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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

OS ESTROPIADOS, por Abel Lima

 
Abel Lima

Só mais um bocadinho da história do BART2901 e de Nangololo - pág. 93
(Lembro que este batalhão teve 19 baixas mortais e 43 feridos graves)
 


OS ESTROPIADOS

Cabo Delgado de etnia Maconde,
Eterna prisão do meu pensamento.
Imagem que o meu olhar não esconde,
O ter vivido em tanto sofrimento.

Sem membros, cegos os estilhaçados,
Foram quarenta e três feridos graves.
Para sempre ficaram mutilados,
Sem cura para tais enfermidades.

Trouxeram as sequelas da guerra,
E com elas tiveram de viver.
Além de sofrerem naquela terra,
Sofreram também cá até morrer.

Sem lhes reconhecer seu valor
Votados p'ra sempre ao esquecimento.
Se não lhes puderem tirar a dor,
É justo dar-lhes reconhecimento.

Há muito mais mas fico por aqui... Gostei deste livro.
 

João Maria Ribeiro Silva

Já agora para completar o comentário tivemos ( BART 2901 ) ...
Mortos = 17,
F/Graves = 38,
F/Ligeiros = 56,
por acidente 
Mortos = 2,
F/Graves = 5,
F/Ligeiros = 5 
Total 123 ........

sábado, 10 de maio de 2014

Companhia sofre uma baixa na primeira saída, por Carlos Paiva (CART 2918)

Companhia sofre uma baixa na primeira saída

A Companhia de Artilharia 2918 foi enviada para Diaca, no distrito de Cabo Delgado, bem no centro do planalto dos Macondes, entre Mueda e Mocímboa da Praia, em Moçambique. 
Eu era o comandante do 1.º pelotão.


Chegámos a Diaca em 21 de Junho de 1970 – e no dia 1 de Julho começava a Operação Nó Górdio, que foi, sem a mais pequena dúvida, a maior acção militar jamais lançada em toda a Guerra Colonial.
Tínhamos apenas 10 dias de Moçambique. 


O meu pelotão e o 3.º pelotão largaram às cinco horas da manhã daquele 1 de Julho, integrados na Operação Nó Górdio, com ração de combate para três dias. 
Seguimos rumo ao Rio Muera, passando pela ‘curva da morte’ – onde eram frequentes as emboscadas montadas pelos guerrilheiros da Frelimo.

O comandante de companhia, o nosso capitão Simões, ia connosco – para nos dar a confiança necessária aos primeiros tempos de uma guerra que desconhecíamos. 
Seguíamos em silêncio absoluto. 
Avançávamos pela picada em fila de pirilau, atrás uns dos outros, com muito cuidado, olhos bem abertos, armas prontas a disparar, dedo no gatilho. 
Era preciso ver aonde pisávamos para evitar as minas. 
A atmosfera era pesada. 
De quando em vez, arrepiávamos-nos com os guinchos dos macacos.
Tínhamos andado uns quatro quilómetros quando detectámos a primeira mina antipessoal.

 

A fila imobilizou-se. 
Os soldados dobrados sobre as G-3 perscrutavam atentamente qualquer movimento estranho. 
Não levávamos o equipamento para rebentar minas – que ficara esquecido no quartel. 
À falta de melhor solução e com a ingenuidade da altura, eu próprio rebentei a mina com um tiro de G-3. 

Chegados à ‘curva da morte’, virámos à esquerda, em direcção ao Rio Muera.

Dois quilómetros mais à frente, parámos para pernoitar ali mesmo. 

O dia seguinte começou cedo. 

Coube ao meu pelotão a tarefa de começar a “picar” à procura de minas. 

Avançámos poucas centenas de metros quando, de repente, se ouviu um grande estrondo: um soldado caiu – e todos os outros, em instinto de defesa, atiraram-se ao chão e dispararam rajadas para a mata. 
O soldado contorcia-se com dores: cerrava os dentes nos lábios e tinha os olhos fechados e rosto sujo de terra e de trotil. 
Na extremidade de uma perna, apenas se viam fragmentos e tendões destruídos por uma mina: um pé tinha desaparecido.


