segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Curva da morte…

Mataca - "Curva da Morte"
Foto de Luís Leote
Curva da morte…

Aconteceu no dia 21 Janeiro de 71.
 
Íamos a caminho da Mataca, numa coluna de abastecimentos, eram cerca do meio-dia.
 
Já tínhamos picado, debaixo de um sol tórrido e o Gouveia, com o seu "olho de lince", já tinha detetado uma mina anticarro que foi desativada pelo Furriel Milº Godinho.
A coluna avança e percorridos cerca de 500 metros até à famosa "curva da morte".
A picada, naquele sítio, tinha a forma do gancho apertado, preferida pelo IN para as emboscadas, pois começava-se a descer e do lado esquerdo era uma ravina com um declive grande.
As viaturas tinham de se encostar ao morro do lado direito para não capotarem.
O matope estava muito escorregadio.
A meu lado ia o condutor Crespo.
O apontador de metralhadora, Vasco Matinha, estava a descoberto sobre os sacos de farinha que iam no 404 e logo atrás vinham mais 2 Unimogs "pinchas", com duas secções e as outras duas, sempre que o terreno assim permitisse, faziam a progressão encostados à mata..
A descida estava a ser difícil pois as viaturas dificilmente se seguravam.

De repente um estrondo, logo seguido de outro, característicos de granadas ofensivas.
Rapidamente o pessoal saltou das viaturas e procurou abrigo fora da picada.
O declive era grande e muitos escorregaram pela ravina abaixo.
Eu saltei do 404, mas fiquei entre morro e a viatura.
O condutor Crespo também salta e tudo parecia estar à acontecer em câmara lenta, como que num filme.
 
Vi o Unimog, que ninguém tinha travado, vir direito a mim.
Iam 2 mil Kg. de farinha para o pão, na caixa do Unimog.
Apercebo-me que já não tenho tempo de passar para o outro lado e perante ficar esmagado debaixo do rodado traseiro da viatura, agarro-me a uma liana que crescia no morro.
Mesmo assim não evito que o rodado me passe por cima dos pés.
Começou então o fim do mundo: as explosões continuam (soube mais tarde que tinham sido só dois ou 3 elementos do IN que do alto de um morro tinham atirado três ou quatro granadas ofensivas para o meio da coluna).
Momentaneamente, houve alguma desorientação, mas a malta rapidamente se agrupou e 3 ou 4 morteiradas e umas rajadas de G3, para o cimo do morro, “calaram” o IN.
Reorganizada a coluna e depois de verificarmos que ninguém estava ferido, pedimos reforços à Mataca (um grupo de combate já vinha ao nosso encontro) iniciamos uma batida que como habitualmente foi infrutífera.
O Furriel Enfermeiro Polana perguntou-me se estava bem e perante a minha resposta de que embora sentisse um ardor no pé esquerdo, tudo parecia estar bem.
Continuamos e eis que nos encontramos com o grupo de combate da Mataca, que vinha ao nosso encontro e já tinha “picado” o resto da picada.
 
Chegados ao aquartelamento e quando já as forças estão a ser retemperadas com 2 latas de Laurentina bem fresquinhas, ritual que acontecia sempre que chegávamos de uma “operação”.
O meu grupo de combate “saboreava” sempre uma lata de cerveja bem fresquinha, paga por mim.
 
Após este ritual decido tirar as botas.
Aqui confesso que logo vi que o pé esquerdo não estava nas melhores condições e o direito também começava a doer-me.
O sangue tinha atravessado os 2 pares de meias e as dores começavam a incomodar-me.
Tinha um dedo completamente esfacelado.
Com uns LMs no bucho as dores foram atenuadas.
 
Daí para a frente comecei a ter grandes dificuldades nas progressões.
O alferes médico em Macomia, constatou-me que era melhor ir tirar radiografias ao Hospital Militar de Nampula.
Já em Nampula no HM125, depois de uma viagem assustadora no NorAtlas (O “elefante” ou “barriga de jinguba”) das FA, a equipa médica decide operar-me.
 
Fui operado no dia 2 de Fevereiro.
 
A saga continua mais à frente dos meus Pedaços de
memória…de rajada!

Um ex-camarada e amigo