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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mina anticarro, por António Conde

 
 
Quanto á Mina anticarro, recordo-me de ter detetado uma muito próximo do Trilho do Chindorilho.
Um colega, (o Seop), limpou-lhe a terra de cima, deitou-lhe a mão á asa para a puxar.
Eu apercebi-me de qualquer coisa do lado, entre a Mina e a terra e mandei para que parasse imediatamente.
 
 
 
Arranjamos uma pequena gancha, porque também já tínhamos ouvido falar nisso, prendemos uma corda á asa da mina, depois a corda em cima da gancha, próximo do buraco, puxámos e a gancha faz com que a Mina saia do buraco.
 
Mas o que aconteceu, foi que a Mina saltou do buraco e daí a três ou quatro segundos explodiu no buraco uma granada de mão.
 
 
 
Portanto os Turras faziam uma pequena cavidade entre a Mina e a terra, colocavam nessa cavidade uma granada de mão, com a cavilha voltada para o lado da Mina, onde ficava ali entalada entre a Mina e a terra.
 
Tiravam a cavilha, cobriam com terra, sempre com muito cuidado desfaçavam o local o melhor possível e ali estava a ratoeira pronta.
 
Se não fosse detetada e calcada com uma viatura, explodia a Mina e a granada.
 
Se fosse detetada, colocava-se um petardo de 250g. em cima da Mina e lá explodia tudo.
 
Alguns curiosos, gostavam de as levantar, se não estivessem armadilhadas, tudo bem; mas se não se apercebiam da armadilha, ao mexer com a Mina para a levantar, dali a alguns segundos rebentava a granada de mão e então explodia tudo junto e desaparecia com quem estava á volta.
 
Foi assim que aconteceu a um militar, quando em fevereiro de /72, a minha Companhia seguia pela primeira vez de Mueda para o Sagal, onde acampámos.
 
Os poucos e pequenos bocados que se encontraram, couberam numa caixinha de ração de combate.!
 
 


quinta-feira, 17 de março de 2016

A EMBOSCADA, por Joaquim Santos

Joaquim Santos
DIA 23 DE FEVEREIRO DE 1969 (há 47 anos)
.
Passaram muitos anos, mas a recordação daquele dia 23 de Fevereiro de 1969, esteve sempre presente, embora algo difusa em alguns pormenores, que o tempo levou consigo como recordação.
 
Este foi um tempo estacionário, sem horizontes, vivido dia após dia, pela incerteza e a ansiedade resultante da imprevisibilidade das diversas situações em ações de guerrilha no interior da África.
 
Num aquartelamento improvisado, onde tudo era rudimentar, onde quase tudo faltava e onde tudo teria de ser feito, melhorando sucessivamente as instalações, tendo em vista a segurança daquele reduto, para uma estadia que poderia ser prolongada e onde para além de tudo, teria de se manter uma atividade operacional regular.
 
Recordo-me da primeira vez que vi aquele local.
Olhei as viaturas carregadas de militares, “novinhos em folha” acabados de chegar da Metrópole, deslumbrados por se sentirem envolvidos pela natureza africana.
Os nossos rostos deixavam transparecer um misto de medo e receio do desconhecido.
Concentrados na observação do meio envolvente, alimentando o nosso imaginário, onde tudo seria possível, desde os ataques do inimigo até às investidas das feras camufladas no meio da vegetação, ao longo da picada que nos conduziria aquele local, o Vuende.
A coluna militar aproximava-se lentamente e foi então que vislumbrei, no meio da confusão das viaturas e do pó que nos envolvia, aquela clareira rodeada de vegetação com três construções rudimentares em tijolo de cimento, chapas de zinco e duas outras de construção artesanal, dentro de um perímetro demarcado por uma vedação, com três arames farpados de fácil acesso a qualquer intruso…
Naquele momento tive uma sensação de apatia total, apeteceu-me retroceder, mas nesse desalento, algo renasceu em mim que me impeliu a enfrentar e ultrapassar esta “prova de fogo” como um desafio às minhas capacidades físicas e intelectuais.
 
Desde o momento da mobilização, sempre julguei estar preparado psicológica e operacionalmente para as mais diversas situações, não só pela formação e preparação recebida, como também pelo empenhamento que assumi ser fundamental para enfrentar as dificuldades num meio hostil e desconhecido.
Muito antes de ser chamado a cumprir o serviço militar, tive consciência que iria viver esta guerra por dentro e não através dos jornais e das diversas publicações dos correspondentes das Agências Internacionais nos diversos teatros de guerra, na época - Vietnam (Dien Bien Phu) com os Franceses primeiro e depois com os U.S.A., a Argélia e no ex-Congo Belga.
 
Foi assim, com esta “bagagem” que entrei na recruta na E.P. de Cavalaria em Santarém, tendo escolhido a especialidade de atirador e no C.I.S.M. em Tavira, a opção da mobilização para Moçambique.
 
