sábado, 1 de junho de 2019

Insónias..., por José Nobre

Insónias.
Navego, entre uma e outra recordação, as de ontem e as de agora, passageiras de um navio fantasma, perdido na bruma da minha imaginação. Revejo os dias, as noites, as madrugadas, embriago-me na brisa das memórias, na maré do passado. A chama da vela vacila, projectando nas paredes as sombras do que somos. Escrevo e volto a escrever, rasgo as folhas, transformo-as em bolas de papel, pontapeia-as para debaixo da cama e recomeço. Só escrevo merdas.
Quatro horas da manhã, aqui o dia chega mais cedo. Não sei se a garrafa de Brandy vai aguentar esta minha insónia, fixo-a, meio vazia, desafiando-me, ao lado da imagem da Nossa Senhora, não sei se é a da Fátima ou de outro local qualquer, mas isso não tem qualquer importância, as Nossas Senhoras são todas iguais e brancas, ainda não vi uma negra. Escrevo, escrevo e volto a escrever. Posso contar-te histórias, declamar-te poemas, dizer que não me esqueci, que não te esqueci. O Tavira é o que ressona mais, se o ressonar fosse uma arma, já tínhamos ganho esta merda de guerra, esta guerra que nos impuseram, que nos obrigam fazer, nós que só temos vinte anos. Vou rasgar esta folha e fazer mais uma bola de papel.
- Marroquino, apaga a vela.
- Eu apago a vela e tu não te peidas mais.
( Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique – Madrugada de 23/24 de Novembro de 1967 )

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Cá vou andando..., por José Nobre



José Nobre 
2019/05/09

Cá Vou Andando.
A propósito de - Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
A guerra do ultramar. 
A minha foi em Moçambique.



Nada sei, nada,ou quase nada, das outras guerras. 
O que escrevo aqui no FB, foi vivido por mim e mais cento e setenta gajos.
Tento falar de todos,com respeito e algum carinho.

Nas minhas vivências em África, não existem heróis, porque não os conheci, porque não os vi.
Convivi com gente, cujo único desejo era voltarem vivos e sem mazelas. 
Tentávamos todos salvar a pele, mesmo que para tal,fosse necessário matar.


Existem na Internet, dezenas e dezenas de blogues, que falam da guerra ultramarina.
Alguns com fotos e personagens que nada têm a ver com a guerra,a nossa guerra. 
Se conheci heróis, foram heróis improváveis, como por exemplo um enfermeiro que ajudou ao nascimento da várias crianças(negras),em vários sítios por onde passou.

A guerra só existiu, para todos aqueles que tinham uma graduação até capitão, os outros, todos os outros,não fizeram a guerra, viveram da guerra e do estatuto que a mesma proporcionava.
Vejo fotos de altas patentes,de Coronéis, de Tenentes Coronéis, fotos dos tais que nunca "fizeram o mato", com o peito cheio de medalhas, mas sem nunca terem provado o sabor de uma Ração de Combate,( no mato) sem nunca terem sentido o frio do medo, o silvar de uma bala, o rebentamento de uma mina. 
Esses,que aparecem sempre no dia do Combatente, para colocar mais uma coroa de flores, num qualquer monumento aos mortos do ultramar, numa qualquer localidade de Portugal.

" A guerra não foi só aquilo que escreves." 
Pois não, mas também foi.
É o que eu chamo de... o lado humano da guerra,como se fosse possível existir humanidade num conflito armado.

As armas que me foram entregues, não me transformaram em herói, nem a G3, nem as granadas, nem os carregadores cheios de balas, nem o camuflado.
Era unicamente um gajo que não queria "lerpar".
Consegui, apesar das emboscadas, apesar das minas, apesar das picadas para Mueda, para Muidumbe,para Nangade, para Cassacatiza. 
Outros, não sobreviveram. 
É para eles, para todos eles, que vou escrevendo as minhas "merdas."

A Pátria, deu-nos uma farda, uma arma, uma ideologia, uma história para salvar.......depois deixou-nos num caís qualquer de Lisboa, como mercadoria fora de prazo. 
A Pátria que nem os mortos sabe HONRAR...aqueles que já nada lhe pedem, mas que lhe entregaram a VIDA de ....MÃO BEIJADA...com o respeito que a CHAMADA ....PÁTRIA ....lhes merecia.

