domingo, 13 de janeiro de 2019

A Guerra e outras....COISAS, O Navio Niassa, por José Nobre

A Guerra e outras....COISAS.
O Navio Niassa.


Quando é que começamos a perder a guerra? 
Começamos a perder a guerra, desde o primeiro dia, a primeira hora, o primeiro minuto, em que colocamos os pés dentro daquele navio, no momento em que começamos a subir a escada, que nos levaria ao interior daquele antro, ao interior daqueles porões, no momento em que deixamos as nossas malas em cima de “camas” sem colchões, imundas. 

Embarquei no Niassa, no dia 3 de Agosto de 1967, nesse tempo ainda não existia refeitório, as casas de banho situavam-se no convés do navio, a urina e tudo o resto, escorriam pelo convés do navio até chegarem ao mar. 
Não existiam duches de água doce, durante quase um mês fizemos a nossa higiene pessoal com água do mar, só água do mar. 

Ninguém consegue descrever o que era, o que foi a nossa viagem até terras africanas, até Moçambique. 
No meu caso pessoal, foram vinte e um dias, até chegarmos a Lourenço Marques, onde fiquei durante dois meses, o resto da “carne para canhão” seguiu para norte, para Cabo Delgado, e foram mais seis dias de viagem. 

Ainda hoje, tenho alguma dificuldade em contar, explicar, o que foi aquela viagem. 
Nós, não merecemos isto, dizia-me o José Paiva Carromeu, ele habituado ás lides marítimas, ele que trabalhou, desde a mais tenra idade, nos barcos de transporte de mercadorias, que faziam a travessia do rio Tejo, entre a Trafaria e Lisboa. 

Dormimos, noites e noites no convés do navio, ao frio, ao relento, tendo com agasalho a única manta que nos tinham fornecido. 
A comida era infecta, pior do que em qualquer quartel, pior do que tudo aquilo, que já tínhamos comido, durante os sete meses anteriores, antes de embarcarmos a bordo do navio Niassa. 
Onde comíamos? 
No convés, de prato e púcaro nas mãos, sujeitos a que alguém fosse urinar borda fora e que salpicos de urina se misturassem com o que nos davam para comer. 

Evidentemente que existia um bar, um pequeno bar, um balcão de atendimento, onde um tripulante qualquer fazia o seu negócio, vendendo de tudo e mais alguma coisa, sandes, bolachas, tabaco, cerveja e outras coisas mais. 
Foi a nossa bóia de salvação, enquanto tivemos dinheiro, enquanto demos a ganhar uns bons tostões, ao explorador do dito bar.


Perdemos a guerra, no primeiro dia em que começamos a ser “tratados” como animais, pior do que certos animais. 
Como dizia o Quintela, - o meu cão de certeza absoluta que se recusava a comer o que nós comemos.

Durante anos, muitos anos, de 1961 a 1974, foi assim que os “salvadores” do império foram tratados. No regresso, em Setembro de 1969, já existia um refeitório, mesas corridas, bancos corridos.
Imaginam o que era comer naquele refeitório, quando o mar estava alterado, quando um dos nossos companheiros vomitava, ou quando os pratos vaziam um vai e vem, entre uma ponta e a outra da mesa. 

No regresso, foi mais fácil a nossa viagem, sabíamos que o inferno acabaria no momento em que o Niassa, tocasse um caís qualquer de Lisboa. 
Conto porque vivi e não porque me contaram. 
Imaginem que eu solicitava a todos os meus companheiros, a todos aqueles que foram transportados no navio Niassa, que descrevessem, um dia, uma hora, daquela viagem, de certeza absoluta que muitos, ao lerem ou ao ouvirem essas recordações, diriam....não....não....isto é ficção.

Desembarcamos em Lisboa, no dia 12 de Outubro de 1969, juro-vos que durante meses e meses, mantive nas narinas o cheiro dos porões do Niassa. 

