quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

UMA ESTÓRIA DE GUERRA..., por Joaquim Antero Ferreira

No rescaldo dos acontecimentos do dia 5 de Janeiro de 1969, no Aquartelamento da Cruz Alta, na Serra do Mapé, para além dos 7 Camaradas que pereceram, nesse fatídico dia, foram evacuados mais uma dezena de outros, comigo incluído, gravemente feridos, para a pista do campo de aviação de Macomia.

No local, a confusão era total. 
A juntar ao barulho ensurdecedor provocado pelos helicópteros, que chegavam com a sua carga humana de mortos e feridos (par...a de imediato regressarem à Serra para evacuar mais Camaradas), sobreponham-se os gritos dos feridos em conflito com as ordens e contra-ordens dos diversos intervenientes no socorro, sendo de destacar as do Comandante do Batalhão (que gostava de "estar em todas") desde que previamente estivesse garantida toda a segurança!

Depois de ter sido feita a triagem, os mortos por lá permaneceram, para serem, posteriormente, sepultados no Cemitério da Missão.

Os feridos, depois de nos serem prestados os primeiros socorros, lá fomos, gradualmente evacuados para o "Hospital" de Mueda, onde ficámos até ao dia seguinte, juntamente com outros Camaradas que lá se encontravam.

No dia seguinte, alguns de nós, acabámos por ser evacuados para o HM 125, em Nampula, dado a gravidade dos ferimentos. 

Decorridos 28 dias, regressei à Serra.

Ainda hoje, decorridos que são 48 anos, após este fatídico acontecimento, ainda tenho bem presente, lá no sítio onde se guardam as memórias, todos os sentimentos de dor, raiva, desespero e impotência que este acontecimento me provocou.
Comentários
Luis Pinto Coelho Octávio Galvão de Figueiredo...cruzei-me com ele em inúmeras situações...desde a crise de Macau (por minha curiosidade de eventos históricos; as autoridades chinesas - no tempo de Mao, exigiram a sua demissão de comandante da polícia e saída do território, na época da revolução cultural por volta de 1966) a Chaves em Novembro de 1967, Oasse em 29 de Outubro de 1968 em representação do Comandante do sector B e depois de 25 de Abril de 1974, como elemento do Conselho da Revolução, distribuidor de armas a Edmundo Pedro, relacionado com o Grupo dos 9 (no PREC), e nos Açores, como representante da República na Região Autónoma....
Conversei com ele, na praia da Caparica, uma vez nos anos 80..de forma informal, sobre Moçambique.

Luis Pinto Coelho Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. 
Um potencial revolucionário impressionante. 
Os Guardas Vermelhos surgiram. 
O governo ficou debaixo de fogo. 
De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. 

Macau estava há alguns meses sem Governador. 
Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. 
Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. 
Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. 
A arrogância ao diálogo. 
O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. 

Não podia ter sido pior. 
Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. 
Pior, usaram de arrogância colonialista. 
As tensões exacerbaram-se. 
As posições extremaram-se.

No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. 
As escolas estavam mobilizadas. 
Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. 
Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. 
Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. 
Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. 
Lá estavam guardadas armas e munições. 
Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. 

Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. 
Não havia outra solução. 

O condutor da camioneta é a primeira vítima. 
O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. 
A confusão é enorme. 
Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. 
A multidão dispersa-se. 
Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. 
O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. 

No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. 
No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. 

Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. (in: http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-123-em-1966.html)
Um blogue sobre a história de Macau. 
A blog about Macau's history.
macauantigo.blogspot.com

Joaquim Santos Octávio Q. G. de Figueiredo, um homem que me deu sorte! 
Em 1967 no final do curso em Tavira, discursou a desejar felicidades e boa sorte a todos os instruendos. 
Em 1970 em Tomar, na recepção ao meu Batalhão, desejando a todos felicidades para a vida civil.

Americo Maceiras Caetano E eu a ouvir os rebentamentos em Macomia. Para chegarmos lá a cima para socorro duramos para nós um século...

Sofremos tanto como vós, pois estava lá uma secção de Sapadores.... Terrível dia!! 
O pelotão por culpa desse maldito Octávio Q. G. de Figueiredo voltámos a ter o mesmo pesadelo a 18 de Dezembro 1969 na Cantina Oliveira e pior ainda nos primeiros dias de Fevereiro quando do rebentamento de uma mina quando regressávamos de Tete a caminho de Ribaué.


Jose Monteiro Acontecimentos destes nunca se esquecem.

D'Abranches Leitão G. José Recordações trágicas. ... que só quem as viveu...e sofreu...pode escrever como o caro amigo Joaquim Antero Ferreira! Estive no mesmo "barco", Serra do Mapé ....mas com mais sorte! Abraço fraterno, caro amigo!

D'Abranches Leitão G. José Recordo a minha "estada"....no HM125...

A cadeira de rodas, tinha uma história engraçada, digna de ser relatada!
Era única e por conseguinte quando alguém precisava de ir tirar radiografias ou fazer outro exame e que necessitasse de ser transportado sentado, eu ficava na cama, no meu quarto, até que a dita cadeira me fosse devolvida!

