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quinta-feira, 4 de junho de 2020

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes..., por Manuel Sousa

Manuel Sousa

17 de JULHO de 1970 – Morte e lágrimas no Planalto dos Macondes

I -O Planalto em 1970

A Operação Nó Górdeo não estava a correr conforme os altos comandos tinham previsto.

Aquela que foi considerada a maior operação militar levada a cabo durante a guerra do ultramar, fez confluir para o Planalto dos Macondes (também conhecido como Planalto de Mueda), uma quantidade enorme de meios humanos e materiais, nunca antes vistos, com o objectivo de dar um golpe de misericórdia à Frelimo e assim pôr fim à guerra em Moçambique.


Foi tudo planeado e os militares corresponderam àquilo que lhes era exigido de forma abnegada e corajosa. 

Mas, houve um pequeno grande lapso dos nossos estrategas: avisar o inimigo que íamos atacar em força.

Um avião Dakota com um potente altifalante, sobrevoava toda a região e na língua nativa, pediam às populações para se entregarem nas povoações sob controle militar e abandonarem o mato e deixarem de apoiar os “terroristas” pois a tropa portuguesa ia ocupar as aldeias.

Obviamente que demos tempo suficiente para que os guerrilheiros da Frelimo se retirassem para locais mais seguros, levando consigo parte das populações que lhes serviam de apoio, deixando para trás os velhos que já não os podiam acompanhar nas marchas intermináveis pelo mato. 

Deu-se assim início a operações de guerrilha em locais até aí mais ou menos calmos. 

Como alguém já disse, foi como dar um murro num vespeiro.

Na retirada, a Frelimo deixou para trás as minas que enterraram nas picadas, onde sabiam que mais tarde as nossas tropas haveriam de passar.

A nós militares, o alto comando mandou-nos construir palhotas e providenciou-se para que houvesse alimentos para os milhares de guerrilheiros e populações que previam se iam entregar ás nossas forças armadas, com medo de serem mortos ou capturados de forma a que fossem recebidos com a hospitalidade possível.


Em Muidumbe, onde estavam sediados dois pelotões do Esquadrão de Cavalaria 1, o Pelotão nº1 e o nº2, ao qual eu pertencia, estava previsto que se entregassem mil e tal elementos. 

Havia palhotas construídas para os abrigar.

Ninguém se entregou.

E o “BOCAS”, um velho Dakota da Força aérea, continuava com um potente altifalante a sobrevoar o mato e a pedir aos guerrilheiros e civis que se entregassem às nossas F.A. 

Lançava panfletos divulgando as vantagens que havia se se pusessem do lado das Forças Portuguesas.

Mas os Macondes são um povo especial. 

Sabem o que querem e, por bem, são leais até à morte. 

Por mal, no seu território, são invencíveis.

E esse mal, já algumas das nossas autoridades administrativas civis, o tinham feito. 

Mas isso é outra história.


O planalto é arborizado por uma vegetação rasteira, composta de densas lianas resistentíssimas, impenetráveis e que raramente atinge dois metros de altura, que envolvem as árvores que delas não se conseguem libertar. 

Por baixo deste céu verde, não se vê o sol e são poucos os locais onde a claridade penetra. 

Vista do ar, parece um mar verde-escuro, com umas raríssimas pequenas clareiras.

Nesse tufo para nós impenetrável, existem túneis cavados na vegetação por onde os Macondes se deslocam a pé, abaixados, protegidos do sol e da vista de intrusos, deixando para trás, em locais que só eles sabem as suas explosivas armadilhas que tantos mortos e estropiados nos causaram.


Claro que as nossas tropas, à custa de muito sangue derramado, lá foram aprendendo a deslocarem-se por esses túneis cavados na vegetação, improvisando duma forma extremamente simples os seus detectores de armadilhas. 

Só mesmo o engenho desses soldados, inventaria um detector constituído por uma cana e um cordel.

Mas, como os guerrilheiros e populações não se entregavam e as principais Bases inimigas foram encontradas pelas tropas especiais Portuguesas abandonadas, era necessário incendiar a vegetação para lhes podermos “pôr a vista em cima”.

Mais uma vez a genialidade dos comandos manda largar pela Força Aérea bombas incendiárias “Napalm”, para incendiar esta vegetação que servia de abrigo aos nossos inimigos. 

Mas as lianas nem sequer ardiam.

O tipo que inventou a Napalm nunca esteve no Planalto de Mueda e esqueceu-se de pôr no Manual de Instruções que esta bomba não servia para fazer arder aqueles arbustos Macondes. 

Esqueceu-se também de avisar que por qualquer razão, ali, muitas delas não explodiam. 

Ou por serem mal largadas ou porque a vegetação amortecia o embate no solo.

Da mesma forma que nós capturávamos o material que os guerrilheiros abandonavam em fuga, eles aproveitavam e guardavam o que podiam do nosso. 

Entre ele, bombas da aviação que não explodiam.



II – Nangololo – entregaram-se dois guerrilheiros.

Enquanto a Engenharia Militar tentava aumentar e alargar a pista de aviação, com os enormes Caterpillars D -12 abrindo mato nas lianas Macondes, com as lagartas a derrapar, os homens do Esquadrão e não só, faziam a protecção aos operadores das máquinas. 

E, quando o Caterpillar já não tinha força para arrancar e partir as lianas, as motos serras ajudavam na tarefa.

Era muita gente na pista uns meio fardados meio desfardados, negros, brancos, asfaltadores da engenharia, militares emboscados nos limites da pista, Panhards para cima e para baixo, homens a pé ou de Unimog, pista acima e pista abaixo.