Quem ganhou com aquela guerra?
Nós, a chamada tropa “macaca” perdemos. 
Quando é que perdemos a guerra? 
No primeiro dia em que colocamos os pés no primeiro degrau das escadas de acesso a um navio chamado Niassa. 

As altas patentes, os altos mandatários, os Senhores da Guerra, esses, já se preparavam para mais uma comissão, num qualquer território, numa qualquer parcela ultramarina.

É FARTAR VILANAGEM.
Em honra de todos aqueles que morreram em nome da Pátria, sobretudo dos meus companheiros de viagem, que comigo partiram do cais da Fundição e que comigo regressaram, no navio Niassa, a Lisboa, dentro de quatro caixas de pinho.

Para o - Guerra – Amável – Bibiu e Camilo Alves. È em vossa memória que escrevi e que vou divulgando as minha memórias, as nossas recordações. RIP.


França – 12 de Outubro de 1979 ( Dez anos depois da nossa chegada a Lisboa.)

domingo, 16 de dezembro de 2018

COMO SERIA SE TIVESSE MANDADO DESCARREGAR O EXCESSO DE AREIA?, por José Augusto Baptista


DIA 13 SEXTA FEIRA, DIA DE SORTE OU DE AZAR?

13 DE AGOSTO DE 1966 SEXTA FEIRA 
No dia 12, pelas 10 horas da noite, desloquei-me à caserna do Pel. Rec. e pedi para estarem prontos às quatro da manhã pois íamos sair de carro. 
Às quatro horas da manhã do dia 13 sexta feira, quando me aproximei do meu carro, notei logo que estava muito mais baixo e com as molas completamente vergadas com o peso da areia, ou seja era mais areia que carro. 
Perguntei quem tinha feito aquilo e a resposta foi muito rápida: Fomos nós, depois do Baptista ter saído da caserna, o Carlitos (condutor do carro) disse que quer fosse em primeiro quer fosse em último ia rebentar uma mina. 

Saltamos todos para cima da areia e a coluna iniciou a marcha em direcção ao rio Rovuma com a secção do alferes Santos a seguir ao rebenta-minas, Uma berliet com nativos e atrelado, a secção do furriel Figueiredo, uma berliet com nativos e atrelado e nos em último lugar. 

Texto alt automático indisponível.

A cerca de 4 Kms, em fracções de segundos, apercebi-me de uma nuvem preta a subir. 
Parei no tempo e quando voltei à realidade estava em pé dentro de um buraco que me cobria até aos ombros. 
A única coisa que via era um carro completamente desfeito. 
Com a noção do perigo, saltei do buraco, peguei na primeira G3 que encontrei e, do meu pessoal, não via ninguém. 
A poucos metros de mim surgiram gritos de terror: Meu furriel, estou sem pernas. 
Corri para o homem e enquanto examinava as suas pernas pedia-lhe silêncio explicando-lhe que não tínhamos protecção nenhuma. 
Como não notei qualquer anomalia nas pernas mostrei-lhe a direita e depois a esquerda, a sua alegria foi de tal ordem que quebrou todo o silêncio com fortes gargalhadas de satisfação. 
As outras duas secções do pelotão, após o rebentamento, correram em defesa do rebenta-minas, nunca imaginando que fosse atrás, traziam um grande pedaço de pneu que foi cair à frente do rebenta-minas e já todos nós estávamos refeitos do acontecido, sem ferimentos de maior.

COMO TERIA SIDO SE NÃO FOSSE SEXTA FEIRA 13? 
COMO SERIA SE TIVESSE MANDADO DESCARREGAR O EXCESSO DE AREIA?

