Diversas Crónicas, Vivências, Fotos e outras Recordações traduzidas em texto, de autores diversos da sua passagem pela Guerra, nos territórios da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, nos anos idos de 1961 a 1975...
Sobre o episódio ocorrido nas águas de Nangololo, em 13 de Junho de 1970, é descrito nas páginas 85/87 do livro "Memórias de uma guerra" (todo em verso e documentado com muitas fotos), da autoria do amigo Joaquim Hilario G. Lima, que pertenceu ao BART2901 (CCS, CART2646, 2647 e 2648), aí estacionado desde 28 de Fevereiro de 1970 até 13 de Março de 1971.
(Passo a citar)
O DIA MAIS FATÍDICO Enquanto em Lisboa festejavam As marchas dos Santos populares. Lá longe, nossos olhos choravam Os mortos e feridos militares.
Treze de Junho sete da manhã, Não se previa sermos alvejados. Pequeno almoço de amargo maná, Fermento que gerou desventurados.
E nessa noite, o "IN" engendrou, No reabastecimento de água. A picada de engenhos minou E nos emboscou à morteirada.
Diariamente os soldados iam, Água preciosa ao charco buscar. Picada minada e todos morriam, Corpos desfeitos voavam no ar.
Como descrever aquela tragédia? Oito mortos desfeitos nesse dia ... Feroz inimigo não nos deu trégua, E aconteceu o que não se previa.
Vê-se na imagem destes soldados, Toda a tristeza da dor que sentiam. Apanharam amigos aos bocados, E empilhados a seus pés os viam.
Restos mortais assim transportados, Momentos antes ainda eram vidas. Agora à nossa frente retalhados, Foram horas de dor muito sentidas.
Todos os corpos identificados, Em lençóis brancos, sinal de pureza. Neles embrulhados e sepultados, Entregues à terra mãe natureza.
Tínhamos acabado de chegar ao Niassa, a 12 de Agosto/71, “chequinhas” de todo.
Checa era a palavra que, em Moçambique, designava o Maçarico, o novato, o recém-chegado.
Ficou a CCS em Metangula, verdadeira estância turística, enquanto as Companhias 3393 e 3392 foram para Nova Coimbra e Lunho, respetivamente.
Estávamos no período de adaptação à guerra propriamente dita.
Até ali tudo não passava de teoria, agora as coisas eram mesmo a sério e muito diferentes de tudo o que se tinha aprendido durante os meses de “prática” no pacífico rectângulo europeu.
Agora eram mesmo as nossas vidas que se encontravam em jogo.
Os conselhos dos “velhinhos” eram escutados atentamente e cada um procurava tirar destes conselhos o maior partido possível.
Velhinhos eram os militares que nós, Checas, íamos render nas respectivas missões, e que já tinham muitos meses de Ultramar e, por isso mesmo muita experiência.
Ouvi-los era um acto de inteligência e que apenas nos poderia trazer alguma vantagem.
Casos houve, muitos, em que o desprezo por estes conselhos teve consequências bem trágicas.
Ainda não tinha decorrido um mês e o Major Z, que tinha no Lunho um primo, o Furriel S, decidiu dar repouso aos operacionais do Lunho.
Criou um sistema de rotação em que um pelotão do Lunho era substituído por um pelotão da CCS.
Na CCS apenas havia um Pelotão de Reconhecimento (Pel.Rec.) e foi a este que tocou a sorte de substituir o pelotão do Lunho.
Claro que a ideia caiu na CCS como uma bomba.
A CCS era conhecida, na gíria militar, como os heróis do arame farpado.
Estávamos todos convencidos que a acção militar se limitaria a fazer as picagens nas deslocações entre as nossas companhias – Nova Coimbra e Lunho.
Puro engano, em menos de um mês aí vai um pelotão para o pior buraco do Batalhão e um dos piores do Niassa – o famoso Lunho.
Quando a ordem surgiu não faltaram manifestações de desagrado.
Nenhum dos visados gostou da ideia, bem pelo contrário.
Maldita sorte!
Este desagrado era potenciado pela intenção que estava por trás desta decisão.
Todos sabíamos que a verdadeira finalidade era dar algum privilégio ao primo do major.
Como era possível que ainda não tivesse decorrido um mês e já houvesse necessidade de dar descanso a pelotões do Lunho.
Não tinha decorrido qualquer acto de guerra que justificasse tal decisão.
A indignação ia bem para além dos directamente visados nesta artimanha.
Mas, a tropa é assim mesmo, manda quem pode e obedece quem deve.
