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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

UMA ESTÓRIA DE GUERRA..., por Joaquim Antero Ferreira

No rescaldo dos acontecimentos do dia 5 de Janeiro de 1969, no Aquartelamento da Cruz Alta, na Serra do Mapé, para além dos 7 Camaradas que pereceram, nesse fatídico dia, foram evacuados mais uma dezena de outros, comigo incluído, gravemente feridos, para a pista do campo de aviação de Macomia.

No local, a confusão era total. 
A juntar ao barulho ensurdecedor provocado pelos helicópteros, que chegavam com a sua carga humana de mortos e feridos (par...a de imediato regressarem à Serra para evacuar mais Camaradas), sobreponham-se os gritos dos feridos em conflito com as ordens e contra-ordens dos diversos intervenientes no socorro, sendo de destacar as do Comandante do Batalhão (que gostava de "estar em todas") desde que previamente estivesse garantida toda a segurança!

Depois de ter sido feita a triagem, os mortos por lá permaneceram, para serem, posteriormente, sepultados no Cemitério da Missão.

Os feridos, depois de nos serem prestados os primeiros socorros, lá fomos, gradualmente evacuados para o "Hospital" de Mueda, onde ficámos até ao dia seguinte, juntamente com outros Camaradas que lá se encontravam.

No dia seguinte, alguns de nós, acabámos por ser evacuados para o HM 125, em Nampula, dado a gravidade dos ferimentos. 

Decorridos 28 dias, regressei à Serra.

Ainda hoje, decorridos que são 48 anos, após este fatídico acontecimento, ainda tenho bem presente, lá no sítio onde se guardam as memórias, todos os sentimentos de dor, raiva, desespero e impotência que este acontecimento me provocou.
Comentários
Luis Pinto Coelho Octávio Galvão de Figueiredo...cruzei-me com ele em inúmeras situações...desde a crise de Macau (por minha curiosidade de eventos históricos; as autoridades chinesas - no tempo de Mao, exigiram a sua demissão de comandante da polícia e saída do território, na época da revolução cultural por volta de 1966) a Chaves em Novembro de 1967, Oasse em 29 de Outubro de 1968 em representação do Comandante do sector B e depois de 25 de Abril de 1974, como elemento do Conselho da Revolução, distribuidor de armas a Edmundo Pedro, relacionado com o Grupo dos 9 (no PREC), e nos Açores, como representante da República na Região Autónoma....
Conversei com ele, na praia da Caparica, uma vez nos anos 80..de forma informal, sobre Moçambique.

Luis Pinto Coelho Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. 
Um potencial revolucionário impressionante. 
Os Guardas Vermelhos surgiram. 
O governo ficou debaixo de fogo. 
De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. 

Macau estava há alguns meses sem Governador. 
Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. 
Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. 
Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. 
A arrogância ao diálogo. 
O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. 

Não podia ter sido pior. 
Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. 
Pior, usaram de arrogância colonialista. 
As tensões exacerbaram-se. 
As posições extremaram-se.

No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. 
As escolas estavam mobilizadas. 
Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. 
Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. 
Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. 
Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. 
Lá estavam guardadas armas e munições. 
Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. 

Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. 
Não havia outra solução. 

O condutor da camioneta é a primeira vítima. 
O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. 
A confusão é enorme. 
Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. 
A multidão dispersa-se. 
Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. 
O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. 

No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. 
No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. 

Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. (in: http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-123-em-1966.html)
Um blogue sobre a história de Macau. 
A blog about Macau's history.
macauantigo.blogspot.com

Joaquim Santos Octávio Q. G. de Figueiredo, um homem que me deu sorte! 
Em 1967 no final do curso em Tavira, discursou a desejar felicidades e boa sorte a todos os instruendos. 
Em 1970 em Tomar, na recepção ao meu Batalhão, desejando a todos felicidades para a vida civil.

Americo Maceiras Caetano E eu a ouvir os rebentamentos em Macomia. Para chegarmos lá a cima para socorro duramos para nós um século...