Era o soldado José Joaquim Guerreiro da Silva – a primeira vítima da companhia. 
O cabo enfermeiro tentava minorar-lhe as dores com injecções de morfina. 

Pedimos por rádio uma evacuação urgente. 

Enquanto o helicóptero não chegava, os fumadores puxaram dos cigarros LM.

Passados cerca de 20 minutos, ouvimos um ronco no ar que se aproximava. 
Era o helicóptero. 

Nós já tínhamos preparado na picada um local para a aterragem. 

O ‘heli’ pousou, carregou a primeira baixa da nossa companhia e levantou voo atirando poeira e vento para todos os lados.

"AGORA OS MEUS DIAS PASSAM DEPRESSA DE MAIS"
Carlos Paiva nasceu em São Martinho de Mouros, no concelho de Resende, distrito de Viseu. 
Fez o curso liceal num colégio interno. 
Quando passou à disponibilidade, em Setembro de 1972, ficou por Lisboa. 

“O meu primeiro emprego, em Janeiro de 1973, foi no Ministério da Educação, como 3.º oficial”, recorda Carlos Paiva. 
Em Setembro, casou-se e, em Julho do ano seguinte, entrou para o Banco Pinto e Sotto Mayor. 
O casal tem duas filhas. 
Hoje, Carlos Paiva está reformado da banca, onde trabalhou durante 30 anos. 
Vive com a mulher no Feijó, na Margem Sul do Tejo. 
O casal tem duas netas. 
“Não há dúvida de que melhor que ser pai é ser avô. 
Agora, sucede o contrário de outros tempos: os dias passam depressa”, diz.

A MINHA GUERRA
Carlos Paiva.
Companhia de Artilharia 2918. 
Moçambique (1970-1972). 
Hoje, aos 59 anos, no Feijó, Margem Sul do Tejo.

NOTA
Os leitores do Correio da Manhã podem agora contar-nos as suas histórias de guerra – em Angola, em Moçambique ou na Guiné. 
Queremos ouvi-las. 
O CM publica as melhores. 
Contacte-nos por telefone (213185200), mail (historiasdaguerra@correiomanha.pt) ou carta (Avenida João Crisóstomo, n.º 72, 1069-043 Lisboa).

segunda-feira, 31 de março de 2014

Memória Fotográfica da Guerra em Moçambique, por Ricardo Quintino

Memória Fotográfica da Guerra em Moçambique

A todos os que viveram a guerra em Moçambique, aconselho que vejam as imagens constantes do vídeo, que aqui vos deixo abaixo:



Por Ricardo Quintino

domingo, 6 de outubro de 2013

Um dia em Omar...

Deixo-vos aqui um texto do blog XIRICO :: Moçambique, a quem agradeço...
 
.......................///.......................
 
São 5 da manhã.
Está abafado e húmido.
Abro os olhos e fixo o telhado de zinco através da rede mosquiteira sustentada por 4 paus metidos nos cantos da cama militar. Cheira a camarata superlotada e a fardas suadas.
Tenho a G3 no chão perto dos chinelos de borracha. Algumas “pinups” coladas às paredes dão-me os bons dias e fazem-me relembrar onde estou. Estou naquilo a que se chama “um buraco”.
 
Lá no alto, na armação da camarata, passa o rato das 5. Outros dois fizeram disparar as ratoeiras durante a noite, guincharam e calaram-se. As redes mosquiteiras protegem-nos dos mosquitos mas também dos ratos. Alguma técnica é preciso para esticar os lenções e principalmente para sair debaixo da gaze em alta correria sem ficar enrolado.
   
   
Esta madrugada sinto haver alguma atividade. Alguns atiradores já se levantaram e preparam a mochila.
O repelente e a rede verde contra os mosquitos, a escolha das latas da ração de combate atirando as intragáveis para o caixote ao canto da caserna.
Calçar as botas e o clique do cinturão.
Granadas, meter balas nos carregadores, preparar os dilagramas e sair em silêncio.
Não se acendem luzes nem lanternas e as palavras são ditas em sussurro.
 