Apontamentos - Moçambique - Portimão

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Regresso..., por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
O Regresso.
Voltamos todos, naquela manhã de 12 de Outubro de 1969. Voltamos todos, não faltava nenhum. Um dia chuvoso e o cais de Alcântara a abarrotar de todos aqueles que nos esperavam. Milhares de braços no ar a nos acenarem, braços que se abriam, choros gritos. Não, não, vocês não morreram, vocês vão descer comigo esta escada, os últimos degraus da nossa aventura africana. Foram vinte e seis meses, caraças, não foram vinte e seis semanas ou dias.
Vamos descer juntos, nós que nunca nos separamos, quero-te ver abraçar o teu filho e a tua mulher, Amável. Quero conhecer a família do, Camilo Alves, do Bibiu e do Guerra. Vamos descer a escada deste navio fantasma, olhar para Lisboa...voltar a pisar Lisboa e gritar....Voltamos Todos. Não, não. vocês não ficaram naquela merda de picada em Cabo Delgado, naquela picada entre, Nangade e Pundanhar.....Vocês vão descer comigo esta escada. Faltam quantos degraus? Caralho, pá....foram meses e meses longe desta gente toda. Vejo o teu sorriso, Amável, ouço a pronuncia do norte do Camilo Alves. Volto a Reguengos de Monsaraz, sento-me na mesa de um café, aquele mesmo ao lado da igreja, aquele que o Bibiu falava. Ouço o alferes, Guerra, gritar,,,,estou aqui.
Voltamos todos, ninguém ficou para trás, O navio fantasma, aparece e desaparece. Mais um degrau da escada,despachem-se. Chegamos Todos. Lisboa, um dia cinzento, o dia do nosso regresso. VOLTAMOS TODOS.
Eu, nunca me esquecerei de vocês. Para os meus quatro companheiros que regressaram dentro de quatro caixas de pinho. Amável - Guerra - Bibiu - Camilo Alves.
Apontamentos - Portimão Dezembro de 1969

domingo, 13 de janeiro de 2019

A Guerra e outras....COISAS, O Navio Niassa, por José Nobre

A Guerra e outras....COISAS.
O Navio Niassa.


Quando é que começamos a perder a guerra? 
Começamos a perder a guerra, desde o primeiro dia, a primeira hora, o primeiro minuto, em que colocamos os pés dentro daquele navio, no momento em que começamos a subir a escada, que nos levaria ao interior daquele antro, ao interior daqueles porões, no momento em que deixamos as nossas malas em cima de “camas” sem colchões, imundas. 

Embarquei no Niassa, no dia 3 de Agosto de 1967, nesse tempo ainda não existia refeitório, as casas de banho situavam-se no convés do navio, a urina e tudo o resto, escorriam pelo convés do navio até chegarem ao mar. 
Não existiam duches de água doce, durante quase um mês fizemos a nossa higiene pessoal com água do mar, só água do mar. 

Ninguém consegue descrever o que era, o que foi a nossa viagem até terras africanas, até Moçambique. 
No meu caso pessoal, foram vinte e um dias, até chegarmos a Lourenço Marques, onde fiquei durante dois meses, o resto da “carne para canhão” seguiu para norte, para Cabo Delgado, e foram mais seis dias de viagem. 

Ainda hoje, tenho alguma dificuldade em contar, explicar, o que foi aquela viagem. 
Nós, não merecemos isto, dizia-me o José Paiva Carromeu, ele habituado ás lides marítimas, ele que trabalhou, desde a mais tenra idade, nos barcos de transporte de mercadorias, que faziam a travessia do rio Tejo, entre a Trafaria e Lisboa. 

Dormimos, noites e noites no convés do navio, ao frio, ao relento, tendo com agasalho a única manta que nos tinham fornecido. 
A comida era infecta, pior do que em qualquer quartel, pior do que tudo aquilo, que já tínhamos comido, durante os sete meses anteriores, antes de embarcarmos a bordo do navio Niassa. 
Onde comíamos? 
No convés, de prato e púcaro nas mãos, sujeitos a que alguém fosse urinar borda fora e que salpicos de urina se misturassem com o que nos davam para comer. 

Evidentemente que existia um bar, um pequeno bar, um balcão de atendimento, onde um tripulante qualquer fazia o seu negócio, vendendo de tudo e mais alguma coisa, sandes, bolachas, tabaco, cerveja e outras coisas mais. 
Foi a nossa bóia de salvação, enquanto tivemos dinheiro, enquanto demos a ganhar uns bons tostões, ao explorador do dito bar.