Sofremos tanto como vós, pois estava lá uma secção de Sapadores.... Terrível dia!! 
O pelotão por culpa desse maldito Octávio Q. G. de Figueiredo voltámos a ter o mesmo pesadelo a 18 de Dezembro 1969 na Cantina Oliveira e pior ainda nos primeiros dias de Fevereiro quando do rebentamento de uma mina quando regressávamos de Tete a caminho de Ribaué.


Jose Monteiro Acontecimentos destes nunca se esquecem.

D'Abranches Leitão G. José Recordações trágicas. ... que só quem as viveu...e sofreu...pode escrever como o caro amigo Joaquim Antero Ferreira! Estive no mesmo "barco", Serra do Mapé ....mas com mais sorte! Abraço fraterno, caro amigo!

D'Abranches Leitão G. José Recordo a minha "estada"....no HM125...

A cadeira de rodas, tinha uma história engraçada, digna de ser relatada!
Era única e por conseguinte quando alguém precisava de ir tirar radiografias ou fazer outro exame e que necessitasse de ser transportado sentado, eu ficava na cama, no meu quarto, até que a dita cadeira me fosse devolvida!

Uma vez por semana íamos ver um filme ao cinema de Nampula!
Voluntários não faltavam para me acompanharem, segurando a cadeira, assegurando assim um bom lugar! 
O “coitadinho” devia ter pisado uma “mina” e merecia um bom lugar! 
Às vezes era difícil explicar porque era necessário a ajuda de 4 ou 5 “enfermos”!!!

Sempre que ouvia o Heli, sinal de que mais vítimas da “guerra” vinham para o hospital, lá estava o “apanhado do clima” na sua cadeira de rodas, junto à pista, para dar o apoio possível!

Viria a saber histórias de Mueda bem no coração de Cabo Delgado, outro inferno, onde havia uma hospital de campanha, que alguns companheiros que entretanto feridos me relataram como sendo muito rudimentar, sendo a sala de operações, digna de uma cena daqueles filmes em que as pessoas mais sensíveis não devem ver. 

Disseram-me que os mortos estavam espalhados pelo chão, nus, como também os vivos à espera de tratamento: as equipas de cirurgiões amputavam pernas, a torto e a direito, “cortando o mal pela raiz”.

Explicando melhor, contavam que muitas vezes só eram amputados pés, mas que mais tarde originavam “gangrenas”, já em Nampula ou mesmo no Hospital da Estrela em Lisboa, e lá teria o infeliz de se submeter a nova cirurgia e lá ficava sem a perna toda!

Um dia, entra pelo meu quarto dentro uma alta patente militar, indagando quem era o Furriel Milº Abranches Leitão! 
Com alguma timidez, lá levantei o braço, pensando que me iria anunciar “algum castigo” pelas tropelias e irreverências. 

Fui informado de que o Estado Maior do Exército tinha recebido um telegrama de Lisboa, para saber se o militar em questão ainda estava vivo! 
Vim a saber que a família “moveu montanhas” para sabe notícias minhas, pois desde a entrada no HM125, que tinha deixado de escrever. 
Uff!
A partir deste momento o Sargento enfermeiro, o tal do hematoma, começou a tratar-me com mais respeito! 
Porque seria.

D'Abranches Leitão G. José Acerca do hematoma do sarg enf°...recordo o que já escrevi. 

Um “sacana” de um Sarg. Enfermeiro, que normalmente acompanhava as ditas senhoras do MNF, considerou-me “apanhado do clima” e até perigoso, só porque um belo dia, num exercício rotineiro de alguns “peões” no corredor, com a minha, nossa (única) cadeira de rodas, o atropelei, pois não avisou que ia a passar!!! 

Julgo que o desgraçado ficou com um hematoma para toda a vida! 

Julgo também que as minhas barbas crescidas entretanto, o roíam de inveja, pois como militar de carreira tinha de andar bem “escamuteado”!