Uma vez por semana íamos ver um filme ao cinema de Nampula!
Voluntários não faltavam para me acompanharem, segurando a cadeira, assegurando assim um bom lugar! 
O “coitadinho” devia ter pisado uma “mina” e merecia um bom lugar! 
Às vezes era difícil explicar porque era necessário a ajuda de 4 ou 5 “enfermos”!!!

Sempre que ouvia o Heli, sinal de que mais vítimas da “guerra” vinham para o hospital, lá estava o “apanhado do clima” na sua cadeira de rodas, junto à pista, para dar o apoio possível!

Viria a saber histórias de Mueda bem no coração de Cabo Delgado, outro inferno, onde havia uma hospital de campanha, que alguns companheiros que entretanto feridos me relataram como sendo muito rudimentar, sendo a sala de operações, digna de uma cena daqueles filmes em que as pessoas mais sensíveis não devem ver. 

Disseram-me que os mortos estavam espalhados pelo chão, nus, como também os vivos à espera de tratamento: as equipas de cirurgiões amputavam pernas, a torto e a direito, “cortando o mal pela raiz”.

Explicando melhor, contavam que muitas vezes só eram amputados pés, mas que mais tarde originavam “gangrenas”, já em Nampula ou mesmo no Hospital da Estrela em Lisboa, e lá teria o infeliz de se submeter a nova cirurgia e lá ficava sem a perna toda!

Um dia, entra pelo meu quarto dentro uma alta patente militar, indagando quem era o Furriel Milº Abranches Leitão! 
Com alguma timidez, lá levantei o braço, pensando que me iria anunciar “algum castigo” pelas tropelias e irreverências. 

Fui informado de que o Estado Maior do Exército tinha recebido um telegrama de Lisboa, para saber se o militar em questão ainda estava vivo! 
Vim a saber que a família “moveu montanhas” para sabe notícias minhas, pois desde a entrada no HM125, que tinha deixado de escrever. 
Uff!
A partir deste momento o Sargento enfermeiro, o tal do hematoma, começou a tratar-me com mais respeito! 
Porque seria.

D'Abranches Leitão G. José Acerca do hematoma do sarg enf°...recordo o que já escrevi. 

Um “sacana” de um Sarg. Enfermeiro, que normalmente acompanhava as ditas senhoras do MNF, considerou-me “apanhado do clima” e até perigoso, só porque um belo dia, num exercício rotineiro de alguns “peões” no corredor, com a minha, nossa (única) cadeira de rodas, o atropelei, pois não avisou que ia a passar!!! 

Julgo que o desgraçado ficou com um hematoma para toda a vida! 

Julgo também que as minhas barbas crescidas entretanto, o roíam de inveja, pois como militar de carreira tinha de andar bem “escamuteado”!

A dita fita métrica que vinha agarrada (brinde) a uma mini pasta de dentes, serviu para mais tarde medir a cama do Cunha, um Furriel Milº do Porto que estava a “lerpar”, mesmo na cama ao meu lado! 

Como o Alferes médico se tinha desenfiado, para o “Bagdad”, que era o Bar mais IN (selecto!) de Nampula, frequentado pelas altas patentes militares, deixou o pobre “vela” a tomar conta de nós. 
Este mesmo “vela” que tentava meter uma seringa nas veias do pobre Cunha, mas que apanhava tudo menos veias. 
Os braços do Cunha pareciam um crivo! 
Depois de obrigar o dito enfermeiro improvisado ir chamar o Alferes médico, começei a acalmar o Cunha, medindo-lhe a cama e perguntando-lhe:
- Queres o caixão em pau-rosa ou em pau-preto!!!??

Com esta “terapia” consegui que o pobre “moribundo” abrisse os olhos e me olhasse com um sorriso, o qual nunca cheguei a perceber!!!?? 

Mas pouco depois chegou o Alferes Médico e o Cunha continuou a jogar a lerpa connosco até ter alta. 
Tinha-se salvo!

Joaquim Antero Ferreira Ainda bem para o Cunha! 😀

D'Abranches Leitão G. José A camaradagem era uma constante! 
A brincadeira da medição da cama, foi bem aceite pelo Cunha. 
Aliás só estes momentos, nos animavam!!!

Joaquim Antero Ferreira Há quem lhe chame "Terapia de Choque"...e, pelos vistos, até resultou!...

sábado, 28 de janeiro de 2017

Setembro de 1971 a picada Macomia-Mataca, por José Leitão

D'Abranches Leitão G. José 
para PICADAS DO CABO DELGADO
Mais um "Diario".... Setembro de 1971
A picada Macomia-Mataca


O pelotāo da 2750 que vem da Mataca ao nosso encontro fez alto. 
Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com "as picas de bambu", para que nenhuma mina escape. 

O Alferes que comandava esse pelotāo informa que tudo está bem....


