quinta-feira, 21 de maio de 2020

Avô, Avô, olha o que eu encontrei..., por António Júlio Sarmento

Antonio Julio Sarmento para PICADAS DO CABO DELGADO
2020-02-29
Tempos revoltos, tempos difíceis!
Pegou na foto, já amarelecida pelo tempo e foi ter com o Avô.
Avô, Avô, olha o que eu encontrei.

Sentado na poltrona, lá estava o Avô dormitando e talvez sonhando com uma Vida, cheia de memórias e vivências já passadas.

Avô olha o que eu encontrei, quando é que foi tirada esta foto? 
Quem são estes militares? 
Tu também estás aí?
Sim estou, Pedro, na tua escola os professores nunca falaram da guerra colonial?
Não Avô nunca ouvimos, falar nisso.

Infelizmente, hoje isso é uma realidade, mas o Avô vai-te contar, o que foi esse tempo de guerra e sofrimento, com morte, feridos e sequelas , para muitos jovens, naquela maldita guerra.

Naquele tempo o serviço militar era obrigatório, não é como hoje, que só vai para o serviço militar, quem quer naquele tempo ou se ia ou fugia-se. 

Naquele tempo haviam as chamadas províncias ultramarinas. 
As gentes dessas terras, chegaram à conclusão que, já era tempo de seguirem em frente e tomarem as rédeas e governo das mesmas. 
Tentaram dialogar e acertar a melhor forma de o fazer.
Mas como sabes, vivíamos nesse tempo numa ditadura.

Esses governantes nunca chegaram a acordo rejeitando, qualquer solução pacífica.
Eles revoltaram-se pegaram em armas, para conseguirem a sua independência.
Então durante quatorze anos eu e muitos jovens daquele tempo, fomos mandados para África, defender esses territórios.

Aí lutámos com bravura aí morremos ou ficámos feridos, com mazelas para toda a Vida. 
Essa fotografia, que tens na mão foi tirada numa altura, em que tivemos uma emboscada.
Estávamos a pôr numa maca improvisada um Camarada, que tinha sido ferido com gravidade e estávamos à espera do helicóptero, para se fazer a evacuação para o hospital militar mais próximo.

Como vês a nossa juventude não foi uma Vida fácil.

É verdade Avô, por aquilo, que me contas, vocês foram uns bravos soldados, tenho pena, que os nossos governantes tenham apagado e esquecido esse período triste e dramático da nossa História.

Resta-nos, Avô as tuas memórias e testemunhos de muitos outros militares, felizmente ainda vivos, para nos contarem e nos recordarem esses tempos. 

A grande viagem!, por António Júlio Sarmento

A grande viagem!

O começo de uma viagem, que para muitos será, o princípio do fim das suas jovens Vidas!

Depois de toda a tropa, entrar nas carruagens e depois de uma ronda pelas mesmas, para ver se estava tudo em ordem e acomodados, foi dado o sinal de partida.


O comboio começou a sua viagem em direcção ao Sul, levando mais uma vez centenas de jovens soldados, que iriam tirar uma especialidade depois de uns meses de recruta. 

E no percurso da viagem até Lisboa, as carruagens iam ficando vazias à medida, que os jovens soldados, iam sendo distribuídos pelos vários quartéis das regiões militares ao longo do percurso,até chegar a Santa Apolónia.

Muito de nós íamos tirar uma especialidade, para mais tarde, irmos fazer parte de batalhões, que iriam ser mandados para a guerra colonial.

Para muitos foi o princípio do fim das suas jovens Vidas, pois naquela altura, todos éramos poucos, para ir para uma guerra, que nenhum de nós desejou ou provocou e assim durante longos e amargurados anos milhares de jovens foram sacrificados.

Muitos morreram, outros, ficaram feridos e com mazelas, para toda a Vida.

Nesses anos de sacrifício e dor, para muitos de nós, há uma grande verdade, da qual nos podemos orgulhar. 

Aí nasceu uma grande e perfícua amizade,e camaradagem, que perdurará até ao fim dos nossos dias.

A imagem pode conter: comboio e ar livre

domingo, 17 de maio de 2020

Lata de sardinhas..., por José Monteiro

16/05/2020

Lata de sardinhas


Em Mueda, a minha flat era constituída por operacionais e especialistas, sendo estes enfermeiro, transmissões, mecânico e vago-mestre. 

Ali convivemos 13 meses, fazíamos as nossas festas nocturnas até altas horas da madrugada. 
Todos os dias havia militares fora do quartel, quer em operações, quer em patrulhas. 
Quando um dos operacionais saia, se fosse a horas que os " meninos " estavam a dormir, fazíamos barulho com a preparação da saída, quer a vestir, quer a calçar, quer a preparar o cantil e as rações de combate e muitas vezes os " dorminhocos " eram presenteados com alguns conteúdos das rações de combate que não gostássemos. 

Claro que também sempre fomos presenteados com mimos verbais e algumas vezes com restos de rações.
Já não era chéquinha, já tinha alguns bons meses de comissão, já conhecia bem o terreno.
Fizemos uma operação, preparada para 4 dias, mas que acabou por levar mais tempo, tendo havido necessidade de sermos reabastecidos, quer em rações de combate quer em água.
Já não me lembro muito bem do nome da base a assaltar, mas lembro-me que passamos a noite sempre a andar e apenas descansamos aos primeiros sinais do alvorecer.

Foi no Vale de Miteda, do lado esquerdo da picada que vai para Nancatar. 
O terreno tinha muito relevo, as paragens eram curtas e apenas para a alimentação e onde descansávamos, verdadeiramente, era durante as noites. 
Era tempo de muita chuva e bastante frio nocturno, todos nós começamos a ficar exaustos e alguns graduados foram junto do comandante da coluna para comunicar a situação.
De repente, ouve-se , ao longe, " Tropa ué, tropa ué " seguido de um disparo. 
Era sinal que já tínhamos sido detectados pelos guerrilheiros e estes estavam a avisar a população civil, que sempre existia perto das bases, para os alimentar com as suas machambas.

Perante tal situação apenas havia uma de duas soluções, regressar ao quartel, ou prosseguir para a base. 
Foi esta última que o comandante ordenou.
A partir dali, os comandantes de secção avisaram o seu pessoal para aumentarem a distância entre cada um e olho bem aberto, porque eles poderão estar à nossa espera na base.

Não se ouviu mais gritaria, nem tiros, apenas a chuva que continuava a cair. 
Dois grupos de combate, cerca de 50 militares, ficando uma secção a proteger a retaguarda e as restantes fazem um semicirculo e entramos na base. 
Felizmente ninguém estava para nos " receber ".

Não era uma grande base, já sabíamos antecipadamente, era um local de passagem e de acolhimentos dos guerrilheiros, que aproveitavam para " educar " os civis para a sua luta.
Procedimento habitual nestas situações, palhotas inspeccionadas e incendiadas logo de seguida, fazendo jus ao nome, dado pela Rádio Moscovo, "os incendiarios da 1710 ".

" Ala que se faz tarde ", expressão militar que quer dizer, vamos embora que os gajos podem fazer " chover " morteirada sobre nós.

A chuva não parava , e nós também não paramos para almoçar, sempre a andar e enfiámo-nos numa zona de floresta bastante densa, onde se caminhava apenas abrindo caminho à catanada.
As secções sucediam-se à frente, para rendição, e mais uma vez foi chamada à atenção do comandante para haver uma pequena paragem e assim sucedeu.

" Está no ir, está no ir ", ouviu-se a voz do comandante, todos nós, lentamente,nos levantamos e recomeçamos a caminhar.

Na última noite, finalmente a chuva parou e o céu apresentava-se bastante estrelado, a antecipar um nascer do dia limpo e com sol. 
Deixámos de ouvir os galos e o choro de crianças, sinal de que não estávamos perto dos guerrilheiros nem de machambeiros.

De repente, e contra o que era habitual, recebemos a ordem para o regresso ao quartel, e que o encontro com o esquadrão seria nas águas.

Chegamos a Mueda, ainda bastante de noite, os unimogs param em frente da caserna e cada um regressa ao seu local. 

Por mim, não consigo fazer o meu percurso habitual. 
Não havia casqueiro, o padeiro estava a aquecer o forno, as cantinas e as messes fechadas. 
Não consegui, limpar-me por dentro, com uma cervejola fresquinha. 

Dirigi-me para a flat Nº 2, a minha, onde os " meninos " estavam a dormir. 
Entrei, com aquelas botas de " ballet " e dirigi-me para o 
meu quarto, imediatamente seguido por " mimos " dos " meninos ", que entretanto tinham acordado.

O meu objectivo era, como habitualmente, comer uma lata de ração, tomar banho e, finalmente, meter-me entre os lençóis. 
Seguindo esse pensamento, fui por baixo da cama, e descobri uma lata de sardinhas em tomate. Acto continuo, devia estar mesmo muito cansado, coloquei a lata a aquecer na pequena lamparina, pertença do enfermeiro, e sentei-me na minha cama para me despir. 

A imagem pode conter: comida

Ouviu-se um estoiro que acorda , novamente, os camaradas da flat. 
As paredes do duche ficaram cheias de fragmentos de sardinhas e de tomate, voltei a ouvir " mimos " dos meus camaradas de dormitório. 

O tempo fez esquecer esses " mimos ", mas provavelmente o mais suave teria sido " Checa de merda ", pois , com o cansaço, tinha-me esquecido de abrir a lata. 

Já não tomei banho e enfiei-me dentro dos lençóis, sujo por fora e por dentro.

Linda-a-Velha, Julho de 2017

terça-feira, 12 de maio de 2020

Coluna Saurio MUEDA - OMAR - MOCÍMBOA DO ROVUMA, por Manuel Neves Silva

Coluna Saurio MUEDA-OMAR-M. ROVUMA

MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL-

Por: M Neves Silva- Furriel Miliciano de Armas Pesadas

Nove de Maio de 1973, madrugada triste, fria e húmida em Mueda a Capital da guerra no Planalto dos Macondes.

Alinhavam-se as berliets militares e os camiões civis. Iniciava-se a coluna logística Sáurio 01,viagem de reabastecimento logístico a Omar e Mocímboa do Rovuma.

A tropa era composta por três grupos de combate da Companhia de Caçadores 4140 do Furriel Lopes, do Alferes Joaquim e do Alferes Feire; dois grupos da companhia de Artilharia 3503 comandados pelos Furriel José Caseiro​ e Alferes Coelho; três secções de morteiros médios do Alferes Casimiro; uma secção de sapadores sob a responsabilidade do Furriel Jacinto; um pelotão de Cavalaria do Alferes Menéres e ainda um Grupo Especial de tropas africanas, o GE 208,do Alferes Antonio Manuel Pereira Giestas.e dos Furriéis Julio Leitao e André Jorge Silveira

Todos estes militares distribuíam-se pelas caixas das viaturas e pelos flancos da picada, pela testa da coluna. Eram diversas as missões de todos estes grupos: proteger o comboio contra ataques; proteger os flancos, esquerdo e direito; emboscar os trilhos de acesso à picada; abrir o percurso.

Era um bulício de homens, de espingardas G3, cartucheiras, granadas de morteiro, granadas de mão, lança granadas, rações de combate…..

E eram as gargantas secas de amargura, de sofrimento, de ansiedade, de medo.

O comboio verde estendia-se enorme, ocupando toda a avenida da cidadela militar.

À ordem do Capitão Miliciano Vasco Gonçalves toda esta mole se põe em marcha com a ronca dos motores, as baforadas diesel dos escapes e o serpentear lento com as vénias dos carros à esquerda e à direita ao sabor da irreverência dos buracos e das depressões da picada.

Ao meu pelotão comandado pelo Furriel Lopes, homem minhoto das terras de Celorico, cabia a tarefa e responsabilidade de encabeçar a ”“excursão”, de rasgar o itinerário, de detectar e neutralizar minas, armadilhas e outras quejandas surpresas dos “turras”, até ao Posto de Águas 34, onde este Sáurio se bifurcaria em dois, um para Omar e outro para Mocímboa do Rovuma.

Sítio de Luís Pinto Coelho, ex- Alferes Mil.º Sapador de ...

Estes postos de água, agora desactivados, antes da guerra, ao tempo da majestática Sociedade Agrícola Algodoeira (SAGAL) forneciam uma determinada quantidade de água a troco da inserção duma ficha que valia 50 centavos de escudo (uma quinhenta). Estão distribuídos um pouco por todo o lado ao longo destes caminhos. Servem agora como pontos de referência das estradas (picadas).

Foi este sistema de distribuição de água, e foi a Companhia do Algodão (SAGAL) grandes fontes de descontentamento e revolta para os trabalhadores nativos macondes, que se viam coagidos pela empresa a plantar algodão e a entregá-lo a esta por irrisórios preços. Depois para matarem a sede teriam que devolver o parco soldo naquelas torneiras. Os portugueses não foram uns colonizadores exemplares……

A vegetação densa, estava eivada da comichão do” feijão macaco”, essa vagem parecida com o feijão-verde que uma vez tocada, solta aquele castanho pó que desencadeava coceira e mais coceira e ainda mais coceira qual infernal sarna que punha os nossos corpos em brasa.

Tudo nos atazanava o psiquico e o físico. Para além da vagem da comichão, eram as talacas, essas enormes formigas que se deslocavam em fila indiana, qual batalhão bem formado em ordem unida e que ao morderem preferiam deixar o ferrão, a abandonar as nossas pernas.

Mas ainda pior, era o perigo sempre presente, o risco de se furado por “frela” bala ou de ficar estropiado com o estoirar duma mina debaixo dos nossos pés.

E assim, ordem dada, avançámos picando a picada, num pleonasmo de picas, aquelas varas de bambu com um prego na ponta com que os soldados do grupo da picagem, agora com o estatuto de picadores, iam batendo repetidamente o chão à medida que avançavam tentando assim “apalpar” as minas a uma distância segura.

Era uma “tecnologia de ponta”, esta ponta de aço na ponta da cana de bambu. Na outra ponta da pica, estava sempre a vida do batedor.

Esta técnica de sentir as minas na ponta, era complementada com a tecnologia ainda de mais ponta dos detectores electrónicos de metais, que neste particular levavam o nome de pesquisadores de minas. Mais eficazes e mais seguros, porque evitavam o toque com o solo, estes aparelhos eram mais raros porque mais caros que o bambu e porque eram mais propensos a avarias e também porque a vida dum soldado pouco valia.

Fazia-se uma guerra barata em material, fazia-se uma guerra cara em vidas humanas.

Neste primeiro dia de sofrimento e antes ainda do meio-dia já tínhamos topado com uma mina anticarro, essas “marmitas” de TNT que fazem ir pelos ares viaturas e homens. Detectámos ainda um fornilho, série de minas e granadas e outras merdas explosivas ligadas entre si por cordão detonante de tal modo que ao ser accionado um elemento desta cadeia, todos os outros deflagram em sequência, rentabilizando assim os estragos.

O Grupo de picagem avançava como que perseguindo caracóis, seguido pela primeira viatura, o rebenta-minas, num movimento, chiado, ronceiro e deselegante.

Era integrado por picadores protegidos com as G3 dos atiradores, armas sempre atentas, sempre nervosas, apontando para qualquer ruído, qualquer sinal de perigo, qualquer surpresa vinda da densa mata. Atiradores e picadores revezavam-se, para aliviar cansaços, trocar tarefas, e alternar os estatutos entre picador e atirador.

Era um trabalho lento, monótono, cansativo, enervante. Atrás de nós toda aquela massa de carros, de armas ligeiras e pesadas, chiava, roncava, movendo-se pesadamente.

O Heitor, à minha frente, estacou a pica no chão, embrenhou-se no mato, abriu a braguilha e pôs-se a mijar.

-Não repitas isso muitas vezes. Não deves sair do trilho de picagem. Na próxima podem ficar aí os teus “pedais ”-gritou, chateado o Furriel Duarte, no seu sotaque madeirense

-Meu Furriel, agora tive que ir agarrar noutra pica. Na minha pica!-gracejou o Heitor enquanto compunha a braguilha, “acachando” a picha.

O Grupo tinha parado por instantes o batuque da picagem. Atrás de nós a primeira viatura, a rebenta-minas distanciava cerca de cinquenta metros. O Heitor regressa para a outra pica. Íamos recomeçar quando uma viatura, a terceira voou estrondosamente ao calcar uma mina.

-Caralho -berra o Furriel Lopes defraudado-deixaram passar aquela “marmita”

-Atão e só “arrebentou” na terceira viatura? -indagou o Moreira, apontando o dedo na direcção da tragédia.

-É uma daquelas de triquetes e devia estar estava regulada para “arrebentar” só no terceiro-sentenciou o Cabrita, enquanto ferrava com violência a pica no chão.

-Foda-se! Se nós não a detectámos é porque é de espoleta química e essas não acusam no detector- afirmou convicto o Cabo Adriano Pereira​ ,limpando com o quico o suor da testa.

Tínhamos, espalhados pelo chão ao redor da estropiada berliet, os gritos de dor de nove camaradas gravemente feridos

Os gritos vinham do chão. Os gritos vinham do ar. Os gritos estavam em mim. Todo eu era já um grito. Eu já não suportava o grito.

Veio-me à memória a letra da canção:

“ Lá longe, onde o sol castiga mais

Não há gemidos nem ais,

Há coragem e valor

Mas quando alguém do nosso grupo cai

Ainda pior, ainda sofremos mais

Faz-nos sentir, faz-nos pensar

Talvez da próxima vez

Seja eu quem vai tombar….”

Mais azáfama, mais ordens e contraordens, muita tristeza, muita consternação, muitos nervos na flor da pele.

Era o pessoal das transmissões gritando, alfas, bravos, charlis e rómeos a pedir helicópteros para a evacuação.

Não se pode perder tempo. Não há tempo a perder. Há que cuidar deles, estabilizá-los com o saber e sangue frio do Furriel Enfermeiro Elias.

Há que capinar, fossar, romper desenrascar um heliporto, antes que anoiteça, para o poiso do helicóptero que vem buscar estes desgraçados, para outros cuidados médicos em Mueda.

Deixámos as picas e corremos às ordens do Furriel Lopes a proteger de armas em riste, o pessoal que abria a clareira para o poiso da aeronave. Os guerrilheiros estão seguramente por perto e não queremos mais surpresas.

Eu aperreava no meu corpo a minha G3 mulher, a minha amiga G3.

A tarde deste dia entardeceu triste, amarga, carregada de nuvens de incerteza e a noite apanhou-nos ali mesmo, escura, aziaga tal como a nossa dor.

Sentia-me estranhamente estranho, não me sentia eu, não era eu quem estava ali naquele filme de terror. Sentia-me uma rocha, quando vê o rastilho arder em direcção à dinamite no seu interior.

Esgravatei no saco bornal a lata de “Fray Bentos”, carne de conserva Sul-africana. Engulo mais uma laurentina. Fumo mais um cigarro. Tento dormir, tento esquecer…

Estamos cansados, não dormimos, não sonhamos. Amedronta-nos saber que os “Frelos” sabem que estamos ali, vulneráveis, á mercê da sua morteirada.- Porra! Em que buraco me fui meter.

Sentia na boca o sabor amargo da cerveja e sentia na alma a acidez da minha vida.

Vêm-me à memória as imagens, saudosas recordações daqueles tempos despreocupados de Lisboa no Jardim da Estrela, a mordiscar as gajas que passavam. Dos serões de estudo de Físicas e Matemáticas no Café Portugália. Das sessões de cinema no José Lúcio da Silva em Leiria e que sempre tinham ponto final, num copo de verde vinho “Três Marias”, já com horas sonolentas e espreguiçadas, no Café Ponto Final.

Amanheceram as neblinas da manhã. As folhas das árvores pingavam lágrimas. As silhuetas da vegetação e dos soldados eram esbatidas desfocadas, mal definidas, tal como os meus pensamentos, confusos, esquizofrénicos. Havia um alvoroço de despertar, um vozeirar ao logo de mais de quinhentos metros por onde se estendia a coluna.

São cinco e meia da manhã. Esta bicha está a ponto de ser por de novo em marcha. Calço as botas que serviram de almofada durante a noite. Trinco o resto de pão que sobrou de ontem com a marmelada da ração e bebo o chocolate e estremeço. Estremeço com a sequência de explosões: PUM!….PUM!…PUM!...PUM! E logo uma voz de comando: - Enfermeiro à frente! Passa palavra! Temos dois feridos!

E vejo o Luís Elias a correr com os primeiros socorros nas mãos.

Ao tentarem encher o cantil na água do auto tanque, os soldados António Trinta e Carlos António, da minha companhia tinham tropeçado numa armadilha que lhes arrancou os pés e parte das pernas.

Esta armadilha esperou cinicamente uma noite debaixo do tanque da água para reclamar as suas vítimas de manhã.

Mais sangue mais estropiados e ainda estamos no inicio. Pisar ou não pisar a mina é uma questão de sorte…morrer ou não morrer é uma questão de morte.

Outro heliporto, mais sangue frio do enfermeiro, verdadeiro herói destas tragédias. O Elias esconde as emoções, não pode ficar escravo de sentimentos. Há vidas em perigo. Tem de agir!

Mais carne despedaçada e despachada para a Enfermaria de Mueda.

Os amigos que com eles partilharam o bocado de chão, debaixo da Beliet durante a noite, choram:

- Ninguém imagina o que estamos aqui a sofrer! Aqueles filhos da puta do “ar condicionado” é que deviam estar aqui. Já se foderam onze gajos e isto não vai ficar por aqui. Logo seremos nós.

Mais além o alguém da 3503 berrava:

- Foda-se esta merda, vamos ter mais um dia de festa do caralho, mandam-nos para aqui morrer e ver morrer. Um gajo anda aqui até levar um tiro na mona ou pisar uma mina, depois acaba-se tudo, acabam-se os sonhos, acaba-se a vida, é como se um gajo nunca tivesse existido.

Pois-disse o Elias, arrumando os primeiros socorros- ainda nem temos um dia nesta porra e já é o que é, onze desgraçados e dois deles sem pernas. Que mais merda estará para vir hoje? Isto está tudo semeado de trotil! Não sabemos onde deveremos por os pés.

Lembrei-me da frase de negro humor que li ontem de manhã no cartaz pendurado na árvore, lá atrás, na saída de Mueda:

Reduz o perigo das minas em 50%., Anda ao pé coxinho!

O helicóptero com os feridos a bordo, roncou mais alto, levantou, roçou a copa das árvores, ganhou altura, rodou no ar e tomou a direcção de Mueda.

Verdadeiros heróis, estes pilotos da Força Aérea. Arrepia-me ver o modo e a destreza como encaixam aquelas máquinas em tão exíguos espaços. A eles e à sua coragem se devem muitas vidas resgatadas.

Estávamos a um quilómetro do Posto de Águas 34.Tanto tempo e tanto sacrifício despendido para tão pouco caminho percorrido.

Durante este quilómetro foram “desembrulhadas” do chão mais sete armadilhas e mais duas viaturas foram dinamitadas. Há sempre minas que nos escapam. A pica não as sente, o detector não as ouve, o picador não as vê.

Para algum alívio das nossas consciências de picadores, não houve homens dinamitados.

Posto de Águas 34, dez e meia da manhã. O comboio militar dividiu-se em dois: uma parte seguiu para Omar, a outra para Mocímboa do Rovuma. Estávamos no segundo dia dum total que viriam a ser de dez dias que ainda iria durar esta operação Sáurio 01.

Eu segui para Mocímboa com o meu grupo, um pelotão de cerca de trinta homens, com três Furriéis: Eu, o Duarte e o Lopes. Era nossa missão agora proteger a Artilharia interveniente neste percurso.

Os Frelos deixaram-nos. Outro tanto não se passou com a secção que se dirigiu a Omar, que sofreram várias emboscadas, abonos de morteirada e viaturas dinamitadas. No cômputo geral, esta operação iria custar três mortos e dezoito feridos, quando dez dias depois tínhamos chegado a Mueda

Mocímboa do Rovuma situa-se num planalto com abrangentes vistas sobre o largo rio que se espraia lá em baixo e que lhe dá o nome. A enigmática Tanzânia avista-se mais além na outra margem. Não fosse a guerra e estas paragens seriam um pedaço de paraíso.

As nossas viaturas, descarregaram. Entre outras muitas outras “viandas”, traziam cerveja, o que alegrou sobremaneira as tropas aqui aquarteladas pois o stock das laurentinas, mack-mahons e manicas já estava em ruptura.

Depois de tantos sofrermos para aqui chegar foi bom sermos recebidos com uma refeição quente.

Foi um almoço de participada tertúlia. Foi o contar da epopeia da viagem, foi um continuar a sofrer pela viagem de retorno. Iríamos decalcar o mesmo percurso mas agora às avessas.

Eu estava avesso de apreensão e medo. E comia a saborosa cabidela e bebia as laurentinas e fumava nervosamente os primeiros cigarros do maço recém-adquirido.

Seria no dia seguinte o inferno da torna viagem.

Um Furriel deste destacamento, falou-me da última vez que aqui foram “abonados” de morteirada pelos” turras” e falou-me das operações de patrulhamento das imediações e falou-me de como uma gazela tinha sido apanhada por uma mina do campo minado, protecção que os circundava, e de como esse bicho virou jantar na messe de sargentos e falou-me de tantas coisas e de tantas memórias…

Eu vinha sujo, completamente nauseabundo de suores acumulados e fermentados com o calor lá da picada. Sentia-me como um rato de esgoto.

- Já viste Furriel, eu a entrar assim malcheiroso na pastelaria Suíça em Lisboa? Era eu a entrar e a pastelaria a evacuar.

Deixando-se rir da minha piada, compreensivo e solícito o Furriel apontou-me o duche enquanto me estendia uma laurentina. Era um balde de zinco pendurado numa trave e perfurado no fundo para ”chuveirar” a água.

E soube-me bem aquele banho “maconde” e soube-me mal ter de vestir a mesma roupa transpirada e sobretudo ainda com alguns pólenes do legume da “coçagem”.

Eu estava estoirado, cansado, com a cabeça desorganizada pelos acontecimentos recentes. A tarde acelerava a queda. As águas do Rovuma ao fundo espelhavam ainda a já pouca luz vinda do seu lado nascente. A noite anoitecia calma e alheada da guerra.

Fez questão o Furriel que eu dormisse na sua “Flat”. Era um quarto bem arrumado, simples e acolhedor.

Junto à cama, numa artesanal mesa de bambu, espreitava um retrato emoldurado de uma linda rapariga que me fez estremecer de surpresa.

Eu tinha visto aquela moça dois anos antes na Metrópole. Estava seguro disso, e estava incrédulo disso. A frase saiu-me simples e espontânea:

-Olha! A Deolinda! Como veio parar aqui a Deolinda?

-Conheces a Deolinda?- Perguntou o Furriel, intrigado, segurando a moldura, como quem protege um troféu.

-Conheço pois.

-Como é que a conheces?- Volveu o Furriel, mirando a menina.

A Deolinda tinha sido minha ajudante no laboratório de análises químicas da SIC. Ela frequentava o Liceu Nacional de Santarém e morava em Azinhaga do Ribatejo, onde estava sediada aquela empresa. Eu estudava Engenharia em Lisboa. Conhecemos-nos no trabalho em conjunto naquelas férias de Verão de 1970,naquela fábrica, perto de Santarém. Quando o trabalho sazonal acabou eu voltei para Lisboa e um ano depois para o Serviço Militar e deixámos de nos ver.

-Conheci-a em Azinhaga do Ribatejo em 1970 quando com ela trabalhei no laboratório da Sociedade Industrial de Concentrados (SIC) durante a campanha do tomate -Respondi ao Furriel, enquanto nervosamente acendia mais um cigarro.

-Ah! Sim ela trabalhava lá durante as férias de Verão. E eu também sou de lá, de Azinhaga-explicou o Furriel, pousando delicadamente o quadro sobre a mesa, como quem baixa a guarda de protecção a um tesouro.

Lembrei-me daquela aldeia, a mais portuguesa do Ribatejo, do sujo rio Almonda, do baile de sábado na Associação, daquele passeio na tarde de domingo nas Portas do Sol.

A Deolinda era agora, namorada do Furriel. Senti-me por instantes como um refractário a um compromisso descomprometido.

A conversa sobre a Deolinda por aqui ficou. Confesso que ao ver de novo a linda menina, fiquei irresoluto, enciumei do Furriel.

A picada do dia seguinte perdeu o valor trágico. Afinal naqueles verdes anos, nós ainda somos imortais, eternos, apesar de podermos morrer amanhã.

Saímos da “flat” e mergulhámos nas cervejas.

Adormeci com as dormências das laurentinas, no colchão de espuma colocado no chão ao lado da cama do Furriel.

Desculpa Furriel da Azinhaga. Nunca te agradeci o modo hospitaleiro como por ti fui recebido. Esqueci-me do teu nome. Passaram quarenta anos e agora, afinal, nós já somos mortais, poderemos morrer amanhã. Teremos de morrer amanhã.

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Manuel Neves Silva-Furriel Miliciano de Armas Pesadas

terça-feira, 17 de março de 2020

O antílope!, por António Júlio Sarmento

O antílope!


No regresso de mais uma saída para o mato, e depois de algumas horas debaixo de um sol escaldante suados e cansados e sequiosos, lá íamos avançando pelo trilho em bicha de pirilau. 

Quando de um momento para o outro ouvimos um restulhar por entre a densa vegetação, que o marginava.
Acto continuo todos se atiraram para o chão, pondo a G3, na posição de tiro. 

Esperamos alguns minutos, que nos pareceram horas e como não houve qualquer reacção do lado contrário, foi dado ordem, para irem alguns Camaradas fazerem a exploração da zona em questão. 

O resto do pelotão, esperou pelos Camaradas, nisto ouvimos um disparo de uma G3, ficamos todos em alerta, esperando o pior, quando não foi o nosso espanto, quando vimos aparecer os Camaradas trazendo dependurado em duas varas um colossal antílope. 
A admiração e alegria foi geral.

Seguimos caminho para o aquartelamento, naquela noite ao jantar a dobrada leofilizada, ficou a perder o antílope tinha sido o preferido.

Moçambique, histórias e factos, que se passaram durante a guerra colonial no século passado.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O heli-canhão!, por António Júlio Sarmento

O heli-canhão!
O caminho era sinuoso, a progressão ia-se fazendo devagar e com cuidado.
Era uma zona onde se sabia, que existiam, bolsas de guerrilheiros dispersos numa vasta área.

Dá-se o encontro de um momento para o outro, ouvem-se o barulho das armas, com gritos de dor e ordens à mistura.

O combate estava a ser duro e mortífero. 
Valeu - nos um heli-canhão, que nos seguia à distancia assim conseguimos com a sua ajuda, inverter a situação. 

Mesmo assim ainda tivemos um morto e dois feridos. 
Nessa noite, quase não dormi, vinha-me à lembrança o combate desse dia como de um filme se tratasse, os mortos os feridos os gritos de dor o barulho das armas essa noite passeia em claro pensando nesse dia horrível.

Moçambique, histórias e factos, passados durante a guerra colonial no século passado.


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sábado, 1 de junho de 2019

Insónias..., por José Nobre

Insónias.
Navego, entre uma e outra recordação, as de ontem e as de agora, passageiras de um navio fantasma, perdido na bruma da minha imaginação. Revejo os dias, as noites, as madrugadas, embriago-me na brisa das memórias, na maré do passado. A chama da vela vacila, projectando nas paredes as sombras do que somos. Escrevo e volto a escrever, rasgo as folhas, transformo-as em bolas de papel, pontapeia-as para debaixo da cama e recomeço. Só escrevo merdas.
Quatro horas da manhã, aqui o dia chega mais cedo. Não sei se a garrafa de Brandy vai aguentar esta minha insónia, fixo-a, meio vazia, desafiando-me, ao lado da imagem da Nossa Senhora, não sei se é a da Fátima ou de outro local qualquer, mas isso não tem qualquer importância, as Nossas Senhoras são todas iguais e brancas, ainda não vi uma negra. Escrevo, escrevo e volto a escrever. Posso contar-te histórias, declamar-te poemas, dizer que não me esqueci, que não te esqueci. O Tavira é o que ressona mais, se o ressonar fosse uma arma, já tínhamos ganho esta merda de guerra, esta guerra que nos impuseram, que nos obrigam fazer, nós que só temos vinte anos. Vou rasgar esta folha e fazer mais uma bola de papel.
- Marroquino, apaga a vela.
- Eu apago a vela e tu não te peidas mais.
( Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique – Madrugada de 23/24 de Novembro de 1967 )

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Cá vou andando..., por José Nobre



José Nobre 
2019/05/09

Cá Vou Andando.
A propósito de - Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
A guerra do ultramar. 
A minha foi em Moçambique.



Nada sei, nada,ou quase nada, das outras guerras. 
O que escrevo aqui no FB, foi vivido por mim e mais cento e setenta gajos.
Tento falar de todos,com respeito e algum carinho.

Nas minhas vivências em África, não existem heróis, porque não os conheci, porque não os vi.
Convivi com gente, cujo único desejo era voltarem vivos e sem mazelas. 
Tentávamos todos salvar a pele, mesmo que para tal,fosse necessário matar.


Existem na Internet, dezenas e dezenas de blogues, que falam da guerra ultramarina.
Alguns com fotos e personagens que nada têm a ver com a guerra,a nossa guerra. 
Se conheci heróis, foram heróis improváveis, como por exemplo um enfermeiro que ajudou ao nascimento da várias crianças(negras),em vários sítios por onde passou.

A guerra só existiu, para todos aqueles que tinham uma graduação até capitão, os outros, todos os outros,não fizeram a guerra, viveram da guerra e do estatuto que a mesma proporcionava.
Vejo fotos de altas patentes,de Coronéis, de Tenentes Coronéis, fotos dos tais que nunca "fizeram o mato", com o peito cheio de medalhas, mas sem nunca terem provado o sabor de uma Ração de Combate,( no mato) sem nunca terem sentido o frio do medo, o silvar de uma bala, o rebentamento de uma mina. 
Esses,que aparecem sempre no dia do Combatente, para colocar mais uma coroa de flores, num qualquer monumento aos mortos do ultramar, numa qualquer localidade de Portugal.

" A guerra não foi só aquilo que escreves." 
Pois não, mas também foi.
É o que eu chamo de... o lado humano da guerra,como se fosse possível existir humanidade num conflito armado.

As armas que me foram entregues, não me transformaram em herói, nem a G3, nem as granadas, nem os carregadores cheios de balas, nem o camuflado.
Era unicamente um gajo que não queria "lerpar".
Consegui, apesar das emboscadas, apesar das minas, apesar das picadas para Mueda, para Muidumbe,para Nangade, para Cassacatiza. 
Outros, não sobreviveram. 
É para eles, para todos eles, que vou escrevendo as minhas "merdas."

A Pátria, deu-nos uma farda, uma arma, uma ideologia, uma história para salvar.......depois deixou-nos num caís qualquer de Lisboa, como mercadoria fora de prazo. 
A Pátria que nem os mortos sabe HONRAR...aqueles que já nada lhe pedem, mas que lhe entregaram a VIDA de ....MÃO BEIJADA...com o respeito que a CHAMADA ....PÁTRIA ....lhes merecia.

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