sábado, 10 de novembro de 2018

A Boina Castanha, por José Casimiro Carvalho


A Boina Castanha 

Texto alt automático indisponível.
A quem me conhece, predominantemente os da Sociedade Castrense (Militar), gostava de colocar os pontos nos ís.

Nas Caldas da Rainha, Curso de Sargentos Milicianos (CSM), quando terminei o mesmo com elevada média, fui destacado para Tavira. 
Estava formado para fim de semana, e na segunda feira estaria em Tavira.

Quis a sorte ou o azar, que ainda em formatura, antes de entrar no autocarro para o Porto, viesse um Capitão Comando/Ranger, e perante o pelotão escolhesse uns militares (acaso?), para prestar umas provas de última hora. 
Soube depois que era para escolher “voluntários” para Operações Especiais, em Penude – Lamego. 
Fui “voluntário”. 

Na segunda feira seguinte não fui para Tavira, fui para o CIOE – Penude (Lamego).
Chegado aí, e nos 15 dias subsequentes, só queria fugir daquele lugar de malucos e loucos. Passados esses 15 dias, se me retirassem de lá, só quereria morrer. 
Foi isso que me incutiram e conseguiram. 
11 semanas de verdadeira loucura, terror, medo, exigência e só para super-homens…e eu terminei com 15,28 valores. 
Inolvidável.

Estremoz foi o destino, como Cabo Miliciano. 
E passados 4 meses para a Guine´. 
Da Guiné escuso-me a falar mais, todos sabem e conhecem o que foi ( um Inferno, na Terra).

Porquê esta prosa? 
Para dizer apenas que, enquanto “sargento” de uma Tropa Especial, acabei por saber o que era uma guerra de guerrilha, por isso apraz-me falar do que eram as Tropas “normais”, pois é, eu sei o que eram, eu convivi com eles, e sei o que passaram todos os Batalhões, Companhias e Pelotões de “Tropa Macaca”, eu sei, e posso afirmar, segundo testemunhei, que todos, mas todos foram muito Especiais, quando haviam grandes Operações, com Fuzileiros, Para-quedistas e ou Comandos, já antes os “Outros” dormiram no mato, emboscados, com pouca e/ou fraca preparação, para que o “tapete vermelho” estendido aos Militares com preparação superior tivessem tudo preparado. 

Sei que a “Tropa Macaca” onde eu estava inserido, tinha uma fraca preparação, mas estava pejada e repleta de verdadeiros Heróis, quais soldados “Milhões” da I Guerra Mundial. 
Eles, preparavam, na maior parte das vezes, o terreno para as grandes Operações dos Comandos, dos Para-quedistas, dos Fuzileiros e do Marcelino da Mata (no caso da Guiné). 

Sim, estes heróis “desconhecidos”, estavam sempre na vanguarda, na linha da frente, e muitas vezes com estropiados, mortos e feridos…por dever e por serem carne para canhão.

No meu tempo, os militares de Operações Especiais, ao contrário da actualidade, eram apenas oficiais e sargentos, integrados nas outras Tropas, pelo que oficialmente éramos “militares de Infantaria” e como tal usávamos os símbolos de Cavalaria, Infantaria, caçadores, etc, nas boinas que orgulhosamente ostentávamos … Boinas Castanhas!

A todos os Heróis, que não sendo “Tropas Especiais” (não tiveram a mesma preparação), lutaram, enalteceram e honraram Portugal e a sua Bandeira, por isso deram a vida e prepararam o caminho a todos os Militares de Tropas Especiais, e sem estes ilustres esquecidos, a maioria das grandes Operações, não teriam o sucesso que tiveram.

Aos militares, denominados de Tropa Normal, a sociedade Castrense faz uma vénia, bem como os Para-quedistas, Comandos, Rangers e Fuzileiros, a quem eles facilitaram a vida com sacrifício da própria vida.

Por isso nunca se esqueçam de falar…da “Tropa Macaca” (onde servi orgulhosamente).
Obrigado

José Casimiro Carvalho (boina castanha)

domingo, 4 de novembro de 2018

O POLVO, Nunca Atirei Pedras Aos cães, por José Nobre


Nunca Atirei Pedras Aos cães.
Moçambique - Moatize - 31 de Agosto de 1968.
O POLVO.