Levamos alguns civis connosco. 
A probabilidade de sermos atacados, diminui assim.

Fazemos uma pausa. 

O Uvaldo, um transmontano baixote mas de rija tempera, oferece-me o seu cantil, sabendo que eu ja devo ter o meu sem gota de água. 
Agradeço e digo-lhe que pode tirar uma Laurentina, da minha mochila. Ainda estao relativamente frescas. 

Os soldados de ambas as colunas abraçam- se. 
O Vidinha, sempre a meu lado, grande companheiro, pergunta a outro soldado da Mataca, por um seu conterrâneo que está na 2750. 
Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. 

De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que cem botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência, avançamos em direçāo à Mataca, para entregar os 2 Hunimogs carregados com mantimentos. 

A descida da Serra...torna-se um pesadelo, pois a picada está muito escorregadia. 
Era tempo de chuva e o matope...torna-se "manteiga"!!! 
Vou ao lado do condutor de um dos Hunimogs, o Crespo, natural de Barcelos, com 1,90 de altura, que me vai dizendo que os travões não estão lá muitos bons, devido ao aquecimento. 
O declive assusta os mais corajosos. 

 Uff a zona mais crítica foi ultrapassada. 

Avistamos o aquartelamento ao longe. 
Mas nada de baldas ok? Grito eu para a minha Seção.

Chegámos! 

O Bar fica do lado direito da "porta de armas". 
O ritual habitual! 
As primeiras latas de cerveja, despejadas pela cabeça abaixo. 
Depois uma rodada, paga por mim, para todo o pelotāo. 
Era assim que fazia depois de mais uma "coluna"!!!!



José Leitao 
CCAVª 2752

Comentários
Armando Guterres Fizemos algumas colunas, a meio da comissão, com troca de carga no Alto do Delepa. A surpresa da coluna era eliminada, sempre que se ouvia diversos carros em afinações. Fev 72 a Março 74.

Aracire Oliveira Quando corria bem à chegada era uma alegria, só que na picada de Omar só me lembro uma vês tudo ter corrido sem mortos ou feridos...

D'Abranches Leitão G. José Alto do Delepa...malta do 1° Grupo de Combate -CCAV 2751

D'Abranches Leitão G. José Identifico os Furrieis Mil° Rosales e o Alegria (já falecido)...e o Cabo Salavessa (?)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Operação Canacassala..., por M. Aldeias

Operação Canacassala
ou
A última operação da Força de intervenção na região dos Dembos.

