sexta-feira, 28 de outubro de 2016

No encalço de Sebastião Mabote..., por António Mondino

A guerra em Moçambique.
Homenagem aos que morreram
A guerra em África não foi uma miragem ou assunto criado por uma mente imaginativa.
Houve guerra em África.
Eu estive lá.
Morreu muita gente, dum lado e doutro, como acontece em todas as guerras.
O texto que abaixo produzo é uma pequena homenagem aos que morreram.
Hoje, que é 25 de Abril.
Principio do fim da guerra.

As fotografias que vos mostro e que eu próprio tirei, são da operação Crasto 3, realizada entre 9 e 16 de Maio de 1973 e que vos vou descrever recorrendo à memória.
Passaram 41 anos desde então.
O objetivo essencial desta operação era capturar o alto dirigente da Frelimo, Sebastião Mabote e destruir a Base Ponde.

Aos serviços de informações militares chegavam notícias de que os guerrilheiros da Frelimo estavam a estender a ação para Sul.
Havia relatos de ações na estrada que ligava a Beira a Vila Pery.
Na Gorongosa, um médico espanhol amigo do General Franco, em visita ao Parque Nacional, foi morto – e, na sequência deste incidente, é solicitada a intervenção do meu grupo de combate, a 15 de Agosto de 1973, para proteção dos poucos turistas rodesianos e sul-africanos que então visitavam aquele extraordinário santuário da vida animal.
Nas principais vias do distrito estavam a rebentar – e a fazer cada vez mais vítimas – muitas minas anticarro e antipessoal, tanto na estrada internacional que liga Moatize ao Zóbué, na fronteira com o Malawi, como na estrada entre Tete e o Songo, que era a via por onde se transportava todo o material para a construção da Barragem de Cabora Bassa.
As obras da barragem atingiam, neste momento, uma fase decisiva: a empresa italiana TLC já estava a estender os fios de alta tensão para transportar a energia para a África do Sul.
Em Outubro de 1973, eu e os “meus rapazes” seriamos destacados para proteger as obras da barragem.

A agitação social que se fazia sentir em toda a região de Tete tinha como origem mais profunda a retaliação que as tropas portuguesas infligiam nas populações indígenas por causa do rebentamento das minas.
Esta situação atinge o seu período mais escaldante com os acontecimentos ocorridos no aldeamento de Wiriamu, em 16 de Dezembro de 1972, quando foi abatido, por ‘comandos’, um número considerável de habitantes, como represália por uma emboscada sofrida um dia antes por uma patrulha do Exército, perto de Corneta, na estrada da Beira para Tete.

Em Abril de 1973, a tensão era imensa em toda a região de Tete.
Foi para este barril de pólvora que foi chamada a 2.ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas do BCP32.
Chegámos a Tete em 16 de Abril de 1973, depois de um voo de 6 horas a bordo de um avião ‘Nord Atlas’.

A companhia desloca-se, primeiro, para Capirizanje, onde a tropa portuguesa, segundo algumas fontes, levara a cabo um massacre nas povoações de Ngunda e Ncena: falou-se, então, em cerca de 200 mortes.

A 7 de Maio, o capitão Sebastião Martins, comandante da companhia, convoca-me, a mim e ao alferes Fernando Dias, para uma reunião de emergência.
Mandou-nos preparar os nossos homens para uma operação importante que seria lançada dentro de poucas horas.
Havia informações seguras de que uma alta figura militar da Frelimo, o comandante Sebastião Mabote, iria passar no dia seguinte pela ‘Base Ponde’ – onde estaria um número apreciável de guerrilheiros e armas.
Face à importância e à segurança das informações recolhidas, o brigadeiro Armindo Videira, comandante da Zona Operacional de Tete, solicita um pelotão de 'páras' para executar a missão: capturar aquele importante elemento inimigo, destruir a base e lançar a insegurança numa zona nevrálgica de passagem dos guerrilheiros.
Assim, eu e o meu amigo alferes Fernando Dias, recebemos de imediato instruções precisas sobre a missão: lançar um assalto sobre a Base Ponde – a ‘Operação Crasto 3’ e capturar Sebastião Mabote.