A dita fita métrica que vinha agarrada (brinde) a uma mini pasta de dentes, serviu para mais tarde medir a cama do Cunha, um Furriel Milº do Porto que estava a “lerpar”, mesmo na cama ao meu lado! 

Como o Alferes médico se tinha desenfiado, para o “Bagdad”, que era o Bar mais IN (selecto!) de Nampula, frequentado pelas altas patentes militares, deixou o pobre “vela” a tomar conta de nós. 
Este mesmo “vela” que tentava meter uma seringa nas veias do pobre Cunha, mas que apanhava tudo menos veias. 
Os braços do Cunha pareciam um crivo! 
Depois de obrigar o dito enfermeiro improvisado ir chamar o Alferes médico, começei a acalmar o Cunha, medindo-lhe a cama e perguntando-lhe:
- Queres o caixão em pau-rosa ou em pau-preto!!!??

Com esta “terapia” consegui que o pobre “moribundo” abrisse os olhos e me olhasse com um sorriso, o qual nunca cheguei a perceber!!!?? 

Mas pouco depois chegou o Alferes Médico e o Cunha continuou a jogar a lerpa connosco até ter alta. 
Tinha-se salvo!

Joaquim Antero Ferreira Ainda bem para o Cunha! 😀

D'Abranches Leitão G. José A camaradagem era uma constante! 
A brincadeira da medição da cama, foi bem aceite pelo Cunha. 
Aliás só estes momentos, nos animavam!!!

Joaquim Antero Ferreira Há quem lhe chame "Terapia de Choque"...e, pelos vistos, até resultou!...

sábado, 28 de janeiro de 2017

Setembro de 1971 a picada Macomia-Mataca, por José Leitão

D'Abranches Leitão G. José 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais um "Diario".... Setembro de 1971
A picada Macomia-Mataca


O pelotāo da 2750 que vem da Mataca ao nosso encontro fez alto. 
Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com "as picas de bambu", para que nenhuma mina escape. 

O Alferes que comandava esse pelotāo informa que tudo está bem....


Levamos alguns civis connosco. 
A probabilidade de sermos atacados, diminui assim.

Fazemos uma pausa. 

O Uvaldo, um transmontano baixote mas de rija tempera, oferece-me o seu cantil, sabendo que eu ja devo ter o meu sem gota de água. 
Agradeço e digo-lhe que pode tirar uma Laurentina, da minha mochila. Ainda estao relativamente frescas. 

Os soldados de ambas as colunas abraçam- se. 
O Vidinha, sempre a meu lado, grande companheiro, pergunta a outro soldado da Mataca, por um seu conterrâneo que está na 2750. 
Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. 

De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que cem botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência, avançamos em direçāo à Mataca, para entregar os 2 Hunimogs carregados com mantimentos. 

A descida da Serra...torna-se um pesadelo, pois a picada está muito escorregadia. 
Era tempo de chuva e o matope...torna-se "manteiga"!!! 
Vou ao lado do condutor de um dos Hunimogs, o Crespo, natural de Barcelos, com 1,90 de altura, que me vai dizendo que os travões não estão lá muitos bons, devido ao aquecimento. 
O declive assusta os mais corajosos. 

 Uff a zona mais crítica foi ultrapassada. 

Avistamos o aquartelamento ao longe. 
Mas nada de baldas ok? Grito eu para a minha Seção.

Chegámos! 

O Bar fica do lado direito da "porta de armas". 
O ritual habitual! 
As primeiras latas de cerveja, despejadas pela cabeça abaixo. 
Depois uma rodada, paga por mim, para todo o pelotāo. 
Era assim que fazia depois de mais uma "coluna"!!!!



José Leitao 
CCAVª 2752

Comentários
Armando Guterres Fizemos algumas colunas, a meio da comissão, com troca de carga no Alto do Delepa. A surpresa da coluna era eliminada, sempre que se ouvia diversos carros em afinações. Fev 72 a Março 74.

Aracire Oliveira Quando corria bem à chegada era uma alegria, só que na picada de Omar só me lembro uma vês tudo ter corrido sem mortos ou feridos...