Acampamento no Canacassala, em Dezembro de 1972
O local onde, de 4 a 21 de Janeiro de 1973, a Força de Intervenção (FI) instalou a sua base provisória tinha sido uma criteriosa e excelente escolha estratégica. Situava-se no cimo de um enorme morro, perto da antiga ponte sobre o rio Onzo e junto da famigerada e perigosa picada “Via Láctea”, que saía de Nambuangongo, a cerca de 180 kms a norte de Luanda, e se embrenhava sinuosa e caprichosamente algumas dezenas de quilómetros pela majestosa, agreste e selvagem floresta dos Dembos. Era uma zona muito acidentada, de difícil acesso e com florestas virgens impressionantes, que cobriam de um manto verde a perder de vista os vales que serpenteavam os morros.
Era algures no seio desta medonha, misteriosa e densa mata, aproveitando-se das excelentes e únicas condições de refúgio que lhes proporcionava, que o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) tinha instalado, desde há algum tempo, o quartel-general da 1ª Região Militar. Daqui saíam os seus astutos e destemidos guerrilheiros para montar minas, emboscadas e ataques aos aquartelamentos das nossas tropas, disseminados por esta vasta e remota região.
Ao contrário das tropas de quadrícula, que apenas actuavam e tinham sobre a sua responsabilidade as zonas onde estavam instaladas, a FI encontrava-se baseada em Luanda, donde saía por períodos de duas a três semanas para qualquer local do norte de Angola onde o inimigo estivesse mais activo e agressivo. Efectuava vários tipos de acções, desde emboscadas a golpes de mão, destruição de bases inimigas, e também nomadizações, que consistiam no patrulhamento apeado de determinadas zonas, para procurar indícios da guerrilha e criar instabilidade nas suas tropas. Findas estas difíceis e extenuantes operações, regressava a Luanda e aí recuperava da intensa actividade operacional a que fora sujeita.
O Batalhão de Caçadores 3848 era constituído pela Companhia de Comandos e Serviços (CCS) e três companhias operacionais: os Escorpiões, os Carolas e os Panteras, que tinham adquirido uma vasta e inigualável experiência operacional durante os dezasseis longos meses passados como tropa de quadrícula na conturbada região de Nambuangongo, uma zona de guerra por excelência.
Agora, estas três companhias estavam acampadas na nova base de Canacassala, onde, nos últimos dias, vinham desencadeando várias operações de nomadização, emboscadas e golpes de mão às bases IN com o intuito de aliviar a pressão que o MPLA estava a exercer na zona.
A derradeira e mais desgastante operação estava reservada para Os Carolas. Tinha como objectivo assaltar e destruir as bases IN referenciadas e prosseguir em nomadização até ao aquartelamento da Beira Baixa, onde seriam recolhidos para regressarem em coluna a Luanda.
Aproveitando-se da escuridão protectora da noite, Os Carolas saíram, levando à frente como guia um homem natural da zona e elemento de um dos Grupos Especiais de tropas nativas, os GEs, como eram habitualmente conhecidos.
Com cerca de trinta anos, aparentando boa robustez física, o nosso guia GE envergava uma farda exactamente igual à nossa, ou seja, camuflado, boné e botas para todo o terreno. Na cara brilhavam-lhe dois olhos inteligentes e perspicazes e uns dentes brancos como a cal, que contrastavam coma cor escura da pele. A meio da testa, sobressaía uma profunda cicatriz provocada por um ferimento de bala. De mãos fortes e calejadas, segurava numa a espingarda metralhadora, enquanto com a outra empunhava a catana, com que ia cortando o labiríntico emaranhado de lianas e outros arbustos que lhe surgiam no caminho. Abria desta forma um estreito e apertado túnel, por onde, em fila indiana e no maior silêncio, íamos progredindo lentamente. A meio da fila onde me encontrava, o silêncio era apenas quebrado pelo leve ruído das botas que pisavam as folhas secas.
Teria sido muito menos extenuante e cansativo avançar pelos trilhos existentes na mata, se isso não fosse perigoso e arriscado, porque eram propícios a emboscadas, a minas escondidas e outras perigosas armadilhas. Apesar da enorme tentação em os utilizarmos, o bom senso impunha-nos o sacrifício e a segurança: a abertura de novos trilhos nunca antes utilizados através de uma densa, misteriosa e quase impenetrável selva. Além do mais, ainda estava fresco na nossa memória o enorme buraco provocado por um desses temíveis e traiçoeiros engenhos, que, dias antes, levara a perna a um camarada nosso.
Caminhávamos há já alguns dias de armas aperradas, olhos e ouvidos sempre atentos, através da imensa e enigmática floresta tropical, que nos impunha respeito e nos fazia sentir pequenos e insignificantes. Procurávamos sempre movimentar-nos com a maior celeridade possível, mas sem nunca descurarmos as precauções e o silêncio, para evitar sermos referenciados. Até porque o inimigo era astuto, destemido e profundo conhecedor da floresta. E também ele mostrava grande mobilidade e agressividade, flagelando constantemente e com dureza as nossas forças. Daí que o medo da morte, o inimigo, a fome, a sede e o cansaço, constituíam verdadeiros desafios às nossas capacidades de resistência, jovens soldados tornados guerrilheiros pelas circunstâncias e endurecidos por mais de vinte meses de guerra no mato angolano. Este oceano de imensas dificuldades era agravado pelo receio constante de sofrermos alguma baixa no interior de uma floresta virgem e inacessível, onde seria impossível proceder a qualquer evacuação. E também não seria tarefa fácil carregar com os mortos ou feridos às costas. Tudo isto contribuía para aumentar a angústia e ansiedade, aumentando-nos o desejo de sairmos daqui o mais rapidamente possível.
A progressão tornava-se cada vez mais penosa, difícil e extenuante. A luz solar penetrava com dificuldade por entre a intrincada vegetação. O odor das folhas putrefactas inebriava-nos. Pequenos mosquitos entravam-nos pelos olhos, nariz e boca, deixando um desagradável e repugnante sabor amargo. O calor e a humidade colava-nos à pele o camuflado já rasgado, sujo e com um cheiro nauseabundo e asqueroso.
Durante esta terrível, árdua e espinhosa odisseia, entrámos por duas vezes no interior de bases militares IN que, por razões de ordem táctica, se encontravam afastadas da base principal e funcionavam como unidades de defesa alargada. Aqui, a vegetação rasteira fora retirada, ficando apenas as árvores de grande porte que, com as frondosas e espessas copas, evitavam que estas fossem referenciadas pela aviação.