No dia 9 de Maio de 1973, ao princípio da tarde, no Aeródromo Base n.º 7, em Tete, os helicópteros começaram a aquecer os rotores para levarem duas dezenas de pára-quedistas e uma guia negra. Estava em marcha a ‘Operação Crasto 3’ – com a duração prevista de oito dias.
A viagem a bordo dos hélis foi alucinante – sempre rentinho à copa das árvores.
Durou 2 horas e 15 minutos, até algures no interior profundo do distrito de Tete, a uma distância de cerca de 30 km do objetivo, a Base Ponde.

Saltámos dos helicópteros e ficámos logo ali emboscados, junto a um trilho, para impedir que alguém passasse no outro sentido e fosse dar o alarme aos guerrilheiros.
Ao fim de cerca de 15 minutos começam a chegar várias pessoas. À frente vinha um jovem, que aparentava 18 ou 19 anos, seguido por dois homens e várias mulheres e crianças.
Não deixámos passar ninguém: foram feitos prisioneiros, para que a nossa presença não fosse assinalada.
Duas mulheres tinham golpes nos braços.
O enfermeiro Cunha tratou-as.
O alferes Dias, entretanto, já tinha mandado regressar os hélis para levarem os prisioneiros para Tete, onde seriam interrogados.

Anoitecia rapidamente.
Iniciámos a marcha por um vale apertado e profundo, conduzidos pela nossa guia.
Só havia um trilho, pelo que era pouco provável que alguém da população nos tivesse ultrapassado para dar o alarme.
Caminhámos durante toda noite em direção ao objetivo.
Fomos sempre seguidos de muito perto por alguns vultos com pequenas luzes na mão, mas que não se atreviam a ultrapassar a nossa coluna.
Prevíamos atingir o objetivo por volta das 3 horas da manhã.
Muito perto dessa hora, já estávamos a tomar posições com a base inimiga à vista.
Ainda estava tudo calmo nas palhotas.
O negrume da noite começava a desaparecer.
Quando a claridade veio, vimos as sentinelas e os guerrilheiros a levantarem-se e a deslocarem-se de umas palhotas para as outras.
Eram muitos.
Mas, pareceu-nos, a mim e ao Dias, que as movimentações e as sentinelas que observávamos não indiciavam que estivesse ali 'gente importante' – de outro modo, o reforço de vigilância seria maior.
Perto das 4 horas decidimos lançar o ataque.
Tinha que ser cuidadoso – mas firme e violento, com forte poder de fogo de G3 e de morteiradas. Não sabíamos quantos guerrilheiros havia na base.
Nós éramos apenas 20.
A nosso favor só tínhamos o fator surpresa.

À ordem de fogo, avançámos.
Todos em linha.
As primeiras palhotas estavam a cerca de 100 metros.
Atacámos decididos – mas, a poucos metros do núcleo central da base, caímos dentro de uma trincheira que a circundava.
Valeu-nos que estávamos preparados e treinados para todas as eventualidades.
Grito para os meus homens tentarem sair rapidamente daquele fosso.
Alguns subiram mais rapidamente e mantiveram a iniciativa de fogo – enquanto outros se chegavam de novo à frente.
Olho para o Dias, que ia à minha esquerda e sinto que está tudo sob controlo.
Conseguimos ultrapassar aquele obstáculo inesperado, mas perdemos segundos preciosos.
Os guerrilheiros ganharam alguma segurança na sua fuga, apesar de constantemente flagelados pela nossa morteirada.
O inimigo praticamente não respondeu ao nosso tiroteio.
Sentimos poucos tiros e muito altos.
Eles preferiram fazer uma retirada estratégica e aguardar um momento mais oportuno para nos fazer frente.
Em dez minutos, tínhamos a base ocupada e as palhotas revistadas.
A base era constituída por uma escola, um posto de saúde, locais de reunião e, sobretudo, palhotas de habitação.
A ordem era para não ficar nada de pé.
Incendiámos tudo.