Perdemos a guerra, no primeiro dia em que começamos a ser “tratados” como animais, pior do que certos animais. 
Como dizia o Quintela, - o meu cão de certeza absoluta que se recusava a comer o que nós comemos.

Durante anos, muitos anos, de 1961 a 1974, foi assim que os “salvadores” do império foram tratados. No regresso, em Setembro de 1969, já existia um refeitório, mesas corridas, bancos corridos.
Imaginam o que era comer naquele refeitório, quando o mar estava alterado, quando um dos nossos companheiros vomitava, ou quando os pratos vaziam um vai e vem, entre uma ponta e a outra da mesa. 

No regresso, foi mais fácil a nossa viagem, sabíamos que o inferno acabaria no momento em que o Niassa, tocasse um caís qualquer de Lisboa. 
Conto porque vivi e não porque me contaram. 
Imaginem que eu solicitava a todos os meus companheiros, a todos aqueles que foram transportados no navio Niassa, que descrevessem, um dia, uma hora, daquela viagem, de certeza absoluta que muitos, ao lerem ou ao ouvirem essas recordações, diriam....não....não....isto é ficção.

Desembarcamos em Lisboa, no dia 12 de Outubro de 1969, juro-vos que durante meses e meses, mantive nas narinas o cheiro dos porões do Niassa. 

Quem ganhou com aquela guerra?
Nós, a chamada tropa “macaca” perdemos. 
Quando é que perdemos a guerra? 
No primeiro dia em que colocamos os pés no primeiro degrau das escadas de acesso a um navio chamado Niassa. 

As altas patentes, os altos mandatários, os Senhores da Guerra, esses, já se preparavam para mais uma comissão, num qualquer território, numa qualquer parcela ultramarina.

É FARTAR VILANAGEM.
Em honra de todos aqueles que morreram em nome da Pátria, sobretudo dos meus companheiros de viagem, que comigo partiram do cais da Fundição e que comigo regressaram, no navio Niassa, a Lisboa, dentro de quatro caixas de pinho.

Para o - Guerra – Amável – Bibiu e Camilo Alves. È em vossa memória que escrevi e que vou divulgando as minha memórias, as nossas recordações. RIP.


França – 12 de Outubro de 1979 ( Dez anos depois da nossa chegada a Lisboa.)

domingo, 16 de dezembro de 2018

COMO SERIA SE TIVESSE MANDADO DESCARREGAR O EXCESSO DE AREIA?, por José Augusto Baptista


DIA 13 SEXTA FEIRA, DIA DE SORTE OU DE AZAR?

13 DE AGOSTO DE 1966 SEXTA FEIRA 
No dia 12, pelas 10 horas da noite, desloquei-me à caserna do Pel. Rec. e pedi para estarem prontos às quatro da manhã pois íamos sair de carro. 
Às quatro horas da manhã do dia 13 sexta feira, quando me aproximei do meu carro, notei logo que estava muito mais baixo e com as molas completamente vergadas com o peso da areia, ou seja era mais areia que carro. 
Perguntei quem tinha feito aquilo e a resposta foi muito rápida: Fomos nós, depois do Baptista ter saído da caserna, o Carlitos (condutor do carro) disse que quer fosse em primeiro quer fosse em último ia rebentar uma mina. 

Saltamos todos para cima da areia e a coluna iniciou a marcha em direcção ao rio Rovuma com a secção do alferes Santos a seguir ao rebenta-minas, Uma berliet com nativos e atrelado, a secção do furriel Figueiredo, uma berliet com nativos e atrelado e nos em último lugar. 

Texto alt automático indisponível.

A cerca de 4 Kms, em fracções de segundos, apercebi-me de uma nuvem preta a subir. 
Parei no tempo e quando voltei à realidade estava em pé dentro de um buraco que me cobria até aos ombros. 
A única coisa que via era um carro completamente desfeito. 
Com a noção do perigo, saltei do buraco, peguei na primeira G3 que encontrei e, do meu pessoal, não via ninguém. 
A poucos metros de mim surgiram gritos de terror: Meu furriel, estou sem pernas. 
Corri para o homem e enquanto examinava as suas pernas pedia-lhe silêncio explicando-lhe que não tínhamos protecção nenhuma. 
Como não notei qualquer anomalia nas pernas mostrei-lhe a direita e depois a esquerda, a sua alegria foi de tal ordem que quebrou todo o silêncio com fortes gargalhadas de satisfação. 
As outras duas secções do pelotão, após o rebentamento, correram em defesa do rebenta-minas, nunca imaginando que fosse atrás, traziam um grande pedaço de pneu que foi cair à frente do rebenta-minas e já todos nós estávamos refeitos do acontecido, sem ferimentos de maior.