Logo depois o grupo de combate avança em fila sendo engolido pelo mato cerrado com as G3 como bebés deitadas no braço e uma fé de que “não há de ser nada”.
O dia começa a nascer e a erva húmida do cacimbo noturno ainda molha as calças.
Evitam-se os carreiros que podem estar plantados de minas antipessoais.
A missão de patrulhamento deverá prevenir emboscadas na estrada por onde regressará a coluna auto a caminho de Mueda.
 
Entretanto o sol aquece o telhado de zinco e não há condições para ficar lá dentro.
Levanto-me vestido.
O equipamento 24 horas, resume-se a uns calções de ganga verde, aos chinelos “made in china” que são descartáveis no momento da corrida, e à inseparável canhota.
 
Há muito que renunciei ao matabicho. Deixei de tentar o intragável café de baratas e o bocado de pão recheado de gorgulho. Retiro o miolo mas os bichinhos ainda ficam incrustados na côdea. Uma lata de sumo de alperce da ração é preferível.
Quando se acabam os sumos, atacamos a água contaminada e apanhamos amibiose.
Não sei se é pior que o frequente paludismo.
Mas é igualmente mau.
 
Vejo alguns soldados escalados a encher os bidons no cimo da armação vedada a zinco, com a água trazida de uma nascente perto do destacamento.
Trouxeram-me bananas verdes. À tarde, poderemos tomar um banho rápido e refrescante para retirar a terra vermelha e o suor do trabalho ou duma peladinha de bola.
   
   
A meio da manhã, o pessoal que não tem tarefas de manutenção atribuídas, junta-se no alpendre colado à camarata.
É a sala de convívio sem visitas.
Cadeiras feitas com madeiras de barril de vinho, chão terra, caixote a fazer de mesa.
Poucos leêm. Alguns respondem à última carta da mãe ou da namorada.
Outros falam dos planos futuros ou das traquinices que ficaram para trás, lá na aldeia, nos tempos de recruta.
Raramente há novidades.
Como aquela novidade que teve o Alferes Silva.
Recebeu uma carta da sua noiva convidando-o para o casamento... dela!...
Ele que não passava um dia sem lhe escrever e que fazia planos de vida.
 
As cartas de jogar, o King, a Lerpa ou o Sete e meio também fazem passar o tempo e às vezes perder vencimentos.
As anedotas já as conhecemos todas e se alguém tenta uma nova, assiste ao recado do auditório cofiando a barba invisível, que lhe tira a vontade de concluir.

Confiamos nas sentinelas que do alto das torres de vigias nos cantos do aquartelamento varrem a zona desmatada para lá da vedação.
Qualquer início de ataque é avisado com um grito de alarme. Ninguém pensa nisso até ao momento de acontecer.
 
Hoje ao meio-dia espero que uma avioneta particular, que faz a ligação turística para as Seicheles, poise aqui na pista de terra com uns quilos de lagosta que encomendámos.
Não para comer com requinte, ou para saborear como um manjar. Simplesmente para matar a fome. Para a acompanhar, cortámos banana verde às rodelas e fritámos.
Com um bocado de imaginação parece batata frita!
 
No barracão de zinco que serve de refeitório, “milhões” de moscas procuram a sombra e o cheiro da comida. Sentados na comprida mesa, a nossa mão esquerda tapa o copo metálico com água ou cerveja (se ainda não acabou), enquanto a mão direita segura o garfo, afasta as moscas mais teimosas e vai-nos atestando dos repetidos “ciclistas”, “atacadores” ou “arroz sem estilhaços”.
Às vezes a paciência esgota-se, larga-se tudo e saímos do refeitório quente e insuportável, perguntando aos botões o que fizemos para estar ali.
 
Vou à tenda do Cabo de transmissões ver se ele já enviou o meu pedido para ser substituído neste “buraco”. Já lá vão seis meses que me parecem 6 séculos e não há meio de aparecer um “checa” que me substitua.
Começo a ficar um pouco “apanhado”.
 