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Isqueiro ZIPPO, por José Nobre

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique
Apontamentos - Novembro 1967 - Março de 1968
O Isqueiro ZIP
Resultado de imagem para isqueiro zippo
O "Beiçolas", era o único que tinha um isqueiro daqueles, um verdadeiro isqueiro Zip americano. 
Uma oferta de um tio que andava embarcado num navio da marinha mercante.
Durante meses ouvimos o tlim...tlim do isqueiro do "Beiçolas", quando este o fechava,..tlim. 
Os outros tinham caixas de fósforos, ou isqueiros banais, o Beiçolas tinha um Zip verdadeiro, que brilhava ao sol, e que era limpo várias vezes ao dia. 
Cada vez que colocava gasolina no isqueiro, o mesmo era limpo, testado, verificado e caía novamente na algibeira da camisa do camuflado, até ao próximo ..tlim..
Quando alguém lhe pedia lume, ele tirava o Zip da algibeira, acendia o cigarro do camarada, fechava o Zip...tlim..e o dito cujo voltava para o sitio de onde tinha vindo. 
Tudo isto feito com um ar de orgulho e vaidade. 
Na nossa caserna quase todos fumavam, 25 gajos.
Um Domingo, já depois do café da manhã(grande nome para aquela mistela), e de um bocado de pão com marmelada, fabricada na África do Sul, decidimos, um a um,pedir lume ao "Beiçolas". 
Lá estava ele a fumar o seu cigarro, sentado no chão, encostado a um pneu da Berliet, estacionada sob o maior Imbondeiro de Muidumbe. 
Nem tarde, nem cedo, rapidamente combinaram como iriam actuar.
Todos aqueles que fumavam,iriam pedir lume ao "Beiçolas", com um intervalo de um minuto...tlim...tlim.
E assim foi. 
Primeiro o "madeirense", depois o "padeiro", depois o " Serpa", depois o "marroquino"...mais um...mais outro....até que o "Beiçolas" começou a desconfiar. 
Chegou a vez do cabo das comunicações. 
Tens lume "Beiçolas"? 
Este colocou a mão na algibeira da camisa do camuflado, tirou o Zip, acendeu o cigarro, colocou novamente o Zip na algibeira e levantou-se. 
Caminhou em direcção à caserna. 
Voltou a sair minutos mais tarde, trazia a G3 (espingarda) ao ombro, voltou a sentar-se no mesmo sitio, encostou-se ao pneu da Berliet, encostou a G3 ás pernas,,acendeu um cigarro...tlim... e olhou na nossa direcção.
Nesse dia mais ninguém teve coragem de pedir lume ao Beiçolas Tlim........

(Todos os nomes são fictícios.......Nunca estivemos em Moçambique nem em Muidumbe e muito menos em Cabo Delgado.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Vocês....Faltam-me, por José Nobre

José Nobre para 

Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Vocês....Faltam-me.
Paris – 12 de Outubro de 1970.
Quem diria que um dia, teria saudades das mais simples coisas. 
Quem diria que um dia teria saudades de vocês, do baralho de cartas, gasto pelo tempo, pelas nossas mãos, quase negras. 
Sim, meus grandes sacanas, tenho saudades dos pratos de alumínio, do cheiro da comida, feita por um cozinheiro, que nunca o foi, do vinho quase vinagre, e do som da nossa caserna.

Faz hoje um ano que vos deixei, apressadamente, à porta do quartel em Estremoz. 



Por vezes procuro o camuflado, entre a roupa de todos os dias, o cinto quase desfeito, as botas com as solas descoladas e as cuecas que já não o eram. 

Sim, hoje sinto-me um espantalho. 
A calça vincada, os sapatos engraxados, a camisa lavada e o cabelo penteado. 
É estranho ter tanto cabelo, tenho saudades de uma carecada, daquelas de cabeça completamente rapada. 
Tenho novos amigos, novos companheiros, pouco a pouco, tento voltar à casa de partida, nem sempre o consigo. 

É mentira o que dizíamos, que rapidamente esqueceríamos o nosso tempo de guerra, o tempo em que contávamos o tempo, eu lembro-me de vocês, de quase todos, das gargalhadas, das zangas, das lágrimas, da nossa revolta. 
Faltam-me as palavras para vos dizer o que sinto. 
Hoje, escrevo para vocês, por vocês, sem ser gozado...Então marroquino, já estás a escrever as tuas merdas?


