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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Estamos Perdidos, por José Monteiro

Mais uma pequena história vivida em Cabo Delgado.
Estamos Perdidos
Numa das inúmeras patrulhas que realizámos em Mueda, fui com o meu grupo de combate pela picada para Miteda/ Nangololo, que ficava por trás da base aérea.
 
Como já estava previamente estabelecido, perto dos postos de abastecimento de água o grupo foi dividido.
Uma secção para o lado direito, em direção á mata, outra ficou na picada e a terceira, a minha, foi pelo lado esquerdo.
Tínhamos por missão não percorrer mais que 1 quilómetro, perpendicular á picada.

O capim era bastante alto e ainda não tinha começado a época das queimadas, referências de árvores não havia, pois a mata começava bastante longe.
Lá fomos, em bicha de pirilau, sempre perpendicular á picada.
Como o capim ainda não estava seco, não deixava marca á passagem da nossa tropa, portanto menos uma referencia.
Quando decidi regressar, pois tinha a certeza que a distância estava percorrida, comecei a aperceber-me que não tinha referências para chegar à picada.
 
Não parei e continuei sempre na pressuposta direção da picada.
Sol, também não havia e os rádios intersecções não funcionaram.
 
Comecei a pensar, só para mim, que provavelmente nos tínhamos afastado muito na direção errada, quando atrás de mim alguém grita "ESTAMOS PERDIDOS", virei-me imediatamente na direção do som e disse-lhe para ir para a frente da coluna e caminhar que a picada estava perto.
A situação acalmou, passado pouco tempo apareceu um trilho e então aí passei a ter 50 por cento de hipóteses.
Dei a ordem "virar à esquerda" e finalmente pouco tempo depois aí estava a desejada picada com os postos de água todos esburacados.
 
Estaria perdido???
Momentaneamente sim, só que não podia dar a entender isso no seio do grupo.
Tudo acalmou, tudo passou com o regresso, de novo, ao quartel.
 
Linda-a-Velha, Agosto de 2011
 
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Chegou outra vez Maio, por Luis Oeiras Fernandes

Luis Pinto Coelho
Chegou outra vez
Maio, o mês !
No princípio
era Maio,...
as giestas,
o fogo da primavera,
as vidas modestas.

Depois
fizeram despedidas,
longos adeus,
braços abertos,
rumando dos seus.
E passou.
Passou gente,
passou espaço,
passou tempo
e veio cansaço.
A guerra,
o sol,
a chuva,
a terra,
o vento
se aproximou
em passo lento
e tudo passou.
Chegou outra vez
Maio, o mês !
Nesse então
era Maio,
o capim,
o sol do mato,
a seiva carmim.
Depois
fizeram desejos,
rolos de fumo,
braços pendentes
rumando sem rumo.
E chegou.
Chegou o dia,
chegou a sorte,
chegou o tempo
e veio a morte.
A vida,
a carne,
a luta,
o sangue
de nós
se afastou
em passo veloz
e tudo acabou.
Passou outra vez
Maio, o mês !

Poema de Luis Oeiras Fernandes