COMO TERIA SIDO SE NÃO FOSSE SEXTA FEIRA 13? 
COMO SERIA SE TIVESSE MANDADO DESCARREGAR O EXCESSO DE AREIA?

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Isqueiro ZIPPO, por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique
Apontamentos - Novembro 1967 - Março de 1968
O Isqueiro ZIP
Resultado de imagem para isqueiro zippo
O "Beiçolas", era o único que tinha um isqueiro daqueles, um verdadeiro isqueiro Zip americano. 
Uma oferta de um tio que andava embarcado num navio da marinha mercante.
Durante meses ouvimos o tlim...tlim do isqueiro do "Beiçolas", quando este o fechava,..tlim. 
Os outros tinham caixas de fósforos, ou isqueiros banais, o Beiçolas tinha um Zip verdadeiro, que brilhava ao sol, e que era limpo várias vezes ao dia. 
Cada vez que colocava gasolina no isqueiro, o mesmo era limpo, testado, verificado e caía novamente na algibeira da camisa do camuflado, até ao próximo ..tlim..
Quando alguém lhe pedia lume, ele tirava o Zip da algibeira, acendia o cigarro do camarada, fechava o Zip...tlim..e o dito cujo voltava para o sitio de onde tinha vindo. 
Tudo isto feito com um ar de orgulho e vaidade. 
Na nossa caserna quase todos fumavam, 25 gajos.
Um Domingo, já depois do café da manhã(grande nome para aquela mistela), e de um bocado de pão com marmelada, fabricada na África do Sul, decidimos, um a um,pedir lume ao "Beiçolas". 
Lá estava ele a fumar o seu cigarro, sentado no chão, encostado a um pneu da Berliet, estacionada sob o maior Imbondeiro de Muidumbe. 
Nem tarde, nem cedo, rapidamente combinaram como iriam actuar.
Todos aqueles que fumavam,iriam pedir lume ao "Beiçolas", com um intervalo de um minuto...tlim...tlim.
E assim foi. 
Primeiro o "madeirense", depois o "padeiro", depois o " Serpa", depois o "marroquino"...mais um...mais outro....até que o "Beiçolas" começou a desconfiar. 
Chegou a vez do cabo das comunicações. 
Tens lume "Beiçolas"? 
Este colocou a mão na algibeira da camisa do camuflado, tirou o Zip, acendeu o cigarro, colocou novamente o Zip na algibeira e levantou-se. 
Caminhou em direcção à caserna. 
Voltou a sair minutos mais tarde, trazia a G3 (espingarda) ao ombro, voltou a sentar-se no mesmo sitio, encostou-se ao pneu da Berliet, encostou a G3 ás pernas,,acendeu um cigarro...tlim... e olhou na nossa direcção.
Nesse dia mais ninguém teve coragem de pedir lume ao Beiçolas Tlim........

(Todos os nomes são fictícios.......Nunca estivemos em Moçambique nem em Muidumbe e muito menos em Cabo Delgado.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Vocês....Faltam-me, por José Nobre

José Nobre para 

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Vocês....Faltam-me.
Paris – 12 de Outubro de 1970.
Quem diria que um dia, teria saudades das mais simples coisas. 
Quem diria que um dia teria saudades de vocês, do baralho de cartas, gasto pelo tempo, pelas nossas mãos, quase negras. 
Sim, meus grandes sacanas, tenho saudades dos pratos de alumínio, do cheiro da comida, feita por um cozinheiro, que nunca o foi, do vinho quase vinagre, e do som da nossa caserna.

Faz hoje um ano que vos deixei, apressadamente, à porta do quartel em Estremoz. 



Por vezes procuro o camuflado, entre a roupa de todos os dias, o cinto quase desfeito, as botas com as solas descoladas e as cuecas que já não o eram. 

Sim, hoje sinto-me um espantalho. 
A calça vincada, os sapatos engraxados, a camisa lavada e o cabelo penteado. 
É estranho ter tanto cabelo, tenho saudades de uma carecada, daquelas de cabeça completamente rapada. 
Tenho novos amigos, novos companheiros, pouco a pouco, tento voltar à casa de partida, nem sempre o consigo. 

