.
Quando o Calisto abriu os olhos já os ouvidos tilintavam com os turbo-hélice a zumbir; saltou para o duche de água hidrocarbonetada e espreguiçou o corpo ainda mal refeito da noitada no bar da estação de Nacala.
Homens e aviões, em movimento acelerado, preparam-se para uma grande operação no Norte de Cabo Delgado, lá para as margens do rio Rovuma, entre Mocimboa do Rovuma e o lago Nangade – talvez no Pântano de Malambuage…

A meio da manhã, o pessoal do pelotão da balizagem estava em Mueda a visionar as fotografias aéreas do local, onde iriam saltar e balizar a zona para lançamento de 186 homens preparados para uma complexa e perigosa missão – desmantelar as vias de infiltração da Frelimo.
As informações acreditadas em documentos recolhidos pelas nossas tropas nos acampamentos assaltados no Vale de Miteda e confirmadas por elementos da população local indiciavam movimentos de grande quantidade de guerrilheiros e material naquela zona, presumivelmente, destinado à região do planalto dos macondes até à Serra do Mapé, passando pelas cercanias de Muidumbe, Nangololo e Chai, a sul do rio Messalo.

Por ação concertada entre o comando do sector militar de Mueda, o comando das tropas para-quedistas e a Força Aérea, reuniram-se as condições para desencadear uma das mais bem organizadas operações militares.
Tratando-se duma zona de terrenos pantanosos, com muitos escarpados e arribas, arbustos rasteiros e linhas de água, logo os responsáveis pela logística perceberam a impossibilidade de assaltar os acampamentos da Frelimo, detetados por via aérea, sem que fossem postos em causa os princípios da surpresa e da eficácia.

Para ultrapassar essas dificuldades, foram preparadas duas companhias de para-quedistas, para tomarem a posição dominante do terreno por envolvimento aéreo, saltando de paraquedas.
Após terem saltado os precursores para a balizagem, apareceu o avião com o primeiro grupo de combate a sobrevoar a zona de intervenção… e os olhares dos mais nervosos procuravam diluir o imprevisto da chegada ao solo.
O sargento Arantes animou o pessoal, ironizando:
- Como podem ver pelas janelas do avião, há algumas nesgas de areia que permitem uma aterragem perfeita; devem evitar cair nos charcos ou no rio… pois, antes de enfrentarem os guerrilheiros, vejam se preservam as pernas dos apetites dos jacarés mais atrevidos!

Ao sinal dos "largadores", os homens do ar perfilaram-se na carlinga dos aviões, ajustaram os equipamentos e saíram apressados para o vácuo do espaço, que os separa das terras alagadiças nas margens do rio Rovuma. Enquanto apreciavam o serpentear das águas do rio e as nesgas de areia para onde apontavam a aterragem, os paraquedistas não esqueciam que podiam estar na mira de qualquer arma dum inimigo mais atento.
A chegada ao solo foi rápida, como mandam as regras em saltos operacionais, para logo se reunirem os grupos de combate com vista à defesa da zona e segurança dos companheiros que vão chegando ao solo – alguns com mais azar, caíram nos charcos cheios de bichos estranhos, mas ninguém se queixou dos jacarés!                         

Assim, mais de duzentos paraquedistas saltaram sobre o Pântano Malambuage, surpreenderam e tomaram de assalto os redutos da Frelimo; abateram várias dezenas de guerrilheiros durante os combates mais renhidos, apreenderam grandes quantidades de material de guerra e cercaram toda a zona dos acantonamentos do inimigo.
Durante três dias, os paraquedistas consolidaram as posições dominantes, bateram o terreno entre o rio Rovuma e a Base Limpopo, em Balade, a sul do pântano, pesquisaram e levantaram minas e armadilhas da Frelimo, fizeram as ligações aos grupos de combate do Exército que cercavam a zona em forma de tampão a Sul, a Leste e a Oeste do rio Rovuma.
Nesses dias de intensa labuta, uma companhia de Comandos tomou o acampamento logístico aos guerrilheiros, a Sul do pântano, duas companhias de Cavalaria bateram as brenhas junto do lago Lidede e vale do rio Nange e assaltaram um hospital dos guerrilheiros, recolhendo diverso material de guerra e documentos, capturaram elementos inimigos e da população de apoio.
Outra companhia do Exército bateu as terras a oeste do pântano e ajudou os paraquedistas a recolher o material de salto.
A progressão no terreno pantanoso obrigou a um esforço desmesurado, e só a grande determinação de vencer os obstáculos e uma abnegada vontade de chegar ao fim da missão conseguiu catalisar todos aqueles homens para uma vitória memorável das campanhas africanas.
 
 

Durante toda a operação Zeta, o apoio aéreo foi importante, tendo participado uma Dornier 27 no comando operacional, um helicóptero armado de metralhadoras pesadas, oito aviões T6 de ataque aos grupos inimigos que tentavam escapar ao cerco, dois aviões bombardeiros PV2, quatro aviões Nordatlas e três Dakotas no lançamento dos paraquedistas. A ação de bombardeamento aos grupos fugitivos ajudou a amolecer o ímpeto combativo dos guerrilheiros e cortou-lhes as linhas de fuga.

Pela minuciosa recolha de informações, cuidadosamente testadas, e o consequente secretismo no planeamento em muito curto prazo, a Operação ZETA é uma das mais importantes missões militares realizadas em Moçambique.
Os resultados atestam o sucesso das nossas tropas, cuja coordenação excedeu as melhores perspetivas, atendendo à impossibilidade de acesso a uma zona controlada pelo inimigo e às distâncias de qualquer ponto de apoio sem ser apeado.