Com o decorrer do tempo, aquele local - Vuende - passou a ser o centro do mundo, o lugar e a casa de todos aqueles que durante 21 meses, aguentaram a incerteza do dia seguinte, a impossibilidade de pensar o futuro...
Transformaram as tristezas em alegrias no meio da amizade e camaradagem.
Ali se festejavam Aniversários e Natais de todas as Famílias.
 
Quando se saía durante alguns dias, para as mais diversas atividades operacionais, era sempre bom regressar aquele local.
 
Nesse domingo de Fevereiro, também acabamos por regressar de acordo com o previsto.
Depois de três dias de patrulhamento no “mato”, na zona do Cauére, onde a atividade inimiga se fazia sentir em algumas ações ofensivas naquela região, através de flagelações, emboscadas e com alguma frequência na colocação de minas anti-carro, cujo efeito desmoralizador e devastador provocava feridos e mortos nas nossos fileiras.
 
Nos dois dias anteriores, a progressão pelo mato ao longo dos trilhos, decorreu normalmente, apesar do cansaço que se fazia sentir, não só pelas distâncias já percorridas através de serras e vales, com armas e equipamento, como também pelo clima quente e muito húmido, com um aroma acre e doce que exalava da vegetação.
 
Vigilantes, caminhavam carregando cada um dentro si, alimentando o seu pensamento, com ausências, sempre presentes, de pais e irmãos, mulheres e filhos, amigos e namoradas.
Outros trocavam as suas histórias, outros haviam que falavam de futebol e também do tempo que teimava em não passar.
 
Detivemos duas mulheres e uma criança, no segundo dia, que se deslocavam em sentido oposto e conforme se veio a verificar, tinham ido levar alimentação ao inimigo, estacionado algures numa base itinerante.
 
Após uma ligeira revista superficial pelos seus haveres, encontramos duas pequenas folhas escritas.
Eram portadoras de uma mensagem dirigida a outros elementos do inimigo que operavam na mesma zona de intervenção.
Nesse mesmo dia, tivemos um encontro fugaz com dois indivíduos, que ao avistarem-nos se puseram em fuga, no meio duma extensão de capim muito alto, o que indiciava pertencerem ao inimigo.
De imediato, se fez uma perseguição na tentativa de capturá-los, mas o terreno e a vegetação dificultaram a nossa ação, tendo sido feitos alguns disparos infrutíferos.
 
Toda a zona onde atuávamos, tinha sido alvo ao longo de vários meses, de diversas operações que incluíam forças terrestres, aéreas e hélio transportadas.
Talvez por isso, as forças inimigas estivessem, no momento, mais reativas?
 
No final da tarde, início da noite, escolhemos um local para pernoitar, comer a nossa ração de combate e montar a segurança que iria ficar vigilante durante a noite.
 
Recordo ainda aquelas noites de isolamento total, com uma orquestra de ruídos e sonorizações de intensidades diferentes, que nos obrigavam a dormir com um olho aberto e arma encostada ao corpo.
 
Não era fácil adormecer… e muitas vezes ficava a usufruir da escuridão da noite, com os olhos fechados durante algum tempo e ao abri-los ficar com uma sensação de vertigem, daquele céu cravado de estrelas, que se tornava ainda mais luminoso e parecia desabar sobre todos nós!
 
Na manhã do terceiro dia, levantámo-nos antes de romper o Sol.
Ingerimos alguns alimentos e entretanto, foram feitas algumas recomendações aos Soldados para que fossem atentos e se possível em silêncio, mantendo as distâncias; tendo sido alertados para um possível contacto com elementos da guerrilha, dadas as situações anteriormente verificadas.
 
Iniciámos o regresso em sentido contrário, para um local, algures na picada, aonde as nossas viaturas esperavam e nos trariam de regresso ao aquartelamento.
Sentia-se ao caminhar a humidade das ervas e do capim que persistentemente roçavam pelas nossas pernas, encharcando calças e botas, e que rapidamente secavam aos primeiros raios de Sol que começavam a despontar entre a vegetação.
 