Volto a África, não todas as noites, mas quase, sonho, revejo as picadas, volto a Muidumbe a Nagande, a Moatize e a Tete, e sinto o frio na barriga, aquele frio que todos sentíamos antes de mais uma saída para o mato, confiro as cartucheiras, conto as granadas e aguardo as ordens de um alferes qualquer, e o grito... “ motores em marcha, toca a andar.” 

Voltamos a passar pela picada de Pundanhar, lá, onde “ficaram” o Guerra, o Bibiu, o Braga e o Amável. 
Revejo-os a todos, semblante carregado, tristes, e eu que esperava por vocês em Palma, naquele paraíso africano, naquela praia de areia branca, cheia de palmeiras e coqueiros. 

Com o tempo tudo passa, merda de frase feita, nada passa, nada passou, continuo a vê-los, ouço-vos, como se o tempo não tivesse passado.

Vocês....faltam-me.

( Apontamentos – França )

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Muidumbe..., por José Nobre

Madrugada de 3 de Fevereiro de 1968.
Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique.
Sábado – 2 horas da manhã, um frio do caraças.


Foi o Beiçolas que me rendeu no posto de vigia, aquele que fica mesmo por detrás da nossa caserna.
Uma noite e um céu sem nuvens. 
Sim, o céu não é o mesmo, as constelações não estão no mesmo sitio, eu também não sou o mesmo e também não estou onde deveria estar. 

Durante as horas que passei no abrigo, G3 entre as pernas, duas granadas no cinturão e dois carregadores de balas, não parei de cantarolar uns fados e alguns cantos alentejanos, cigarro após cigarro. Guardei as beatas, nunca sabemos quando o tabaco acaba.
- Marroquino, podes ir para a cama.
- Não me apetece entrar naquela “puta” de caserna, Beiçolas.
- Beiçolas é o teu pai.

Lembrei-me do meu quintal e das noites de verão, na companhia do meu avô Coutinho e das suas explicações sobre as estrelas, sobre o caminho de Santiago. 
Noite escura, nem conseguíamos ver o arame farpado, no qual estavam penduradas dezenas e dezenas de latas de conserva e de garrafas de cerveja....vazias....claro, ao mínimo toque aquela merda começava a chocalhar.....e cá vai disto......mais um carregador....e o nosso Salazar....mais pobre.

Sábado, noite de baile no Boa-Esperança e nas outras coletividades de Portimão....é Carnaval. 
O meu Carnaval é outro, aqui estou em pleno planalto maconde, mascarado de salvador da Pátria, camuflado a cheirar a suor, sujo....temos de poupar a água. 
Não só a água, temos de nos poupar a nós, cada vez que vamos buscar água corremos o risco de uma emboscada. 

Cheiro mal dos pés, nem posso descalçar as botas dentro da caserna, todos se descalçam no exterior.

Faz um ano, ainda não sabia o que era a tropa, o que era África, o que era a guerra, e o medo de morrer aos vinte anos. 
Nunca se morre aos vinte anos...ou quase. 

Desconhecíamos o sabor das ausências, mesmo as mais insignificantes, mesmo aquelas que que nunca pensamos serem ausências. 
Sonho com um prato de feijão com arroz. feito pela minha mãe, mais o toucinho, mais o chouriço.....e aquele pão.

Sentei-me à entrada da caserna, contei os cigarros do maço LM, tabaco moçambicano, restam-me seis cigarros. 

Ainda não me esqueci da tua voz, na verdade está cada vez mais apagada, não completamente. 
O Tavira foi mijar para o tronco do imbondeiro...um tronco enorme....ele pequenino, saiu e entrou na caserna, sem uma palavra....cueca branca....magro.....para nós é o “ratinho.” 
Imagino que para lá do arame farpado existe vida, aquela vida que nos usurparam. 
Caraças, não quero voltar a chorar, não quero voltar ás recordações de outro tempo. 