O Comandante do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 32, sedeado em Nacala, teve a seu cargo a coordenação de todas as Tropas em ação, especialmente o apoio aéreo, os percursores da balizagem, os meios de recolha dos para quedas, a logística para as colunas auto, que recolheram o pessoal e o material apreendido.
Os paraquedistas empenhados nas ações, que culminaram nesta operação, pertenciam ao BCP32 e ao BCP31.
A sua elevada mobilidade permitiu infligir uma estrondosa derrota aos guerrilheiros, desarticulando as suas linhas de infiltração a partir das bases na Tanzânia, nomeadamente do comando logístico de Nachingwea e do pessoal operacional vindo do centro de treino em Mtwara, utilizando a estrada de Mahuta a Newala, a norte do rio Rovuma. Era impressionante a quantidade de picadas, trilhos e esconderijos dissimulados e espalhados numa área superior a vinte campos de futebol; na maior parte, em direção ao local de travessia do rio, para a estrada que liga ao interior da Tanzânia. 

A ação conjunta de cerca de 680 homens determinados, pouco mais de uma dúzia de aviões e quatro dezenas de viaturas chegou para desbaratar mais de duas centenas de guerrilheiros, destruindo os seus abrigos, desmantelando os acampamentos de apoio logístico, queimando os víveres e celeiros e escorraçando os galináceos e cabritos para o mato.
Mas, alguns “habilidosos”, conseguem “iludir” as vistas dos chefes (guardando dentro dos camuflados e nas mochilas) e, no sossego do último dia, apresentam umas dezenas de galinhas para o churrasco coletivo; é que, depois do revés sofrido pelo inimigo, nada mais havia a temer nesta paz do diabo.

Durante a contagem do material, em Mueda, enquanto se preparava para a fotografia que recordaria a inesquecível missão, o cabo Fonseca virou-se para o sargento Sampaio e rematou:

- O meu sargento tem que se empenhar mais nas informações… nas informações, para não ficar mal à beira do cabo!

Além da preciosa documentação sobre a orgânica da Frelimo, foram apreendidos mais de 15 toneladas de valioso material de guerra, bicicletas e meios de passagem através do rio Rovuma.”

1 - Pelas Tropas Paraquedistas:

- 1723 granadas de morteiro 82mm; 2 morteiros 82mm completos e peças de outros; 182 espingardas Simonov e 200.700 cartuchos; 1 metralhadora pesada e 6 metralhadoras ligeiras; 63 granadas de mão e 21 armadilhas de itinerários; diversos equipamentos.

2 - Pelas tropas do Exército, especialmente pelos Comandos:

- 97 espingardas semiautomáticas e 18.200 cartuchos; 8 espingardas automáticas PPSH; 1 morteiro 82mm e 93 granadas de morteiro; 5 metralhadoras pesadas; dezenas de minas e armadilhas; diversas granadas defensivas; fardamento e diverso material de campanha.

in “O DESPERTAR DOS COMBATENTES… fotos, narrativas e poemas dos dias da guerra em Moçambique”, de Joaquim Coelho

Alguns dados estatísticos da “História das Tropas Paraquedistas Portuguesas"


Operação Nó Górdio


Desencadeada em toda a zona do planalto dos Macondes

Considerada a maior operação de sempre, envolveu tropas do Exército, Marinha e Força Aérea, num total aproximado de 8.200 homens.
Decorreu de 1 de Julho a 6 de Agosto de 1970, tendo por base operacional Mueda.
Enquanto a artilharia e os aviões bombardeavam as zonas onde se movimentava a Frelimo, as tropas especiais tomavam posições no terreno para o assalto final às bases principais dos guerrilheiros - Bases Nampula, Gungunhana e Moçambique.
A logística e a abertura de itinerários teve a participação ativa das unidades de engenharia, da administração militar e de reconhecimento.

Esquema da "Operação Nó Gordio", in Jornal 24 Horas

O cerco às bases da Frelimo demorou mais do que o previsto, uma vez que os itinerários eram difíceis; foram realizadas emboscadas e batidas em toda a zona central do planalto, desde Miteda, Nangololo, Muidumbe, Sagal e Mueda.
Participaram no cerco forças de artilharia, cavalaria e caçadores, tendo as tropas paraquedistas, comandos e fuzileiros avançado no terreno para o assalto às bases da guerrilha.

Estas, quando não explodiam, eram usadas pelo IN...como minas anticarro!!

Apesar do grande envolvimento de meios, os resultados ficaram aquém do esperado, tendo a Frelimo aproveitado para se instalar nas proximidades de Tete, por onde desenvolveu ações contra as tropas portuguesas que protegiam a construção da barragem de Cabora Bassa.
Durante o período em que decorreram as ações militares, as baixas nas nossas tropas foram pesadas: cerca de 50 mortos e 200 feridos, além das perdas de material.

Comparando os resultados com a Operação Zeta, constata-se que um décimo de efetivos, em menos de um quinto de tempo e material envolvido, resultaram na captura de seis vezes mais material de guerra do inimigo.
 
Quanto a perdas humanas, a Operação Nó Górdio foi desastrosa.

 Os mentores da Operação Nó Górdio              

                                                                                              Por: Joaquim Coelho

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