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domingo, 4 de janeiro de 2015

Natal na guerra, por Jaime Froufe Andrade


Noite alta.

Na Cantina do Freitas, em Moçambique, jogava-se com vício e paixão.
No fim de cada partida havia sempre grande alarido.
 
Os vencedore...s, ávidos, conferiam os ganhos, metiam as moedas, as notas, nos bolsos do camuflado.
Os azarados lamentavam as perdas com pragas, blasfémias.
 
 
Para quem perdia, havia, de certeza, marosca nos lances.
Suspeita misturada com o cheiro a tabaco, liamba, cerveja, suor.
Por vezes, estalavam ferozes zaragatas.
 
Eu também fui depenado.
Levantei-me furioso da mesa de jogo.
Envenenado pela sensação de ter perdido com batota, rosnei insultos, soltei palavrões.
Mas já outro tomava o meu lugar na mesa da "lerpa".
 
Esse minúsculo reduto militar, onde antes funcionara a cantina do Freitas, ficava entre o Malawi e a Zâmbia, na província de Tete.
 
 
Ali, os serões da tropa eram iguais.
Sempre iguais.
Nessa noite, consoada de 1969, não houve trégua.
A estúrdia e os excessos até subiram de tom.
 
Agastado, a ruminar desforras, procurei consolo na minha viola.
Essa vítima dos meus maus blues acompanhava-me para todo o lado.
Dessa vez, nem a viola me valeu.
E saí.
 
 
A caminhar ao longo do arame farpado, sentia-me outro.
Levantei os olhos para o céu.
Um céu muito estrelado.
Pensei no Natal.
E tentei descobrir o tal astro mágico que guiou os reis magos até Belém.
Ébrio de estrelas, perdi-me naquela refulgente aletria cósmica, esqueci a batota, as minas, as emboscadas.
A picada.
E, no entanto, esse palco de tragédias estava ali, à vista.
 
 
Subitamente um vagido encheu de sentido a noite.
A poucos metros, numa palhota para lá da cerca de arame farpado, nascia um menino.
Um menino negro, entre palhas.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NATAL É TEMPO DE FAMÍLIA, por Martina Lopes


E a família combatente não é excepção.

No tempo de serem filhos, milhares de jovens foram retirados dos seus lares e afastados da família que conheciam, para durante 33 meses prestarem serviço em defesa da Nação.
 
Na sua grande maioria eram provenientes de famílias humildes que lutavam diariamente para sobreviver e matar a fome aos numerosos filhos.
 
Muitos voltaram do Ultramar transformados, mutilados e doentes, não tendo conseguido adaptar-se, nem aos entes queridos, nem tão pouco à sociedade.
 
Outros, que partiram casados e já com filhos ou à espera do seu nascimento, tiveram sérias dificuldades em criar laços de afeto aquando do regresso.
 
Tinham passado anos, os filhos cresceram, os hábitos eram diferentes, a comida não tinha o mesmo sabor, os únicos estrondos eram de festa e não haviam inimigos.
 
Contudo não era fácil baixar a guarda, esquecer a linguagem de violência e reaprender a expressar os sentimentos.
 
Já nada era igual, sobretudo eles próprios.

Muitos houveram ainda, que não mais voltaram a sentir o calor de quem tanto lhes queria.

Durante a guerra, envoltos num espirito forte de entreajuda, colocados frequentemente em situações de vida ou morte, eram entre si os escudos uns dos outros e assim foram criando uma nova família: a dos camaradas.
 
É esta que muitos combatentes mantêm até hoje, em quem conseguem realmente confiar e cuja forte ligação pretendem manter para sempre.

Por fim, há ainda, nas situações em que conseguiram resistir, a família nuclear. Aquela família que todos os dias está ao lado do combatente.
 
São as mulheres, os filhos e os netos que muitas vezes não entendem o seu comportamento e atitudes.

Que tentam descortinar os silêncios prolongados nos cantos dos sofás, a falta de vontade, a passividade dos dias, as respostas impulsivas e sem razão aparente.
 
O Olhar vago e distante.

É esta família que na consoada vai estar sentada à mesa, juntamente com a lembrança de todas as outras famílias aqui relatadas.

O meu voto muito sincero, tal como de toda a equipa do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior, é de que a noite de Natal que se aproxima seja uma noite de "cessar-fogo", em que todos os combatentes e suas famílias possam encontrar um verdadeiro e merecido momento de paz.

Martina Lopes
Psicóloga Clínica e da Saúde
Coordenadora do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior
campsbeirainterior@gmail.com