Tudo indiciava que os ocupantes as tinham abandonado de forma precipitada e brusca ao pressentirem a nossa chegada, porque o lume estava ainda aceso e livros e vários utensílios encontravam-se espalhados pelo chão ou em cima das mesas.
Dentro destas bases ficávamos vulneráveis. As balas assobiavam e cantavam a morte sobre as nossas cabeças, porque o IN mantinha-se oculto na mata circundante, observando-nos e reagindo com intensidade e violência. Sob esta sensação indescritível de hecatombe destruidora, avançávamos costas com costas, disparando e correndo em busca da protecção da mata. Era crucial e imperioso abandonar rapidamente estes locais onde reinava o medo, o terror e a morte, onde o perigo nos espreitava constantemente, não nos dando sequer tempo ou oportunidade de proceder à destruição destas bases disseminadas na selva.
Ao quinto dia de progressão, já bastante debilitados pela fome e pela sede, extremamente cansados, já inclusive distanciados uns dos outros na fila, começámos a sair do imenso verde desta floresta hostil, adversa e infindável. Porém, o inimigo dava-nos as boas vindas ao espaço aberto e ao tórrido sol Africano. Foram momentos de ansiedade terrível e indescritível com as balas mais uma vez a entoarem a sinfonia da morte.
O IN utilizava metralhadoras pesadas com um matraquear sepulcral, rouco e cavernoso, e as irritantes costureirinhas com aquele estampido metálico, enervante e contundente, e com as suas rajadas cadenciadas e irritantes, que ficaram para sempre na memória de todos os que tiveram a malfazeja sorte de com elas se confrontarem no palco da guerra colonial, fazendo-nos recordar as máquinas de costura das nossas mães na longínqua e saudosa metrópole.
Através do capim que nos feria as mãos, deixando-as em sangue, e nos dava pelo peito, rastejando com grande sofrimento, alcançámos ilesos a segurança precária dum alto morro, onde rapidamente montámos um círculo de segurança e ficámos em posição mais vantajosa em relação ao astucioso e matreiro inimigo.
Durante esta longa, tenebrosa e aterradora epopeia, tínhamos penetrado profundamente em território IN e efectuado um desvio bastante acentuado do itinerário previsto. Foi quando o nosso guia confessou estar perdido. Não fora a utilização das comunicações pela rádio, dificilmente alcançaríamos uma zona para recolha do pessoal. Pouco depois da comunicação com a sede, tivemos a ajuda de um heli-canhão, que nos ajudou a referenciar a nossa posição. Encontrávamo-nos a seis dias de marcha do quartel mais próximo. Mas a sua acção não se limitou à nossa referenciação no espaço operacional. Antes de regressar à base, contribuiu para pôr o inimigo temporariamente em debandada. Fomos também informados, via rádio, de que o plano de operações não incluía uma possível evacuação, devido à escassez de meios aéreos, e que, depois de reabastecidos de ração de combate e água, teríamos que prosseguir a marcha. Uma tarefa, sem dúvida, quase impossível de concretizar, dadas as depauperadas e extenuantes condições físicas em que nos encontrávamos.
No cume de um aterrador e apavorante morro, livres de surpresas desagradáveis, mas sem a protecção das copas da vegetação angolana, sem comida, sem água e bastante debilitados pelas agruras do clima, estávamos a ser violentamente fustigados pelo escaldante, abrasador e sufocante sol africano e, pior ainda, cercados por um inimigo inclemente e cada vez mais belicoso, hostil, forte e destemido. Tudo contribuía para nos colocar num feixe de nervos e com a nossa já bastante fragilizada resistência física e psicológica cada vez mais em baixo. O nosso aspecto estava longe de ser o melhor: barbas por fazer, camuflados rotos, cobertos de lama e com um cheiro pestilento, muito pior que um bando de salteadores. Éramos um flagrante contraste. De um lado, aquela paisagem edílica, verde e  luxuriante aos nossos pés; do outro, um grupo completamente estoirado e a necessitar urgentemente de um revigorante repouso. E a situação a degradar-se cada vez mais, Mas, quando o desespero parecia ser a nossa situação das próximas horas ou talvez dias, recebemos pela rádio a melhor informação: dentro de poucas horas, os helicópteros da força aérea efectuariam a evacuação de todo o pessoal.
Recebida a notícia, os nossos olhares deixaram de admirar o vasto oceano verde que se espraiava à volta do morro, para começarem a esquadrinhar ansiosamente a linha do horizonte. E respirámos de alívio quando do nada se começaram a vislumbrar, a uma distância razoável, três pontos negros que aumentavam progressivamente e desapareciam por detrás de um ou outro morro, para logo voltarem a aparecer “rapando” a colina seguinte. Não havia dúvidas! Ali estavam os helicópteros que nos vinham socorrer.
O ruído tornou-se ensurdecedor. O heli-canhão descrevia círculos por sobre as nossas cabeças, fazendo fogo sobre o inimigo próximo, que de imediato bateu em retirada, dispersando-se em fuga no meio do mato. Então, à vez, os dois helis mais pequenos, equipados com duas macas, uma de cada lado, deram início à evacuação, começando pelos mais debilitados, enquanto o restante pessoal procurava manter a segurança. Ao fim de algum tempo, com o apoio de helicópteros com maior capacidade, os Pumas, que tão relevantes serviços prestaram , terminava uma operação desgastante de seis dias consecutivos em plena selva angolana.
Não foi aqui narrado um décimo do sofrimento e aflição por que passaram os jovens soldados de vinte anos, durante esta árdua, penosa e fatigante odisseia, em que, na primavera da vida, se viram atirados para o lodaçal de uma desmerecida, injusta e cruel guerra.
Já em Luanda, fomos todos sujeitos a várias juntas médicas, que atribuíram a inoperacionalidade a 92% dos intervenientes desta operação e preconizaram também um considerável número de medidas a serem implementadas durante um período de 22 dias, para debelar a crise.
No final deste período, todo o pessoal foi sujeito a uma nova junta médica, a 15 de Fevereiro de 1973, a qual definitivamente determinou que o Batalhão de Caçadores 3848, «O excelente e valoroso» fosse ingloriamente considerado inoperacional.
A 27 de Fevereiro de 1973, iniciou-se a deslocação da CCS e das diferentes companhias, ou seja, a C. Caç. 3386 (Os Carolas) e C. Caç. 3387 (Os Escorpiões) para os confins do sertão angolano, bastante distantes da zona de guerra, onde permanecemos na paz dos Deuses até ao final da comissão.
M. Aldeias - maldeias@gmail.com