O andamento cadenciado, o peso da arma macerando os ombros, o cansaço, a transpiração a despontar nos nossos corpos à medida que avançava o tempo a caminho da emboscada, desde sempre prevista mas nunca desejada… .
Ao fim de duas horas - 08h:50 - quando já próximos duma elevação relativamente baixa, aproximadamente com três metros e meio de altura no ponto mais elevado - pelo meio da qual seguia o trilho - com três metros de largura, que naquele ponto rasgava transversalmente a própria elevação. Obviamente, aquele corte de terreno terá sido feito para passagem de viaturas há muitos anos!... . Depois dos primeiros Soldados terem já atravessado, irrompeu um intenso tiroteio de armas automáticas, metralhadoras e rapidamente todos se deitaram pelo chão, ripostando de imediato e tentando abrigar-se onde fosse possível… só que o terreno não o permitia.
Mais de um terço do grupo ficou entalado entre “muros”.
Os restantes ficaram nos extremos, com mais possibilidades de fazerem o envolvimento e com melhor posição de fogo.
Durante alguns minutos, todos os nossos sentidos foram solicitados para que fosse possível aliar o raciocínio ao instinto de sobrevivência, debaixo de fogo.
Ouvia-se, juntamente com o estampido dos disparos, alguém que estava ferido e se queixava de dores, outros que tentavam dar algumas indicações e ainda uma série de variados problemas, com que cada um se teve de defrontar no limite das suas capacidades.
 
Ao fim de três ou talvez quatro longos minutos, tudo terminou após um disparo de bazuca que conseguimos efetuar e que levou o inimigo a retirar…
De imediato se fez avaliação da situação relativamente aos três feridos e às munições disponíveis.
 
Depois de montada a segurança no local, foram efetuados os primeiros socorros, apresentando um Soldado um ferimento de alguma gravidade.
Nesta situação, tentou-se a comunicação via rádio para evacuação, mas como acontecia com alguma frequência e tínhamos a perceção disso mesmo, por experiências anteriores, estávamos isolados!..
 
Ou por incapacidade do equipamento ou simplesmente por ninguém escutar, devido ao facto de não estar dentro da hora da exploração rádio!
 
Reiniciámos o regresso até ao local de encontro com as nossas viaturas, mais cedo que o previsto, com dois feridos amparados e outro em estado mais grave, em maca improvisada.
A deslocação, ao longo destes últimos quilómetros, foi feita sob uma tensão psicológica que se refletia nos rostos apreensivos, na precaução e no silêncio…
Não havia um sorriso, uma palavra, apenas o som das passadas e das botas esmagando as folhas, ao longo do caminho. .
 
Dado o estado dos feridos e sem possibilidades de comunicação, os três Furriéis que comandavam o pelotão, resolveram de comum acordo, que um deles teria de ir com um Soldado ao aquartelamento, distante alguns quilómetros e trazer as viaturas para recolher os feridos e os restantes elementos do grupo.
 
Após a evacuação para o Hospital Militar de Tete (norte de Moçambique), assim como a apresentação do relatório ao Capitão Comandante da Companhia, descrevendo os factos ocorridos durante esses três dias o Brigadeiro Comandante do Sector de Téte, mandou que o Furriel que comandava o pelotão, se apresentasse no Comando de Operações do nosso Batalhão, (Bat.Caç.2842).
 
O Brigadeiro também aí se deslocou e questionou-o sobre a ação, propriamente dita, na presença do Comandante de Batalhão e do Comandante de Operações, frente á grande carta militar que cobria toda a parede - o Furriel explicou todas as situações ocorridas, indicando na carta a posição das ocorrências, ao mesmo tempo que respondia ás questões colocadas pelos seus superiores.
Após as explicações, ficou surpreendido e perplexo?!
Ocorreram diversos casos semelhantes ao longo de dois anos e nunca teve conhecimento de qualquer reunião com o Comando...
Então o porquê desta reunião excecional?
Terá sido por o Alferes, Comandante do pelotão, não estar presente na ação?
Ou teria pensado o nosso Brigadeiro, depois das grandes operações efetuadas conjuntamente com as forças Rodesianas, que disponibilizavam os seus meios aéreos (helicópteros e tripulação) que o seu sector estaria “limpo” naquele distrito?
 
Uma noite, aproximadamente pelas 17h:30, começamos a ouvir um ruído ensurdecedor sobre o nosso aquartelamento e então, vimos surgir por cima da copa das árvores, os holofotes de 4 helicópteros sobre as nossas cabeças, aterrando dentro do nosso perímetro.
Para surpresa nossa, ficamos a saber que no dia seguinte, tínhamos pela frente uma operação que se prolongaria por alguns dias, durante os quais seríamos lançados diretamente nos locais de ação!
 
Outras operações se repetiram, mas esta provocou uma inesperada situação de terror, nas populações das aldeias em redor, devido ao barulho intenso na escuridão da noite e à forte iluminação que cegava por completo a visão dos aparelhos.
 
As populações - homens, mulheres e crianças - pegaram nos seus parcos haveres, abandonaram as aldeias aterrorizados e vieram refugiar-se junto do aquartelamento, sem terem a noção do que presenciavam!
Espantados por verem os aparelhos parados no ar, ficaram a observá-los incrédulos, durante essa noite e nos restantes dias!... .
 
Este relato, descreve apenas uma ação de combate, num dado momento, de um determinado dia, num determinado mês, num determinado ano!
 