Entretanto, ia acontecendo uma desgraça.
O Zé Tó tratava do rato que lhe entrou na ratoeira de caixa. Costuma tirá-lo da caixa e matá-lo com dois pontapés.
Desta vez achou que seria “diferente” regá-lo e chegar-lhe o fogo.
O rato em chamas correu veloz rumo ao paiol de munições.
Todos se atiram ao chão gritando pela tragédia eminente.
Passam os minutos e o estrondo não acontece.
O Zé Tó levou com uma escalas noturnas nos postos de vigia e deve ter ganho para o susto.
 
A coluna com uns 6 carros prepara-se para voltar a Mueda depois de ter feito o reabastecimento de géneros e munições.
A primeira Berliet está atulhada de sacos de terra prevenindo um rebentamento de mina anti-carro. Tem ainda instalada duas metralhadoras pesadas.
Leva o condutor e só mais dois soldados para minimizar as perdas.
Mas o atarracado soldado António avisa logo - “Eu vou nesta. É "fézada".
Nunca me aconteceu nada e não vai acontecer desta vez”.
Nunca me vou esquecer.
Valentia, inconsciência ou ambas as coisas.
Apesar da seriedade do momento, não se vê atitudes de medo, mas todos sabem pelo que vão passar.
 
São raras estas colunas que não sejam atacadas.
Dois dos carros são Unimogs, sem qualquer proteção, aos soldados que lá vão sentados de peito feito, virados para o mato com a G3 entre as pernas e preparados para saltar ao primeiro tiro.
As minas podem destruir quase completamente um Unimog.
Sem alaridos nem festejos a coluna parte a caminho do inferno.
Os mais veteranos conhecem cada reta, cada curva da morte e quais os lugares “bons” para emboscadas.
Será que todos chegarão ao destino?
Fico a pensar como tenho sorte em não ser minha função fazer colunas militares.
 
A tarde abrasadora vai correndo a caminho das fatídicas 5 ou 6 da tarde.
É a hora da morteirada.
O inimigo sabe que depois, cai a noite e não haverá patrulha de perseguição.
Já não atacam há 3 dias e é capaz de ser hoje.
Não é por isso que altero a minha rotina e aproveito para tomar o habitual banho.
   
   
Retiro o toco do bidon.
Sai um jacto de água para retirar os restos do sabão LifeBuoy. Nesse exato momento ouve-se ... e sente-se dentro do peito ... dois flops seguido de mais dois, como garrafas de champagne a serem abertas, avisando que a festa começa agora.
Um dos sentinelas grita forte:
Morteiraaaaadaaaaa !
Não é a primeira vez.
Os movimentos são automáticos.
Agarro na G3 encostada ao zinco, e tal como estou, ainda com algum sabão e descalço, bato um recorde olímpico de barreiras, aproveitando os poucos segundos antes do silvo descendente dos morteiros e as explosões mortíferas no interior do quartel.
Preciso chegar ao abrigo, onde está o Obus 8.8., antes que elas começarem a rebentar.
Tenho a obrigação de tentar localizar a posição do morteiro e fazer uma barragem de fogo.
Aparecem mais um ou dois soldados ofegantes para ajudar a municiar e deslocar o obus.
Sei que uma morteirada caída no interior do abrigo pode fazer explodir as granadas de obus, do tamanho de bazucas de cerveja 2M, e nem o canhão ficava inteiro.
Nunca aconteceu.
Não acredito que aconteça.
Mas caíram a alguns metros e por várias vezes.
 
Uma das morteiradas caiu perto duma trincheira e um furriel que espreitava teve um grave ferimento no pescoço.
Foi rapidamente carregado para a tenda do enfermeiro que se aplicou o melhor que sabia.
Espreitei para ver quem era, e arrependi-me.
No oleado que cobria o chão, corria uma faixa vermelha de sangue.
Recuei mal disposto.
Foi evacuado no dia seguinte numa D.O. para o hospital de Mueda e felizmente safou-se.
Safou-se de morrer e safou-se de Omar!
 
Depois de sair de Omar, estive em Nangade, Mocímboa da Praia, Diaca, Sagal e Mueda. Sempre me impressionou a valentia e coragem que vi naqueles jovens, de incorporação local e metropolitanos, da “pacaça” ou de forças especiais, que se viram envolvidos numa guerra inglória que poderia ter sido evitada.
A todos eles aqui deixo o meu testemunho e apreço.