Na refrega, um dos nossos militares é ferido sem gravidade, um guerrilheiro é morto e é capturado um outro.
Apanhámos algum material de guerra, nomeadamente duas metralhadoras, granadas, binóculos, fardas e documentos.
Não encontrámos vestígios da presença de Sebastião Mabote.
Creio, hoje, que ele tinha projetada uma visita à base uns dias mais tarde.
O objetivo de destruir a base estava cumprido, mas a operação ainda não estava terminada.
A tensão era enorme.
Não podíamos estar ali mais tempo à espera que o inimigo se reorganizasse e nos flagelasse com morteirada.
Saímos rapidamente da zona – e montámos uma emboscada nos trilhos de acesso à base.
Sabíamos, por experiência, que alguns guerrilheiros poderiam regressar para verificar os estragos.
Não se aproximaram.
Flagelaram-nos com alguns tiros e morteiradas sem grande importância.
Passámos o resto do dia em constante movimentação para despistar os guerrilheiros a fim de encontrarmos um local seguro para dormir.
Acreditávamos que a noite seria um inferno de fogo-de-artifício.
E foi.
Escurecia quando começaram as primeiras morteiradas.
Quem passou por momentos idênticos sabe o que é ouvir o ‘baque’ da saída da granada do morteiro sem saber onde ela irá cair.
Felizmente, nenhuma caiu perto.
A partir de certa altura, pudemos descansar.

Os dias seguiram-se como havíamos previsto para esta operação, que era montar emboscadas nos trilhos principais de modo a podermos obter mais alguns resultados, capturar inimigos e armas e, porventura, darmos de caras com Sebastião Mabote.

Após uma noite passada com normalidade, aconteceu a tragédia.
Era a manhã de 15 de Maio.
Faltava um dia para terminar a operação.
Estávamos emboscados perto de um trilho e escondidos entre capim mais alto que um homem.
Às tantas, ouvimos o capim a mexer escassos metros mais à frente.
A tensão aumentou.
Podia ser o inimigo que se aproximava.
O furriel T... não conseguiu aguentar a pressão e abriu fogo.
Fez apenas dois tiros.
Ouvimos um urro angustiante que quebrou o silêncio daquela manhã.
Quem quer que fosse, caiu de imediato com um grande gemido saído das entranhas.
Fomos rapidamente ver o que se passara.
Quando julgávamos que íamos encontrar um guerrilheiro estendido no chão, verificámos horrorizados que era um dos nossos – o Louro, o primeiro-cabo António Luís Pires Louro, natural de Monforte da Beira, tinha saído da zona de emboscada, sem avisar os companheiros do lado, para fazer uma necessidade fisiológica.
Estava ali a esvair-se em sangue, curvado, com a cabeça junto aos joelhos, atingido por duas balas que lhe entraram junto ao umbigo.
Ia morrer.
O alferes Dias chamou pelos enfermeiros Cunha e Balau.
O Balau ainda lhe deu uma injeção para manter o ritmo cardíaco, mas já era tarde.
O Furriel T... estava inconsolável.
A tragédia também passava por ele – embora não se sentisse culpado, pois não fora descuido seu, nem falta de atenção, nem quebra de qualquer regra de segurança.
Se a tensão já era muita, imagine-se o estado de angústia que se apoderou daquele grupo de homens, bem preparados para a guerra, mas nunca suficientemente preparados para verem um camarada morto nas circunstâncias terríveis em que esta ocorreu.
Pouco tempo depois, começa o tiroteio dos guerrilheiros.
Apercebem-se do local onde estamos e disparam alguns tiros e morteiradas.
Saímos rapidamente da zona com o corpo do Louro às costas.
Fui para a frente do pelotão para sairmos dali imediatamente.
A determinada altura, olho para trás e vejo o alferes Dias com o corpo do Louro aos ombros.
O Louro era do pelotão do Dias que, devido às suas qualidades de combatente, o promovera a primeiro-cabo, sendo já um dos veteranos do grupo de combate e que dentro de pouco tempo acabaria a comissão de serviço.

Chamámos um helicóptero para a evacuação urgente.
Não havia muito mais a fazer pela vida Louro, mas poderíamos fazer com que o corpo chegasse o mais rapidamente a Tete.
Não foi fácil fazer descer o helicóptero.
Na primeira tentativa de aterragem, ouviram-se tiros e o piloto abortou a manobra e voltou a subir.
Procurámos outro local, mas a vegetação não permitia a descida completa até ao solo.
Finalmente, encontrámos um lugar seguro que permitiu a evacuação do corpo – e, se a memória não me trai, seguiu também o furriel que estava emocionalmente destroçado.
No dia seguinte acabou a operação, com mais um ou outro tiro e morteirada, mas sem outros factos dignos de especial menção.