Claro que o pelotão do Lunho que foi rendido era o do primo do Major.
Lá foram para o Lunho os heróis do arame farpado, bem a contra gosto.
No famoso dia 23, à noite, a vida corria como de costume.
Na messe de Sargentos e Oficiais celebrava-se o nascimento de um filho do 1º Sargento Jesus (de Chaves) e a noite foi de farra!
A comida mas, principalmente a bebida, foi até dizer, chega.
Quando a festa acabou poucos seriam, ou nenhuns, os oficiais e sargentos que estivessem sóbrios.
Tinham comido bem e bebido ainda melhor.
Foi uma bebedeira quase geral.
Aos tropeções, acabada a festa, dirigiram-se para as camas em que a maior parte caiu sem ter já tino para se despir.
Adormeceram como anjos – anjos trôpegos, claro..
Nas guaritas as sentinelas iam olhando para o vazio sonolentamente.
Nessa noite o pessoal de serviço era todo da CCS e uma das sentinelas era o Miraldo.
De olhos arregalados perscrutava a escuridão do mato.
Qual sono qual carapuça!
Estava bem atento, o Lunho não permitia descuidos, só a sua fama era suficiente para despertar o mais sonolento dos soldados.
Ainda por cima estávamos muito próximos do aniversário da Frelimo.
Face à aproximação desta data as ordens eram mesmo de aumentar o cuidado e reforçar até as vigias.
A Frelimo costumava, no seu aniversário, efectuar sempre alguma acção que pudesse dar algum estrilho na imprensa, nacional e internacional.
O problema era que nunca se sabia onde iria ser efectuada essa acção pelo que todos os quartéis estavam de sobreaviso e prevenção para esta eventualidade.
Entre a meia-noite e a uma da nanhã, o Miraldo que, juntamente com o Barbeiro e o Carvalho, se encontrava de sentinela num posto avançado, constituído por dois bidões de areia e troncos atravessados, começou a ver, ao longe, na direcção do rio Lunho, umas luzes a movimentarem-se.
Estas luzes apareciam e desapareciam por trás dos arbustos, tornando-se, assim, intermitentes.
Alertou os colegas e com a HK21, que havia naquele posto, fez alguns disparos na direcção das luzes.
Estes disparos, efectuados tiro a tiro sem que houvesse qualquer resposta, alertaram o pessoal e não tardou que aparecesse o Capitão Lapa e o Furriel Martins, da CCS, para averiguarem a razão dos mesmos.
Informado do avistamento das luzes o Capitão Lapa deduziu tratar-se de pirilampos e quase repreendeu o Miraldo por ter disparado.
- Vocês são checas e estão com medo.
Ainda não estão habituados a isto.
Checas éramos todos, queria ele dizer que, por se tratar de pessoal da CCS, reagiam como “heróis do arame farpado” sem o calo dos soldados do Lunho.
Dito isto, e como tudo tinha um aspecto normal, retirou-se juntamente com o Furriel.
O Miraldo, não muito convencido, continuou a fazer a sua vigia concentrando a sua atenção na direcção das luzes que tinha visto.
Perto das três da Manhã as luzes voltaram a aparecer mas desta vez já muito próximas da Companhia de Engenharia e, além das luzes, conseguiu vislumbrar também alguns vultos.
Não, não havia dúvidas, não eram pirilampos, andava por ali alguém e este alguém apenas podiam ser guerrilheiros (Turras) sem boas intenções.
Alerta os colegas e com a HK21 começa a fazer fogo de rajada na direcção dos vultos e luzes.
Do meio do mato respondem as Kalashnikov em direção ao quartel.
Das outras guaritas, alertados pelos tiros, começaram também a disparar e tornou-se infernal o barulho que este tiroteio provocava.
Não tardou nada e todos os postos de sentinela disparavam desenfreadamente no sentido das luzes que os tiros das Kalashnikov rasgavam na escuridão.
No silêncio da noite aqueles disparos soaram como trovões.
O pessoal que dormia nas casernas acordou sobressaltado sem se aperceber bem do que se passava. Mas foi um instante!
Apressadamente pegaram nas armas e cartucheiras e, muitos ainda meio despidos, correram para os abrigos que previamente lhes tinham sido atribuídos onde foram engrossar o terrível trovão do tiroteio.
No meio deste barulho infernal mas sobrepondo-se-lhe ouviu-se uma formidável explosão - A ponte do Lunho (Ex-Libris daquele lugar) acabava de ir pelos ares.