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A estranheza do regresso a casa, por Manuel Bastos

Luís Leote

Cacimbo
Mais uma bela "poesia" de Manuel Bastos!!!
Comprem o Livro..... " Cacimbados - A Vida por um fio "


A estranheza do regresso a casa
....
O táxi passa no Largo da Capela e o sino dá as horas.
Não sei quantas.
As quatro cornetas do relógio elétrico da torre de Aguim esganiçam-se com as ave-marias e depois berram as horas a que ninguém dá atenção.
Acho que as pessoas se habituaram àquele despropósito de decibéis como se habituam a um mau cheiro.

O táxi desce lentamente a rua da Portela com o condutor a esperar pacientemente que as pessoas se afastem.

As pessoas em Aguim conversam nas ruas e afastam-se apenas por gentileza quando um carro quer passar, o que parece ser entendido pelo taxista que não dá sinais de indignação ou sequer de impaciência.

Agora me lembro que o taxista me fez uma pergunta há imenso tempo e respondo meio distraído:
– Sim, isto da perna foi na guerra.
– Foi na Guiné?

É difícil imaginar agora que as pessoas hão de desaparecer das ruas, que um dia a urbanidade há de contaminar esta povoação como uma virose e destruir completamente a sua pitoresca ruralidade e então, por não terem nada que fazer nos campos as pessoas hão de sair das suas casas para os empregos o mais rapidamente possível, deixando as ruas vazias.

É sempre difícil imaginar que uma coisa a que nos habituámos e que criou a identidade de algo que nos era familiar há de desaparecer para sempre, para dar lugar a uma outra coisa no mesmo sítio, não porque seja melhor, não porque constitua uma evolução, mas apenas e tão só porque tudo neste mundo parece estar condenado a cumprir a regra mais cruel e estúpida de toda a criação: tudo tem de ter um fim.

Mas agora e aqui, está tudo na mesma e é isso justamente que me surpreende.
O mesmo ritmo, a mesma respiração, a mesma atmosfera, a mesma vida; como se eu não tivesse saído daqui há mais de meia hora.

Cheguei a casa.
Parece que deixei o filme da “Aldeia da Roupa Branca” a meio, que depois assisti à pior parte do "Dia mais Longo", mas que entretanto regressei.
Tudo na mesma em Aguim e eu muito mais velho.
Segundo a teoria da relatividade, deveria ser o contrário.

Deixei o taxista de novo sem resposta…
– Não foi na Guiné, foi em Moçambique.
– Aquilo lá está mau, não está?

A luz sólida traz-me à memória, por contraste, a luz fluida de África.
Os objetos aqui mais tangíveis, quase ferindo os olhos, como coisas inorgânicas, áridas, quase feitas só de luz, sem a humidade omnipresente da selva que dá a todas as coisas uma viscosidade animal.

Dá-me a ideia que ainda não penetrei totalmente neste mundo, que ainda não me é possível perceber todos os pormenores.
O próprio som no exterior do táxi tem dissonâncias estranhas, como se as vozes das pessoas por quem passamos fossem declamadas com o tom mal colocado e os ruídos que me chegam aos ouvidos tivessem uma estranheza, um desconserto, a fazerem lembrar uma filarmónica a afinar os instrumentos antes do espetáculo.
Parece que estou num plateau durante a rodagem de um filme, sem pertencer ao elenco.

O táxi penetra no cenário, num travelling lento e os figurantes ignoram-no.
Ou antes, passam eles por nós, desfilando de um lado e do outro.

– Aquilo lá está mesmo mau.
– Mas pra si acabou.


Olho a toda a volta tentando prestar atenção a tudo o que me vai envolvendo, tentando apreender os pormenores.
As pessoas rindo despreocupadas.
Duas mulheres falando em voz alta a uma distância de vinte metros, sem esperar que se aproximem uma da outra e continuando a falar alto, mesmo quando já estão frente a frente.
Um gato sobre um muro.
Um cão passando por baixo e o gato enfolando à sua passagem e a esvaziar depois lentamente, à medida que o cão se afasta.

No Sobreirinho, um carro de bois faz com que o taxista pare o táxi.
Uma junta de bois babando-se de dolência e extenuação, arrastando uma enorme carrada de estrume. Os bois, à vez, vão largando sobre o alcatrão do Largo do Sobreirinho, à medida que passam por nós, tartes frescas e fumegantes de bosta.