Na véspera, tinha havido distribuição de correio, muitas cartas e algumas encomendas.
Uma dessas encomendas era para o algarvio ou para o marroquino, como lhe chamavam.
Abriu-a, dentro vinham algumas latas de conserva de sardinha,"sem pele e sem espinha", que eram as mais apreciadas, um jornal "A Bola" e um Polvo seco, entre outras coisas.
Era uma encomenda da namorada. 

Gerou-se um enorme alvoroço na caserna, quando a malta descobriu o polvo. 
Alguns conheciam o petisco, sobretudo os algarvios. 
Assado na brasa, cortado aos pedaços e temperado com azeite e alhos, é de caír para o lado, uma verdadeira iguaria.

O Carromeu foi o primeiro a falar. 
- À tardinha vamos para as traseiras da caserna, acendemos uma fogueira e assamos o polvo. 
O Monteiro (cozinheiro), arranja o pão o azeite e os alhos. 
Tu, não pagas nada, nós compramos as cervejas. E assim foi.

Eram uns vinte, os que esperavam pelo polvo, à volta do braseiro improvisado. 
Para o algarvio, aquilo era muito estranho. 
Aquele cheiro fazia-lhe lembrar outras paragens, outras situações, trazia-lhe o Algarve de volta. 
Mais uma vez, estava no cenário errado, aquele cheiro não era africano...

Lembrou-se do homem, que todos os domingos, quando o clube da terra jogava em "casa", lá estava, com o fogareiro a assar polvo, à porta do campo de futebol.

O cheiro a polvo assado, começou a invadir o quartel, fez um voo rasante sobre a messe dos oficiais e entrou pela janela. 
Amanhã logo se vê. 
O Monteiro cortava o polvo aos pedaços, para dentro de uma grande travessa, o Moreira cortava o pão, e o Carromeu fazia o tempero.
Comeram e beberam, nessa noite não saíram do quartel, podiam fazer barulho até próximo das onze horas, depois era o recolher. 
O cabo Naia, cantou uns fadinhos, beberam mais umas quantas "Bazucas" e a festa acabou. 

Esqueceram-se de apagar e limpar os vestigios do braseiro. 
Na formatura do dia seguinte, não era um alferes que estava em frente da companhia, era o Becas (capitão e comandante da companhia) em pessoa.
Normalmente era um alferes, que distribuía as tarefas e os serviços diários, nesse dia não.

O Becas estava imóvel, na nossa frente.
Batia nervosamente com os dedos no cinturão da pistola, que sempre o acompanhava. 
As botas pretas e de cano alto, luziam mais que o habitual.
Andava sempre de óculos escuros, tipo James Dean, estava vermelho, portanto nervoso.
Estamos lixados, pensaram aquelas cento e cinquenta almas. 
O silêncio era de igreja em dia de finados.
A bomba de Hiroshima ia ser largada sobre Moatize. 
Mais uma vez o sargento Bernardino, chegou atrasado à formatura e como habitualmente tinha a braguilha aberta.

Finalmente ouviu-se a voz do Becas, gritou. - Companhia, sen.....ti.....do. Sargento Bernardino, feche a braguilha e veja se dá o exemplo. 
Calou-se novamente. 
O calor começava a apertar e o café da manhã também começava a fazer efeito nos intestinos de alguns, ouviu-se um peido e uns risos quase impercetíveis, o furriel "Xuxas", voltou-se tentando descobrir quem tinha sido, mas em vão.

O Becas voltou a falar. - Quem participou na petiscada do polvo assado, dê um passo em frente. 
Saíram todos, os que tinham participado na petiscada. 
O marroquino apanhou a nona carecada, todos os outros, apanharam dois fins de semana sem sair do quartel As estrelas da companhia, como dizia o Becas, tinham sido, mais uma fez castigadas. 
O polvo estava muito bom, o resto não contava. 

Amanhã será outro dia, mais um para riscar no calendário.