D'Abranches Leitão G. José Alto do Delepa...malta do 1° Grupo de Combate -CCAV 2751

D'Abranches Leitão G. José Identifico os Furrieis Mil° Rosales e o Alegria (já falecido)...e o Cabo Salavessa (?)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Morte Continua Adiada..., por José Leitão



 
Mais uma....
(...)
Anoitece...
...
Procuramos um local seguro para pernoitar...
A humidade é tanta que custa a respirar
O 4° grupo de combate....organiza-se por secções....e são colocados sentinelas .... no morro...com vista para a picada.... O silêncio é a "palavra de ordem"....não se ouve nem um sussurro, apenas o ruído da selva...o cheiro acre, inconfundível da terra húmida de África.... e o hálito característico da floresta....
 
Estes ruídos assustam! diz- me o Vidinha, soldado que é a "minha sombra", para todo o lado!
 
De repente os corpos agitam-se....começamos a ser atacados por formigas "gigantes" que nos sobem pelas pernas...e ferram as partes baixas....
(Não foi bem o que escrevi na altura!?)
 
A disciplina imposta, para que as latas da ração de combate, depois de abertas, sejam enterradas, não é cumprida e as formigas aparecem para jantar.
 
Tento acalmar os soldados....pedindo silencio.
Missão impossível....as ferroadas são dolorosas.
 
O cabo enfermeiro Alves....esgota o álcool...
 
De repente o rádio telegrafista C. Mendes....rasteja até se colocar a meu lado e sussurra-me que está a ver uns vultos...um, dois, três.....quatro.....que distam uns dos outros em intervalos de 10 metros.

São contados 8 guerrilheiros....bem armados....vislumbramos as famigeradas Kalash...e transportam à cabeça uns volumes que nos parecem minas anti-carro, ou talvez mantimentos.

Mas vêm em silencio e vozes, não se ouve nem um sussurro, apenas os passos dos guerrilheiros.
A noite está escura com breu....com um luar envergonhado que tenta romper o cacimbo.
A distancia é considerável....e poderão vir mais atrás outros guerrilheiros.

Reunimos, os Furriéis do meu Grupo e decidimos que ninguém se deve mover...pois tentar apanha-los à mão...seria um suicídio....pois não conhecemos o terreno...
 
Via rádio....já com nenhum à vista, informamos Macomia....do sucedido.
Aguardamos instruções que tardam pois o rádio deu o "berro" ou fica sem sinal....
Estamos muito perto da Ponte do Rio Messalo.
 
Ninguém consegue dormir....amanhece....de repente....vem um pelotão ao nosso encontro...a picada já está vistoriada...sentimos algum alívio....e finalmente o Chai à vista.

O Carias olha para mim sorridente...e com o polegar direito....em sinal de OK...exclama:
- Desta já nos safámos, meu Furriel.
A morte continua a ser adiada!!!

Somos recebidos. ...com sorrisos largos e uns abraços.
Festejamos com umas Laurentinas bem fresquinhas....
 
Escrito num aerograma que servia de post-it....e servia de "diário"
José Leitão
CCAVª 2752
1971
 

domingo, 30 de março de 2014

Para que não se perca a memoria, por Luís Leote


Luís Leote

In TerraWeb‎
 

"Para que não se perca a memória."

Deixo, pois, aqui relatados, não 26 meses de permanência em terras do Norte de Moçambique, mas, principalmente, cerca de 9 meses, "vividos" na Serra do Mapé, algures no distrito de Cabo Delgado (lá para os lados das "Terras Sagradas" da etnia Maconde), designadas, à data, pelos "entendidos" nas lides da guerra, por "Terra de Ninguém".
 
 

  ... Eram cento e poucos "bons rapazes", quase todos eles oriundos das belas terras transmontanas, trabalhadores braçais, na sua maioria, ignorantes em política, como quase todos nós, "Doutores" em amizade, "Irmãos" em camaradagem, resumindo, como era uso dizer-se, "carne para canhão". Pioneiros que foram na "conquista" da Serra "acomodaram-se", em vésperas de um Natal, em 4 buracos escavados no chão, com as próprias mãos e os parcos meios de que dispunham.