O quartel do Batalhão de Nangololo era um luxo. 

Estava num dos extremos da pista. 

Tinha uma Igreja que servia de camarata para aquele pessoal todo e uma bateria de artilharia que substituía o relógio do campanário da Igreja a dar horas. 

Durante a noite, de hora a hora, lá se disparavam uns obuses para a serra do Mapé, fazendo estremecer tudo e acordando toda a gente. 

Toda a gente talvez não, mas pelo menos aqueles que como eu, não estavam habituados aquele estranho modo de dar horas. 

Quando o vento soprava mais forte, o feijão macaco atacava todos.

O aquartelamento até tinha uma porta de armas com uma cancela de pau, para não deixar entrar intrusos no recinto. 

Aquilo parecia ser a sério.


No outro extremo da mesma pista a cerca de 2 quilómetros, eram as instalações e comando do Esq., Cav. 1 que, incompatibilizado com o comando do Batalhão, era constituído por quatro tendas cercadas por uma corda, cerco interrompido pela entrada guardada por um garboso soldado também para impedir entradas de intrusos sem prévia autorização do capitão.

O gabinete do sargento amanuense era em cima de uma Mercedes Benz de seis toneladas, onde se sentava sobre umas caixas de madeira cheias de granadas de morteiro e escrevia à máquina e tratava de toda a papelada com o esmero possível.

Um belo dia aproximam-se dois homens da sentinela do Batalhão de Nangololo e perguntam pelo Comandante. 

Uma pergunta tão estranha num dia tão normal fez com que a sentinela lhes respondesse: “- Eh! Pá, o que é que vocês querem?”

“Queremo-nos entregar!”

Só depois é que a sentinela reparou que as armas dos dois não eram iguais à dele, mas sim Kalashnikovs russas.

Apontou-lhes a G3 assustado, eles entregaram as armas e lá chamou alguém para os acompanhar ao Comandante.

Eles, dois militares da Frelimo, aproveitaram a confusão que havia na pista de Nangololo passaram pelas nossas seguranças, e no meio dos nossos militares para se entregarem.

Se não se tivessem apresentado, teriam almoçado na cantina dos nossos soldados, dormido na camarata e podiam ter seguido viagem no dia seguinte.


Haviam casos anedóticos destes. Já tinha acontecido um ano antes em Nova Guarda. 

Estávamos sentados à porta de uma cantina a comer a ração de combate e aproximam-se de nós dois africanos, dirigem-se ao Alferes que estava sem os galões e dizem-lhe: vimo-nos entregar. Entregaram-nos as armas e levamo-los para Vila Cabral. Como sabiam quem era o alferes se estava sem galões?


Mas, voltando a Nangololo.

A CCS (Companhia de Comando e Serviços) fez uma tentativa de levantamento de rancho (greve à alimentação) e, de castigo, foram mandados fazer um patrulhamento a pé no mato. 

Estes militares não saíam habitualmente do aquartelamento.

Após duas horas de caminho, foram emboscados. 

As rajadas ouviram-se perfeitamente no Quartel e o capitão Faria Afonso, meu comandante, que tinha a sua tenda de comando no extremo da pista de aviação de Nangololo, mete a Panhard a corta mato, conforme pôde, pois haviam umas clareiras próximas do Quartel onde tinha sido uma antiga machamba. 

Cruza-se com os militares da CCS que já vinham de regresso com um ferido ás costas.

O Capitão Faria Afonso tenta encontrar os atacantes pois segundo ele deveriam ainda andar por perto, mas encontra apenas um acampamento abandonado com algumas palhotas e sepulturas.

O acampamento era, provavelmente, utilizado pelos guerrilheiros que ao aperceberem-se da aproximação da companhia de Nangololo, abriram fogo sobre os militares desprevenidos, atingindo um deles.

Os guerrilheiros quando sentiram a Panhard fugiram levando consigo tudo o que puderam deixando para trás, além dos mortos sepultados, as palhotas e um casal de velhos que devido à avançada idade não os puderam acompanhar.

Os militares do Esquadrão destruíram tudo, queimando as palhotas e destruindo as sepulturas.

Isto aconteceu, dois dias antes da Frelimo colocar na picada habitualmente patrulhada pelo Esquadrão, as bombas que a nossa Força Aérea largou e não explodiram.



III - 17 de julho de 1970

Nesse dia 17 de julho de 1970, uma patrulha composta por duas Panhards, uma Berliet preparada para rebentar minas e um Unimog com atiradores, saiu de Miteda para Nangololo.

Como o percurso era curto, normalmente fazia-se a “picagem” num dos sentidos, regressando rapidamente para não “dar tempo aos guerrilheiros colocarem minas”.



Mas nesse dia, os militares demoram-se mais tempo em Nangololo do que o normal e, no regresso, a primeira Panhard cujo chefe de carro era o Furriel Milº. Carlos Alberto Almeida Dias, conduzida pelo Daniel Viegas fez explodir uma bomba. 

O cesto (torre) da Panhard foi arrancado do resto da estrutura e projectado a cerca de vinte metros ficando a arder com dois militares lá dentro enquanto as munições e granadas que transportava explodiam e a gasolina fazia arder tudo, não deixando que alguém se aproximasse dos destroços. 

O Viegas, recebeu sob si o impacto directo da bomba e o seu lugar de condutor “abriu-se” como se de uma lata de sardinhas se tratasse.

O soldado condutor do rebenta minas, o Matos, também morreu com um estilhaço da explosão.