( Alguém se esqueceu de apagar a fogueira depois do polvo estar assado e a distancia entre a fogueira e o paiol das munições....não era muita....o Becas tinha razão.)

Ao Camilo Ferreira Alves, Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

José Nobre para 
2018/11/03
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Ao Camilo Ferreira Alves.

(Marroquino tens tabaco? Só tenho um, mas fumamos a meias.)
Para mim,e para a restante malta do nosso pelotão, eras o Braga. 
Eras o Braga, porque foi nessa cidade que nasceste.

Não estivemos muito tempo juntos, talvez uns quatro meses,em Estremoz, antes do embarque para Moçambique, e depois durante o tempo que durou a viagem de Lisboa até Lourenço Marques, a bordo do Navio Niassa. 

Eras condutor, tal como eu,tal como o Felgueiras, o Nelson, O Moreira, o Carromeu, o Sousa, o "Beiçolas", o Amável. 

Separam-mo-nos em Lourenço Marques no dia 25 de Agosto de 1967. 
Eu fiquei na grande cidade, para mais uma especialização, tu seguiste com o resto do pessoal para o Norte, para Cabo Delgado. 
Lembro-me das últimas cervejas, bebidas no bar do Niassa, lembro-me de me teres dito, "Marroquino tiveste sorte,sempre são dois meses a menos no mato."

Até à próxima Camelo, respondi. 
Toda a malta te chamava, Camelo, ou então doutor, escritor, poeta, e tu como homem do norte respondias com palavrões. 
O teu nome dava para estas brincadeiras. Camilo Ferreira Alves - Conde de Braga.

Foi a última vez que nos vimos, mas não o sabíamos. 
Não foi a última vez para mim, voltei a ver-te em Palma. 
Eu e o Moreira, esperávamos em Palma, a coluna militar que nos vinha buscar para nos levar até Nangade, para nos levar de volta para a nossa Companhia, para junto da nossa malta.

Camelo,tens tabaco? 
Camelo, vamos comer umas febras com açorda? 
Camelo, vai mais um copo do alentejano? 
Belos tempos em Estremoz.



Voltei a ver-te no dia 12 de Março de 1968. 
Ajudei a cortar os bidons de gasolina que iriam servir de caixões, para ti, para o Amável, para o Guerra e para o Bibiu. 

Não te rias pá, é isso mesmo,não haviam caixões, improvisamos, mais uma vez. 
O Sousa lá fez as rezas habituais,cantamos o hino e demos quatro salvas de tiros, uma para cada um de vocês. 

Para tua informação foi o Salazar que pagou os tiros.
Ficaram lá bem no fundo do cemitério, com uma vista do caraças para a praia de Palma. 
Era quase noite,quando deixamos o cemitério, e fomos beber.

Cantamos aquelas modas alentejanas que tanto gostavas e que ouvíamos na taberna do Tio Xico, na praça principal de Estremoz. 
Chorámos.


Em memória dos quatro amigos : Amável, Bibiu, Guerra e Camilo(Camelo).
Mortos numa picada entre Nangade e Palma, Cabo Delgado - Moçambique - em 11 de Março de 1968.

Apontamentos - Palma - Nangade - Moatize - Tete - Paris

sábado, 3 de novembro de 2018

Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

José Nobre para PICADAS DO CABO DELGADO
2018/11/03
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
O Avô Coutinho, não era meu avô, era o companheiro da minha bisavó, mas para toda a família era o avô Coutinho, mas isso eu só vim a saber muito mais tarde, depois de ter a certeza que ele era o meu avô. 

O meu avô Coutinho, o companheiro da minha avó Júlia, que também não era minha avó, mas sim minha bisavó. 

Estranho, pois é.
Foi ele que me ensinou a distinguir as árvores, os pássaros, as estrelas, o caminho de Santiago, a lua cheia o quarto minguante....e a Ursa Maior. Foi com ele que vim, muitas, mas muitas vezes à Vila Nova de Portimão, em cima do burro, quando ele ia ás compras. Parava no Largo do Mercado, à porta da taberna...para ele um copo de vinho, para mim um rebuçado.

