terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O que sentimos, por José Monteiro



Mais um pequeno texto sobre o período que passei em Mueda.

O que sentimos........

O que sentimos perante uma distração, onde não ouvimos uma ordem militar e nos dão um violento soco, que quase nos leva ao chão ?????

O que sentimos quando, após uma emboscada, percorremos toda a coluna perguntando se houve problemas e nos dizem - suba para a Berliet - e vimos um camarada estendido, já morto, quase a olhar para nós ??????

O que sentimos quando estamos perante um condutor, que o seu carro tinha acabado de rebentar uma mina, e que estando á espero do heli, para evacuação, apenas nos diz - Tenho imensa sede - e quando chegámos ao aquartelamento soubemos que tinha falecido ???????


O que sentimos quando montamos uma armadilha, escolhemos o local de provável passagem, e semanas depois encontramos um morto, civil, fruto da nossa ação militar ?????????


O que sentimos quando praticamos atos, em situação de guerra, que normalmente não praticaríamos ???????


O que sentimos quando estamos alinhados, frente ao quartel, prontos para a nossa última operação e ouvimos do responsável hierárquico - Esta é fácil, depois vamos para Sul - sabendo nós que para ele as operações foram sempre fáceis, pois "baldou-se " a quase todas ???????
                 

O que sentimos quando estando no aquartelamento, vimos passar um helicóptero em direção ao hospital????
                 

O que sentimos quando vimos pela televisão, ex-camaradas que fizeram o mesmo percurso e que hoje andam errantes pelas ruas, sem abrigo ???????
                 

O que sentimos, quando vamos pela primeira vez de férias, saindo daquele inferno, nos encontramos já na cidade e ao atravessar uma rua ao ouvir o simples buzinar, vamos imediatamente com as mãos à posição, onde normalmente, encontramos a G3 ??????
                 

Sentimos ódio, revolta, interrogação, abandono............
                 

O que sentimos, passada essa tormenta, passados esses anos e nos encontramos em reunião anual ?????????
                 

Sentimos quentes abraços, alegria de estar novamente com os "velhos" companheiros de armas.

Contamos alguns factos novos, outros são contados de maneira diferente, mas essencialmente sentimo-nos BEM.

E o futuro ??????

Será, certamente, MELHOR, pois já há NETOS nos nossos encontros e eles comunicam com os "velhos" combatentes através da net.

Linda-a-Velha Agosto de 2011
 
 
Antonio Nascimento o que diremos.
Diremos que todas as guerras são feitas por interesses de uns poucos pra prejuízo de milhões.
 

 
Antonio Nascimento que diremos que não queremos os nossos filhos e netos passem por aquilo que passámos.
Que diremos que fomos carne para canhão para o ego das sanguessugas e...
 
 
Antonio Nascimento tubarões do nosso País.
Que diremos que eles façam o dever deles e sejam cidadãos de direito e consigam correr com a escumalha que nos governa.
 

 
José Da Silva Dias Enquanto lia tuas linhas senti o tempo que ao tempo sentia o que sentia na altura que acontecia em ti...
Um abraço pela relembrança de tempos idos mas atualíssimos !
 
 

 
Rodrigo Crispiniano Saraiva Mendonça Gostei muito do texto e reavivou-me memórias.
 
 

 
Fernando José Alves Costa Belo texto, obrigado amigo Jose Monteiro por me fazeres pensar em quanta hipocrisia ainda hoje vivemos.
 
 

 
José Alves Alves Boa tarde José Monteiro.
Li o teu relato com toda a atenção.
É um desabafo real, que nos marca muito. 
Sem pieguices posso afirmar-te que chorei, pois ao ler o que escreveste, senti-me totalmente transportado para o cenário que viveste.
Posso dar-te um conselho?  
Escreve um livro e atira cá para fora tudo quanto tens acumulado há já mais de 40 anos.
Eu assim fiz, escrevi o livro que me identifica (em vez da minha foto) e depois de o ter escrito, senti um enorme alivio no dia do lançamento.
A partir daí, todos os traumas que eu tenho, passei a partilhá-los com quem o quiser ler, especialmente, filhos, neta, amigos e todos quantos o lerem.
Agora posso morrer tranquilo, pois aquela enorme pressão que sinto permanentemente, não está apenas comigo.
ESCREVE E ATIRA CÁ PARA FORA TUDO QUANTO ESTÁ A MAIS.
Um forte abraço.
ALVES
 

 
Jose Monteiro Obrigado José Alves Alves, mas isso de escrever um livro não tenho fôlego (palavras) para isso.
 
 
Jose Capitao Pardal Jose Monteiro um sentir que partilho contigo...
Irá para o meu blog, se não vires inconveniente...
Conseguiste expressar o sentimento da generalidade daqueles que passaram pelo mesmo...

 
Jose Monteiro Obrigado.
Estás completamente à vontade, é com muito gosto.
 
 
Jose Caramelo José Monteiro
O que sentimos quando alguém nos acorda e diz vem comigo ao cemitério porque eles não estão bem mortos e dispara sobre as campas.
 
O que sentimos quando numa noite estás beber e cantar com um amigo e no dia seguinte este está numa caixa de pinho.
 
O que sentimos quando alguém espera pelo Hélio, traz um bocado do pé de um camarada para enterrar e por ser hora de almoço o coloca em cima da mesa onde nos encontramos a comer.
ETC.
 
Só quem esteve em MUEDA consegue saber.
 
Porque ainda acordo de noite e não consigo dormir mas o pensamento vai para essa Terra PORQUÊ?
 
 
Jose Monteiro Aquilo não esquece, está sempre presente.
Um abraço.
 
 
Jose Caramelo Por mais voltas que dês quem lá esteve jamais esquecerá.
 
Duilio Caleca E porquê ???' 
Para nada, pura e simplesmente para destruir uma geração de jovens enquanto outros menos jovens se empanturraram com o sangue fresco da "manada".
 
Jose Monteiro Foi tudo isso, até que rebentou, já ninguém aguentava mais.
 
 
José Alves Alves Tens, tens.
É preciso algum eu sei, mas noutras ocasiões tiveste fôlego para suportar outras faltas de ar, para ajudares a resolver assuntos mais complicados.
FORçA amigo !