Os sargentos e oficiais ainda “anestesiados” acordaram atarantados, sem saber a razão dos disparos.
A forte explosão chamou-os num ápice à realidade.
Era um ataque não havia dúvida.
Pegaram nas armas e cartucheiras e toca a andar em direcção aos abrigos.
O tiroteio era cada vez mais intenso com a chegada do pessoal vindo das camaratas.
Ainda não tinham chegado todos aos abrigos quando começam a cair bombas de armas pesadas.
Uma perto da messe mas do lado de fora do quartel, outra perto da caserna e outra perto das transmissões e parque auto mas também do lado de fora do quartel. Embora perto nenhuma acertou nos alvos mas continuavam a cair cada vez mais perto, umas ao lado e outras dentro do quartel.
O tiroteio aumentava e distinguiam-se perfeitamente os disparos das G3, das Kalashnikov e das metralhadoras pesadas que se encontravam nas guaritas.
A estes disparos sobrepunham-se as granadas das armas pesadas que iam caindo cadenciadamente cada vez mais perto dos respectivos alvos.
O Tigre, um soldado negro, apontador de morteiro, instala o morteiro e começa a ripostar com morteiradas na direcção em que lhe parecia estarem colocadas as armas pesadas dos guerrilheiros. Segundo se dizia na altura, o Tigre chegava a colocar no ar 10 granadas de morteiro antes que a primeira rebentasse.
Quando a primeira caía seguia-se uma cadência impressionante de morteiradas.
Para além da cadência o Tigre foi de uma felicidade extrema pois passado pouco tempo deixaram de se ouvir as bombas das armas pesadas.
Restava apenas o tiroteio das guaritas e abrigos e resposta das Kalashnikov.
A noite foi avançando e o dia começou a dar os primeiros sinais de querer nascer.
As munições começavam a escassear e muitos tinham mesmo gasto todas as cartucheiras de que dispunham.
Os guerrilheiros, face ao silêncio das suas armas pesadas e perante a resposta firme do quartel vendo gorados os seus intentos procuraram embrenhar-se no mato e pôr-se a salvo.
O pessoal do quartel, agora mais encorajado ao pressentir a fuga dos guerrilheiros, redobrou o tiroteio e este só parou quando deixaram de ouvir as Kalashnikov.
Pouco a pouco foi-se estabelecendo o silêncio e, com os primeiros alvores da manhã, todos os olhos procuravam indícios da presença dos guerrilheiros.
Nada!
Todos se tinham posto a salvo no meio do mato, o seu elemento natural.
Tudo isto não durou mais que uma hora mas foi, sem dúvida, a hora mais comprida da vida de quantos a viveram.
Foi feita uma verificação geral e concluiu-se que não havia feridos da nossa parte. Tomaram-se medidas para prevenir novos ataques. Com a chegada do dia e o silêncio instalado começaram, finalmente, a bater mais devagar os corações daqueles bravos soldados que, apesar da falta de experiência deram uma prova enorme de coragem e valor. Tinham ganho a primeira batalha das suas vidas e pelas suas vidas.
Numa inspecção mais pormenorizada verificaram-se muitas paredes com estilhaços das granadas das armas pesadas e alguns estragos de material mas nada de muita monta.
Feita a verificação no exterior viram-se muitos rastos de sangue.
A ponte, a famosa ponte do Lunho, apresentava um rombo que a tornava intransitável.
Um dos tramos da ponte tinha voado e repousava a uns bons metros de distância.
Concluiu-se depois que o ataque tinha sido planeado ao pormenor, da seguinte forma:
- Para os lados do Chissindo, sobranceiro ao vale em que se encontrava o quartel, os guerrilheiros tinham instalado três armas pesadas, dois obuses e um canhão sem recuo (ou dois canhões sem recuo e um obus) dirigindo-as para os pontos estratégicos: Messe de sargentos e oficiais e transmissões, que sencontravam perto umas das outras; casernas dos soldados; parque de viaturas.
Estas armas foram colocadas durante o dia e direccionadas com todo o cuidado;
- Durante a noite os guerrilheiros procuraram envolver o quartel tentando ocupar posições que lhe dessem alguma vantagem sobre o quartel;
- O ataque seria despoletado pelas armas pesadas estando já colocados no terreno os guerrilheiros que após os primeiros rebentamentos apanhariam, de surpresa, os nossos soldados a sair das casernas em direcção aos abrigos.
A acção destinava-se mesmo a tomar o quartel do Lunho ou, pelo menos, causar elevados danos.