Muitas outras aconteceram, a tantos outros como nós, que ao longo dos anos, ali foram cumprir em nome de Portugal a sua missão e por lá deixaram as suas vidas.
 
Narrado por: Guilherme Fernandes . .

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NOITE DE SENTINELA..., por José Godinho D'Abranches Leitão

In “Pedaços de memória…de rajada”

José Godinho D´Abranches Leitão

http://blog.comunidades.net/jdabranches/
Ex- Furriel Miliciano C. CAVª 2752
Moçambique 1970-1972
                    


Eram assim as primeiras noites de sentinela, do 4º Grupo de Combate naquele inferno chamado Serra do Mapé.
Ali fomos parar cerca de 120 jovens acabados de sair da adolescência, brutalmente lançados na fogueira da guerra colonial.
Os postos de vigia, eram feitos com um pequeno telheiro de chapa zincada e com barris cheios de areia, dispostos em meia lua, num morro logo à saída do abrigo subterrâneo.

O cenário era surrealista!
Alguns corações gravados nas aduelas dos barris, com as setas do Cupido das muitas namoradas, noivas ou mesmo mulheres de muitos que já por ali  passaram.

- Cabrões !
Com um piparote bem medido, Uvaldo espalmou o mosquito contra o pescoço. 
Já não me lixas mais.

Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos dolorosamente inchados de tanta ferroada.
Prestes a desatar aos berros.
Ao redor do aquartelamento, à volta dos 4 postes de iluminação que mal iluminavam, os mosquitos saíam da noite em nuvens cerradas.
"Maldita terra, malditos mosquitos.
Não bastava este calor de morrer."
Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruídos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se ao redor das lâmpadas...
Era um zumbido esquisito e suspeito.
Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas, mesmo no abrigo junto, serenou-o.
- Se estivesse sozinho morria de cagaço, pensou o Uvaldo!...

Olhou o relógio de pulso.
Os ponteiros fosforescentes indicavam as três horas da madrugada.
Dentro de três quartos de hora despertaria o Zé da Povoa para o render.
Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.
Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a disciplina imposta pelo Furriel que comandava a Secção, sobrepôs-se ao desejo.
Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada ou levar um tiro, pois o IN podia detetar a incandescência do apetecido cigarro na penumbra da noite.
"- Sentinela, éh sentinela !"
Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.
- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?
Pela voz, reconheceu o furriel Leitão.
- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.
- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.
Uvaldo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite.
Enervado, tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.
- Acorda, Zé, está na hora.
O camarada soergueu-se da cama improvisada, estremunhado.
- Já ? Não me estás a tramar ?
- Vá, levanta-te. Não acordes o Vidinha.
- Logo agora que estava a sonhar com a minha mulher, que deixei lá no bairro das Caxinas.
Tens um cigarro ?
- Olha o Furriel.
- O Furriel foi dar a volta aos outros postos.
Só daqui a 20 minutos é que volta a passar.
Dá cá o cigarro que eu uso o quico e faço um buraco no chão para botar o fumo fora!
O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.
Podia ver-se a 500 metros bem lá no fundo da pista.
- Não te deitas ?
- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.

- Saudades? Deixa lá que 4ª feira é dia de São Correio e já estávamos a 3 dias.

Falavam em surdina, para não acordar o Vidinha.
Os mosquitos parece que foram pra outras bandas.
Entretanto, sai do abrigo o Raposo, que não tinha sono nenhum.
- Sabias que as peras que trouxe da minha terra, ainda estão rijas como cornos? - disse o Uvaldo.
-Ainda duram? Perguntou o Zé da Póvoa, dizendo que julgava que tinham acabado ainda em pleno alto mar.
- E tu sabias que deixei um filho na barriga da minha mulher?
- Puta de merda esta guerra!
- Dizes bem, esta merda.
Subitamente, um estampido acordou a noite.
- Ouviste ?
- Foi no posto junto à porta de armas.
Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.

Silenciosamente aproxima-se o Furriel que anda a fazer ronda.
Eram 4 da matina.
Passa palavra e vai avisar o Comandante.

Pela vala comum, tropeçando em dezenas de ratos, o Gouveia que entretanto tinha também saltado do abrigo.
- Será um ataque?
Disparou um “verilaite” para o ar e nada!!!
Ficamos de dedos crispados nas G-3.
O Congolo, negro como um tição aparece e prega-nos um susto do caraças.
- Terá morrido alguém ?
- E nós aqui sem saber de nada.
- Que porra de situação.
- Calma - aconselhou Furriel. - Não me parece coisa grave.
- Sentinela! Sentinela? – alguém murmurava próximo.
- Quem está aí ? - perguntaram em coro.