Não gosto do piar das aves noturnas, africanas. 
Tenho saudades dos meus pardais, aqueles que comiam os figos do meu avô Coutinho, aqueles que por vezes caíam nas armadilhas da minha infância e que eram comidos, fritos na única frigideira da minha avó Júlia.

Não, hoje não fumei maconha, não me quero viciar naquela merda que nos faz voar, que nos faz acreditar que para lá do arame farpado, estão todas as mães, todos os pais, todas as esposas, todos os filhos, todas as namoradas., deixados num caís qualquer de Lisboa, ou numa estação de caminho de ferro.

Quatro horas da manhã, vou estender-me em cima da cama, em cima da única manta, aquela que esconde a negrura dos lençóis. 

Vou tentar dormir.

A guerra? 
Mas qual guerra?

 Muidumbe – Cabo Delgado – Moçambique.
(Apontamentos passados a “limpo” em 17 de Março de 2005)

"A PASTA"..., por José Nobre

José Nobre
"Nunca Atirei Pedras Aos Cães."
Muidumbe - Cabo Delgado - Moçambique.
"A PASTA"
"O papel onde escrevi este apontamento, está amarelado e foi escrito a lápis, o que dificulta ainda mais a leitura de alguns dados. 

A imagem pode conter: 1 pessoa, a sorrir, em pé

Sei que a foto foi tirada em Mueda, entre os meses de Outubro de 1967 e Março de 1968. 

Esta é mais uma recordação de guerra, da minha guerra, que em nada se assemelhou à guerra de outros camaradas, no sentido em que eu sempre fui o cabelo na sopa, o apanhado pelo clima, o gajo que tinha o nome da namorada, escrito em letras garrafais no para-choques dianteiro da Berliet. 
O soldado condutor - 044483/67.

Era uma peça estranha na engrenagem militar, fazia o que me mandavam fazer, mas nunca mais do que isso. 
O código militar era cumprindo na íntegra,mas com uma grande diferença, estávamos no mato e eu tinha uma G3 (espingarda automática) só para mim, a tal que dormia sempre comigo, dois carregadores de balas e cinco ou seis granadas, sempre prontas....debaixo da cama. 
Como tal, mais valia não chatear muito o "marroquino." 
Na prisão já eu estava, uma grande prisão, cercada de arame farpado, e de onde ninguém queria sair, só em coluna militar, ou para operações militares contra a guerrilha.
Foi, mais uma coluna de reabastecimento a Mueda, e como sempre, levei comigo as "coisas"que sempre me acompanharam, fosse para onde fosse, ou seja, a Pasta, a minha cadela, a Lassie, que não era mais que uma escova atada a uma corda, e a Concha que apanhei na Praia da Rocha, dias antes de embarcar para Moçambique.
As histórias da Concha e da minha cadela Lassie, já as contei.
A Pasta, antes de partir comigo para Moçambique, acompanhou-me durante alguns anos na minha vida escolar na EIC de Silves. 
No dia em que fiz a mala, só tinha uma, decidi também levar a dita cuja. 
E assim foi, meti-a dentro da mala e lá fomos salvar a Pátria.
A pasta não tinha nada dentro, sempre andou fazia. 
Fui gozado.... "olha o gajo da pasta".."queres ir para o hospital psiquiátrico?".... "Queres férias na Beira?"
Um dia, à entrada do quartel em Mueda, o sargento de serviço perguntou-me...."Ó soldado, o que é que tens dentro da pasta?"
Respondi, nada, nada meu sargento. 
Mandou-me abrir a pasta e efectivamente nada tinha dentro. 
Mandou-me passar, mas ficou com um olhar desconfiado. 
Horas depois, quando saí do quartel o gajo pediu-me novamente para ver a pasta...continuava vazia, como sempre.
Ninguém imaginava, ninguém via o que aquela pasta continha. 
Estava cheia de recordações, de cheiros, de terra de Silves, de água do rio Arade, de laranjas roubadas nas hortas, de perfume das namoradas e de amores jamais correspondidos. 
Bastava abrir a pasta e apareciam, os gajos que dividiram comigo o tempo de escola, o tempo dos jogos de futebol no antigo largo da feira, os matraquilhos e o bilhar. 
Ainda hoje, vejo a minha pasta a fazer de baliza em mais um jogo de futebol, em mais uma aposta, onde estava em jogo o dinheiro que tínhamos para o almoço.
Eis a razão pela qual a "PASTA" fez a viagem comigo, todas as viagens.