É mentira o que dizíamos, que rapidamente esqueceríamos o nosso tempo de guerra, o tempo em que contávamos o tempo, eu lembro-me de vocês, de quase todos, das gargalhadas, das zangas, das lágrimas, da nossa revolta. 
Faltam-me as palavras para vos dizer o que sinto. 
Hoje, escrevo para vocês, por vocês, sem ser gozado...Então marroquino, já estás a escrever as tuas merdas?


Volto a África, não todas as noites, mas quase, sonho, revejo as picadas, volto a Muidumbe a Nagande, a Moatize e a Tete, e sinto o frio na barriga, aquele frio que todos sentíamos antes de mais uma saída para o mato, confiro as cartucheiras, conto as granadas e aguardo as ordens de um alferes qualquer, e o grito... “ motores em marcha, toca a andar.” 

Voltamos a passar pela picada de Pundanhar, lá, onde “ficaram” o Guerra, o Bibiu, o Braga e o Amável. 
Revejo-os a todos, semblante carregado, tristes, e eu que esperava por vocês em Palma, naquele paraíso africano, naquela praia de areia branca, cheia de palmeiras e coqueiros. 

Com o tempo tudo passa, merda de frase feita, nada passa, nada passou, continuo a vê-los, ouço-vos, como se o tempo não tivesse passado.

Vocês....faltam-me.

( Apontamentos – França )

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Muidumbe..., por José Nobre

Madrugada de 3 de Fevereiro de 1968.
Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique.
Sábado – 2 horas da manhã, um frio do caraças.


Foi o Beiçolas que me rendeu no posto de vigia, aquele que fica mesmo por detrás da nossa caserna.
Uma noite e um céu sem nuvens. 
Sim, o céu não é o mesmo, as constelações não estão no mesmo sitio, eu também não sou o mesmo e também não estou onde deveria estar. 

Durante as horas que passei no abrigo, G3 entre as pernas, duas granadas no cinturão e dois carregadores de balas, não parei de cantarolar uns fados e alguns cantos alentejanos, cigarro após cigarro. Guardei as beatas, nunca sabemos quando o tabaco acaba.
- Marroquino, podes ir para a cama.
- Não me apetece entrar naquela “puta” de caserna, Beiçolas.
- Beiçolas é o teu pai.

Lembrei-me do meu quintal e das noites de verão, na companhia do meu avô Coutinho e das suas explicações sobre as estrelas, sobre o caminho de Santiago. 
Noite escura, nem conseguíamos ver o arame farpado, no qual estavam penduradas dezenas e dezenas de latas de conserva e de garrafas de cerveja....vazias....claro, ao mínimo toque aquela merda começava a chocalhar.....e cá vai disto......mais um carregador....e o nosso Salazar....mais pobre.

Sábado, noite de baile no Boa-Esperança e nas outras coletividades de Portimão....é Carnaval. 
O meu Carnaval é outro, aqui estou em pleno planalto maconde, mascarado de salvador da Pátria, camuflado a cheirar a suor, sujo....temos de poupar a água. 
Não só a água, temos de nos poupar a nós, cada vez que vamos buscar água corremos o risco de uma emboscada. 

Cheiro mal dos pés, nem posso descalçar as botas dentro da caserna, todos se descalçam no exterior.

Faz um ano, ainda não sabia o que era a tropa, o que era África, o que era a guerra, e o medo de morrer aos vinte anos. 
Nunca se morre aos vinte anos...ou quase. 

Desconhecíamos o sabor das ausências, mesmo as mais insignificantes, mesmo aquelas que que nunca pensamos serem ausências. 
Sonho com um prato de feijão com arroz. feito pela minha mãe, mais o toucinho, mais o chouriço.....e aquele pão.

Sentei-me à entrada da caserna, contei os cigarros do maço LM, tabaco moçambicano, restam-me seis cigarros. 

Ainda não me esqueci da tua voz, na verdade está cada vez mais apagada, não completamente. 
O Tavira foi mijar para o tronco do imbondeiro...um tronco enorme....ele pequenino, saiu e entrou na caserna, sem uma palavra....cueca branca....magro.....para nós é o “ratinho.” 
Imagino que para lá do arame farpado existe vida, aquela vida que nos usurparam. 
Caraças, não quero voltar a chorar, não quero voltar ás recordações de outro tempo. 