Foi o caso da ponte que era a menina dos olhos da companhia e, constituiu, por si só, um pesado revés. .
Veio a saber-se mais tarde que naquele ataque foram mortos cinco guerrilheiros e dois vieram a morrer em função dos ferimentos sofridos.
Também no sítio onde estiveram montadas as armas pesadas se vieram a verificar muitos rastos de sangue.
O Tigre acertou em cheio!
E agora fica a pergunta que me não sai da cabeça desde aquela data: O que aconteceria se não tem havido a “providencial” substituição do pelotão do primo do Major por um pelotão da CCS.
Qual teria sido o desfecho?
Não quero tirar ilações ilegítimas mas esta pergunta nunca mais me abandonou e não sou capaz de encontrar uma resposta.
Teria sido igual o desfecho se não se tivessem sucedido estes “acasos”?
O ataque ao Lunho foi amplamente divulgado, pela sua envergadura, e pelo facto de ter sido sofrido por uma companhia que era “Checa” naquelas paragens.
A tal ponto que este ataque passou a figurar, de autor que desconheço, no famoso Cancioneiro do Niassa.
Nesta canção é evidenciada, sobretudo, a aflição dos “Checas” perante um tal ataque e a falta de munições que a determinado ponto se começou a sentir.
Mas a verdade é que, embora Checas, portaram-se como veteranos e repeliram um dos piores ataques (para o batalhão foi mesmo o pior) que no Niassa aconteceram.
Este ataque ficou marcado de forma indelével na mente de quantos o viveram e é, ainda hoje, lembrado como um dos pontos mais significativos na passagem da juventude para a idade adulta.
Foi para muitos a verdadeira perda da inocência.
A partir daquele dia a vida nunca mais foi o que era.
Este texto baseia-se nos relatos que ouvi directamente dos intervenientes da CCS, neste ataque.
Amadeu Carvalho
P.S.
(Naquele mesmo local, alguns anos antes, em 31de Maio de 1965, foi alvo de uma acção semelhante a famosa Companhia 7 de Espadas – C. Cavª. 754 - de que fazia parte o, ainda mais famoso, ciclista Joaquim Agostinho.
Nesse dia tiveram 6 baixas e mais uma da Companhia de Nova Coimbra que foi em seu auxílio.
A Companhia de Joaquim Agostinho foi uma das que mais baixas sofreu naquela zona, a tal ponto que teve de ser evacuada para a Beira pois foi considerada inoperacional.
Quando uma companhia sofria muitas baixas era considerada psicologicamente incapaz de continuar no teatro de guerra.
Nesta altura ainda não existia o quartel do Lunho e as tropas ali estacionadas encontravam-se alojadas num bivaque (“aquartelamento” feito de tendas de campanha).
(Este apontamento referente à Cª 7 de Espadas foi feito com a colaboração de Eduardo Maria Nunes, do Batalhão de Caçadores 598, um dos que foi em auxílio de Joaquim Agostinho, no dia 31 de Maio de 1965.
O meu agradecimento.
Eram assim as primeiras noites de sentinela, do 4º Grupo de Combate naquele inferno chamado Serra do Mapé.
Ali fomos parar cerca de 120 jovens acabados de sair da adolescência, brutalmente lançados na fogueira da guerra colonial.
Os postos de vigia, eram feitos com um pequeno telheiro de chapa zincada e com barris cheios de areia, dispostos em meia lua, num morro logo à saída do abrigo subterrâneo.
O cenário era surrealista!
Alguns corações gravados nas aduelas dos barris, com as setas do Cupido das muitas namoradas, noivas ou mesmo mulheres de muitos que já por ali passaram.
- Cabrões !
Com um piparote bem medido, Uvaldo espalmou o mosquito contra o pescoço.
Já não me lixas mais.
Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos dolorosamente inchados de tanta ferroada.
Prestes a desatar aos berros.
Ao redor do aquartelamento, à volta dos 4 postes de iluminação que mal iluminavam, os mosquitos saíam da noite em nuvens cerradas.
"Maldita terra, malditos mosquitos.
Não bastava este calor de morrer."
Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruídos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se ao redor das lâmpadas...
Era um zumbido esquisito e suspeito.
Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas, mesmo no abrigo junto, serenou-o.
- Se estivesse sozinho morria de cagaço, pensou o Uvaldo!...
Olhou o relógio de pulso.
Os ponteiros fosforescentes indicavam as três horas da madrugada.
Dentro de três quartos de hora despertaria o Zé da Povoa para o render.
Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.
Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a disciplina imposta pelo Furriel que comandava a Secção, sobrepôs-se ao desejo.
Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada ou levar um tiro, pois o IN podia detetar a incandescência do apetecido cigarro na penumbra da noite.
"- Sentinela, éh sentinela !"
Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.
- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?
Pela voz, reconheceu o furriel Leitão.
- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.
- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.
Uvaldo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite.
Enervado, tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.
- Acorda, Zé, está na hora.
O camarada soergueu-se da cama improvisada, estremunhado.
- Já ? Não me estás a tramar ?
- Vá, levanta-te. Não acordes o Vidinha.
- Logo agora que estava a sonhar com a minha mulher, que deixei lá no bairro das Caxinas.
Tens um cigarro ?
- Olha o Furriel.
- O Furriel foi dar a volta aos outros postos.
Só daqui a 20 minutos é que volta a passar.
Dá cá o cigarro que eu uso o quico e faço um buraco no chão para botar o fumo fora!
O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.
Podia ver-se a 500 metros bem lá no fundo da pista.
- Não te deitas ?
- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.
- Saudades? Deixa lá que 4ª feira é dia de São Correio e já estávamos a 3 dias.
Falavam em surdina, para não acordar o Vidinha.
Os mosquitos parece que foram pra outras bandas.
Entretanto, sai do abrigo o Raposo, que não tinha sono nenhum.
- Sabias que as peras que trouxe da minha terra, ainda estão rijas como cornos? - disse o Uvaldo.
-Ainda duram? Perguntou o Zé da Póvoa, dizendo que julgava que tinham acabado ainda em pleno alto mar.
- E tu sabias que deixei um filho na barriga da minha mulher?
- Puta de merda esta guerra!
- Dizes bem, esta merda.
Subitamente, um estampido acordou a noite.
- Ouviste ?
- Foi no posto junto à porta de armas.
Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.
Silenciosamente aproxima-se o Furriel que anda a fazer ronda.
Eram 4 da matina.
Passa palavra e vai avisar o Comandante.
Pela vala comum, tropeçando em dezenas de ratos, o Gouveia que entretanto tinha também saltado do abrigo.
- Será um ataque?
Disparou um “verilaite” para o ar e nada!!!
Ficamos de dedos crispados nas G-3.
O Congolo, negro como um tição aparece e prega-nos um susto do caraças.
- Terá morrido alguém ?
- E nós aqui sem saber de nada.
- Que porra de situação.
- Calma - aconselhou Furriel. - Não me parece coisa grave.
- Sentinela! Sentinela? – alguém murmurava próximo.
- Quem está aí ? - perguntaram em coro.
- É o furriel Crispim. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão morrer.
Foi o Palhaço que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou às rajadas como um maricas.
Algum bicho que tocou nas latas penduradas no arame farpado.
- Que cagaço, meu furriel ! Disse o Uvaldo.
- Já pensávamos que os turras tinham atacado.
-O Palhaço insiste que viu 2 turras já dentro da 2ª linha de arame farpado!!!?
- Também não tinham sorte nenhuma, pois o Furriel Godinho tinha a zona toda armadilhada com minas, e dificilmente chegariam inteiros ao arame farpado da 1ª linha.
- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos e olhos bem abertos!
Olhos bem abertos. ok? Gritou o Capitão.
- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Zé da Póvoa. - Ia-me borrando todo, meu Capitão.
- O furriel disse que eram as latas mas podiam muito bem ter sido os turras.
- Nunca se sabe.
- Afinal, quem é que está de sentinela? Eu ou vocês ? – questionou o Furriel.
Depois de passar palavra e feita uma incursão pela pista, tudo voltou à normalidade.
O Capitão reúne os Comandantes dos Grupos de Combate para fazerem um ponto da situação.
Já ninguém mais dormiu nessa noite.
Amanhece.
O cheiro da terra fendida e os boqueirões rasgados na picada, cheios de sede são característicos da Africa, bem diferente do nosso.
Pouca água e uma vegetação serrada, aliados ao imenso calor, contribuem para este cheiro da terra.
O 3º Grupo de Combate do Alf Lourenço Marques vai à água.
O furriel Marques do Obus, prepara-se para iniciar a saudação matinal de 2 ou 3 “morteiradas” do Obus 14.
A Frelimo temia esta arma e não se atrevia a grandes aventuras nas proximidades do aquartelamento.
Íamos a caminho da Mataca, numa coluna de abastecimentos, eram cerca do meio-dia.