- Ó Nobre, o que é que tens dentro da pasta? 
- Recordações..........."

José Nobre

domingo, 18 de novembro de 2018

O Chico mecânico..., por José Nobre



José Nobre
15/09/2018
Nunca Atirei Pedras Aos Cães.
Preâmbulo.
"Quando começamos a recordar, perdemos a noção do tempo e do espaço.
Voltamos ao tempo em que não havia tempo."

Foi esta a frase de um ex-Alferes.,durante o último almoço, de confraternização, da Companhia de Cavalaria 1728, realizado no passado mês de Junho/2016.
- Marroquino, lembraste do Chico mecânico de Moatize?
- Lembro-me, mas nunca mais pensei nele. Devo ter alguma coisa anotada num papel qualquer.
- Então verifica se tens. Lembraste da primeira vez que o vimos, na nossa chegada ao quartel de Moatize?
Fui verificar, e tenho um único apontamento no famoso caderno das dividas, e lá está." 
Pagar as bananas e o ananás ao Chico mecânico - 12$50."
.....................................................................
" A guerra dá uma excelente história,mas a paz é uma leitura
aborrecida."
( Thomas Hardy - 1840 - 1928 )
.....................................................................
Moatize - Distrito de Tete - Moçambique
Maio de 1968 a Março de 1969.
A primeira vez que o vimos, foi no dia da nossa chegada a Moatize. 
Descemos do comboio na estação, onde nos esperavam várias viaturas, para nos levarem para o quartel. 
Fomos render uma outra companhia militar, que estava de partida para outras paragens.
Lá estava o Chico mecânico, evidentemente que não se chamava Chico. 
Era ele que ajudava os condutores e os mecânicos, no desempenho de algumas funções, tais como...encher pneus, mudar rodas e outras coisas mais ou menos pesadas.

A idade?
Não tinha idade o Chico.
Talvez uns 30 anos.
Já tinha visto desfilar muitas companhias militares em Moatize. 
Falava bem português e era de étnia Nyunge ou Nhungé, nunca chegamos a perceber.

Todas as manhãs, lá estava o Chico à porta do quartel, juntamente com as lavadeiras que nos vinham entregar a roupa lavada.
Só ele é que tinha autorização para entrar no quartel. 
Dirigia-se para o parque automóvel, que mais não era, que um telheiro coberto com chapas de zinco e assentes em barrotes de madeira.
Nada tinha de parque automóvel, mas essa era outra questão.
Gostava de pão com marmelada, e do café do pequeno almoço.
Tinha sempre a sua parte, ninguém se esquecia dele, por vezes até sobrava, e ao final da tarde, ele metia tudo dentro de um pequeno saco e levava para a palhota.
Se tinha mulher?
Nunca perguntamos.
Se tinha filhos?
Nunca nos disse.
Sempre pontual.
Almoçava e jantava no quartel, junto da cozinha e sentado num degrau.
- Soldado não gostar da comida da tropa? Comida ser boa.....

De vez em quando e quando era necessário ir à estação buscar mantimentos que tinham chegado no comboio,o Chico também ia, sentado num dos bancos laterais do Unimog, vaidoso e a fazer adeus aos conterrâneos.

Fartava-se de trabalhar o Chico.