Quem testemunhou o estado em que ficaram os corpos da tripulação da Panhard, fez-me um relato que não me atrevo aqui a reproduzir. Os militares sobreviventes ficaram em estado de choque sem saber que fazer.




Quando em Nangololo se soube do desastre, foram dadas ordens para a coluna regressar, mas o capitão Faria Afonso não as acatou dirigiu-se para o local do rebentamento e deu ordens para que se avançasse. 

O Capitão Faria Afonso já tinha idade para ser Major, mas alguns castigos atrasaram a promoção. Tinha-lhe aparecido a oportunidade de ser promovido por bravura e distinção.

O seu condutor de Panhard, o soldado Bramão Miranda traumatizado com o sucedido, implorou ao capitão que voltassem para trás. Mas este insistiu para que se contornasse o buraco causado pela explosão e avançasse. 

O Bramão responde-lhe: “Meu capitão, é melhor mandarmos fazer picagem antes de avançarmos, podem haver mais minas por aí.” 

Ao que o capitão lhe responde: “Se estás com medo, sai daí, conduzo eu a Panhard”. 

O Bramão deu o seu lugar ao capitão e chorou de raiva. 

Todos sabíamos que ele era um valente soldado, nunca tinha medo ou não fosse transmontano. Nunca ninguém lhe tinha dito que era covarde. 

Antes do capitão arrancar com a auto-metralhadora, o Bramão, a chorar, subiu para o lugar do capitão. 

Poucos metros mais à frente uma nova explosão sob a Panhard, destruindo-a e com ela os seus ocupantes.

Quando chegam reforços de Miteda, recolheu-se conforme se pôde o que restava dos corpos dos seis tripulantes das Panhards e do condutor Matos da Berliet rebenta minas.

Mais à frente, no sentido Nangololo - Miteda, após picagem, foram encontradas mais duas bombas da nossa Força Aérea, “ligadas” a duas minas anti-carro cada uma delas.

Só assim soubemos o que provocou a destruição das Panhards, caso contrário, só poderíamos especular.

Nessa noite ficaram dois furriéis e alguns soldados a guardar os destroços e o que restava dos corpos. Hoje passados 50 anos, os furriéis, continuam a fazer tratamentos psiquiátricos.

Há quem diga, mas isto são suposições, que esta acção da Frelimo que já estava numa fase de retirada do planalto, foi a retaliação contra o Esquadrão, pela acção levada a cabo pelo capitão Faria Afonso, dias antes, no acampamento encontrado próximo de Nangololo.

Eu soube dos acontecimentos nesse mesmo dia à noite. 

Estava em Muidumbe e liguei o C42, rádio de FM da Panhard, tentando ouvir as conversas dos guerrilheiros que comunicavam nesta onda de frequência. 

Mas, acabei por sintonizar os meus camaradas de Nangololo e Muidumbe a falar sobre estes acontecimentos. 

Comuniquei-os aos meus camaradas de Muidumbe que também ficaram em estado de choque.

No dia seguinte de manhã, quando o 1º pelotão que estava em patrulha regressou, saiu o 2º pelotão para a picada da Capoca, como se nada tivesse acontecido.



Passados cinquenta anos, ponho-me a imaginar como seria bom beber um copo com o Daniel Viegas como faço com o Mealha, passar um fim de semana no Alqueva com o Almeida Dias, como faço com o Viriato ou dar um abraço ao Bramão com dou ao Banza.

Estes homens partiram prematuramente, mas procuro imaginá-los com os cabelos brancos filhos e netos, como eu. 

É bom que alguém os recorde pois eram militares destemidos, disciplinados, extrovertidos e duma coragem a toda a prova.

O Capitão Faria Afonso recebeu uma Cruz de Guerra de 1ª classe por este “ato de bravura.”

Os outros que com ele morreram, apenas foram vítimas das loucuras dos homens.

Já quase ninguém fala deles.



Nesse dia 17 de julho de 1970 morreram do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria 1 de Moçambique, os seguintes sete militares:


1-Capitão Jaime Alvim Faria Afonso, natural de Lisboa;
2, Furriel Carlos Alberto Almeida Dias. natural de Lourenço Marques;
3- Soldado Duarte Tomás Bramão Miranda, natural de Bragança e residente em Lourenço Marques;
4- José Manuel Matos, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
5- Daniel Viegas, natural de Olhão e residente em Lourenço Marques;
6- 1º cabo Victor Manuel Silva, natural de Lisboa e residente em Lourenço Marques;
7- 1º cabo Mangas Pereira, natural de Ourém e residente em Lourenço Marques.

Manuel Serafim de Matos Sousa
Ex-furriel Milº de cavalaria

Notas finais:
O camarada Manuel Pereira Martins no seu livro “Memórias de um Tempo Perdido” também descreve este acontecimento de 17-7-1970. 
São factos que ambos acompanhamos e que não podem ser plagiados. 
Apenas descritos com mais um ou outro pormenor;

Há quem defenda que esta guerra deveria ter continuado;

Mas a guerra continua em Cabo Delgado mas com outros protagonistas,

domingo, 22 de janeiro de 2017

Operação Canacassala..., por M. Aldeias

Operação Canacassala
ou
A última operação da Força de intervenção na região dos Dembos.