Já tínhamos picado, debaixo de um sol tórrido e o Gouveia, com o seu "olho de lince", já tinha detetado uma mina anticarro que foi desativada pelo Furriel Milº Godinho.
A coluna avança e percorridos cerca de 500 metros até à famosa "curva da morte".
A picada, naquele sítio, tinha a forma do gancho apertado, preferida pelo IN para as emboscadas, pois começava-se a descer e do lado esquerdo era uma ravina com um declive grande.
As viaturas tinham de se encostar ao morro do lado direito para não capotarem.
O matope estava muito escorregadio.
A meu lado ia o condutor Crespo.
O apontador de metralhadora, Vasco Matinha, estava a descoberto sobre os sacos de farinha que iam no 404 e logo atrás vinham mais 2 Unimogs "pinchas", com duas secções e as outras duas, sempre que o terreno assim permitisse, faziam a progressão encostados à mata..
A descida estava a ser difícil pois as viaturas dificilmente se seguravam.
De repente um estrondo, logo seguido de outro, característicos de granadas ofensivas.
Rapidamente o pessoal saltou das viaturas e procurou abrigo fora da picada.
O declive era grande e muitos escorregaram pela ravina abaixo.
Eu saltei do 404, mas fiquei entre morro e a viatura.
O condutor Crespo também salta e tudo parecia estar à acontecer em câmara lenta, como que num filme.
Vi o Unimog, que ninguém tinha travado, vir direito a mim.
Iam 2 mil Kg. de farinha para o pão, na caixa do Unimog.
Apercebo-me que já não tenho tempo de passar para o outro lado e perante ficar esmagado debaixo do rodado traseiro da viatura, agarro-me a uma liana que crescia no morro.
Mesmo assim não evito que o rodado me passe por cima dos pés.
Começou então o fim do mundo: as explosões continuam (soube mais tarde que tinham sido só dois ou 3 elementos do IN que do alto de um morro tinham atirado três ou quatro granadas ofensivas para o meio da coluna).
Momentaneamente, houve alguma desorientação, mas a malta rapidamente se agrupou e 3 ou 4 morteiradas e umas rajadas de G3, para o cimo do morro, “calaram” o IN.
Reorganizada a coluna e depois de verificarmos que ninguém estava ferido, pedimos reforços à Mataca (um grupo de combate já vinha ao nosso encontro) iniciamos uma batida que como habitualmente foi infrutífera.
O Furriel Enfermeiro Polana perguntou-me se estava bem e perante a minha resposta de que embora sentisse um ardor no pé esquerdo, tudo parecia estar bem. Continuamos e eis que nos encontramos com o grupo de combate da Mataca, que vinha ao nosso encontro e já tinha “picado” o resto da picada.
Chegados ao aquartelamento e quando já as forças estão a ser retemperadas com 2 latas de Laurentina bem fresquinhas, ritual que acontecia sempre que chegávamos de uma “operação”.
O meu grupo de combate “saboreava” sempre uma lata de cerveja bem fresquinha, paga por mim.
Após este ritual decido tirar as botas.
Aqui confesso que logo vi que o pé esquerdo não estava nas melhores condições e o direito também começava a doer-me.
O sangue tinha atravessado os 2 pares de meias e as dores começavam a incomodar-me.
Tinha um dedo completamente esfacelado.
Com uns LMs no bucho as dores foram atenuadas.
Daí para a frente comecei a ter grandes dificuldades nas progressões.
O alferes médico em Macomia, constatou-me que era melhor ir tirar radiografias ao Hospital Militar de Nampula. Já em Nampula no HM125, depois de uma viagem assustadora no NorAtlas (O “elefante” ou “barriga de jinguba”) das FA, a equipa médica decide operar-me.
Fui operado no dia 2 de Fevereiro.
A saga continua mais à frente dos meus Pedaços de memória…de rajada!
Deixo-vos aqui um texto do blog XIRICO :: Moçambique, a quem agradeço...
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São 5 da manhã.
Está abafado e húmido.
Abro os olhos e fixo o telhado de zinco através da rede mosquiteira sustentada por 4 paus metidos nos cantos da cama militar. Cheira a camarata superlotada e a fardas suadas.
Tenho a G3 no chão perto dos chinelos de borracha. Algumas “pinups” coladas às paredes dão-me os bons dias e fazem-me relembrar onde estou. Estou naquilo a que se chama “um buraco”.