O taxista abre o vidro como se tivesse sentido convidado para fruir o aroma daquele festim escatológico.
Eu também abro o meu e sinto o cheiro quente do estrume e depois o aroma fresco da bosta.
De janelas abertas, o som do exterior aumenta e torna-se mais natural como se tivéssemos ambos regulado o equalizador de uma aparelhagem sonora.

O carro de bois segue pela rua da Lomba e o táxi faz os últimos 100 metros atrás dele, ao ralenti.

– É verdade… Para mim acabou.
– Você tem saudades disto, não tem?

Algo muda em mim repentinamente.
Como quando temos uma dúvida e de repente se nos faz luz; como quando estamos dolentes com a preguiça matinal, sem vontade de abrirmos os olhos e de repente sentimos a lucidez da vigília; como quando estamos distraídos no meio de uma multidão de estranhos e de repente um rosto familiar sorri para nós.
Realizou-se tudo em meu redor como se eu tivesse acordado.
Cheguei a casa.

Parece impossível, agora, que tenha deixado para trás tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanta ansiedade, tanta dor.
Parece que atravessei um túnel imenso e que acabei agora de sair para a luz do dia.
Um passado de que já não faço parte.
Uma história que não quer ser contada, uma história que já não sinto a menor vontade de contar.

– Tenho mesmo saudades disto…

Cheguei a casa.
A 50 metros à minha frente, a minha mãe e a Ti Maria do Zé Sécio conversam ao sol.


Manuel Bastos
In....Cacimbados - A Vida por um fio.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Guerra colonial: «Cacimbados: A vida por um fio», recomendado por Luís Leote


Este Livro.
Guerra colonial: «Cacimbados: A vida por um fio»



Lisboa – Com uma prosa cativante, onde o humor e tragédia se cruzam espontaneamente, «Cacimbados» de Manuel Bastos, transporta-nos 35 anos atrás para a realidade brutal de luta e sobrevivência de milhares de portugueses coagidos a combater na Guerra Colonial....

Narrando alguns episódios de uma companhia de Artilharia posicionada em Mueda, Moçambique, Manuel Bastos reconstrói um tempo e um espaço carregados de acção.


Com uma expressividade minuciosa, Manuel Bastos vai ao encontro do pormenor para transforma-lo num mundo de significados, sentimentos e reflexões filosóficas sobre a condição humana dos combatentes. 
Conta-nos como «no chão, está um grupo silencioso de fantasmas preparando-se para passar a noite.»

No seu livro, Manuel Bastos, conta o soldado que nunca vacilara «nas picagens das minas, nos golpes de mão, nas emboscadas», cujo rosto nunca «acusa a menor perturbação de espírito», mas que encontra um dia para chorar «de pé apoiado na G3 como se fosse um cajado de pastor».

Manuel Correia Bastos natural de Aguim, conselho de Anadia, foi mobilizado em 1972 para Moçambique onde foi gravemente ferido em combate um ano depois. 

Na sua obra «Cacimbados: A vida por um fio» relata a sua experiência de guerra e os seus efeitos traumáticos.
Titulo: «Cacimbados: A vida por um fio»
Autor: Manuel Bastos
Editor: Babel Editores

Abraço e tenham um Feliz Natal. !!!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Eu canto p’r’a minha terra, Cancioneiro do Niassa

Eu canto p’r’a minha terra,
Já que não posso lá estar!
E canto p’ra distrair
Quem passa o tempo a chorar!
Canto também, até
mesmo sem rima;
Eu canto porque já estou
apanhado pelo clima!

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

No Lunho, Todos nós temos
Uma missão a cumprir:
“LERPAR” de tacho e correio
E de resto, toca a rir...
Passo, também aqui,
Tempos felizes,
Vendo corridas aéreas
De patos e de perdizes.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...

Temos também, como capa,
Oficiais e sargentos,
Que em vez de pé, dizem pata
E são todos rabujentos.
O capitão, porém,
É nosso amigo;
A quem souber cumprir bem,
Dá reforços de castigo.

(Coro) LÁ LÁ LÁ LÁ...


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Frente à morte na luta pela vida, Cancioneiro do Niassa

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida

Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida

Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida

Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde pr’a sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida

Frente à morte na luta pela vida

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

EU VI NA TVI, EU HOJE CUSPO FOGO..., por Manuel Lopes

  • «EU VI NA TVI, EU HOJE CUSPO FOGO»
    Todos nós vimos a triste realidade na TVI, o que nós não queríamos, pois dói muito.

