segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Dia em que Comandei a Companhia, por Manuel Correia de Bastos


O primeiro objetivo de um soldado é permanecer vivo, e não há soldado que não faça tudo para sobreviver; mas a um enfermeiro na guerra é exigido mais do que isso.
 
É necessário que se esqueça de si no momento mais perigoso e vá em socorro dos que tombaram, trocando a arma pelos produtos de enfermagem, que terá que manejar com os cuidados e assepsia possíveis no meio do pó, da terra, da confusão e do perigo de morte.

É a ele que cabe dizer-nos que tenhamos coragem, que não vamos morrer, quando ficamos feridos, e é a ele que cabe procurar o que resta de nós na picada ou no meio do capim quando somos feitos em pedaços por uma mina, e depois arrumar o que se pôde encontrar para que as nossas famílias, lá longe, venham a ter algo de nós para velar.

Quando se ouve o sinistro estampido de uma mina todos os soldados se atiram ao chão, rastejam e se protegem debaixo das viaturas.
Todos não. O cabo Costa levantou-se quando os outros se baixaram, e foi em busca dos feridos. Dirigiu-se ao Raimundo e preparou-se para o socorrer.
A cara dele numa pasta de sangue quase sem ver nada.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.

Não tinham passado mais de vinte segundos desde a explosão.
Vinte segundos em que se pode aprender o que não se aprendeu em vinte anos.
Vinte segundos que me fizeram dar um salto psicológico.
 
É frequente justificarem-se os atos insanos praticados na guerra, com a tensão vivida nos momentos de perigo.
Homens pacíficos; camponeses, operários, estudantes, empregados de escritório; transformados durante anos em predadores, sofrem um desgaste moral impensável em momentos de paz…
A síndrome da degradação moral.
A génese do distúrbio pós-traumático.
Mas… em casos por ventura raros; estou seguro, obtêm uma sublimação moral, um salto psicológico.
Se tem algum fundamento a resistência psicológica de que me gabo constantemente, devo-a a esses vinte segundos.
Tenho a certeza que se a guerra me tivesse dado oportunidade, teria saído de lá muito melhor do que entrei.
Um homem com a missão de salvar os seus pares no pior momento do perigo.
Um homem em risco de ficar cego por uma mina traiçoeira a pensar no seu camarada tombado na picada.
Vinte segundos da minha vida que guardo religiosamente como um legado de valor incalculável.
Há muito que a guerra acabou, e durante estes anos todos, alguns de nós guardam em silêncio imagens como estas.
É que, entretanto, outras guerras tiveram lugar, onde outros soldados com mais de vinte anos de vida, mas sem terem ainda os vinte segundos que lhes permitissem dar o salto psicológico que os fizessem crescer, julgam que é o gatilho das armas que empunham, que fazem deles heróis, ou homens dignos de admiração pelos outros representantes da sua espécie.
Alguns de nós, guardam em silêncio muitos vinte segundos como estes e olham para o lado incomodados, quando a televisão mostra em direto as guerras que não param de se suceder, transmitidas como espetáculos de circo.

Durante anos e anos, tenho revivido a imagem do enfermeiro Costa a tentar socorrer o Raimundo e depois a ir em busca do Lemos partido em dois no meio da picada, e por vezes tento imaginar o que seria ver essa imagem na televisão à hora do jantar, ou no café, no meio das risadas dos amigos, e acabei por perceber porque tantos de nós optam pelo silêncio.
É por pudor que o fazem.
Por não serem capazes de expor em público uma memória do foro íntimo.
Seria como subir a um coreto para chorar um desgosto profundo.
É algo demasiado valioso para ser tratado como um entretenimento passageiro, como um fruto que se sorve rapidamente cuspindo o caroço para o chão.
Os consumidores de emoções rápidas aprendem a não penetrar na essência das coisas; entendem das coisas apenas o que o olhar apreende; fazem com toda a informação o que fazem com a comida, mastigada à pressa entre duas tarefas urgentes e inadiáveis, dado que toda a fast-food é apenas para defecar.
 