Lá no alto, na armação da camarata, passa o rato das 5. Outros dois fizeram disparar as ratoeiras durante a noite, guincharam e calaram-se. As redes mosquiteiras protegem-nos dos mosquitos mas também dos ratos. Alguma técnica é preciso para esticar os lenções e principalmente para sair debaixo da gaze em alta correria sem ficar enrolado.
Esta madrugada sinto haver alguma atividade. Alguns atiradores já se levantaram e preparam a mochila.
O repelente e a rede verde contra os mosquitos, a escolha das latas da ração de combate atirando as intragáveis para o caixote ao canto da caserna.
Calçar as botas e o clique do cinturão.
Granadas, meter balas nos carregadores, preparar os dilagramas e sair em silêncio.
Não se acendem luzes nem lanternas e as palavras são ditas em sussurro.
Logo depois o grupo de combate avança em fila sendo engolido pelo mato cerrado com as G3 como bebés deitadas no braço e uma fé de que “não há de ser nada”.
O dia começa a nascer e a erva húmida do cacimbo noturno ainda molha as calças.
Evitam-se os carreiros que podem estar plantados de minas antipessoais.
A missão de patrulhamento deverá prevenir emboscadas na estrada por onde regressará a coluna auto a caminho de Mueda.
Entretanto o sol aquece o telhado de zinco e não há condições para ficar lá dentro.
Levanto-me vestido.
O equipamento 24 horas, resume-se a uns calções de ganga verde, aos chinelos “made in china” que são descartáveis no momento da corrida, e à inseparável canhota.
Há muito que renunciei ao matabicho. Deixei de tentar o intragável café de baratas e o bocado de pão recheado de gorgulho. Retiro o miolo mas os bichinhos ainda ficam incrustados na côdea. Uma lata de sumo de alperce da ração é preferível.
Quando se acabam os sumos, atacamos a água contaminada e apanhamos amibiose.
Não sei se é pior que o frequente paludismo.
Mas é igualmente mau.
Vejo alguns soldados escalados a encher os bidons no cimo da armação vedada a zinco, com a água trazida de uma nascente perto do destacamento.
Trouxeram-me bananas verdes. À tarde, poderemos tomar um banho rápido e refrescante para retirar a terra vermelha e o suor do trabalho ou duma peladinha de bola.
A meio da manhã, o pessoal que não tem tarefas de manutenção atribuídas, junta-se no alpendre colado à camarata.
É a sala de convívio sem visitas.
Cadeiras feitas com madeiras de barril de vinho, chão terra, caixote a fazer de mesa.
Poucos leêm. Alguns respondem à última carta da mãe ou da namorada.
Outros falam dos planos futuros ou das traquinices que ficaram para trás, lá na aldeia, nos tempos de recruta.
Raramente há novidades.
Como aquela novidade que teve o Alferes Silva.
Recebeu uma carta da sua noiva convidando-o para o casamento... dela!...
Ele que não passava um dia sem lhe escrever e que fazia planos de vida.
As cartas de jogar, o King, a Lerpa ou o Sete e meio também fazem passar o tempo e às vezes perder vencimentos.
As anedotas já as conhecemos todas e se alguém tenta uma nova, assiste ao recado do auditório cofiando a barba invisível, que lhe tira a vontade de concluir.
Confiamos nas sentinelas que do alto das torres de vigias nos cantos do aquartelamento varrem a zona desmatada para lá da vedação.
Qualquer início de ataque é avisado com um grito de alarme. Ninguém pensa nisso até ao momento de acontecer.
Hoje ao meio-dia espero que uma avioneta particular, que faz a ligação turística para as Seicheles, poise aqui na pista de terra com uns quilos de lagosta que encomendámos.
Não para comer com requinte, ou para saborear como um manjar. Simplesmente para matar a fome. Para a acompanhar, cortámos banana verde às rodelas e fritámos.
Com um bocado de imaginação parece batata frita!
No barracão de zinco que serve de refeitório, “milhões” de moscas procuram a sombra e o cheiro da comida. Sentados na comprida mesa, a nossa mão esquerda tapa o copo metálico com água ou cerveja (se ainda não acabou), enquanto a mão direita segura o garfo, afasta as moscas mais teimosas e vai-nos atestando dos repetidos “ciclistas”, “atacadores” ou “arroz sem estilhaços”.
Às vezes a paciência esgota-se, larga-se tudo e saímos do refeitório quente e insuportável, perguntando aos botões o que fizemos para estar ali.
Vou à tenda do Cabo de transmissões ver se ele já enviou o meu pedido para ser substituído neste “buraco”. Já lá vão seis meses que me parecem 6 séculos e não há meio de aparecer um “checa” que me substitua.
