quinta-feira, 8 de maio de 2014

GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA - “Mário Marinheiro” em Moçambique


Personalidades e Tradição | 21-04-2009

GUERRA COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA
“Mário Marinheiro” em Moçambique

In Notícias de Vila Real

Pelo olhar ainda lhe perpassa uma certa saudade dos tempos da guerra. 
Foram tempos difíceis, muito duros, diz, mas ressalta o sentimento de camaradagem, o espírito de sacrifício, a dureza das operações e muita saudade dos camaradas que lá morreram. 

Depois da instrução e especialidade, seguiu-se o embarque no velho paquete Niassa. 
Era o dia 20 de Agosto de 1970. 
Nele seguia Mário Augusto Rodrigues, um dos militares portugueses de entre o milhão que passou pela guerra colonial. 
Nela morreram mais de oito mil jovens. 
Foram 35 dias de mar, desde Lisboa até Porto Amélia. 
Desta cidade, seguiram em coluna militar até Mueda, em Cabo Delgado, depois de passarem por Montepuez e Nancatári. 
A companhia de Caçadores 2730 foi destinada ao “coração da guerra”, no planalto dos Macondes.

Foram dezoito meses de ininterrupta actividade militar, quando se aproximava o fim da guerra por se estar à vista a data de 25 de Abril de 1974. 
Mas, em Moçambique, a guerra vinha-se intensificando, a avançar para sul, e para o interior na província de Tete. 
Das suas palavras bebemos a preocupação pelos que embora tenham regressado, estão desfeitos pelas consequências psicológicas, os traumas da guerra. 
Alguns, refere com tristeza, “nunca mais recuperaram, são autênticos farrapos humanos.” 
Daqueles tempos ficaram muitas amizades que ainda se mantêm, decorridos quase quarenta anos.

NÓ GÓRDIO
Recorda com uma exaltação contida a operação Nó Górdio, realizada no planalto dos Macondes. 
“Foram 35 dias no mato, a comer o que calhou, a dormir mal, sempre em contínuo sobressalto,” refere com emoção e também algum orgulho à mistura por ter participado nessa tão falada operação. 
Planeada por Kaúlza de Arriaga para desalojar a Frelimo do planalto, mobilizou milhares e de homens dos três ramos, tropas de elite e muitos meios materiais, desde viaturas, a helicópteros e aviões.

O resultado terá sido um tanto pobre para a grandeza dos meios utilizados, mas marcou uma fase importante da guerra em África. 
Sobre ela se escreveram livros, romances e outras obras de estudo sobre a guerra colonial portuguesa. 
E Mário Augusto Rodrigues, nascido em Celeirós do Douro, concelho de Sabrosa, há sessenta anos exibe com orgulho pátrio as fotografias da tomada da base Gungunhana, na dita operação Nó Górdio. 
Ou as fotos de prisioneiros capturados, de armamento apreendido, da vida dos militares no mato ou no aquartelamento. 
E as operações, muitas, flúem à sua memória com naturalidade. 
Depressa se adaptou às extensas matas de Moçambique, ele que estava habituado aos socalcos do nosso Douro.

Vai lembrando os camaradas que morreram numa e depois noutra operação. 
Enquanto fala connosco, pelas suas mãos passam muitas fotografias, algumas de militares feridos, de evacuações. 
Para a história ficaram também registados os momentos de explosão de minas anti-carro e pessoais em que Mário Rodrigues se tornou um especialista. 
Executava com tal mestria e sangue frio este trabalho que desta actividade veio a ser recompensado monetariamente, quando numa das vezes saiu do mato para vir passar uns dias de férias a Lourenço de Marques.

MORRER NA GUERRA
Foi ferido três vezes em combate, tendo sido evacuado do teatro de operações. 
Foram ferimentos relativamente ligeiros, mas que mostram bem a sua sorte. 
Diz que o próprio comandante da Companhia gostava de ir perto dele, por se sentir protegido. 
Acredita piamente, que uma mãozinha de Nossa Senhora andava sempre a rondar à sua volta para que nada lhe acontecesse. 
Até o capelão, Padre Vilela, de Vilarinho da Samardã, seu amigo e confidente, saiu com ele uma vez para o mato, para medir o risco das operações.

“Mas quis ir ao pé de mim, e no fim disse que imaginava que aquilo era duro, mas não pensava que fosse tanto.” 
Teve a sorte de estar de férias aquando da realização de uma operação em que o seu pelotão foi violentamente atacado e sofreu vários mortos e feridos. 
O próprio furriel que o substituiu ficou gravemente ferido. 
Aliás, da sua companhia, de 120 homens apenas 70 nada sofreram.

Foram vários os mortos durante toda a comissão e muitos mais os feridos, conforme consta do historial da companhia. 
Mas nem tudo era combate e tristeza. 
Havia momentos de tudo. 
E, com o seu jeito especial, lá ia organizando e participando, com outros, em festas e teatros. 
Chegou a apresentar um espectáculo, em Lourenço Marques, com uma apresentadora profissional, na despedida da sua unidade das terras do Ultramar.

DEIXAR RASTO, FAZER HISTÓRIA
A Companhia de Caçadores 2.730 deixou rasto em Moçambique e muitos desses sinais foram assinados pelo vila-realense, Mário Augusto Rodrigues. 
Os seus actos de coragem e heroísmo foram registados pelos seus superiores em vários relatórios das diferentes operações. 
A forma como comandava os homens sobre as suas ordens mereceu o elogio do seu comandante. 
E também o seu sangue frio, o seu espírito de sacrifício, nomeadamente nos rebentamentos das minas, foram registados para a posteridade nos relatos das operações.

“Os louvores eram importantes, mas a mim interessam-me mais as menções nos relatórios das operações.” Relatos que guarda às dezenas, onde se pode ler a forma como as operações decorreram, os resultados, os ataques, os mortos e os feridos. 
O regresso teve lugar no início do verão de 1972, com chegada a Lisboa, à capital do império em 30 de Junho.