- É o furriel Crispim. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão morrer.
Foi o Palhaço que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou às rajadas como um maricas.
Algum bicho que tocou nas latas penduradas no arame farpado.
- Que cagaço, meu furriel ! Disse o Uvaldo.
- Já pensávamos que os turras tinham atacado.
-O Palhaço insiste que viu 2 turras já dentro da 2ª linha de arame farpado!!!?
- Também não tinham sorte nenhuma, pois o Furriel Godinho tinha a zona toda armadilhada com minas, e dificilmente chegariam inteiros ao arame farpado da 1ª linha.
- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos e olhos bem abertos!
Olhos bem abertos. ok? Gritou o Capitão.
- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Zé da Póvoa. - Ia-me borrando todo, meu Capitão.
- O furriel disse que eram as latas mas podiam muito bem ter sido os turras.
- Nunca se sabe.
- Afinal, quem é que está de sentinela? Eu ou vocês ? – questionou o Furriel.
 
Depois de passar palavra e feita uma incursão pela pista, tudo voltou à normalidade.
O Capitão reúne os Comandantes dos Grupos de Combate para fazerem um ponto da situação.

Já ninguém mais dormiu nessa noite.
Amanhece.
O cheiro da terra fendida e os boqueirões rasgados na picada, cheios de sede são característicos da Africa, bem diferente do nosso.
Pouca água e uma vegetação serrada, aliados ao imenso calor, contribuem para este cheiro da terra.
O 3º Grupo de Combate do Alf Lourenço Marques vai à água.
 
O furriel Marques do Obus, prepara-se para iniciar a saudação matinal de 2 ou 3 “morteiradas” do Obus 14.
A Frelimo temia esta arma e não se atrevia a grandes aventuras nas proximidades do aquartelamento.

Mais tarde viemos a saber que não era bem assim.             

domingo, 6 de outubro de 2013

Um dia em Omar...

Deixo-vos aqui um texto do blog XIRICO :: Moçambique, a quem agradeço...
 
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São 5 da manhã.
Está abafado e húmido.
Abro os olhos e fixo o telhado de zinco através da rede mosquiteira sustentada por 4 paus metidos nos cantos da cama militar. Cheira a camarata superlotada e a fardas suadas.
Tenho a G3 no chão perto dos chinelos de borracha. Algumas “pinups” coladas às paredes dão-me os bons dias e fazem-me relembrar onde estou. Estou naquilo a que se chama “um buraco”.
 
Lá no alto, na armação da camarata, passa o rato das 5. Outros dois fizeram disparar as ratoeiras durante a noite, guincharam e calaram-se. As redes mosquiteiras protegem-nos dos mosquitos mas também dos ratos. Alguma técnica é preciso para esticar os lenções e principalmente para sair debaixo da gaze em alta correria sem ficar enrolado.
   
   
Esta madrugada sinto haver alguma atividade. Alguns atiradores já se levantaram e preparam a mochila.
O repelente e a rede verde contra os mosquitos, a escolha das latas da ração de combate atirando as intragáveis para o caixote ao canto da caserna.
Calçar as botas e o clique do cinturão.
Granadas, meter balas nos carregadores, preparar os dilagramas e sair em silêncio.
Não se acendem luzes nem lanternas e as palavras são ditas em sussurro.
 
Logo depois o grupo de combate avança em fila sendo engolido pelo mato cerrado com as G3 como bebés deitadas no braço e uma fé de que “não há de ser nada”.
O dia começa a nascer e a erva húmida do cacimbo noturno ainda molha as calças.
Evitam-se os carreiros que podem estar plantados de minas antipessoais.
A missão de patrulhamento deverá prevenir emboscadas na estrada por onde regressará a coluna auto a caminho de Mueda.
 
Entretanto o sol aquece o telhado de zinco e não há condições para ficar lá dentro.
Levanto-me vestido.
O equipamento 24 horas, resume-se a uns calções de ganga verde, aos chinelos “made in china” que são descartáveis no momento da corrida, e à inseparável canhota.
 
Há muito que renunciei ao matabicho. Deixei de tentar o intragável café de baratas e o bocado de pão recheado de gorgulho. Retiro o miolo mas os bichinhos ainda ficam incrustados na côdea. Uma lata de sumo de alperce da ração é preferível.
Quando se acabam os sumos, atacamos a água contaminada e apanhamos amibiose.
Não sei se é pior que o frequente paludismo.
Mas é igualmente mau.
 
Vejo alguns soldados escalados a encher os bidons no cimo da armação vedada a zinco, com a água trazida de uma nascente perto do destacamento.
Trouxeram-me bananas verdes. À tarde, poderemos tomar um banho rápido e refrescante para retirar a terra vermelha e o suor do trabalho ou duma peladinha de bola.
   
