terça-feira, 13 de maio de 2014

UMA FATÍDICA missão, Mendire-rio Mulanga, por Joaquim Coelho


Mais um testemunho...

UMA FATÍDICA missão – Mendire - rio Mulanga

Passava da meia-noite quando a tropa procurava a melhor posição para um curto descanso, antes de regressar ao acantonamento de Napota.

Com mais de 26 horas de marcha até ao vale do rio Mulanga, onde assaltamos um acampamento com guerrilheiros que deram luta, os corpos mereciam repousar e recuperar energias. 

Foi um dia de sede danada; alguns soldados, mal puseram as mochilas no chão, encontraram dois potes com água, casualmente ali à sua mercê.
Reserva do inimigo, só podia ser! 
O tilintar dos cantis em busca de um bocadinho do precioso líquido levou outros a precipitarem-se na direcção do milagroso oásis. 
Houve alarido, enquanto tentavam apanhar algumas gotas.

Inesperadamente, dois ou três tiros disparados do exterior daquele largo, deixaram toda a gente em sobressalto. 
Alguns dos pára-quedistas que estavam a tentar recolher água atiraram-se para o chão e outros rastejaram para fora do centro da zona pelada, temendo o rebentamento de granadas atiradas pelo inimigo. 
Pois era o inimigo que estava ali, mesmo a rondar o poiso provisório.
Passada a surpresa do ataque, os gemidos fizeram ouvir o pedido de socorro! 
Três soldados prostrados no chão; um morto e dois gravemente feridos, já sem reacção nos corpos ensanguentados. 

Situação confusa e insegura, porque havia pára-quedistas desarmados e fora da zona de reunião, que limitavam a acção dos que mantinham a segurança. 
Então, o capitão avisou:
- Todo o pessoal que está fora, salte já para junto das respectivas equipas.
E logo se ouviram os corpos a rastejar com rapidez. 
As equipas de segurança, abriram fogo em círculo, tentando apanhar algum dos guerrilheiros que haviam disparado. 

Os enfermeiros tentaram reanimar os dois feridos, enquanto se constatava a morte do terceiro atingido friamente. 
O local não oferecia segurança, porque não tinha pontos de abrigo. 
O capitão mandou providenciar a remoção do morto e dos feridos para um local mais seguro. 
Cortaram-se alguns ramos de árvores para, com as lonas das tendas, improvisar macas; os enfermeiros injectaram coraminas e coagulantes nos feridos, além de improvisarem a administração de soro. 
Um dos feridos começou a mexer a cabeça e perguntou o que estava a acontecer! 
O enfermeiro deu-lhe duas palavras para acalmar!

Mais de setenta pára-quedistas, cansados, amargurados, seguiram mais para norte, transportando o infortúnio cravado nos corpos em luta contra a morte. 
Uma grande "machamba" com um milheiral viçoso serviu de poiso àqueles valentes do mato. 

O capitão decidiu que ali ficasse um pelotão com o morto e os feridos, até serem evacuados, provavelmente no dia seguinte. 

Os outros dois pelotões continuaram a marcha até ao acantonamento de Napota, onde tinham possibilidade de comunicar via rádio com o comando de Mueda e providenciarem a vinda do helicóptero para evacuação e aviões para cobertura e segurança do pelotão sitiado. 
Assim se fez, e o pelotão destroçado ali ficou à espera de socorros...
Durante a noite manteve-se um extenuante esforço para reanimar os feridos, já que o morto estava em paz! 

O Botelho ia preparando os frascos de soro que o Valente segurava na mão direita, enquanto o enfermeiro transferia o tubo da agulha para o novo frasco da nossa esperança. 
Eram quatro horas da manhã quando as aves vindas da mata ensaiavam os primeiros gorjeios. 
O corpo do Madriana estremeceu, respirava com muita dificuldade. 
As pulsações imperceptíveis e o sinal da morte atemorizaram os socorristas. 
As injecções de coramina não estavam a resultar e as hemorragias internas não foram estancadas. 
Na agulha encravada no braço já não circulavam gotas de soro, nem se detectava a cana da veia para meter outra agulha. 
Num arremesso de desespero, o Botelho tirou a navalha do bolso, passou os dedos pela lâmina, dizendo ao enfermeiro que só puxando a veia do pulso para fora se poderia meter a agulha. 
O enfermeiro segurou o braço esquerdo do moribundo, com o bico da lâmina e o Botelho conseguiu enfiar a agulha. 
Do frasco caíram algumas gotas, numa lentidão de recusa à vida! 
Entre os dois socorristas cruzaram-se olhares de esperança. 
Mas as gotas pararam de correr e o corpo definhava a olhos vistos. 
A uma nova tentativa para injectar soro, o corpo já não reagiu e esmoreceu definitivamente. 
Não tinha sinais de vida!