Começo a ficar um pouco “apanhado”.
Entretanto, ia acontecendo uma desgraça.
O Zé Tó tratava do rato que lhe entrou na ratoeira de caixa. Costuma tirá-lo da caixa e matá-lo com dois pontapés.
Desta vez achou que seria “diferente” regá-lo e chegar-lhe o fogo.
O rato em chamas correu veloz rumo ao paiol de munições.
Todos se atiram ao chão gritando pela tragédia eminente.
Passam os minutos e o estrondo não acontece.
O Zé Tó levou com uma escalas noturnas nos postos de vigia e deve ter ganho para o susto.
A coluna com uns 6 carros prepara-se para voltar a Mueda depois de ter feito o reabastecimento de géneros e munições.
A primeira Berliet está atulhada de sacos de terra prevenindo um rebentamento de mina anti-carro. Tem ainda instalada duas metralhadoras pesadas.
Leva o condutor e só mais dois soldados para minimizar as perdas.
Mas o atarracado soldado António avisa logo - “Eu vou nesta. É "fézada".
Nunca me aconteceu nada e não vai acontecer desta vez”.
Nunca me vou esquecer.
Valentia, inconsciência ou ambas as coisas.
Apesar da seriedade do momento, não se vê atitudes de medo, mas todos sabem pelo que vão passar.
São raras estas colunas que não sejam atacadas.
Dois dos carros são Unimogs, sem qualquer proteção, aos soldados que lá vão sentados de peito feito, virados para o mato com a G3 entre as pernas e preparados para saltar ao primeiro tiro.
As minas podem destruir quase completamente um Unimog.
Sem alaridos nem festejos a coluna parte a caminho do inferno.
Os mais veteranos conhecem cada reta, cada curva da morte e quais os lugares “bons” para emboscadas.
Será que todos chegarão ao destino?
Fico a pensar como tenho sorte em não ser minha função fazer colunas militares.
A tarde abrasadora vai correndo a caminho das fatídicas 5 ou 6 da tarde.
É a hora da morteirada.
O inimigo sabe que depois, cai a noite e não haverá patrulha de perseguição.
Já não atacam há 3 dias e é capaz de ser hoje.
Não é por isso que altero a minha rotina e aproveito para tomar o habitual banho.
Retiro o toco do bidon.
Sai um jacto de água para retirar os restos do sabão LifeBuoy. Nesse exato momento ouve-se ... e sente-se dentro do peito ... dois flops seguido de mais dois, como garrafas de champagne a serem abertas, avisando que a festa começa agora.
Um dos sentinelas grita forte:
Morteiraaaaadaaaaa !
Não é a primeira vez.
Os movimentos são automáticos.
Agarro na G3 encostada ao zinco, e tal como estou, ainda com algum sabão e descalço, bato um recorde olímpico de barreiras, aproveitando os poucos segundos antes do silvo descendente dos morteiros e as explosões mortíferas no interior do quartel.
Preciso chegar ao abrigo, onde está o Obus 8.8., antes que elas começarem a rebentar.
Tenho a obrigação de tentar localizar a posição do morteiro e fazer uma barragem de fogo.
Aparecem mais um ou dois soldados ofegantes para ajudar a municiar e deslocar o obus.
Sei que uma morteirada caída no interior do abrigo pode fazer explodir as granadas de obus, do tamanho de bazucas de cerveja 2M, e nem o canhão ficava inteiro.
Nunca aconteceu.
Não acredito que aconteça.
Mas caíram a alguns metros e por várias vezes.
Uma das morteiradas caiu perto duma trincheira e um furriel que espreitava teve um grave ferimento no pescoço.
Foi rapidamente carregado para a tenda do enfermeiro que se aplicou o melhor que sabia.
Espreitei para ver quem era, e arrependi-me.
No oleado que cobria o chão, corria uma faixa vermelha de sangue.
Recuei mal disposto.
Foi evacuado no dia seguinte numa D.O. para o hospital de Mueda e felizmente safou-se.
Safou-se de morrer e safou-se de Omar!
Depois de sair de Omar, estive em Nangade, Mocímboa da Praia, Diaca, Sagal e Mueda. Sempre me impressionou a valentia e coragem que vi naqueles jovens, de incorporação local e metropolitanos, da “pacaça” ou de forças especiais, que se viram envolvidos numa guerra inglória que poderia ter sido evitada.
A todos eles aqui deixo o meu testemunho e apreço.