   
A meio da manhã, o pessoal que não tem tarefas de manutenção atribuídas, junta-se no alpendre colado à camarata.
É a sala de convívio sem visitas.
Cadeiras feitas com madeiras de barril de vinho, chão terra, caixote a fazer de mesa.
Poucos leêm. Alguns respondem à última carta da mãe ou da namorada.
Outros falam dos planos futuros ou das traquinices que ficaram para trás, lá na aldeia, nos tempos de recruta.
Raramente há novidades.
Como aquela novidade que teve o Alferes Silva.
Recebeu uma carta da sua noiva convidando-o para o casamento... dela!...
Ele que não passava um dia sem lhe escrever e que fazia planos de vida.
 
As cartas de jogar, o King, a Lerpa ou o Sete e meio também fazem passar o tempo e às vezes perder vencimentos.
As anedotas já as conhecemos todas e se alguém tenta uma nova, assiste ao recado do auditório cofiando a barba invisível, que lhe tira a vontade de concluir.

Confiamos nas sentinelas que do alto das torres de vigias nos cantos do aquartelamento varrem a zona desmatada para lá da vedação.
Qualquer início de ataque é avisado com um grito de alarme. Ninguém pensa nisso até ao momento de acontecer.
 
Hoje ao meio-dia espero que uma avioneta particular, que faz a ligação turística para as Seicheles, poise aqui na pista de terra com uns quilos de lagosta que encomendámos.
Não para comer com requinte, ou para saborear como um manjar. Simplesmente para matar a fome. Para a acompanhar, cortámos banana verde às rodelas e fritámos.
Com um bocado de imaginação parece batata frita!
 
No barracão de zinco que serve de refeitório, “milhões” de moscas procuram a sombra e o cheiro da comida. Sentados na comprida mesa, a nossa mão esquerda tapa o copo metálico com água ou cerveja (se ainda não acabou), enquanto a mão direita segura o garfo, afasta as moscas mais teimosas e vai-nos atestando dos repetidos “ciclistas”, “atacadores” ou “arroz sem estilhaços”.
Às vezes a paciência esgota-se, larga-se tudo e saímos do refeitório quente e insuportável, perguntando aos botões o que fizemos para estar ali.
 
Vou à tenda do Cabo de transmissões ver se ele já enviou o meu pedido para ser substituído neste “buraco”. Já lá vão seis meses que me parecem 6 séculos e não há meio de aparecer um “checa” que me substitua.
Começo a ficar um pouco “apanhado”.
 
Entretanto, ia acontecendo uma desgraça.
O Zé Tó tratava do rato que lhe entrou na ratoeira de caixa. Costuma tirá-lo da caixa e matá-lo com dois pontapés.
Desta vez achou que seria “diferente” regá-lo e chegar-lhe o fogo.
O rato em chamas correu veloz rumo ao paiol de munições.
Todos se atiram ao chão gritando pela tragédia eminente.
Passam os minutos e o estrondo não acontece.
O Zé Tó levou com uma escalas noturnas nos postos de vigia e deve ter ganho para o susto.
 
A coluna com uns 6 carros prepara-se para voltar a Mueda depois de ter feito o reabastecimento de géneros e munições.
A primeira Berliet está atulhada de sacos de terra prevenindo um rebentamento de mina anti-carro. Tem ainda instalada duas metralhadoras pesadas.
Leva o condutor e só mais dois soldados para minimizar as perdas.
Mas o atarracado soldado António avisa logo - “Eu vou nesta. É "fézada".
Nunca me aconteceu nada e não vai acontecer desta vez”.
Nunca me vou esquecer.
Valentia, inconsciência ou ambas as coisas.
Apesar da seriedade do momento, não se vê atitudes de medo, mas todos sabem pelo que vão passar.
 
São raras estas colunas que não sejam atacadas.
Dois dos carros são Unimogs, sem qualquer proteção, aos soldados que lá vão sentados de peito feito, virados para o mato com a G3 entre as pernas e preparados para saltar ao primeiro tiro.
As minas podem destruir quase completamente um Unimog.
Sem alaridos nem festejos a coluna parte a caminho do inferno.
Os mais veteranos conhecem cada reta, cada curva da morte e quais os lugares “bons” para emboscadas.
Será que todos chegarão ao destino?
Fico a pensar como tenho sorte em não ser minha função fazer colunas militares.
 
A tarde abrasadora vai correndo a caminho das fatídicas 5 ou 6 da tarde.
É a hora da morteirada.
O inimigo sabe que depois, cai a noite e não haverá patrulha de perseguição.
Já não atacam há 3 dias e é capaz de ser hoje.
Não é por isso que altero a minha rotina e aproveito para tomar o habitual banho.
   