Um dia, quando andávamos os dois na charneca a apanhar azeitonas, apareceu um cão, o cão do vizinho que morava no depósito de água, o cão que corria com as galinhas e que ladrava toda a noite. Peguei numa pedra.......e ele disse-me........ "Não Se Atiram Pedras Aos Cães".......
Nunca mais atirei.


Para todos aqueles que me questionaram, sobre o titulo de algumas "coisas" que escrevo no FB.......eis a resposta.

O Banco dos Dias - Nunca Atirei Pedras Aos Cães, por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Moçambique – Agosto de 1967 – Outubro 1969.
Paris – 11 de Março de 1972
O Banco dos Dias.
Tenho dias para a “troca”....trocaria bem o dia 11 de Março de 1968, por um outro qualquer, mesmo que fosse um dia sem sol, chuvoso, triste, como o dia de hoje. 

Começou a nevar, o verde da relva do jardim vai desaparecendo aos poucos. 
Os sons que chegam da rua são menos agressivos. 
Sim, faz hoje quatro anos. 
Deveriam existir bancos de dias, onde pudéssemos trocar dias maus por dias bons, mais caros claro, porque isto de trocar um dia mau por um dia bom dá muito trabalho. 



Um calor do caraças, o café do quartel de Palma sempre é melhor do que aquele que bebemos no mato. 
A neve acumula-se no parapeito da janela. 
Não vejo os pardais que habitualmente picam a relva durante horas e horas procurando o que comer.

Sim. 

Deveriam existir esses tais bancos para trocar dias – Bom dia, tenho um dia para a “troca,” não, não é um dia é uma manhã, uma manhã quente de Cabo Delgado, uma manhã de tiros de granadas, de gritos, chamem o enfermeiro, precisamos do helicóptero....o Amável está morto. 

A vizinha do primeiro andar atravessou o pátio, com cuidado...pé...ante...pé, tal como nós numa qualquer picada de Cabo Delgado...pé...ante...pé. 
A granada que o alferes Guerra trazia à cintura explodiu, ele e o Bibiu morreram. 

Tenho dias para a “troca.” 

Vamos dar um mergulho à praia, a malta da nossa companhia deve estar quase a chegar, depois do banho vamos comer um peixe assado ou umas lulas fritas, e beber umas “catembes.” 

Por favor, pode ver na tabela dos dias quanto custa trocar o dia 11 de Março de 1968, por um outro dia qualquer? 
Tenho dias para a troca. 
O Camilo Alves, também morreu.....Se não me trocarem os dias, eu dou os meus, não todos. 

Quero regressar a Palma e falar com o senhor que manda nos dias, o gajo que decide...hoje é um dia de sol e de vida....amanhã não sei. 

O senhor do banco dos dias, diz que vai ser difícil trocar o dia 11 de Março de 1968 por um outro dia qualquer, os dias consumidos são considerados em 2ª mão, e para além do mais ninguém compra dias com mortos. 
Posso falar com o gerente? 
Posso falar com o gajo que decide quem morre, que decide quem vive. 

A água do Indico está quente, eu e o Banó estendidos na areia branca da praia de Palma, ao longe os barcos dos negros continuam a pescar. 

Por favor caro Senhor, troque-me este dia, esta manhã, pela merda de outro dia qualquer. 
Sabe caro senhor, nessa manhã morreram na picada de Pundanhar quatro gajos que eram nossos irmãos. 
Não pode? 
Então diga-me quanto custa um milagre. 
Juro que comprarei velas, juro que rezarei, juro que farei peregrinações. 

Como? 
Não pode ser? 
Já é tarde?

A neve continua a cair, da cozinha chega-me o som do rádio e a voz do Jacques Brel que canta--- Ne Me Quitte Pas.


Faz hoje quatro anos......Não me esqueci......e continuo a gostar de vocês.....IRMÃOS.

( Retifiquei algumas “coisas” poucas do escrito original )

Paris – Boulogne-Billancourt.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Juro Que Vivi..., por José Nobre

Juro Que Vivi.......
Moçambique – Agosto 1967 – Outubro 1969.
A Coluna militar – Outubro de 1967.
Não sei porque fiquei dois meses em Lourenço Marques. 