Em cada um desses buracos, amontoaram-se uma trintena de homens, armas, munições e pouco mais, para além das inseparáveis e "amistosas" rações de combate e algumas grades de cerveja.

Rodeados de algum arame farpado e de umas "trincheiras", feitas à pressa, com a selva a 50 metros, estavam "prontos e determinados" a defender aquele "pedaço de Portugal" (pouco maior que um campo de futebol) ironicamente chamado "Pousada da Serra do Mapé".
 
Cruzamento para Cruz Alta (Serra Mapé)

Bastaram cerca de 2 semanas, após a "tomada do objetivo", para que, num já esperado raiar do sol, toda a serra "acordasse", estrondosamente, ao som das morteiradas, das "bazucadas", das canhonadas e do sibilar das incontáveis "7.62" disparadas pelas sobejamente conhecidas armas de assalto, as "KALASH", entre outras.

AK 47 - Kalashnikov
 
Bastou a "eternidade" de duas horas, para que 7 dos "bons rapazes", os tais que bebiam cerveja e comiam as rações de combate (por nada mais haver, a não ser o capim), deixassem de o fazer para sempre, enquanto outros, mais de uma dezena e meia, algumas horas depois, conseguissem ser evacuados para o "hospital" de Mueda, com graves ferimentos e mutilações para o resto da vida.



   Testemunho de um Furriel Mil° 1968-1970

Nota: A Companhia que fomos render na Serra do Mapé.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NOITE DE SENTINELA..., por José Godinho D'Abranches Leitão

In “Pedaços de memória…de rajada”

José Godinho D´Abranches Leitão

http://blog.comunidades.net/jdabranches/
Ex- Furriel Miliciano C. CAVª 2752
Moçambique 1970-1972
                    


Eram assim as primeiras noites de sentinela, do 4º Grupo de Combate naquele inferno chamado Serra do Mapé.
Ali fomos parar cerca de 120 jovens acabados de sair da adolescência, brutalmente lançados na fogueira da guerra colonial.
Os postos de vigia, eram feitos com um pequeno telheiro de chapa zincada e com barris cheios de areia, dispostos em meia lua, num morro logo à saída do abrigo subterrâneo.

O cenário era surrealista!
Alguns corações gravados nas aduelas dos barris, com as setas do Cupido das muitas namoradas, noivas ou mesmo mulheres de muitos que já por ali  passaram.

- Cabrões !
Com um piparote bem medido, Uvaldo espalmou o mosquito contra o pescoço. 
Já não me lixas mais.

Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos dolorosamente inchados de tanta ferroada.
Prestes a desatar aos berros.
Ao redor do aquartelamento, à volta dos 4 postes de iluminação que mal iluminavam, os mosquitos saíam da noite em nuvens cerradas.
"Maldita terra, malditos mosquitos.
Não bastava este calor de morrer."
Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruídos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se ao redor das lâmpadas...
Era um zumbido esquisito e suspeito.
Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas, mesmo no abrigo junto, serenou-o.
- Se estivesse sozinho morria de cagaço, pensou o Uvaldo!...

Olhou o relógio de pulso.
Os ponteiros fosforescentes indicavam as três horas da madrugada.
Dentro de três quartos de hora despertaria o Zé da Povoa para o render.
Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.
Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a disciplina imposta pelo Furriel que comandava a Secção, sobrepôs-se ao desejo.
Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada ou levar um tiro, pois o IN podia detetar a incandescência do apetecido cigarro na penumbra da noite.
"- Sentinela, éh sentinela !"
Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.
- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?
Pela voz, reconheceu o furriel Leitão.
- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.
- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.
Uvaldo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite.
Enervado, tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.
- Acorda, Zé, está na hora.
O camarada soergueu-se da cama improvisada, estremunhado.
- Já ? Não me estás a tramar ?
- Vá, levanta-te. Não acordes o Vidinha.
- Logo agora que estava a sonhar com a minha mulher, que deixei lá no bairro das Caxinas.
Tens um cigarro ?
- Olha o Furriel.
- O Furriel foi dar a volta aos outros postos.
Só daqui a 20 minutos é que volta a passar.
Dá cá o cigarro que eu uso o quico e faço um buraco no chão para botar o fumo fora!
O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.
Podia ver-se a 500 metros bem lá no fundo da pista.
- Não te deitas ?
- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.