   
Retiro o toco do bidon.
Sai um jacto de água para retirar os restos do sabão LifeBuoy. Nesse exato momento ouve-se ... e sente-se dentro do peito ... dois flops seguido de mais dois, como garrafas de champagne a serem abertas, avisando que a festa começa agora.
Um dos sentinelas grita forte:
Morteiraaaaadaaaaa !
Não é a primeira vez.
Os movimentos são automáticos.
Agarro na G3 encostada ao zinco, e tal como estou, ainda com algum sabão e descalço, bato um recorde olímpico de barreiras, aproveitando os poucos segundos antes do silvo descendente dos morteiros e as explosões mortíferas no interior do quartel.
Preciso chegar ao abrigo, onde está o Obus 8.8., antes que elas começarem a rebentar.
Tenho a obrigação de tentar localizar a posição do morteiro e fazer uma barragem de fogo.
Aparecem mais um ou dois soldados ofegantes para ajudar a municiar e deslocar o obus.
Sei que uma morteirada caída no interior do abrigo pode fazer explodir as granadas de obus, do tamanho de bazucas de cerveja 2M, e nem o canhão ficava inteiro.
Nunca aconteceu.
Não acredito que aconteça.
Mas caíram a alguns metros e por várias vezes.
 
Uma das morteiradas caiu perto duma trincheira e um furriel que espreitava teve um grave ferimento no pescoço.
Foi rapidamente carregado para a tenda do enfermeiro que se aplicou o melhor que sabia.
Espreitei para ver quem era, e arrependi-me.
No oleado que cobria o chão, corria uma faixa vermelha de sangue.
Recuei mal disposto.
Foi evacuado no dia seguinte numa D.O. para o hospital de Mueda e felizmente safou-se.
Safou-se de morrer e safou-se de Omar!
 
Depois de sair de Omar, estive em Nangade, Mocímboa da Praia, Diaca, Sagal e Mueda. Sempre me impressionou a valentia e coragem que vi naqueles jovens, de incorporação local e metropolitanos, da “pacaça” ou de forças especiais, que se viram envolvidos numa guerra inglória que poderia ter sido evitada.
A todos eles aqui deixo o meu testemunho e apreço.

sábado, 24 de agosto de 2013

"Cacimbados - A Vida por um fio"

Deixo-vos este texto, que o Luís Leote colocou e que me fez chegar as lágrimas aos olhos...
 
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"Cacimbados - A Vida por um fio"

Autor: Manuel Bastos

A Difícil Transferência do Ódio

Éramos umas crianças. – Disse José da Fonte.
Os soldados são sempre crianças, Bastos, ainda se ao menos os que nos comandavam fossem homens, mas eram crianças como nós. E os que eram homens não iam para o mato.
 
Lá em Mueda conheceste alguém do quadro, que alinhasse nas operações de canhota nas mãos? Profissionais da guerra que nunca deram um tiro e os que foram para lá ao engano é que lhes guardavam o coiro! – Disse José da Fonte.
 
Está hoje um dia que me faz lembrar aquele céu de África. Trágico, não era? Um céu trágico aquele, em que de repente, do mais puro azul se desembrulhavam prá'li umas nuvens cor de sangue e rebentava uma tempestade dos diabos que nem dava tempo de tirarmos os ponchos, e ficávamos ensopados num instante. Aquilo era difícil, Bastos; também, se fosse fácil não estaríamos lá nós.
 
O povo e os filhos do povo é que pagam sempre a conta, não tenhas dúvidas, estejamos em guerra ou estejamos apenas a atravessar uma crise qualquer como agora. Quem paga somos sempre nós. E quando o problema acabar, mudam quem manda, criam uma nova ordem social, ou simplesmente mudam os nomes às coisas para darem a ideia que começou um novo jogo e que os que perderam, perderam e os que ganharam, ganharam: é o princípio do oportunismo. – Disse José da Fonte.
 
Era um tempo impreciso, esse em que vivíamos; o fim de uma época e o início de outra, não tivemos outro remédio senão ir aprendendo à medida que as coisas se revelavam para nós. Ninguém nos ensinou nada, a não ser odiar os que não nos queriam lá. E depois quando descobrimos que os nossos verdadeiros inimigos eram os que nos usavam como carne pra canhão, tivemos que transferir o nosso ódio. Mas o ódio vicia, Bastos, e não há nada mais difícil do que mudar o objecto do nosso ódio; e não há nada menos digno do que matar só pra não morrer. – Disse José da Fonte.
 
Bebe, pá, que lá não tinhas deste vinho. Um casqueiro com gorgulho e umas bazucas de Cuca e era um pau; e muita camaradagem, não era? Foi isso que fez de nós irmãos. O medo e a coragem; o tédio e a ansiedade; a solidão e a camaradagem – mas tudo intenso e real.
 
Tão intenso e real como um espinho na carne. Olha: no dia em que foste ferido, chorei; escondi-me lá num canto qualquer, fumei um cigarro e dei por mim a chorar. Lembrei-me que tu costumavas dizer que nós nunca choramos os mortos, choramo-nos a nós mesmos, ou porque antecipamos a nossa própria morte, ou porque nos sentimos mais sós. Lembras-te de dizeres isto? Lembrei-me de ti a disparar para o capim, em cima da Berliet, no dia em que um soldado do teu pelotão rebentou uma mina. Lembras-te? Depois escondi-me na cagadeira a fumar um cigarro, para ninguém me ver chorar.
 
Tu vieste embora e muita coisa se passou depois, mas sempre nós a gramar a pastilha, ainda por cima tivemos um cabrão dum capitão armado em herói que nos punha no mato dia sim, dia sim e que depois se desenfiou para o Comando enquanto nós continuámos lá a garantir-lhe o subsídio de zona de cem-por-cento, que ele ganhava no ar condicionado enquanto nós foçávamos no mato, quando já devíamos ter ido para um lugar mais calmo. Sabes que pensei em dar-lhe uma carga de porrada quando o encontrasse aqui. Mas como dizia Tertuliano, a vingança dá apenas um prazer momentâneo enquanto o perdão dá um prazer duradouro. Perdoei-lhe a carga de porrada mas não esquecerei que alguns morreram para ele ficar bem-visto junto das chefias militares.
 
Ó Bastos, se fosse fácil não era para nós. – Disse José da Fonte.
 
E agora, tantos anos depois? Até parece que falo com saudades daquilo, não é? Tenho saudades de mim, Bastos, tenho saudades de nós. Quando não acontecia uma desgraça éramos felizes. Tenho saudades de quando a vida era um milagre. Quando chegávamos todos; quando bebíamos um copo de cerveja morna e cantávamos todos desafinados, e então tu, pá, que cantavas mal como a porra; celebrávamos o dia por ele ter acabado com vinte e quatro horas. Para muitos, os dias acabaram a meio e nós ficávamos mais sós, como tu dizias.
 
Éramos umas crianças e o que fez a guerra de nós? Fez-nos homens? Acho que ficámos sem idade, Bastos. Na guerra os homens ficam sem idade. Crianças envelhecidas ou velhos prematuros. Por isso é que sentíamos a vida como um milagre, porque a vida é precária, Bastos, e nós aprendemos isso antes do tempo. Lá, ao menos, morríamos de coisas simples: um tiro, uma mina, um estilhaço de morteiro.
 
Agora morremos de coisas com nomes complicados: nefropatia túbulo-intersticial, angiossarcoma hepático, ou então que tal uma neoplasia broncopulmonar malígna? Vamo-nos degradando até as pessoas que gostam de nós ansiarem por que os deixemos em paz. A vida não é precária, a vida é altamente improvável. – Disse José da Fonte.
 
Neoplasia broncopulmonar malígna. Eu acho que devia ter morrido jovem, Bastos, para ser recordado com o desconsolo de me saberem desaparecido com uma vida inacabada; para que sentissem a falta de todas as realizações que ainda esperavam de mim; para que se recusassem a aceitar a minha morte como uma coisa natural e odiassem alguém por eu ter morrido, fosse quem fosse – que arranjassem maneira de encontrar o verdadeiro culpado pela minha morte; ou ao menos, pá, para que uma mulher bela e jovem vivesse chorando com uma foto minha junto ao peito; ou se tudo isso fosse pedir demais, para que sobre a minha sepultura não exibissem para sempre o retrato de um velho decrépito.
 
Neoplasia broncopulmonar malígna. Um dia destes e muito em breve, Bastos, chegará um dia para mim que não terá vinte e quatro horas. Ninguém ouvirá o estampido de uma mina, ninguém se esquecerá de si mesmo, para gritar: o Zé da Fonte está ferido! Ninguém se atirará para o chão em meu redor para fazer uma barreira de fogo. Nenhum enfermeiro se arriscará corajosamente, vindo a correr desarmado para me tentar salvar a vida. Chegará apenas uma notícia pelo telemóvel a dizer que eu bati as botas e será um alívio para as pessoas que gostam de mim.
 
Será que tu, Bastos, te vais esconder num sítio qualquer a fumar um cigarro, para que não te vejam chorar, porque a minha morte te aterroriza, porque fatalmente um dia será a tua vez? Não, Bastos, deixa-me acreditar que chorarás nesse dia como se eu tivesse tombado em combate, deixa-me acreditar que nesse dia beberás a tua cerveja morna sem cantares com a tua voz esganiçada, porque nesse dia não vieram todos, deixa-me acreditar que sentirás um ódio de morte mesmo que não saibas ao certo por quem, e que te apetecerá saltar para cima de uma Berliet a gritar: Venham cá filhos da puta, enquanto despejas o carregador da G3 no capim.
 
Bebe mais um copo, Bastos, que deste vinho não tínhamos lá, e deixa-me acreditar que nesse dia chorarás apenas por te sentires mais só.
– Disse José da Fonte, que, do que quer que morra e onde quer que morra, morrerá sempre em combate.