O sol começou a aquecer quando se esgotou o sangue nas veias do ferido e este se finou perante os olhares incrédulos dos presentes. 
Apesar das tentativas para o manter vivo, as hemorragias internas determinam o fatal desfecho. 
O enfermeiro, desalentado, sentou-se no chão. 
O dia nasceu lentamente, mas o corpo do Madriana já não respirou o ar da manhã. 

Ainda com as lágrimas suspensas, perguntámos ao Deus omnipotente, porque deixou morrer jovens naquelas condições. 
E nem a bondade do Senhor nos deu resposta! 
Os corpos jazem mortos e inocentes.

O desânimo era total entre aquele pequeno grupo de homens bem preparados para a guerra, mas incapazes perante a morte. 

A desafortunada vivência piorou quando o outro ferido começou a sentir-se desprotegido contra a sanha da morte que o rodeava; e lançou uma exclamação que aumentou a nossa inquietação:
- Meus irmãos, vejo que está próxima a minha vez, mas só vos peço que não me deixeis nesta terra longe dos meus pais.
Os efeitos da sede já enevoaram os registos do cérebro e os olhos deixaram de enxergar os perigos que se ocultam na mata... é sempre em frente!
O Gomes tremia muito, perante a triste realidade dos mortos que definharam a seu lado. 
Mas não tremia de medo... porque a morte passou e poupou-lhe a vida nesta última viagem! 
Mas o sangue que se escapava da ferida aberta no seu peito era uma grande inquietação. 
Os borbulhões vermelhos fragilizam a coragem de qualquer corpo ferido. 
E a alma sentia-se ameaçada pela perda do seu suporte num corpo em sofrimento; por isso, tinha que tremer... 
O corpo do Gomes tremia e cobri-o com a manta; mas o calor do sol era forte! 
Um absurdo de remédio!

A fome e a sede perturbam a lucidez, como é natural; e alguns sentiam os efeitos das alucinações que os levaram ao delírio! 
Era preciso procurar meios de sobrevivência, porque as rações e a água acabaram no dia anterior. 
Passava do meio-dia e não havia sinais de apoio aéreo, nem de quaisquer outros meios. 
Os sitiados pára-quedistas, desalentados e fracos, cada um a seu modo, procurava proteger-se do sol abrasador, cortando milheiros para se cobrir atrás dos minúsculos peitoris de defesa escavados na terra dura.

O sargento Botelho chamou o prisioneiro que se dizia ser capitão Simango da Frelimo. 
Foi apanhado nas proximidades de Pundanhar e entregue no aquartelamento de Nangade. 
Servia de tradutor, mau grado a nossa desconfiança. 
Era legítimo que obrigasse o prisioneiro a indicar onde haveria melancias ou outros frutos, uma vez que conhecia a zona. 
Mas o capitão Simango só aceitava ajudar na procura de alimentos se lhe déssemos uma arma para as mãos - dizia ter medo dos ataques e não poder responder! 
O aparente sossego contrastava com o desânimo que se abateu sobre os dezoito homens que ainda restavam do pelotão, com condições de reagir. 
Não havia tempo a perder e foi combinado entregar uma arma ao prisioneiro, mas ser o sargento a transportar o carregador. Ainda foi feita uma recomendação:
- Meu caro capitão Simango, se tiver o azar de fazer algum gesto ameaçador, será morto imediatamente, porque vai seguir na frente das nossas armas.

Foram quatro homens famintos à procura de alimento. 
Passados mais três campos de milho, lá apareceram as melancias verdes que fizeram sorrir os olhos. 
Cada um colheu as que pode guardar dentro do camuflado, em redor do corpo viscoso de suor. 
E logo regressaram, para matarem a fome e a sede que era causa de desespero nas cabeças de alguns mais frágeis. 
Pois, nem todos têm a mesma resistência ao impiedoso calor e à tragédia que se abateu sobre aquele punhado de homens abandonados no meio da mata, à mercê da sua sorte.

Norte de Moçambique - Cabo Delgado - Um Inferno - mil novecentos e sessenta e picos...

Autor Desconhecido