- Saudades? Deixa lá que 4ª feira é dia de São Correio e já estávamos a 3 dias.

Falavam em surdina, para não acordar o Vidinha.
Os mosquitos parece que foram pra outras bandas.
Entretanto, sai do abrigo o Raposo, que não tinha sono nenhum.
- Sabias que as peras que trouxe da minha terra, ainda estão rijas como cornos? - disse o Uvaldo.
-Ainda duram? Perguntou o Zé da Póvoa, dizendo que julgava que tinham acabado ainda em pleno alto mar.
- E tu sabias que deixei um filho na barriga da minha mulher?
- Puta de merda esta guerra!
- Dizes bem, esta merda.
Subitamente, um estampido acordou a noite.
- Ouviste ?
- Foi no posto junto à porta de armas.
Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.

Silenciosamente aproxima-se o Furriel que anda a fazer ronda.
Eram 4 da matina.
Passa palavra e vai avisar o Comandante.

Pela vala comum, tropeçando em dezenas de ratos, o Gouveia que entretanto tinha também saltado do abrigo.
- Será um ataque?
Disparou um “verilaite” para o ar e nada!!!
Ficamos de dedos crispados nas G-3.
O Congolo, negro como um tição aparece e prega-nos um susto do caraças.
- Terá morrido alguém ?
- E nós aqui sem saber de nada.
- Que porra de situação.
- Calma - aconselhou Furriel. - Não me parece coisa grave.
- Sentinela! Sentinela? – alguém murmurava próximo.
- Quem está aí ? - perguntaram em coro.

- É o furriel Crispim. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão morrer.
Foi o Palhaço que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou às rajadas como um maricas.
Algum bicho que tocou nas latas penduradas no arame farpado.
- Que cagaço, meu furriel ! Disse o Uvaldo.
- Já pensávamos que os turras tinham atacado.
-O Palhaço insiste que viu 2 turras já dentro da 2ª linha de arame farpado!!!?
- Também não tinham sorte nenhuma, pois o Furriel Godinho tinha a zona toda armadilhada com minas, e dificilmente chegariam inteiros ao arame farpado da 1ª linha.
- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos e olhos bem abertos!
Olhos bem abertos. ok? Gritou o Capitão.
- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Zé da Póvoa. - Ia-me borrando todo, meu Capitão.
- O furriel disse que eram as latas mas podiam muito bem ter sido os turras.
- Nunca se sabe.
- Afinal, quem é que está de sentinela? Eu ou vocês ? – questionou o Furriel.
 
Depois de passar palavra e feita uma incursão pela pista, tudo voltou à normalidade.
O Capitão reúne os Comandantes dos Grupos de Combate para fazerem um ponto da situação.

Já ninguém mais dormiu nessa noite.
Amanhece.
O cheiro da terra fendida e os boqueirões rasgados na picada, cheios de sede são característicos da Africa, bem diferente do nosso.
Pouca água e uma vegetação serrada, aliados ao imenso calor, contribuem para este cheiro da terra.
O 3º Grupo de Combate do Alf Lourenço Marques vai à água.
 
O furriel Marques do Obus, prepara-se para iniciar a saudação matinal de 2 ou 3 “morteiradas” do Obus 14.
A Frelimo temia esta arma e não se atrevia a grandes aventuras nas proximidades do aquartelamento.

Mais tarde viemos a saber que não era bem assim.