Acampamento no Canacassala, em Dezembro de 1972
O local onde, de 4 a 21 de Janeiro de 1973, a Força de Intervenção (FI) instalou a sua base provisória tinha sido uma criteriosa e excelente escolha estratégica. Situava-se no cimo de um enorme morro, perto da antiga ponte sobre o rio Onzo e junto da famigerada e perigosa picada “Via Láctea”, que saía de Nambuangongo, a cerca de 180 kms a norte de Luanda, e se embrenhava sinuosa e caprichosamente algumas dezenas de quilómetros pela majestosa, agreste e selvagem floresta dos Dembos. Era uma zona muito acidentada, de difícil acesso e com florestas virgens impressionantes, que cobriam de um manto verde a perder de vista os vales que serpenteavam os morros.
Era algures no seio desta medonha, misteriosa e densa mata, aproveitando-se das excelentes e únicas condições de refúgio que lhes proporcionava, que o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) tinha instalado, desde há algum tempo, o quartel-general da 1ª Região Militar. Daqui saíam os seus astutos e destemidos guerrilheiros para montar minas, emboscadas e ataques aos aquartelamentos das nossas tropas, disseminados por esta vasta e remota região.
Ao contrário das tropas de quadrícula, que apenas actuavam e tinham sobre a sua responsabilidade as zonas onde estavam instaladas, a FI encontrava-se baseada em Luanda, donde saía por períodos de duas a três semanas para qualquer local do norte de Angola onde o inimigo estivesse mais activo e agressivo. Efectuava vários tipos de acções, desde emboscadas a golpes de mão, destruição de bases inimigas, e também nomadizações, que consistiam no patrulhamento apeado de determinadas zonas, para procurar indícios da guerrilha e criar instabilidade nas suas tropas. Findas estas difíceis e extenuantes operações, regressava a Luanda e aí recuperava da intensa actividade operacional a que fora sujeita.
O Batalhão de Caçadores 3848 era constituído pela Companhia de Comandos e Serviços (CCS) e três companhias operacionais: os Escorpiões, os Carolas e os Panteras, que tinham adquirido uma vasta e inigualável experiência operacional durante os dezasseis longos meses passados como tropa de quadrícula na conturbada região de Nambuangongo, uma zona de guerra por excelência.
Agora, estas três companhias estavam acampadas na nova base de Canacassala, onde, nos últimos dias, vinham desencadeando várias operações de nomadização, emboscadas e golpes de mão às bases IN com o intuito de aliviar a pressão que o MPLA estava a exercer na zona.
A derradeira e mais desgastante operação estava reservada para Os Carolas. Tinha como objectivo assaltar e destruir as bases IN referenciadas e prosseguir em nomadização até ao aquartelamento da Beira Baixa, onde seriam recolhidos para regressarem em coluna a Luanda.
Aproveitando-se da escuridão protectora da noite, Os Carolas saíram, levando à frente como guia um homem natural da zona e elemento de um dos Grupos Especiais de tropas nativas, os GEs, como eram habitualmente conhecidos.
Com cerca de trinta anos, aparentando boa robustez física, o nosso guia GE envergava uma farda exactamente igual à nossa, ou seja, camuflado, boné e botas para todo o terreno. Na cara brilhavam-lhe dois olhos inteligentes e perspicazes e uns dentes brancos como a cal, que contrastavam coma cor escura da pele. A meio da testa, sobressaía uma profunda cicatriz provocada por um ferimento de bala. De mãos fortes e calejadas, segurava numa a espingarda metralhadora, enquanto com a outra empunhava a catana, com que ia cortando o labiríntico emaranhado de lianas e outros arbustos que lhe surgiam no caminho. Abria desta forma um estreito e apertado túnel, por onde, em fila indiana e no maior silêncio, íamos progredindo lentamente. A meio da fila onde me encontrava, o silêncio era apenas quebrado pelo leve ruído das botas que pisavam as folhas secas.
Teria sido muito menos extenuante e cansativo avançar pelos trilhos existentes na mata, se isso não fosse perigoso e arriscado, porque eram propícios a emboscadas, a minas escondidas e outras perigosas armadilhas. Apesar da enorme tentação em os utilizarmos, o bom senso impunha-nos o sacrifício e a segurança: a abertura de novos trilhos nunca antes utilizados através de uma densa, misteriosa e quase impenetrável selva. Além do mais, ainda estava fresco na nossa memória o enorme buraco provocado por um desses temíveis e traiçoeiros engenhos, que, dias antes, levara a perna a um camarada nosso.
Caminhávamos há já alguns dias de armas aperradas, olhos e ouvidos sempre atentos, através da imensa e enigmática floresta tropical, que nos impunha respeito e nos fazia sentir pequenos e insignificantes. Procurávamos sempre movimentar-nos com a maior celeridade possível, mas sem nunca descurarmos as precauções e o silêncio, para evitar sermos referenciados. Até porque o inimigo era astuto, destemido e profundo conhecedor da floresta. E também ele mostrava grande mobilidade e agressividade, flagelando constantemente e com dureza as nossas forças. Daí que o medo da morte, o inimigo, a fome, a sede e o cansaço, constituíam verdadeiros desafios às nossas capacidades de resistência, jovens soldados tornados guerrilheiros pelas circunstâncias e endurecidos por mais de vinte meses de guerra no mato angolano. Este oceano de imensas dificuldades era agravado pelo receio constante de sofrermos alguma baixa no interior de uma floresta virgem e inacessível, onde seria impossível proceder a qualquer evacuação. E também não seria tarefa fácil carregar com os mortos ou feridos às costas. Tudo isto contribuía para aumentar a angústia e ansiedade, aumentando-nos o desejo de sairmos daqui o mais rapidamente possível.
A progressão tornava-se cada vez mais penosa, difícil e extenuante. A luz solar penetrava com dificuldade por entre a intrincada vegetação. O odor das folhas putrefactas inebriava-nos. Pequenos mosquitos entravam-nos pelos olhos, nariz e boca, deixando um desagradável e repugnante sabor amargo. O calor e a humidade colava-nos à pele o camuflado já rasgado, sujo e com um cheiro nauseabundo e asqueroso.
Durante esta terrível, árdua e espinhosa odisseia, entrámos por duas vezes no interior de bases militares IN que, por razões de ordem táctica, se encontravam afastadas da base principal e funcionavam como unidades de defesa alargada. Aqui, a vegetação rasteira fora retirada, ficando apenas as árvores de grande porte que, com as frondosas e espessas copas, evitavam que estas fossem referenciadas pela aviação.