Não sei porque fui um dos trinta condutores escolhidos para levarem viaturas para o norte de Moçambique, para Cabo Delgado. 
Uns dizem que foi o destino, outros que foi uma sorte, outros que foi um azar do caraças, fazer mais de 3.000 Kms de picadas, até Mueda, passando pela Beira, Nampula e Nacala. 
Fiquei a conhecer um pouco melhor aquela terra, as suas gentes e a vida dos colonos, aqueles que viviam fora das grandes cidades, que viviam e mandavam nas grande fazendas, onde trabalhavam centenas de negros, quase escravos....quase. 

O que vi...o que vivi nunca mais esquecerei. 
Conheci aquele povo africano, aquelas crianças que se aproximavam de nós, quando parávamos para comer, para abrir mais uma ração de combate, aqueles olhos, aquele sorriso e aquelas barrigas dilatadas....crianças, como as nossas, como as brancas, que não falavam a nossa língua, mas que nos diziam tudo com o olhar.

Dormimos em fazendas enormes, onde trabalhavam centenas e centenas de negros, um trabalho quase escravo, de sol a sol, sem assistência médica ou outra qualquer,...quase escravos....quase.
Falamos com fazendeiros, quando éramos convidados a beber um café, ou a beber uma cerveja acompanhada de castanha de cajú assada. 
E nessas ocasiões falávamos de tudo, das negras, dos putos mulatos, dos “cabaços” comprados por vinte escudos, das noites nas palhotas e da boa vida dos proprietários, muitos deslocavam-se de avião, tinham os filhos a estudar nas grandes cidades onde também tinham apartamentos. 

Numa das fazendas a uns 200 Kms da cidade da Beira, o capataz dessa fazenda, entre um trago na cerveja e uma fumaça no cigarro disse-nos. - Os gajos (trabalhadores) são pagos sempre em moedas, nada de notas...as notas não fazem barulho e eles ficam contentes com o barulho das moedas.

Juro que vi...juro que vivi. 

Paramos para almoçar à beira da picada, entre a cidade da Beira e Nampula, um calor do caraças, a água do cantil quente, mais uma ração de combate...mais uma. 

Estava encostado à roda da frente do meu Unimogue, ao meu lado o meu irmão Fernando Moreira e o Quintela, denominado o Bimbo o gajo de Vila do Conde, o gajo que trocava os “V” pelos “B”....o gajo que tinha um coração do tamanho de um comboio. 

Nobre, já viste aqueles dois putos? 
Um menino e uma menina....nus, parados a uns dez metros de nós, olhando-nos fixamente, esperando que atirássemos as latas de conserva vazias para o mato, para as irem buscar e com os dedos agarrarem o que restava da gordura das mesmas. 
Roeu-nos a consciência, o Quintela foi o primeiro a falar – Foda-se, eu não posso ver isto, Quem tem bolachas? 
Vamos dar de comer aos putos. 
E demos, apareceram mais uns quantos que levaram o que restava das rações de combate...e lá foram...e eu? 
Eu chorei ,agarrado ao volante do meu Unimogue, enquanto fumava um cigarro, vendo os putos afastarem-se a caminho de nenhures.

Não. 
A minha guerra não foi só uma guerra de armas....foi uma guerra de muitas “merdas” que ainda hoje me roem a consciência, me questionam......e eu faço de conta e digo para mim mesmo, marroquino, não foste tu que lá estiveste, foi um gajo com um pouco mais de vinte anos, imaturo e branco.

Dedicado ao, Amável Lopes Baptista, ao Bibiu, ao Camilo Alves e ao alferes, Guerra.
Lourenço Marques – Beira – Nampula – Nacala – Mueda . Muidumbe . Miteda – Nangololo – Nangade - Pundanhar – Palma – Mocimboa da Praia – Moatize – Tete - Bene . Zobué – Cassacatiza e todos os outros locais dos quais já me esqueci dos nomes......e todos os outros dos quais não me quero lembrar.

Bem Hajam.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Texto do blog de um ex-militar - Luís Dias...

