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sábado, 3 de novembro de 2018

Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

José Nobre para PICADAS DO CABO DELGADO
2018/11/03
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
O Avô Coutinho, não era meu avô, era o companheiro da minha bisavó, mas para toda a família era o avô Coutinho, mas isso eu só vim a saber muito mais tarde, depois de ter a certeza que ele era o meu avô. 

O meu avô Coutinho, o companheiro da minha avó Júlia, que também não era minha avó, mas sim minha bisavó. 

Estranho, pois é.
Foi ele que me ensinou a distinguir as árvores, os pássaros, as estrelas, o caminho de Santiago, a lua cheia o quarto minguante....e a Ursa Maior. Foi com ele que vim, muitas, mas muitas vezes à Vila Nova de Portimão, em cima do burro, quando ele ia ás compras. Parava no Largo do Mercado, à porta da taberna...para ele um copo de vinho, para mim um rebuçado.

Um dia, quando andávamos os dois na charneca a apanhar azeitonas, apareceu um cão, o cão do vizinho que morava no depósito de água, o cão que corria com as galinhas e que ladrava toda a noite. Peguei numa pedra.......e ele disse-me........ "Não Se Atiram Pedras Aos Cães".......
Nunca mais atirei.


Para todos aqueles que me questionaram, sobre o titulo de algumas "coisas" que escrevo no FB.......eis a resposta.

sábado, 29 de outubro de 2016

ENVIO DE MILITARES PARA ÁFRICA, por Manuel Magrinho


Manuel Angelina Gerou Magrinho
ENVIO DE MILITARES PARA ÁFRICA



Esta história que vou contar
Se passou com todos nós
Não foi fácil de deixar...
Pais irmãos e avós
Fomos para África enviados
Como se fosse mercadoria
Uns voltavam estropiados
Outros,nunca mais ninguem os via
Tudo para nós era estranho
Pouco ou nada nos diziam
Aprendiamos á nossa conta
Quando na guerra nos metiam
Foram tempos bem dificeis
Que nossa geração passou
Atingindo toda a familia
Que a todos muito marcou
Pais, que seus filhos levaram
Para muitas milhas daqui
Chegava um, partia o outro
Tornando-os muito infeliz
Comigo assim se passou
Depois do meu irmão chegar
O martirio continuou
Depois de eu abalar.


M. Magrinho

21/10/2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NATAL É TEMPO DE FAMÍLIA, por Martina Lopes


E a família combatente não é excepção.

No tempo de serem filhos, milhares de jovens foram retirados dos seus lares e afastados da família que conheciam, para durante 33 meses prestarem serviço em defesa da Nação.
 
Na sua grande maioria eram provenientes de famílias humildes que lutavam diariamente para sobreviver e matar a fome aos numerosos filhos.
 
Muitos voltaram do Ultramar transformados, mutilados e doentes, não tendo conseguido adaptar-se, nem aos entes queridos, nem tão pouco à sociedade.
 
Outros, que partiram casados e já com filhos ou à espera do seu nascimento, tiveram sérias dificuldades em criar laços de afeto aquando do regresso.
 
Tinham passado anos, os filhos cresceram, os hábitos eram diferentes, a comida não tinha o mesmo sabor, os únicos estrondos eram de festa e não haviam inimigos.
 
Contudo não era fácil baixar a guarda, esquecer a linguagem de violência e reaprender a expressar os sentimentos.
 
Já nada era igual, sobretudo eles próprios.

Muitos houveram ainda, que não mais voltaram a sentir o calor de quem tanto lhes queria.

Durante a guerra, envoltos num espirito forte de entreajuda, colocados frequentemente em situações de vida ou morte, eram entre si os escudos uns dos outros e assim foram criando uma nova família: a dos camaradas.
 
É esta que muitos combatentes mantêm até hoje, em quem conseguem realmente confiar e cuja forte ligação pretendem manter para sempre.

Por fim, há ainda, nas situações em que conseguiram resistir, a família nuclear. Aquela família que todos os dias está ao lado do combatente.
 
São as mulheres, os filhos e os netos que muitas vezes não entendem o seu comportamento e atitudes.

Que tentam descortinar os silêncios prolongados nos cantos dos sofás, a falta de vontade, a passividade dos dias, as respostas impulsivas e sem razão aparente.
 
O Olhar vago e distante.

É esta família que na consoada vai estar sentada à mesa, juntamente com a lembrança de todas as outras famílias aqui relatadas.

O meu voto muito sincero, tal como de toda a equipa do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior, é de que a noite de Natal que se aproxima seja uma noite de "cessar-fogo", em que todos os combatentes e suas famílias possam encontrar um verdadeiro e merecido momento de paz.

Martina Lopes
Psicóloga Clínica e da Saúde
Coordenadora do Centro de Apoio Médico, Psicológico e Social da Beira Interior
campsbeirainterior@gmail.com