Um dia decidimos ensinar o Chico a conduzir.
Primeiro num Jeep, tipo daqueles americanos, que só tínhamos visto nos filmes, antes de embarcarmos para África.
Depois e como já sabia dar umas voltas, passou para o Unimog.
Sempre acompanhado, chegava ao final do parque, metia a marcha-atrás e voltava ao local de partida, não mais do que 300 metros.

Chegou o dia de fazer o percurso sozinho.
Todos os condutores assistiam às manobras com um sorriso nos lábios.
Ficou aprovado.
Bateu com a mão no peito, gesto que fazia sempre, quando recebia qualquer coisa, ou quando estava contente e gritou.
- Eu ser condutor como o branco, e abraçou a malta toda.

O Chico,tinha acabado de ganhar o seu campeonato.

Passados alguns dias, o comandante da companhia, ficou a saber da nossa história, e das aulas de condução do Chico Mecânico.
Irritou-se, chamou nomes a todos, prometeu carecadas,mas no final, acabou o discurso dizendo: Há coisas piores.

Não me lembro se paguei as bananas e o ananás ao Chico Mecânico, No caderno das dividas não aparece a menção "pago."

PS - Esta história nunca seria contada, sem a ajuda de todos os meus companheiros, sobretudo os condutores,que estiveram presentes no último almoço da nossa companhia.
Obrigado a todos.

Partidas..., por José Nobre

José Nobre
17/11/2018
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Partidas.
Agosto de 1967 – Outubro de 1969.


As estações de comboio deveriam ter bóias de salvação. 

Lembrou-se do dia em que partiu, uma tarde quente de finais de Julho, ia para Estremoz. 
Tinham sido os últimos dias, antes de embarcar para o ultramar, para Moçambique. 
O Comboio aproximava-se, segurou-lhe a mão, apertou-a com força e murmurou as últimas palavras, não se recorda quais. 
Bruscamente deixou-a na estação, correu para a janela e viu-a acenando até que o comboio desapareceu, engolido pela primeira curva. 

Levou algum tempo a recuperar. 
Agora seriam dois anos. 
Não te esqueças de escrever à mãe, disse-lhe a irmã. 
Tinha deixado tudo naquela estação do ramal de Lagos, tentou ordenar as ideias, conter as emoções, não conseguiu, sentiu-se como um náufrago.
As estações de comboio deveriam ter bóias de salvação.

Era domingo, o teu vestido de verão ficava-te bem. 
Caminhamos juntos durante algum tempo, silenciosos. 
Eram as últimas horas na tua companhia. 
Na noite anterior tinham sido os últimos beijos, os últimos desejos. 
Agora estava ali, parado, olhando para ti, como se fosse a última vez, como se fosse a primeira vez. 

Guardei durante muito tempo o som da tua voz, o sabor dos teus beijos. 
Agora, és uma imagem, uma fotografia que trago sempre comigo e onde escreveste – Nunca te esquecerei.
3 de Agosto de 1967. 
Lá estava o Niassa, no Cais da Fundição em Santa Apolónia, esperando por nós, para nos levar para bem longe de tudo, de todos. 
Ia-mos para terras que não conhecíamos, sem saber se voltaríamos, o bilhete de regresso era uma lotaria.
"Quem fala de partir, de despedidas….
Quantas vezes parti na minha vida,
me despedi de vez de gentes e de lugares
a que voltei para encontra-los outros…..
Nem contar posso. E às vezes despedir
foi só pisar com vã melancolia,
as ruas de cidades onde não deixava
ninguém que me lembrasse."

