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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Tinham eles vinte anos, por Vitor Manuel Guerreiro

 
Tinham eles vinte anos
Tinham eles vinte anos
E os amores de tanta gente
Fosse ele um amor qualquer...
Havia sempre uma mulher
A chorar constantemente

Tinham eles vinte anos
Os rapazes da minha terra
Com sonhos no peito ardendo
Foram pela Pátria morrendo
Lutando naquela guerra
Tinham eles vinte anos
Os rapazes do meu País
São homens rindo e chorando
Que em silêncio suportando
Uma guerra que ninguém quis
Hoje com mais vezes vinte anos
São muito mais seus desenganos
Já ninguém sabe quem eles são
Não sabem quantos os estilhaços
Que lhes cortara a alma em pedaços
E lhes magoara o coração
São eles os heróis sem escola
Numa Pátria a apodrecer
Eles só querem gritar a revolta
Àqueles que nada querem saber
Leio estes versos em alta vós
Porque sou Português e o que fiz
Para jamais os jovens e nenhum de nós
Esqueçam os combatentes do meu país

Victor Manuel Guerreiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NATAL É TEMPO DE FAMÍLIA, por Martina Lopes


E a família combatente não é excepção.

No tempo de serem filhos, milhares de jovens foram retirados dos seus lares e afastados da família que conheciam, para durante 33 meses prestarem serviço em defesa da Nação.
 
Na sua grande maioria eram provenientes de famílias humildes que lutavam diariamente para sobreviver e matar a fome aos numerosos filhos.
 
Muitos voltaram do Ultramar transformados, mutilados e doentes, não tendo conseguido adaptar-se, nem aos entes queridos, nem tão pouco à sociedade.
 
Outros, que partiram casados e já com filhos ou à espera do seu nascimento, tiveram sérias dificuldades em criar laços de afeto aquando do regresso.
 
Tinham passado anos, os filhos cresceram, os hábitos eram diferentes, a comida não tinha o mesmo sabor, os únicos estrondos eram de festa e não haviam inimigos.
 
Contudo não era fácil baixar a guarda, esquecer a linguagem de violência e reaprender a expressar os sentimentos.
 
Já nada era igual, sobretudo eles próprios.

Muitos houveram ainda, que não mais voltaram a sentir o calor de quem tanto lhes queria.

Durante a guerra, envoltos num espirito forte de entreajuda, colocados frequentemente em situações de vida ou morte, eram entre si os escudos uns dos outros e assim foram criando uma nova família: a dos camaradas.
 
É esta que muitos combatentes mantêm até hoje, em quem conseguem realmente confiar e cuja forte ligação pretendem manter para sempre.

Por fim, há ainda, nas situações em que conseguiram resistir, a família nuclear. Aquela família que todos os dias está ao lado do combatente.
 
São as mulheres, os filhos e os netos que muitas vezes não entendem o seu comportamento e atitudes.

Que tentam descortinar os silêncios prolongados nos cantos dos sofás, a falta de vontade, a passividade dos dias, as respostas impulsivas e sem razão aparente.
 
O Olhar vago e distante.

É esta família que na consoada vai estar sentada à mesa, juntamente com a lembrança de todas as outras famílias aqui relatadas.

O meu voto muito sincero, tal como de toda a equipa do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior, é de que a noite de Natal que se aproxima seja uma noite de "cessar-fogo", em que todos os combatentes e suas famílias possam encontrar um verdadeiro e merecido momento de paz.

Martina Lopes
Psicóloga Clínica e da Saúde
Coordenadora do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior
campsbeirainterior@gmail.com