segunda-feira, 28 de abril de 2014

De Luanda a Nambuangongo, por José Gonçalves



Será que há por aí algum camarada, que tivesse feito, em 1962, a viagem que descrevo a seguir? Ficava contente por isso, creio que há muitos que a fizeram, posteriormente, correndo estes e outros perigos
De Luanda a Nambuangongo
(17-18Dez1962)

Luanda

Chegou a madrugada, esperada e não desejada,
Da partida de Luanda, sem fanfarra nem banda
Pela calada da noite ainda cerrada.

Caxito

Primeira paragem no Caxito. Onde nos foi dito;
A partir daqui, bala câmara e olhos bem abertos.
Ordens dadas às companhias, pelotões e secções
Pela cadeia de comando. Houve tremores discretos.
O caminho, traçado em segredo
Trazia perigos. Reacção imediata, diferente
Em cada um. Dores de barriga, choro, o medo
A ceder à realidade do lugar, sabendo que à frente
Havia guerra, um flagelo na terra.
A próxima paragem no roteiro da viagem
Era Quicabo. Ali vimos, já cadáver o Szabo!
Foi emboscado e morto.

Quicabo

Chegaram também feridos soldados da sua secção!
Via-se um avião e outro avião, os efe oitenta e quatro
Que nos morros lançavam bombas de retaliação!
Foi ali em Quicabo, que vimos e sentimos guerra.
E a primeira morte a caminho do norte...
O norte era já ali, cheio de vida. Eu senti
A natureza, admiravelmente linda,
Pródiga em cores, reflexos, flores e ainda
Um sol diferente rompendo a nebelina,
Fazendo aparecer, árvores imponentes,
Nunca sonhadas, mas sempre reais.
Nos seus ramos, convivem aves e outros animais.
Observações feitas num piscar de olhos.
O tempo era de reacção à emboscada.
De saltos para o chão, para as urtigas e abrolhos,
Quando os tiros numa curva inesperada
Espantaram macacos e aves exóticas lindas...
Após o que se sentiu, um silèncio de morte.
Não havia mortos nem feridos. Que sorte!

Sete Curvas

Quase noite e as Sete Curvas já ali...
Começara, entretanto, a chover e, a picada
Lamacenta e escorregadia, como nunca vi.
Era uma ratoeira para qualquer viatura,
Das noventa e quatro da coluna em movimento.
Nessa noite a picada tornou-se menos segura,
Devido à chuva, ao abatimento
Em vários pontos, o que implicou
Uma paragem até ser dia.
Montou-se a guarda o que levou
Quem não estava de serviço, como eu
A proteger-se , porque se temia
Um qualquer ataque a qualquer hora.
A protecção escolhida foi o abrigo
Que a valeta proporcionava, embora
Numa noite de chuva contínua como aquela,
Naquele local de curvas apertadas, onde a flora
Por tão densa, não permitia ao inimigo
O contacto que aquele tipo de guerra aconselhava.
Dormiu-se com a água a passar-nos por baixo,
Num desconforto inimaginável.
Ao raiar do dia, ainda chovia!
Mas a natureza, sempre amável,
Rapidamente nos ofereceu o calor.

Beira Baixa

A Beira Baixa, pequena povoação,
Foi, entretanto alcançada. Estava ocupada
Pelos Para Quedistas, que com emoção
Receberam os Cavaleiros do Totobola!
Alcunha do comandante da unidade.
Um destemido e intrépido militar
Que se celebrizou pela sua acção em Angola.


Mais alguns quilómetros vagarosos,
Ainda devido, aos efeitos das chuvadas,


E atingimos o Onzo, uma grande fazenda,
Onde militares, sempre engenhosos
Edificaram o aquartelamento. E a lenda
Começou nesse dia. O curso da guerra
Iria sofrer alterações. A vontade tudo move...
Aqui chegou o “três noventa e nove”,
Batalhão de Cavalaria,
Que se dirigia para Norte.
E, depois de um caminho longo,
Alcançou nesse dia,
A terra, onde a guerra
Produzia morte...
Essa terra chamava-se NAMBUANGONGO!

FFSet2010