( Jorge de Sena )

Olhou para a G3 pendurada na cama, carregada, com o cano virado para o tecto da caserna. 
Tinha o segundo carregador debaixo do travesseiro. 
Estava em Nangade, lá bem no norte de Moçambique, em Cabo Delgado. 
Nessa noite esvaziaram uma garrafa de Martini misturado com conhaque e fumaram maconha. 
Quase três horas da manhã. 
O único que ainda tinha a vela acesa era o Tavira, continuava a escrever, para a mulher, para a mãe e para a madrinha. 
Era um dos que mais escrevia, era um dos que mais cartas e aerogramas recebia. 
Olhou para a G3, boa altura para enfiar um tiro nos cornos, acabava ali a merda toda. 
Ponto final, sem parágrafo. 
Os outros que se lixassem, não tinha nada a perder, a morte seria oficializada como morto em combate.
No exército português não existem suicídios. 
Teria ainda tempo de ouvir o disparo, depois, o nada, o zero absoluto. 
Uma bala, uma só bala e partiria para outra viagem. 
Puxou a manta para cima, tapou o nariz, o frio e a humidade gelavam-lhe os ossos. 
Não deixou de fixar a G3, cinzenta, desafiava-o. 
– Não tens coragem, és igual aos outros, podes escolher a cabeça, a boca. 
Não sofrerás muito, será rápido e limpo, basta uma simples pressão sobre o gatilho…e Pluf, vás pró caralho, tu e os teus problemas, que pensas um dia resolver. 
Então cabrão? 
Despacha-te. 
Levantou a mão e acariciou a coronha, sentiu o frio metálico, o mesmo frio que lhe ia na alma e que a garrafa de Martini não tinha conseguido aquecer. 
Nunca tinha pensado no suicídio. 
Olhou novamente para a G3. 
Viu o diabo, estava fardado de camuflado.
Espetados na forquilha, à direita Salazar, à esquerda o Cardeal Cerejeira. 
Dançava, rodopiava, ria. 
Um rabo enorme batia contra as outras camas, afastava-se para depois voltar. 
Sorria. 
O suicídio? 
E depois? 
A G3 continuava pendurada na cama, imóvel, fria e a cheirar a óleo. 
O gatilho tal como um sexo à espera de uma carícia. 
Queres fazer amor chéri? 
Não pagas nada, está tudo incluído, ofereço-te a bala, uma só, nunca sabemos se existirão outros pretendentes. 
Sabes? 
É uma bala bem portuguesa e fabricada no Braço de Prata, nada têm a ver com aquelas gajas que vêm da China, da Rússia ou da Checoslováquia. 
Balas anónimas, chegam sem avisar. 
Não têm graça nenhuma, não te dão a oportunidade de participares na tua própria morte. 
Comigo és o dono e senhor, decides como e quando. 
Então filho? 
Não vou ficar a noite toda à tua espera, a olhar para ti, ou sim ou sopas. 
Agarrou-a com carinho, encostou a ponta do cano ao ouvido direito, acariciou o gatilho muito ligeiramente, e ficou imóvel durante longos minutos. 
Adormeceu.

Nunca mais bebo Martin misturado com Conhaque. 
Nunca mais fumo maconha. 
Não sou eu que estou aqui. 
Dói-me a cabeça. 
Que horas são? 
Que dia é hoje? 
Onde estou? 
A caserna acorda pouco a pouco. 
Tenho vontade de vomitar. 
Já vomitei. 
Preciso de um café, de uma aspirina. 
Ó mãe… doe-me a cabeça.

"Sabia antigamente de palavras
E nelas eu dizia
Como é forçoso estar vivo
Mas não é fácil relembrar
De que espuma eram feitas
As primeiras sortidas
Alguma coisa do que eu sou e fui
Foi em viagem
Pela madrugada conforme
E nem uma vez
Deixou de repicar aos meus sentidos
A mesma toada miúda."

( José Afonso )

Em Memoria do Amável, do Biubiu, do Braga e do Guerra e de todos aqueles que morreram na guerra ultramarina.Eu, nunca me esquecerei de vocês. RIP.
Apontamentos – Portimão – Estremoz – Moçambique – (Revistos em Paris -1975 e Portimão - 2004 )
PS – Optei por utilizar o vernáculo dos apontamentos originais……por respeito a todos aqueles que viveram comigo….”aqueles “ vinte e seis meses em terras africanas.
José Nobre - Soldado Condutor - 044483/67 - Moçambique - Agosto 1967 - Outubro 1969.