Não poderão entender as emoções envolvidas numa frase assim, aparentemente banal, "Vai socorrer o Lemos", dita entre a vida e a morte, entre a coragem e o medo, entre o instinto primário de sobrevivência e o altruísmo, entre o cumprimento do dever e o sentido crítico.
Não poderão entender que um ato que envolva risco para quem o pratica só merece ser considerado corajoso se não for gratuito ou exibicionista, e se for consciente; isto é, é preciso sentir medo para se ser corajoso.

O Raimundo ia a comandar a companhia, foi ferido, recebeu o socorro corajoso do enfermeiro Costa, e fez ele próprio a triagem da emergência médica, secundarizando-se, ficando na berma da picada, escorrendo sangue do rosto, ainda sem saber se não ficaria cego.
– Vai procurar o Lemos, Costa.
Vai socorrer o Lemos.
Eu era agora o mais graduado da companhia.
E era preciso continuar, era preciso estar à altura do cargo que recebi do Raimundo, era preciso encobrir o medo, cabia-me a mim agora fingir coragem.
Mas fingir coragem, é na guerra, a única coragem possível.
Os helis vieram e levaram os feridos, a coluna organizou-se e continuou a sua missão.
A tensão, o medo e um ódio indefinido tomou conta de todos como era costume.

E longe dali, os que verdadeiramente mereciam ser objeto do nosso ódio, aqueles que não tinham coragem de tomar decisões com medo de mudar o rumo da história, por não estarem à altura dos cargos que ocupavam, continuaram ainda por muito tempo a manter tudo na mesma, até que um dia o nosso ódio não coube mais em nós, e apeámo-los do poleiro.
 
As mesmas mãos e as mesmas armas, e a mesma generosidade.
Quando um povo é capaz de lutar e descobre que não são justas as causas que lhe deram, inventa uma.
Depois seguiu-se um longo período de silêncio sobre a Guerra Colonial em que a nação inteira pareceu viver um coletivo distúrbio pós-traumático do stress de guerra.
Silêncio só entrecortado por uma falsa autocrítica de características tipicamente portuguesas, que se apressou a fazer alarde de todos os erros e crimes dos soldados portugueses, desculpando ou ignorando os dos seus opositores na mesma guerra; o que ainda assim teria algo de positivo se fosse genuína e contribuísse para uma reeducação coletiva, porque todos os crimes merecem denúncia e punição.
 
Mas infelizmente essa autoflagelação, essa ancestral e muito portuguesa lamúria auto punitiva, não passa de uma cobarde generalização dos erros dos nossos pares com o intuito de parecermos individualmente a excepção à regra.
A mesma pseudo-autocrítica que ao longo dos anos só tem contribuído para perpetuar o enaltecimento reverencial dos feitos alheios e cultivar a baixa auto estima nacional.
Mas se a má consciência pátria esquece os seus soldados assim que não precisa deles, ou se acha que é fingindo que nada aconteceu que paga a sua dívida para com a História, é porque não aprendeu nada.
Tão indignos são os governantes que não estão à altura da história por tentarem manter uma guerra injusta, como aqueles que se esquecem das suas vítimas.
E nós?
Será que nós não temos a obrigação de pôr o pudor de lado e contribuir com a nossa experiência para que os nossos filhos não permitam que cheguem ao poder aqueles que hão-de enviar os nossos netos para a guerra?

Há muitos anos, nesse dia em que eu tive que comandar a minha companhia, numa picada perdida no meio do mato, no norte de Moçambique, o enfermeiro Costa ainda teve que se erguer mais uma vez, quando soou de novo o sinistro baque de mais uma mina; e enquanto os outros se atiravam ao chão.
Durante alguns minutos, nos minutos mais perigosos que se podem viver numa guerra, teve que se esquecer novamente de si, porque a guerra lhe entregou a minha vida para salvar.
E o comando da companhia, como um testemunho, que eu recebera do Raimundo.
Nesses curtos minutos em que a vertigem da morte eminente nos leva todos os sentimentos e ficamos completamente despidos por dentro, só um olhar humano nos restitui a vida.
O olhar a fingir coragem, a única coragem genuína.

E até ao resto dos meus dias, aqueles momentos da mais genuína coragem que um homem pode testemunhar, criaram-me uma enorme responsabilidade; a de tudo fazer para que esta vida que o enfermeiro Costa salvou mereça a pena ser vivida; quanto mais não seja para que o seu ato heroico não se viesse a tornar num inglório, gratuito e inútil sacrifício.