Copiámos este texto do blog de um ex-militar - Luís Dias.
quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011.
Dedicamos em especial ao compadre Jose Augusto Palminha.

FAZ HOJE 40 ANOS QUE FUI PARA A TROPA
Camaradas e Amigos
Hoje acordei com uma data a martelar-me a cabeça, sonhei com ela. 

Hoje é dia 12 de Janeiro de 2011 e faz precisamente 40 anos que ingressei na vida militar.

Há quatro décadas, um mês depois de fazer 20 anos, de mala feita e cabelo cortado curto, (na altura usava-o bastante comprido) juntamente com o meu amigo de infância João Ribeiro, apanhávamos o comboio em Santa Apolónia, deixando para trás a família, os nossos amigos, o nosso bairro de Alfama e partíamos para uma vida diferente, desconhecida, apresentando-nos no chamado "Destacamento" da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.

A recruta no EPC foi muito dura, com muito frio, muita chuva e especialmente com muita lama, que nos decorava o fardamento e se ia soltando, uma parte, devido ao batimento compassado das nossas botas, no asfalto das ruas de Santarém, quando em passo de corrida regressávamos da denominada zona de terraplanagem. 

Por vezes, para conseguir que ela saísse chegávamos a passar pelos chuveiros fardados. 

A ginástica matinal em plena parada, em camisa interior, num Janeiro gélido, era uma prova que nos acordava de forma inigualável para o resto do dia. 

Lembro-me da instrução nocturna em noites de chuva forte, em que colocávamos jornais entre a camisa interior e a farda, para não sentirmos tanto a força da água que nos castigava a pele e nos deixava enregelados. 

Andávamos quase sempre molhados e eu passei a odiar (e ainda hoje não gosto) sentir a roupa molhada junto ao corpo (ainda não sabia o que me havia de esperar na Guiné!!!). 

A prova do salto para o desconhecido - uma queda numa ribeira de águas de esgotos, o acordarem-nos de madrugada com os gritos: "Têm 5 minutos para formarem na parada!" e as contínuas corridas equipados de G3 e capacete, para baixo e para cima do vale de Santarém eram momentos bem sentidos. 

Havia, como se costuma dizer, toda uma panóplia de exercícios e corridas que nos iam deixando de rastos. 

Todos os minutos de intervalo eram por nós aproveitados para dormitar um pouco. 

O rigor das formaturas para ir de fim-de-semana (cabelos, barba, fardamento) e a acção psicológica dos altifalantes nas casernas a debitarem música militar e conselhos para nos deitar o moral abaixo, aliado à má alimentação, era tudo bem organizado para nos lixar a vida, nos despersonalizar.

Eu e o meu amigo João, juntamente com outro rapaz (Tavares) que conhecíamos da Escola Comercial Patrício Prazeres, ficámos no mesmo pelotão (2º) e no 5ºesquadrão: O João era o número 311, eu o 312 e o Tavares o 313 (éramos inseparáveis). 

Engraçado é que este número de ordem que me foi atribuído no ingresso no quartel fazia parte do meu número mecanográfico - o nº 03127471 - e o resto do número colocado ao contrário 71-74, em vez de 7471, foram os anos que eu vivi na tropa, ou seja, entrei em Janeiro de 1971 e saí em Abril de 1974 (uns dias antes do 25 de Abril).
Terminada a recruta cada um foi para seu lado. 

Eu fui fazer a especialidade de atirador, como cadete, para a Escola Prática de Infantaria, em Mafra, o meu amigo João seguiu para Tavira, para tirar a especialidade de armas pesadas e o nosso amigo Tavares já não recordo para onde foi porque nunca mais o vi.

Em 18 de Dezembro desse ano, já como Alferes Miliciano, embarquei para a Guiné, integrando a CCAÇ3491. 

"É muito..!", do BCAÇ3872, donde regressaria em 4 de Abril de 1974.

O meu amigo João Ribeiro foi mobilizado para Moçambique, em 1972, como Furriel Miliciano (zona de Mueda), integrando a CART3503 "Unidos e firmes", do BART3876, donde regressou já depois do 25 de Abril.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha