segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma visão sobre o livro "A Guerra na Picada" de Rodrigues Soares, por Catarina Vidazinha


de Rodrigues Soares

Comentário da leitora Catarina Vidazinha que agradeço. 
Não posso deixar de enaltecer a forma como esta Senhora soube intrepertar esses tempos e ousou falar deles com clareza e verdade. 

Bem haja.

Olá senhor Soares!
Em primeiro lugar desejo que se encontre bem juntamente com toda a sua família e, desde já, os meus votos de Boas Festas para todos.

Breve comentário à sua obra A Guerra na Picada:

Começo por dizer que não fiz uma análise literária do seu livro, até porque, ele não é propriamente um romance, se tivermos em conta o sentido tradicional do termo. 
Não tome estas minhas palavras como depreciativas do valor que ele possui. 
Considero que fez muito bem em escrevê-lo e publicá-lo.



A verdade nua e crua sobre o tema “A Guerra Colonial” é e será sempre um tema polémico, sobre o qual muita gente não terá qualquer vontade de que ele venha a lume. 
Nem todos na sociedade portuguesa estão preparados para enfrentar os factos tais como aconteceram.

O que vejo no seu livro é um narrador/personagem que relata, com a verdade de quem viveu, os episódios de uma guerra desigual, profundamente injusta para os dois lados intervenientes, desde o início, condenada à derrota e que evidencia isso mesmo.

A forma como apresenta os acontecimentos não é em nada diferente da forma como eu e os meus familiares mais chegados os sentimos ao longo dos anos em que a guerra durou.
Desde o início, quando lemos as primeiras notícias dos acontecimentos em Angola, que são apresentados como o começo dessa guerra, lembro-me de ouvir o meu pai dizer o seguinte: “O meu Gualberto ainda lá vai parar!” 
Tinha ele então, apenas dezasseis anos. 
E foi mesmo. 

Acompanhámos todo o processo tal como muita gente que viu partir os seus filhos, irmãos, maridos, namorados e amigos. 
Vimos partir e chegar muitos, alguns estropiados no corpo e na alma e, de muitos outros, só as lágrimas restaram e a lembrança deles.

No entanto, sei perfeitamente que nem toda a gente era capaz de intuir o que se passava neste país e, muito menos o que se passava em paragens tão longínquas quanto África. 
Lá, também, muitos dos que viviam nas cidades não tinham a noção das dificuldades que a maioria dos soldados vivia e nem sequer se davam ao trabalho de pensar na impossibilidade de um tão pequeno país fazer face com sucesso a uma guerra tão cruel para os dois lados e que se desenrolava em tantos territórios tão distantes uns dos outros e tão imensamente maiores que o nosso país e, tão desconhecidos para os jovens portugueses que para lá eram destacados à força.

Na minha modesta opinião, a realidade sempre ultrapassará a ficção, no entanto, a visão da guerra que nos dá no seu livro não poderia estar mais próxima de tudo o que lá se passou.

Muitos dos que viviam então nas antigas colónias, nas cidades e cá, neste pequeno país, viam apenas os seus interesses imediatos. 
Era cómodo aceitar as “verdades” indiscutíveis que lhes eram incutidas pelo Estado. 
Daí que nem sequer tentassem sair da comodidade das suas vidas para olhar para o que se passava para lá dos seus limitados horizontes. 

A guerra, para muitos deles, não existia, nem nunca existiu. 
Basta isto para que o seu livro faça todo o sentido.

Na chamada metrópole, grande parte do povo tinha alguma consciência de que a guerra existia, mas era algo que a distância atenuava. 
Só a sentia com mais força, aqueles que lá tinham algum ente querido. 
A ignorância em que o povo vivia nem sempre deixava ver o que se passava tão longe. 
Apenas quando chegava a notícia da morte de algum jovem tomavam verdadeira consciência de que na realidade havia uma guerra terrível.

A rádio e a televisão serviam os interesses políticos do regime salazarista que se esforçava para esconder o óbvio: impossível manter uma guerra em frentes tão diversas, tão distantes e ainda tão pouco conhecidas. 
Só a loucos ou a alguém a quem não interessava minimamente a vida do seu povo e o melhor dele, a sua juventude, poderia teimar em continuá-la.

Infelizmente ainda há gente saudosista dessa situação, agarrada à ideia de um Portugal pretensamente grandioso, que lamenta a perda das antigas colónias. 

A guerra colonial tal como outros temas que são quase considerados tabu (ex.: a escravatura) deveriam ser mais estudados e desenvolvidos. 
Eles existiram, nós não temos a culpa disso. 
As novas gerações precisam conhecer. 
Tudo isso faz parte da nossa história e sobre a guerra colonial creio que haverá muitos testemunhos mas ainda muito pouca coisa escrita.

Só posso dizer mais uma coisa: Obrigada pelo seu livro, gostei imenso.

Catarina Vidazinha

sábado, 1 de abril de 2017

A Pistola 9 mm Walther m/961, por Duílio Caleça


Tempo em serviço 1939 - act.
Calibre 9 x 19 mm Parabelum
Operação recuo curto com culatra fechada
Velocidade de saída do projéctil 365 m/s
Alcance eficaz 50 m
Peso 884 g (carregada)
Comprimento total 216 mm
Alimentação carregador
Miras alça e ponto de mira
Variantes P1, P38K, P38SD e P4

A Walther P38 é uma pistola de 9 mm desenvolvida pela empresa alemã Walther para serviço na Wehrmacht. 
O objectivo era a substituição da pistola Luger P08, cuja produção estava prevista para terminar em 1942.
O conceito da P38 foi aceite pelos militares em 1938, mas a sua produção para testes só foi iniciada em 1939. 
A Walther começou a sua fabricação na fábrica de Zella-Mehlis, produzindo três séries de pistolas de teste. 
A terceira série foi considerada em condições e produção normal da arma foi iniciada em 1940.
A produção manteve-se até depois do final da Segunda Guerra Mundial.

Uso em Portugal
A P38 foi adaptada pelas Forças Armadas Portuguesas em 1961 como Pistola 9 mm Walther m/961, substituindo a Parabellum então em serviço. 
Equipou desde logo as tropas em combate na Guerra do Ultramar. 
Desde essa altura até à actualidade mantém-se como a pistola padrão do Exército Português

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um Ataque a Mueda e a Micose do Francisco Ribeiro..., por José Monteiro

Ataque a Mueda
Mueda, além da população civil, era uma autêntica cidade militar.
Tinha todas as armas para alimentar a máquina de guerra.
Aqui cheguei em 12 de maio de 1967.
Estrategicamente situada no Planalto dos Macondes, era "visitada" e conhecida pelos restantes aquartelamentos que giravam à sua volta.
Aqui se juntavam aviação, engenharia, companhia de transportes, Pad, cavalaria,artilharia, companhia de cães de guerra e tropas especiais como comandos e paras.


O clima Africano era propicio a vários problemas de pele entre eles a micose que atacou vários de nós.O meu amigo, e vague-mestre da companhia , que também dormia na minha flat, Francisco Ribeiro, foi atacado por tal problema.
O enfermeiro e nosso amigo comum, Eurico Oliveira, receitou-lhe o habitual nestas circunstâncias, que era a tintura de iodo, com a recomendação para ter cuidado pois ardia um pouco.
O Ribeiro começou a tratar do assunto e nós, sempre solícitos e prontos a ajudar, arranjámos uma ventoinha, para o ajudar a refrescar, e directamente voltada para a parte do corpo a tratar.

Tudo estava a correr bem, o Ribeiro continuou com o tratamento, pincelando as virilhas e os testículos, pois era aí que a micose tinha atacado.

No dia seguinte, princípios de Agosto/67 Mueda foi atacada com morteiros pela Frelimo, vindos do final da pista da aviação.
Houve resposta imediata dada pelas Foxs de cavalaria indo o pessoal disponível para os abrigos. Quando o tiroteio parou, saímos das flats e o meu amigo Ribeiro pegou na G3 e como estava na cama e não teve tempo de se vestir, saiu de cuecas e de pernas abertas, pois tinha a pele dos testículos queimada por tanta pincelada dada.

Do ataque não resultou, felizmente, problemas físicos. 

Tinha sido mais para marcar presença do inimigo, pois como era uma posição estratégica, a Frelimo por norma atacava o quartel todos os anos.

Linda-a-Velha, Agosto de 2013
José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex Furriel Miliciano )

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

UMA ESTÓRIA DE GUERRA..., por Joaquim Antero Ferreira

No rescaldo dos acontecimentos do dia 5 de Janeiro de 1969, no Aquartelamento da Cruz Alta, na Serra do Mapé, para além dos 7 Camaradas que pereceram, nesse fatídico dia, foram evacuados mais uma dezena de outros, comigo incluído, gravemente feridos, para a pista do campo de aviação de Macomia.

No local, a confusão era total. 
A juntar ao barulho ensurdecedor provocado pelos helicópteros, que chegavam com a sua carga humana de mortos e feridos (par...a de imediato regressarem à Serra para evacuar mais Camaradas), sobreponham-se os gritos dos feridos em conflito com as ordens e contra-ordens dos diversos intervenientes no socorro, sendo de destacar as do Comandante do Batalhão (que gostava de "estar em todas") desde que previamente estivesse garantida toda a segurança!

Depois de ter sido feita a triagem, os mortos por lá permaneceram, para serem, posteriormente, sepultados no Cemitério da Missão.

Os feridos, depois de nos serem prestados os primeiros socorros, lá fomos, gradualmente evacuados para o "Hospital" de Mueda, onde ficámos até ao dia seguinte, juntamente com outros Camaradas que lá se encontravam.

No dia seguinte, alguns de nós, acabámos por ser evacuados para o HM 125, em Nampula, dado a gravidade dos ferimentos. 

Decorridos 28 dias, regressei à Serra.

Ainda hoje, decorridos que são 48 anos, após este fatídico acontecimento, ainda tenho bem presente, lá no sítio onde se guardam as memórias, todos os sentimentos de dor, raiva, desespero e impotência que este acontecimento me provocou.
Comentários
Luis Pinto Coelho Octávio Galvão de Figueiredo...cruzei-me com ele em inúmeras situações...desde a crise de Macau (por minha curiosidade de eventos históricos; as autoridades chinesas - no tempo de Mao, exigiram a sua demissão de comandante da polícia e saída do território, na época da revolução cultural por volta de 1966) a Chaves em Novembro de 1967, Oasse em 29 de Outubro de 1968 em representação do Comandante do sector B e depois de 25 de Abril de 1974, como elemento do Conselho da Revolução, distribuidor de armas a Edmundo Pedro, relacionado com o Grupo dos 9 (no PREC), e nos Açores, como representante da República na Região Autónoma....
Conversei com ele, na praia da Caparica, uma vez nos anos 80..de forma informal, sobre Moçambique.

Luis Pinto Coelho Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. 
Um potencial revolucionário impressionante. 
Os Guardas Vermelhos surgiram. 
O governo ficou debaixo de fogo. 
De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. 

Macau estava há alguns meses sem Governador. 
Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. 
Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. 
Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. 
A arrogância ao diálogo. 
O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. 

Não podia ter sido pior. 
Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. 
Pior, usaram de arrogância colonialista. 
As tensões exacerbaram-se. 
As posições extremaram-se.

No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. 
As escolas estavam mobilizadas. 
Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. 
Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. 
Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. 
Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. 
Lá estavam guardadas armas e munições. 
Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. 

Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. 
Não havia outra solução. 

O condutor da camioneta é a primeira vítima. 
O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. 
A confusão é enorme. 
Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. 
A multidão dispersa-se. 
Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. 
O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. 

No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. 
No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. 

Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. (in: http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-123-em-1966.html)
Um blogue sobre a história de Macau. 
A blog about Macau's history.
macauantigo.blogspot.com

Joaquim Santos Octávio Q. G. de Figueiredo, um homem que me deu sorte! 
Em 1967 no final do curso em Tavira, discursou a desejar felicidades e boa sorte a todos os instruendos. 
Em 1970 em Tomar, na recepção ao meu Batalhão, desejando a todos felicidades para a vida civil.

Americo Maceiras Caetano E eu a ouvir os rebentamentos em Macomia. Para chegarmos lá a cima para socorro duramos para nós um século...

Sofremos tanto como vós, pois estava lá uma secção de Sapadores.... Terrível dia!! 
O pelotão por culpa desse maldito Octávio Q. G. de Figueiredo voltámos a ter o mesmo pesadelo a 18 de Dezembro 1969 na Cantina Oliveira e pior ainda nos primeiros dias de Fevereiro quando do rebentamento de uma mina quando regressávamos de Tete a caminho de Ribaué.


Jose Monteiro Acontecimentos destes nunca se esquecem.

D'Abranches Leitão G. José Recordações trágicas. ... que só quem as viveu...e sofreu...pode escrever como o caro amigo Joaquim Antero Ferreira! Estive no mesmo "barco", Serra do Mapé ....mas com mais sorte! Abraço fraterno, caro amigo!

D'Abranches Leitão G. José Recordo a minha "estada"....no HM125...

A cadeira de rodas, tinha uma história engraçada, digna de ser relatada!
Era única e por conseguinte quando alguém precisava de ir tirar radiografias ou fazer outro exame e que necessitasse de ser transportado sentado, eu ficava na cama, no meu quarto, até que a dita cadeira me fosse devolvida!

Uma vez por semana íamos ver um filme ao cinema de Nampula!
Voluntários não faltavam para me acompanharem, segurando a cadeira, assegurando assim um bom lugar! 
O “coitadinho” devia ter pisado uma “mina” e merecia um bom lugar! 
Às vezes era difícil explicar porque era necessário a ajuda de 4 ou 5 “enfermos”!!!

Sempre que ouvia o Heli, sinal de que mais vítimas da “guerra” vinham para o hospital, lá estava o “apanhado do clima” na sua cadeira de rodas, junto à pista, para dar o apoio possível!

Viria a saber histórias de Mueda bem no coração de Cabo Delgado, outro inferno, onde havia uma hospital de campanha, que alguns companheiros que entretanto feridos me relataram como sendo muito rudimentar, sendo a sala de operações, digna de uma cena daqueles filmes em que as pessoas mais sensíveis não devem ver. 

Disseram-me que os mortos estavam espalhados pelo chão, nus, como também os vivos à espera de tratamento: as equipas de cirurgiões amputavam pernas, a torto e a direito, “cortando o mal pela raiz”.

Explicando melhor, contavam que muitas vezes só eram amputados pés, mas que mais tarde originavam “gangrenas”, já em Nampula ou mesmo no Hospital da Estrela em Lisboa, e lá teria o infeliz de se submeter a nova cirurgia e lá ficava sem a perna toda!

Um dia, entra pelo meu quarto dentro uma alta patente militar, indagando quem era o Furriel Milº Abranches Leitão! 
Com alguma timidez, lá levantei o braço, pensando que me iria anunciar “algum castigo” pelas tropelias e irreverências. 

Fui informado de que o Estado Maior do Exército tinha recebido um telegrama de Lisboa, para saber se o militar em questão ainda estava vivo! 
Vim a saber que a família “moveu montanhas” para sabe notícias minhas, pois desde a entrada no HM125, que tinha deixado de escrever. 
Uff!
A partir deste momento o Sargento enfermeiro, o tal do hematoma, começou a tratar-me com mais respeito! 
Porque seria.

D'Abranches Leitão G. José Acerca do hematoma do sarg enf°...recordo o que já escrevi. 

Um “sacana” de um Sarg. Enfermeiro, que normalmente acompanhava as ditas senhoras do MNF, considerou-me “apanhado do clima” e até perigoso, só porque um belo dia, num exercício rotineiro de alguns “peões” no corredor, com a minha, nossa (única) cadeira de rodas, o atropelei, pois não avisou que ia a passar!!! 

Julgo que o desgraçado ficou com um hematoma para toda a vida! 

Julgo também que as minhas barbas crescidas entretanto, o roíam de inveja, pois como militar de carreira tinha de andar bem “escamuteado”!

A dita fita métrica que vinha agarrada (brinde) a uma mini pasta de dentes, serviu para mais tarde medir a cama do Cunha, um Furriel Milº do Porto que estava a “lerpar”, mesmo na cama ao meu lado! 

Como o Alferes médico se tinha desenfiado, para o “Bagdad”, que era o Bar mais IN (selecto!) de Nampula, frequentado pelas altas patentes militares, deixou o pobre “vela” a tomar conta de nós. 
Este mesmo “vela” que tentava meter uma seringa nas veias do pobre Cunha, mas que apanhava tudo menos veias. 
Os braços do Cunha pareciam um crivo! 
Depois de obrigar o dito enfermeiro improvisado ir chamar o Alferes médico, começei a acalmar o Cunha, medindo-lhe a cama e perguntando-lhe:
- Queres o caixão em pau-rosa ou em pau-preto!!!??

Com esta “terapia” consegui que o pobre “moribundo” abrisse os olhos e me olhasse com um sorriso, o qual nunca cheguei a perceber!!!?? 

Mas pouco depois chegou o Alferes Médico e o Cunha continuou a jogar a lerpa connosco até ter alta. 
Tinha-se salvo!

Joaquim Antero Ferreira Ainda bem para o Cunha! 😀

D'Abranches Leitão G. José A camaradagem era uma constante! 
A brincadeira da medição da cama, foi bem aceite pelo Cunha. 
Aliás só estes momentos, nos animavam!!!

Joaquim Antero Ferreira Há quem lhe chame "Terapia de Choque"...e, pelos vistos, até resultou!...

sábado, 28 de janeiro de 2017

Setembro de 1971 a picada Macomia-Mataca, por José Leitão

D'Abranches Leitão G. José 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais um "Diario".... Setembro de 1971
A picada Macomia-Mataca


O pelotāo da 2750 que vem da Mataca ao nosso encontro fez alto. 
Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com "as picas de bambu", para que nenhuma mina escape. 

O Alferes que comandava esse pelotāo informa que tudo está bem....


Levamos alguns civis connosco. 
A probabilidade de sermos atacados, diminui assim.

Fazemos uma pausa. 

O Uvaldo, um transmontano baixote mas de rija tempera, oferece-me o seu cantil, sabendo que eu ja devo ter o meu sem gota de água. 
Agradeço e digo-lhe que pode tirar uma Laurentina, da minha mochila. Ainda estao relativamente frescas. 

Os soldados de ambas as colunas abraçam- se. 
O Vidinha, sempre a meu lado, grande companheiro, pergunta a outro soldado da Mataca, por um seu conterrâneo que está na 2750. 
Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. 

De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que cem botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência, avançamos em direçāo à Mataca, para entregar os 2 Hunimogs carregados com mantimentos. 

A descida da Serra...torna-se um pesadelo, pois a picada está muito escorregadia. 
Era tempo de chuva e o matope...torna-se "manteiga"!!! 
Vou ao lado do condutor de um dos Hunimogs, o Crespo, natural de Barcelos, com 1,90 de altura, que me vai dizendo que os travões não estão lá muitos bons, devido ao aquecimento. 
O declive assusta os mais corajosos. 

 Uff a zona mais crítica foi ultrapassada. 

Avistamos o aquartelamento ao longe. 
Mas nada de baldas ok? Grito eu para a minha Seção.

Chegámos! 

O Bar fica do lado direito da "porta de armas". 
O ritual habitual! 
As primeiras latas de cerveja, despejadas pela cabeça abaixo. 
Depois uma rodada, paga por mim, para todo o pelotāo. 
Era assim que fazia depois de mais uma "coluna"!!!!



José Leitao 
CCAVª 2752

Comentários
Armando Guterres Fizemos algumas colunas, a meio da comissão, com troca de carga no Alto do Delepa. A surpresa da coluna era eliminada, sempre que se ouvia diversos carros em afinações. Fev 72 a Março 74.

Aracire Oliveira Quando corria bem à chegada era uma alegria, só que na picada de Omar só me lembro uma vês tudo ter corrido sem mortos ou feridos...

D'Abranches Leitão G. José Alto do Delepa...malta do 1° Grupo de Combate -CCAV 2751

D'Abranches Leitão G. José Identifico os Furrieis Mil° Rosales e o Alegria (já falecido)...e o Cabo Salavessa (?)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Operação Canacassala..., por M. Aldeias

Operação Canacassala
ou
A última operação da Força de intervenção na região dos Dembos.

Acampamento no Canacassala, em Dezembro de 1972
O local onde, de 4 a 21 de Janeiro de 1973, a Força de Intervenção (FI) instalou a sua base provisória tinha sido uma criteriosa e excelente escolha estratégica. Situava-se no cimo de um enorme morro, perto da antiga ponte sobre o rio Onzo e junto da famigerada e perigosa picada “Via Láctea”, que saía de Nambuangongo, a cerca de 180 kms a norte de Luanda, e se embrenhava sinuosa e caprichosamente algumas dezenas de quilómetros pela majestosa, agreste e selvagem floresta dos Dembos. Era uma zona muito acidentada, de difícil acesso e com florestas virgens impressionantes, que cobriam de um manto verde a perder de vista os vales que serpenteavam os morros.
Era algures no seio desta medonha, misteriosa e densa mata, aproveitando-se das excelentes e únicas condições de refúgio que lhes proporcionava, que o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) tinha instalado, desde há algum tempo, o quartel-general da 1ª Região Militar. Daqui saíam os seus astutos e destemidos guerrilheiros para montar minas, emboscadas e ataques aos aquartelamentos das nossas tropas, disseminados por esta vasta e remota região.
Ao contrário das tropas de quadrícula, que apenas actuavam e tinham sobre a sua responsabilidade as zonas onde estavam instaladas, a FI encontrava-se baseada em Luanda, donde saía por períodos de duas a três semanas para qualquer local do norte de Angola onde o inimigo estivesse mais activo e agressivo. Efectuava vários tipos de acções, desde emboscadas a golpes de mão, destruição de bases inimigas, e também nomadizações, que consistiam no patrulhamento apeado de determinadas zonas, para procurar indícios da guerrilha e criar instabilidade nas suas tropas. Findas estas difíceis e extenuantes operações, regressava a Luanda e aí recuperava da intensa actividade operacional a que fora sujeita.
O Batalhão de Caçadores 3848 era constituído pela Companhia de Comandos e Serviços (CCS) e três companhias operacionais: os Escorpiões, os Carolas e os Panteras, que tinham adquirido uma vasta e inigualável experiência operacional durante os dezasseis longos meses passados como tropa de quadrícula na conturbada região de Nambuangongo, uma zona de guerra por excelência.
Agora, estas três companhias estavam acampadas na nova base de Canacassala, onde, nos últimos dias, vinham desencadeando várias operações de nomadização, emboscadas e golpes de mão às bases IN com o intuito de aliviar a pressão que o MPLA estava a exercer na zona.
A derradeira e mais desgastante operação estava reservada para Os Carolas. Tinha como objectivo assaltar e destruir as bases IN referenciadas e prosseguir em nomadização até ao aquartelamento da Beira Baixa, onde seriam recolhidos para regressarem em coluna a Luanda.
Aproveitando-se da escuridão protectora da noite, Os Carolas saíram, levando à frente como guia um homem natural da zona e elemento de um dos Grupos Especiais de tropas nativas, os GEs, como eram habitualmente conhecidos.
Com cerca de trinta anos, aparentando boa robustez física, o nosso guia GE envergava uma farda exactamente igual à nossa, ou seja, camuflado, boné e botas para todo o terreno. Na cara brilhavam-lhe dois olhos inteligentes e perspicazes e uns dentes brancos como a cal, que contrastavam coma cor escura da pele. A meio da testa, sobressaía uma profunda cicatriz provocada por um ferimento de bala. De mãos fortes e calejadas, segurava numa a espingarda metralhadora, enquanto com a outra empunhava a catana, com que ia cortando o labiríntico emaranhado de lianas e outros arbustos que lhe surgiam no caminho. Abria desta forma um estreito e apertado túnel, por onde, em fila indiana e no maior silêncio, íamos progredindo lentamente. A meio da fila onde me encontrava, o silêncio era apenas quebrado pelo leve ruído das botas que pisavam as folhas secas.
Teria sido muito menos extenuante e cansativo avançar pelos trilhos existentes na mata, se isso não fosse perigoso e arriscado, porque eram propícios a emboscadas, a minas escondidas e outras perigosas armadilhas. Apesar da enorme tentação em os utilizarmos, o bom senso impunha-nos o sacrifício e a segurança: a abertura de novos trilhos nunca antes utilizados através de uma densa, misteriosa e quase impenetrável selva. Além do mais, ainda estava fresco na nossa memória o enorme buraco provocado por um desses temíveis e traiçoeiros engenhos, que, dias antes, levara a perna a um camarada nosso.
Caminhávamos há já alguns dias de armas aperradas, olhos e ouvidos sempre atentos, através da imensa e enigmática floresta tropical, que nos impunha respeito e nos fazia sentir pequenos e insignificantes. Procurávamos sempre movimentar-nos com a maior celeridade possível, mas sem nunca descurarmos as precauções e o silêncio, para evitar sermos referenciados. Até porque o inimigo era astuto, destemido e profundo conhecedor da floresta. E também ele mostrava grande mobilidade e agressividade, flagelando constantemente e com dureza as nossas forças. Daí que o medo da morte, o inimigo, a fome, a sede e o cansaço, constituíam verdadeiros desafios às nossas capacidades de resistência, jovens soldados tornados guerrilheiros pelas circunstâncias e endurecidos por mais de vinte meses de guerra no mato angolano. Este oceano de imensas dificuldades era agravado pelo receio constante de sofrermos alguma baixa no interior de uma floresta virgem e inacessível, onde seria impossível proceder a qualquer evacuação. E também não seria tarefa fácil carregar com os mortos ou feridos às costas. Tudo isto contribuía para aumentar a angústia e ansiedade, aumentando-nos o desejo de sairmos daqui o mais rapidamente possível.
A progressão tornava-se cada vez mais penosa, difícil e extenuante. A luz solar penetrava com dificuldade por entre a intrincada vegetação. O odor das folhas putrefactas inebriava-nos. Pequenos mosquitos entravam-nos pelos olhos, nariz e boca, deixando um desagradável e repugnante sabor amargo. O calor e a humidade colava-nos à pele o camuflado já rasgado, sujo e com um cheiro nauseabundo e asqueroso.
Durante esta terrível, árdua e espinhosa odisseia, entrámos por duas vezes no interior de bases militares IN que, por razões de ordem táctica, se encontravam afastadas da base principal e funcionavam como unidades de defesa alargada. Aqui, a vegetação rasteira fora retirada, ficando apenas as árvores de grande porte que, com as frondosas e espessas copas, evitavam que estas fossem referenciadas pela aviação.
Tudo indiciava que os ocupantes as tinham abandonado de forma precipitada e brusca ao pressentirem a nossa chegada, porque o lume estava ainda aceso e livros e vários utensílios encontravam-se espalhados pelo chão ou em cima das mesas.
Dentro destas bases ficávamos vulneráveis. As balas assobiavam e cantavam a morte sobre as nossas cabeças, porque o IN mantinha-se oculto na mata circundante, observando-nos e reagindo com intensidade e violência. Sob esta sensação indescritível de hecatombe destruidora, avançávamos costas com costas, disparando e correndo em busca da protecção da mata. Era crucial e imperioso abandonar rapidamente estes locais onde reinava o medo, o terror e a morte, onde o perigo nos espreitava constantemente, não nos dando sequer tempo ou oportunidade de proceder à destruição destas bases disseminadas na selva.
Ao quinto dia de progressão, já bastante debilitados pela fome e pela sede, extremamente cansados, já inclusive distanciados uns dos outros na fila, começámos a sair do imenso verde desta floresta hostil, adversa e infindável. Porém, o inimigo dava-nos as boas vindas ao espaço aberto e ao tórrido sol Africano. Foram momentos de ansiedade terrível e indescritível com as balas mais uma vez a entoarem a sinfonia da morte.
O IN utilizava metralhadoras pesadas com um matraquear sepulcral, rouco e cavernoso, e as irritantes costureirinhas com aquele estampido metálico, enervante e contundente, e com as suas rajadas cadenciadas e irritantes, que ficaram para sempre na memória de todos os que tiveram a malfazeja sorte de com elas se confrontarem no palco da guerra colonial, fazendo-nos recordar as máquinas de costura das nossas mães na longínqua e saudosa metrópole.
Através do capim que nos feria as mãos, deixando-as em sangue, e nos dava pelo peito, rastejando com grande sofrimento, alcançámos ilesos a segurança precária dum alto morro, onde rapidamente montámos um círculo de segurança e ficámos em posição mais vantajosa em relação ao astucioso e matreiro inimigo.
Durante esta longa, tenebrosa e aterradora epopeia, tínhamos penetrado profundamente em território IN e efectuado um desvio bastante acentuado do itinerário previsto. Foi quando o nosso guia confessou estar perdido. Não fora a utilização das comunicações pela rádio, dificilmente alcançaríamos uma zona para recolha do pessoal. Pouco depois da comunicação com a sede, tivemos a ajuda de um heli-canhão, que nos ajudou a referenciar a nossa posição. Encontrávamo-nos a seis dias de marcha do quartel mais próximo. Mas a sua acção não se limitou à nossa referenciação no espaço operacional. Antes de regressar à base, contribuiu para pôr o inimigo temporariamente em debandada. Fomos também informados, via rádio, de que o plano de operações não incluía uma possível evacuação, devido à escassez de meios aéreos, e que, depois de reabastecidos de ração de combate e água, teríamos que prosseguir a marcha. Uma tarefa, sem dúvida, quase impossível de concretizar, dadas as depauperadas e extenuantes condições físicas em que nos encontrávamos.
No cume de um aterrador e apavorante morro, livres de surpresas desagradáveis, mas sem a protecção das copas da vegetação angolana, sem comida, sem água e bastante debilitados pelas agruras do clima, estávamos a ser violentamente fustigados pelo escaldante, abrasador e sufocante sol africano e, pior ainda, cercados por um inimigo inclemente e cada vez mais belicoso, hostil, forte e destemido. Tudo contribuía para nos colocar num feixe de nervos e com a nossa já bastante fragilizada resistência física e psicológica cada vez mais em baixo. O nosso aspecto estava longe de ser o melhor: barbas por fazer, camuflados rotos, cobertos de lama e com um cheiro pestilento, muito pior que um bando de salteadores. Éramos um flagrante contraste. De um lado, aquela paisagem edílica, verde e  luxuriante aos nossos pés; do outro, um grupo completamente estoirado e a necessitar urgentemente de um revigorante repouso. E a situação a degradar-se cada vez mais, Mas, quando o desespero parecia ser a nossa situação das próximas horas ou talvez dias, recebemos pela rádio a melhor informação: dentro de poucas horas, os helicópteros da força aérea efectuariam a evacuação de todo o pessoal.
Recebida a notícia, os nossos olhares deixaram de admirar o vasto oceano verde que se espraiava à volta do morro, para começarem a esquadrinhar ansiosamente a linha do horizonte. E respirámos de alívio quando do nada se começaram a vislumbrar, a uma distância razoável, três pontos negros que aumentavam progressivamente e desapareciam por detrás de um ou outro morro, para logo voltarem a aparecer “rapando” a colina seguinte. Não havia dúvidas! Ali estavam os helicópteros que nos vinham socorrer.
O ruído tornou-se ensurdecedor. O heli-canhão descrevia círculos por sobre as nossas cabeças, fazendo fogo sobre o inimigo próximo, que de imediato bateu em retirada, dispersando-se em fuga no meio do mato. Então, à vez, os dois helis mais pequenos, equipados com duas macas, uma de cada lado, deram início à evacuação, começando pelos mais debilitados, enquanto o restante pessoal procurava manter a segurança. Ao fim de algum tempo, com o apoio de helicópteros com maior capacidade, os Pumas, que tão relevantes serviços prestaram , terminava uma operação desgastante de seis dias consecutivos em plena selva angolana.
Não foi aqui narrado um décimo do sofrimento e aflição por que passaram os jovens soldados de vinte anos, durante esta árdua, penosa e fatigante odisseia, em que, na primavera da vida, se viram atirados para o lodaçal de uma desmerecida, injusta e cruel guerra.
Já em Luanda, fomos todos sujeitos a várias juntas médicas, que atribuíram a inoperacionalidade a 92% dos intervenientes desta operação e preconizaram também um considerável número de medidas a serem implementadas durante um período de 22 dias, para debelar a crise.
No final deste período, todo o pessoal foi sujeito a uma nova junta médica, a 15 de Fevereiro de 1973, a qual definitivamente determinou que o Batalhão de Caçadores 3848, «O excelente e valoroso» fosse ingloriamente considerado inoperacional.
A 27 de Fevereiro de 1973, iniciou-se a deslocação da CCS e das diferentes companhias, ou seja, a C. Caç. 3386 (Os Carolas) e C. Caç. 3387 (Os Escorpiões) para os confins do sertão angolano, bastante distantes da zona de guerra, onde permanecemos na paz dos Deuses até ao final da comissão.
M. Aldeias - maldeias@gmail.com