domingo, 30 de março de 2014

Para que não se perca a memoria, por Luís Leote


Luís Leote

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"Para que não se perca a memória."

Deixo, pois, aqui relatados, não 26 meses de permanência em terras do Norte de Moçambique, mas, principalmente, cerca de 9 meses, "vividos" na Serra do Mapé, algures no distrito de Cabo Delgado (lá para os lados das "Terras Sagradas" da etnia Maconde), designadas, à data, pelos "entendidos" nas lides da guerra, por "Terra de Ninguém".
 
 

  ... Eram cento e poucos "bons rapazes", quase todos eles oriundos das belas terras transmontanas, trabalhadores braçais, na sua maioria, ignorantes em política, como quase todos nós, "Doutores" em amizade, "Irmãos" em camaradagem, resumindo, como era uso dizer-se, "carne para canhão". Pioneiros que foram na "conquista" da Serra "acomodaram-se", em vésperas de um Natal, em 4 buracos escavados no chão, com as próprias mãos e os parcos meios de que dispunham.

Em cada um desses buracos, amontoaram-se uma trintena de homens, armas, munições e pouco mais, para além das inseparáveis e "amistosas" rações de combate e algumas grades de cerveja.

Rodeados de algum arame farpado e de umas "trincheiras", feitas à pressa, com a selva a 50 metros, estavam "prontos e determinados" a defender aquele "pedaço de Portugal" (pouco maior que um campo de futebol) ironicamente chamado "Pousada da Serra do Mapé".
 
Cruzamento para Cruz Alta (Serra Mapé)

Bastaram cerca de 2 semanas, após a "tomada do objetivo", para que, num já esperado raiar do sol, toda a serra "acordasse", estrondosamente, ao som das morteiradas, das "bazucadas", das canhonadas e do sibilar das incontáveis "7.62" disparadas pelas sobejamente conhecidas armas de assalto, as "KALASH", entre outras.

AK 47 - Kalashnikov
 
Bastou a "eternidade" de duas horas, para que 7 dos "bons rapazes", os tais que bebiam cerveja e comiam as rações de combate (por nada mais haver, a não ser o capim), deixassem de o fazer para sempre, enquanto outros, mais de uma dezena e meia, algumas horas depois, conseguissem ser evacuados para o "hospital" de Mueda, com graves ferimentos e mutilações para o resto da vida.



   Testemunho de um Furriel Mil° 1968-1970

Nota: A Companhia que fomos render na Serra do Mapé.