Não gosto do piar das aves noturnas, africanas. 
Tenho saudades dos meus pardais, aqueles que comiam os figos do meu avô Coutinho, aqueles que por vezes caíam nas armadilhas da minha infância e que eram comidos, fritos na única frigideira da minha avó Júlia.

Não, hoje não fumei maconha, não me quero viciar naquela merda que nos faz voar, que nos faz acreditar que para lá do arame farpado, estão todas as mães, todos os pais, todas as esposas, todos os filhos, todas as namoradas., deixados num caís qualquer de Lisboa, ou numa estação de caminho de ferro.

Quatro horas da manhã, vou estender-me em cima da cama, em cima da única manta, aquela que esconde a negrura dos lençóis. 

Vou tentar dormir.

A guerra? 
Mas qual guerra?

 Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique.
(Apontamentos passados a “limpo” em 17 de Março de 2005)

"A PASTA"..., por José Nobre

José Nobre
"Nunca Atirei Pedras Aos Cães."
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique.
"A PASTA"
"O papel onde escrevi este apontamento, está amarelado e foi escrito a lápis, o que dificulta ainda mais a leitura de alguns dados. 

A imagem pode conter: 1 pessoa, a sorrir, em pé

Sei que a foto foi tirada em Mueda, entre os meses de Outubro de 1967 e Março de 1968. 

Esta é mais uma recordação de guerra, da minha guerra, que em nada se assemelhou à guerra de outros camaradas, no sentido em que eu sempre fui o cabelo na sopa, o apanhado pelo clima, o gajo que tinha o nome da namorada, escrito em letras garrafais no para-choques dianteiro da Berliet. 
O soldado condutor - 044483/67.

Era uma peça estranha na engrenagem militar, fazia o que me mandavam fazer, mas nunca mais do que isso. 
O código militar era cumprindo na íntegra,mas com uma grande diferença, estávamos no mato e eu tinha uma G3 (espingarda automática) só para mim, a tal que dormia sempre comigo, dois carregadores de balas e cinco ou seis granadas, sempre prontas....debaixo da cama. 
Como tal, mais valia não chatear muito o "marroquino." 
Na prisão já eu estava, uma grande prisão, cercada de arame farpado, e de onde ninguém queria sair, só em coluna militar, ou para operações militares contra a guerrilha.
Foi, mais uma coluna de reabastecimento a Mueda, e como sempre, levei comigo as "coisas"que sempre me acompanharam, fosse para onde fosse, ou seja, a Pasta, a minha cadela, a Lassie, que não era mais que uma escova atada a uma corda, e a Concha que apanhei na Praia da Rocha, dias antes de embarcar para Moçambique.
As histórias da Concha e da minha cadela Lassie, já as contei.
A Pasta, antes de partir comigo para Moçambique, acompanhou-me durante alguns anos na minha vida escolar na EIC de Silves. 
No dia em que fiz a mala, só tinha uma, decidi também levar a dita cuja. 
E assim foi, meti-a dentro da mala e lá fomos salvar a Pátria.
A pasta não tinha nada dentro, sempre andou fazia. 
Fui gozado.... "olha o gajo da pasta".."queres ir para o hospital psiquiátrico?".... "Queres férias na Beira?"
Um dia, à entrada do quartel em Mueda, o sargento de serviço perguntou-me...."Ó soldado, o que é que tens dentro da pasta?"
Respondi, nada, nada meu sargento. 
Mandou-me abrir a pasta e efectivamente nada tinha dentro. 
Mandou-me passar, mas ficou com um olhar desconfiado. 
Horas depois, quando saí do quartel o gajo pediu-me novamente para ver a pasta...continuava vazia, como sempre.
Ninguém imaginava, ninguém via o que aquela pasta continha. 
Estava cheia de recordações, de cheiros, de terra de Silves, de água do rio Arade, de laranjas roubadas nas hortas, de perfume das namoradas e de amores jamais correspondidos. 
Bastava abrir a pasta e apareciam, os gajos que dividiram comigo o tempo de escola, o tempo dos jogos de futebol no antigo largo da feira, os matraquilhos e o bilhar. 
Ainda hoje, vejo a minha pasta a fazer de baliza em mais um jogo de futebol, em mais uma aposta, onde estava em jogo o dinheiro que tínhamos para o almoço.
Eis a razão pela qual a "PASTA" fez a viagem comigo, todas as viagens.

- Ó Nobre, o que é que tens dentro da pasta? 
- Recordações..........."

José Nobre