Tudo indiciava que os ocupantes as tinham abandonado de forma precipitada e brusca ao pressentirem a nossa chegada, porque o lume estava ainda aceso e livros e vários utensílios encontravam-se espalhados pelo chão ou em cima das mesas.
Dentro destas bases ficávamos vulneráveis. As balas assobiavam e cantavam a morte sobre as nossas cabeças, porque o IN mantinha-se oculto na mata circundante, observando-nos e reagindo com intensidade e violência. Sob esta sensação indescritível de hecatombe destruidora, avançávamos costas com costas, disparando e correndo em busca da protecção da mata. Era crucial e imperioso abandonar rapidamente estes locais onde reinava o medo, o terror e a morte, onde o perigo nos espreitava constantemente, não nos dando sequer tempo ou oportunidade de proceder à destruição destas bases disseminadas na selva.
Ao quinto dia de progressão, já bastante debilitados pela fome e pela sede, extremamente cansados, já inclusive distanciados uns dos outros na fila, começámos a sair do imenso verde desta floresta hostil, adversa e infindável. Porém, o inimigo dava-nos as boas vindas ao espaço aberto e ao tórrido sol Africano. Foram momentos de ansiedade terrível e indescritível com as balas mais uma vez a entoarem a sinfonia da morte.
O IN utilizava metralhadoras pesadas com um matraquear sepulcral, rouco e cavernoso, e as irritantes costureirinhas com aquele estampido metálico, enervante e contundente, e com as suas rajadas cadenciadas e irritantes, que ficaram para sempre na memória de todos os que tiveram a malfazeja sorte de com elas se confrontarem no palco da guerra colonial, fazendo-nos recordar as máquinas de costura das nossas mães na longínqua e saudosa metrópole.
Através do capim que nos feria as mãos, deixando-as em sangue, e nos dava pelo peito, rastejando com grande sofrimento, alcançámos ilesos a segurança precária dum alto morro, onde rapidamente montámos um círculo de segurança e ficámos em posição mais vantajosa em relação ao astucioso e matreiro inimigo.
Durante esta longa, tenebrosa e aterradora epopeia, tínhamos penetrado profundamente em território IN e efectuado um desvio bastante acentuado do itinerário previsto. Foi quando o nosso guia confessou estar perdido. Não fora a utilização das comunicações pela rádio, dificilmente alcançaríamos uma zona para recolha do pessoal. Pouco depois da comunicação com a sede, tivemos a ajuda de um heli-canhão, que nos ajudou a referenciar a nossa posição. Encontrávamo-nos a seis dias de marcha do quartel mais próximo. Mas a sua acção não se limitou à nossa referenciação no espaço operacional. Antes de regressar à base, contribuiu para pôr o inimigo temporariamente em debandada. Fomos também informados, via rádio, de que o plano de operações não incluía uma possível evacuação, devido à escassez de meios aéreos, e que, depois de reabastecidos de ração de combate e água, teríamos que prosseguir a marcha. Uma tarefa, sem dúvida, quase impossível de concretizar, dadas as depauperadas e extenuantes condições físicas em que nos encontrávamos.
No cume de um aterrador e apavorante morro, livres de surpresas desagradáveis, mas sem a protecção das copas da vegetação angolana, sem comida, sem água e bastante debilitados pelas agruras do clima, estávamos a ser violentamente fustigados pelo escaldante, abrasador e sufocante sol africano e, pior ainda, cercados por um inimigo inclemente e cada vez mais belicoso, hostil, forte e destemido. Tudo contribuía para nos colocar num feixe de nervos e com a nossa já bastante fragilizada resistência física e psicológica cada vez mais em baixo. O nosso aspecto estava longe de ser o melhor: barbas por fazer, camuflados rotos, cobertos de lama e com um cheiro pestilento, muito pior que um bando de salteadores. Éramos um flagrante contraste. De um lado, aquela paisagem edílica, verde e  luxuriante aos nossos pés; do outro, um grupo completamente estoirado e a necessitar urgentemente de um revigorante repouso. E a situação a degradar-se cada vez mais, Mas, quando o desespero parecia ser a nossa situação das próximas horas ou talvez dias, recebemos pela rádio a melhor informação: dentro de poucas horas, os helicópteros da força aérea efectuariam a evacuação de todo o pessoal.
Recebida a notícia, os nossos olhares deixaram de admirar o vasto oceano verde que se espraiava à volta do morro, para começarem a esquadrinhar ansiosamente a linha do horizonte. E respirámos de alívio quando do nada se começaram a vislumbrar, a uma distância razoável, três pontos negros que aumentavam progressivamente e desapareciam por detrás de um ou outro morro, para logo voltarem a aparecer “rapando” a colina seguinte. Não havia dúvidas! Ali estavam os helicópteros que nos vinham socorrer.
O ruído tornou-se ensurdecedor. O heli-canhão descrevia círculos por sobre as nossas cabeças, fazendo fogo sobre o inimigo próximo, que de imediato bateu em retirada, dispersando-se em fuga no meio do mato. Então, à vez, os dois helis mais pequenos, equipados com duas macas, uma de cada lado, deram início à evacuação, começando pelos mais debilitados, enquanto o restante pessoal procurava manter a segurança. Ao fim de algum tempo, com o apoio de helicópteros com maior capacidade, os Pumas, que tão relevantes serviços prestaram , terminava uma operação desgastante de seis dias consecutivos em plena selva angolana.
Não foi aqui narrado um décimo do sofrimento e aflição por que passaram os jovens soldados de vinte anos, durante esta árdua, penosa e fatigante odisseia, em que, na primavera da vida, se viram atirados para o lodaçal de uma desmerecida, injusta e cruel guerra.
Já em Luanda, fomos todos sujeitos a várias juntas médicas, que atribuíram a inoperacionalidade a 92% dos intervenientes desta operação e preconizaram também um considerável número de medidas a serem implementadas durante um período de 22 dias, para debelar a crise.
No final deste período, todo o pessoal foi sujeito a uma nova junta médica, a 15 de Fevereiro de 1973, a qual definitivamente determinou que o Batalhão de Caçadores 3848, «O excelente e valoroso» fosse ingloriamente considerado inoperacional.
A 27 de Fevereiro de 1973, iniciou-se a deslocação da CCS e das diferentes companhias, ou seja, a C. Caç. 3386 (Os Carolas) e C. Caç. 3387 (Os Escorpiões) para os confins do sertão angolano, bastante distantes da zona de guerra, onde permanecemos na paz dos Deuses até ao final da comissão.
M. Aldeias - maldeias@gmail.com

terça-feira, 22 de abril de 2014

O Ataque ao Lunho ( 23/09/71), do blog Metangula 71-73

http://metangula71-73.blogspot.pt/

O Ataque ao Lunho ( 23/09/71)

(Tal como eu o “vi” e guardo na memória)


Tínhamos acabado de chegar ao Niassa, a 12 de Agosto/71, “chequinhas” de todo.
Checa era a palavra que, em Moçambique, designava o Maçarico, o novato, o recém-chegado.

Ficou a CCS em Metangula, verdadeira estância turística, enquanto as Companhias 3393 e 3392 foram para Nova Coimbra e Lunho, respetivamente.

Estávamos no período de adaptação à guerra propriamente dita.
Até ali tudo não passava de teoria, agora as coisas eram mesmo a sério e muito diferentes de tudo o que se tinha aprendido durante os meses de “prática” no pacífico rectângulo europeu.
Agora eram mesmo as nossas vidas que se encontravam em jogo.
Os conselhos dos “velhinhos” eram escutados atentamente e cada um procurava tirar destes conselhos o maior partido possível.
Velhinhos eram os militares que nós, Checas, íamos render nas respectivas missões, e que já tinham muitos meses de Ultramar e, por isso mesmo muita experiência.
Ouvi-los era um acto de inteligência e que apenas nos poderia trazer alguma vantagem.
Casos houve, muitos, em que o desprezo por estes conselhos teve consequências bem trágicas.

Ainda não tinha decorrido um mês e o Major Z, que tinha no Lunho um primo, o Furriel S, decidiu dar repouso aos operacionais do Lunho.
Criou um sistema de rotação em que um pelotão do Lunho era substituído por um pelotão da CCS.
Na CCS apenas havia um Pelotão de Reconhecimento (Pel.Rec.) e foi a este que tocou a sorte de substituir o pelotão do Lunho.

Claro que a ideia caiu na CCS como uma bomba.
A CCS era conhecida, na gíria militar, como os heróis do arame farpado.

Estávamos todos convencidos que a acção militar se limitaria a fazer as picagens nas deslocações entre as nossas companhias – Nova Coimbra e Lunho.
Puro engano, em menos de um mês aí vai um pelotão para o pior buraco do Batalhão e um dos piores do Niassa – o famoso Lunho.

Quando a ordem surgiu não faltaram manifestações de desagrado.
Nenhum dos visados gostou da ideia, bem pelo contrário.
Maldita sorte!
Este desagrado era potenciado pela intenção que estava por trás desta decisão.
Todos sabíamos que a verdadeira finalidade era dar algum privilégio ao primo do major.
Como era possível que ainda não tivesse decorrido um mês e já houvesse necessidade de dar descanso a pelotões do Lunho.

Não tinha decorrido qualquer acto de guerra que justificasse tal decisão.
A indignação ia bem para além dos directamente visados nesta artimanha.

Mas, a tropa é assim mesmo, manda quem pode e obedece quem deve.
Claro que o pelotão do Lunho que foi rendido era o do primo do Major.
Lá foram para o Lunho os heróis do arame farpado, bem a contra gosto.

No famoso dia 23, à noite, a vida corria como de costume.
Na messe de Sargentos e Oficiais celebrava-se o nascimento de um filho do 1º Sargento Jesus (de Chaves) e a noite foi de farra!
A comida mas, principalmente a bebida, foi até dizer, chega.
Quando a festa acabou poucos seriam, ou nenhuns, os oficiais e sargentos que estivessem sóbrios.

Tinham comido bem e bebido ainda melhor.
Foi uma bebedeira quase geral.
Aos tropeções, acabada a festa, dirigiram-se para as camas em que a maior parte caiu sem ter já tino para se despir.
Adormeceram como anjos – anjos trôpegos, claro..

Nas guaritas as sentinelas iam olhando para o vazio sonolentamente.
Nessa noite o pessoal de serviço era todo da CCS e uma das sentinelas era o Miraldo.
De olhos arregalados perscrutava a escuridão do mato.
Qual sono qual carapuça!
Estava bem atento, o Lunho não permitia descuidos, só a sua fama era suficiente para despertar o mais sonolento dos soldados.

Ainda por cima estávamos muito próximos do aniversário da Frelimo.
Face à aproximação desta data as ordens eram mesmo de aumentar o cuidado e reforçar até as vigias.
A Frelimo costumava, no seu aniversário, efectuar sempre alguma acção que pudesse dar algum estrilho na imprensa, nacional e internacional.

O problema era que nunca se sabia onde iria ser efectuada essa acção pelo que todos os quartéis estavam de sobreaviso e prevenção para esta eventualidade.

Entre a meia-noite e a uma da nanhã, o Miraldo que, juntamente com o Barbeiro e o Carvalho, se encontrava de sentinela num posto avançado, constituído por dois bidões de areia e troncos atravessados, começou a ver, ao longe, na direcção do rio Lunho, umas luzes a movimentarem-se.
Estas luzes apareciam e desapareciam por trás dos arbustos, tornando-se, assim, intermitentes.
Alertou os colegas e com a HK21, que havia naquele posto, fez alguns disparos na direcção das luzes.
Estes disparos, efectuados tiro a tiro sem que houvesse qualquer resposta, alertaram o pessoal e não tardou que aparecesse o Capitão Lapa e o Furriel Martins, da CCS, para averiguarem a razão dos mesmos.

Informado do avistamento das luzes o Capitão Lapa deduziu tratar-se de pirilampos e quase repreendeu o Miraldo por ter disparado.
- Vocês são checas e estão com medo.
Ainda não estão habituados a isto.

Checas éramos todos, queria ele dizer que, por se tratar de pessoal da CCS, reagiam como “heróis do arame farpado” sem o calo dos soldados do Lunho.
Dito isto, e como tudo tinha um aspecto normal, retirou-se juntamente com o Furriel.

O Miraldo, não muito convencido, continuou a fazer a sua vigia concentrando a sua atenção na direcção das luzes que tinha visto.
Perto das três da Manhã as luzes voltaram a aparecer mas desta vez já muito próximas da Companhia de Engenharia e, além das luzes, conseguiu vislumbrar também alguns vultos.

Não, não havia dúvidas, não eram pirilampos, andava por ali alguém e este alguém apenas podiam ser guerrilheiros (Turras) sem boas intenções.

Alerta os colegas e com a HK21 começa a fazer fogo de rajada na direcção dos vultos e luzes.
Do meio do mato respondem as Kalashnikov em direção ao quartel.
Das outras guaritas, alertados pelos tiros, começaram também a disparar e tornou-se infernal o barulho que este tiroteio provocava.
Não tardou nada e todos os postos de sentinela disparavam desenfreadamente no sentido das luzes que os tiros das Kalashnikov rasgavam na escuridão.

No silêncio da noite aqueles disparos soaram como trovões.
O pessoal que dormia nas casernas acordou sobressaltado sem se aperceber bem do que se passava. Mas foi um instante!
Apressadamente pegaram nas armas e cartucheiras e, muitos ainda meio despidos, correram para os abrigos que previamente lhes tinham sido atribuídos onde foram engrossar o terrível trovão do tiroteio.
No meio deste barulho infernal mas sobrepondo-se-lhe ouviu-se uma formidável explosão - A ponte do Lunho (Ex-Libris daquele lugar) acabava de ir pelos ares.

Os sargentos e oficiais ainda “anestesiados” acordaram atarantados, sem saber a razão dos disparos.
A forte explosão chamou-os num ápice à realidade.
Era um ataque não havia dúvida.
Pegaram nas armas e cartucheiras e toca a andar em direcção aos abrigos.

O tiroteio era cada vez mais intenso com a chegada do pessoal vindo das camaratas.
Ainda não tinham chegado todos aos abrigos quando começam a cair bombas de armas pesadas.
Uma perto da messe mas do lado de fora do quartel, outra perto da caserna e outra perto das transmissões e parque auto mas também do lado de fora do quartel. Embora perto nenhuma acertou nos alvos mas continuavam a cair cada vez mais perto, umas ao lado e outras dentro do quartel.

O tiroteio aumentava e distinguiam-se perfeitamente os disparos das G3, das Kalashnikov e das metralhadoras pesadas que se encontravam nas guaritas.
A estes disparos sobrepunham-se as granadas das armas pesadas que iam caindo cadenciadamente cada vez mais perto dos respectivos alvos.

O Tigre, um soldado negro, apontador de morteiro, instala o morteiro e começa a ripostar com morteiradas na direcção em que lhe parecia estarem colocadas as armas pesadas dos guerrilheiros. Segundo se dizia na altura, o Tigre chegava a colocar no ar 10 granadas de morteiro antes que a primeira rebentasse.

Quando a primeira caía seguia-se uma cadência impressionante de morteiradas.
Para além da cadência o Tigre foi de uma felicidade extrema pois passado pouco tempo deixaram de se ouvir as bombas das armas pesadas.
Restava apenas o tiroteio das guaritas e abrigos e resposta das Kalashnikov.

A noite foi avançando e o dia começou a dar os primeiros sinais de querer nascer.
As munições começavam a escassear e muitos tinham mesmo gasto todas as cartucheiras de que dispunham.

Os guerrilheiros, face ao silêncio das suas armas pesadas e perante a resposta firme do quartel vendo gorados os seus intentos procuraram embrenhar-se no mato e pôr-se a salvo.
O pessoal do quartel, agora mais encorajado ao pressentir a fuga dos guerrilheiros, redobrou o tiroteio e este só parou quando deixaram de ouvir as Kalashnikov.

Pouco a pouco foi-se estabelecendo o silêncio e, com os primeiros alvores da manhã, todos os olhos procuravam indícios da presença dos guerrilheiros.
Nada!
Todos se tinham posto a salvo no meio do mato, o seu elemento natural.
Tudo isto não durou mais que uma hora mas foi, sem dúvida, a hora mais comprida da vida de quantos a viveram.
Foi feita uma verificação geral e concluiu-se que não havia feridos da nossa parte. Tomaram-se medidas para prevenir novos ataques. Com a chegada do dia e o silêncio instalado começaram, finalmente, a bater mais devagar os corações daqueles bravos soldados que, apesar da falta de experiência deram uma prova enorme de coragem e valor. Tinham ganho a primeira batalha das suas vidas e pelas suas vidas.

Numa inspecção mais pormenorizada verificaram-se muitas paredes com estilhaços das granadas das armas pesadas e alguns estragos de material mas nada de muita monta.

Feita a verificação no exterior viram-se muitos rastos de sangue.
A ponte, a famosa ponte do Lunho, apresentava um rombo que a tornava intransitável.
Um dos tramos da ponte tinha voado e repousava a uns bons metros de distância.

Concluiu-se depois que o ataque tinha sido planeado ao pormenor, da seguinte forma:
- Para os lados do Chissindo, sobranceiro ao vale em que se encontrava o quartel, os guerrilheiros tinham instalado três armas pesadas, dois obuses e um canhão sem recuo (ou dois canhões sem recuo e um obus) dirigindo-as para os pontos estratégicos: Messe de sargentos e oficiais e transmissões, que sencontravam perto umas das outras; casernas dos soldados; parque de viaturas.
Estas armas foram colocadas durante o dia e direccionadas com todo o cuidado;
- Durante a noite os guerrilheiros procuraram envolver o quartel tentando ocupar posições que lhe dessem alguma vantagem sobre o quartel;
- O ataque seria despoletado pelas armas pesadas estando já colocados no terreno os guerrilheiros que após os primeiros rebentamentos apanhariam, de surpresa, os nossos soldados a sair das casernas em direcção aos abrigos.
A acção destinava-se mesmo a tomar o quartel do Lunho ou, pelo menos, causar elevados danos.
Foi o caso da ponte que era a menina dos olhos da companhia e, constituiu, por si só, um pesado revés. .

Veio a saber-se mais tarde que naquele ataque foram mortos cinco guerrilheiros e dois vieram a morrer em função dos ferimentos sofridos.
Também no sítio onde estiveram montadas as armas pesadas se vieram a verificar muitos rastos de sangue.
O Tigre acertou em cheio!

E agora fica a pergunta que me não sai da cabeça desde aquela data: O que aconteceria se não tem havido a “providencial” substituição do pelotão do primo do Major por um pelotão da CCS.
Qual teria sido o desfecho?
Não quero tirar ilações ilegítimas mas esta pergunta nunca mais me abandonou e não sou capaz de encontrar uma resposta.
Teria sido igual o desfecho se não se tivessem sucedido estes “acasos”?

O ataque ao Lunho foi amplamente divulgado, pela sua envergadura, e pelo facto de ter sido sofrido por uma companhia que era “Checa” naquelas paragens.
A tal ponto que este ataque passou a figurar, de autor que desconheço, no famoso Cancioneiro do Niassa.



Nesta canção é evidenciada, sobretudo, a aflição dos “Checas” perante um tal ataque e a falta de munições que a determinado ponto se começou a sentir.
Mas a verdade é que, embora Checas, portaram-se como veteranos e repeliram um dos piores ataques (para o batalhão foi mesmo o pior) que no Niassa aconteceram.
Este ataque ficou marcado de forma indelével na mente de quantos o viveram e é, ainda hoje, lembrado como um dos pontos mais significativos na passagem da juventude para a idade adulta.

Foi para muitos a verdadeira perda da inocência.
A partir daquele dia a vida nunca mais foi o que era.

Este texto baseia-se nos relatos que ouvi directamente dos intervenientes da CCS, neste ataque.

Amadeu Carvalho

P.S.
(Naquele mesmo local, alguns anos antes, em 31de Maio de 1965, foi alvo de uma acção semelhante a famosa Companhia 7 de Espadas – C. Cavª. 754 - de que fazia parte o, ainda mais famoso, ciclista Joaquim Agostinho.
Nesse dia tiveram 6 baixas e mais uma da Companhia de Nova Coimbra que foi em seu auxílio.
A Companhia de Joaquim Agostinho foi uma das que mais baixas sofreu naquela zona, a tal ponto que teve de ser evacuada para a Beira pois foi considerada inoperacional.
Quando uma companhia sofria muitas baixas era considerada psicologicamente incapaz de continuar no teatro de guerra.
Nesta altura ainda não existia o quartel do Lunho e as tropas ali estacionadas encontravam-se alojadas num bivaque (“aquartelamento” feito de tendas de campanha).
(Este apontamento referente à Cª 7 de Espadas foi feito com a colaboração de Eduardo Maria Nunes, do Batalhão de Caçadores 598, um dos que foi em auxílio de Joaquim Agostinho, no dia 31 de Maio de 1965.
O meu agradecimento.