    Amigos irmãos camaradas COMBATENTES. Ainda... á muito coisa para mostrar e contar, muitas maldades e traições que a todo o momento nos fazem sofrer e corroer o nosso corpo e o nosso ser, a nós «COMBATENTES E NOSSOS FAMILIARES» vou contar um triste acontecimento que se passou comigo talvez á dez anos, para mim foi um crime, um ataque, um bombardeamento, talvez igual aos que sofremos na guerra do ultramar, este foi feito por alguém a quem eu apelido de «terrorista, porco, assassino».
    Eu fiz-me sócio da associação APOIAR Portuguesa dos Veteranos de Guerra em 2001, onde eu me sentia muito bem apoiado, quando eu precisava de qualquer informação telefonava, eram pessoas impecáveis, incansáveis, os nossos amigos da APOIAR quiseram saber tudo a respeito á minha saúde, como eu me sentia da parte sistema nervoso, como estava a ser medicado e se andava a ser vigiado, o que os informei, pediram-me cópias e dados a respeito a medicação, consultas e internamentos, de tudo, eu enviei tudo pelo correio e, telefonei no momento, os nossos amigos da APOIAR, ao receberem telefonaram-me com urgência, informando que iam enviar tudo de volta e, que já tinham entrado em contacto com uma unidade hospitalar na minha Cidade de Leiria, não vou mencionar o nome pois, as pessoas competentes não merecem ser enxovalhadas pela atitude do tal terrorista, onde eu ia ser consultado e passava a ser vigiado, para eu estar atento pois, ia receber uma carta com urgência a avisar-me para me apresentar.
    Passada uma semana recebi a carta com a data e a hora e local para me apresentar na consulta, para levar toda a documentação que tinha enviado e recebido da APOIAR.
    Na data certa apresentei-me, convencido que ia ser medicado com a medicação certa para resolver o meu problema que me atormentava o sistema nervoso, as noites sem dormir, os sonhos das matas dos DEMBOS, tudo isso.
    Foi chocante, doloroso, triste, revoltante, foi como se tivesse levado uma rajada no meu peito, ainda hoje «cuspo fogo», mas, foi verdade, fui atendido por um médico que tinha idade de ser meu filho, que, me pediu-me o envelope com toda a documentação, os tais que eu tinha enviado para a APOIAR e eles me tinham devolvido com folhas muito importantes assinadas por eles, o senhor que dizia ser médico, ao ler e ver que eu tinha andado na GUERRA do ULTRAMAR, agarrou na minha papelada, olhando para mim a sorrir, rasgou e colocou no cesto do lixo, eu, ao ver tudo aquilo perguntei o que estava a fazer, respondeu, «QUE EU FAZIA PARTE DOS TAIS QUE SE CONSIDERAVAM HERÓIS, QUE QUERÍAMOS VIVER SEM TRABALHAR, VIVER À CUSTA DELE E DE OUTROS QUE TRABALHAVAM DE NOITE E DE DIA, QUE O NOSSO PROBLEMA ERA FALTA DE NOS OBRIGAREM A TRABALHAR E, SERMOS CONTROLADOS A TOQUE DE CHICOTE», que ele, também tinha andado na guerra nas três províncias e, tinha que trabalhar, eu ao ver e ouvir tal crime, como uma mola, levantei-me da cadeira, caminhei para ele, fixei o meu olhar no dele, penso que os meus olhos deviam estar maiores que as lentes dos meus óculos e a quererem saltar, só exclamei que era injusto o que eu estava a ver e a ouvir, dei mais um passo em frente, o tal senhor médico, recuou, agarrou no cesto dos papeis, saio porta fora correndo pelo corredor fora olhando para trás, talvez com medo de acontecer o que ele merecia, nem os papeis rasgados me deixou, para eu poder ir á secretaria, ou falar com o diretor da unidade para contar o que se tinha passado, fiquei de pés e mãos atadas, fiquei muito nervoso, muito revoltado e desiludido, saí porta fora, não vi o tal senhor, nem valia a pena abrir a boca pois, não tinha dados para poder mostrar e justificar o que me tinha acontecido, só me restou voltar para casa com a triste história para contar, não comuniquei a APOIAR a quem peço imensa desculpa por ter deixado de ser sócio, pois, fiquei muito revoltado e desiludido com tal atitude desse tal «turra».
    «MANUEL KAMBUTA DOS DEMBOS»

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A mulher na Praia, por José Caseiro


A Mulher na Praia
por José Caseiro



Abril de 1974. 
Portugal ficou em festa naquele dia 25, mas havia lá longe na ex-província de Moçambique e já na cidade da Beira, os militares da CART 3503, sem que tivessem a noção do que se estava a passar em Lisboa.

Estavam tristes, não por saberem da revolução, mas por terem o embarque marcado de regresso para a Metrópole no dia 26 e assim se verem obrigados a ficar mais uns dias.

Chegamos a Portugal no dia 28 de Abril de 1974, a CART 3503, sendo a primeira companhia a regressar a Portugal após o 25 de Abril. Regressavam agora, não porque a revolução lhes encurtara a comissão mas sim porque a sua comissão tinha sido longa de mais, porque já fazia 28 meses que lá estávamos, e sempre no pior sítio da guerra em Moçambique, sempre em Mueda, distrito de Cabo Delgado.

Já em Lisboa, com uma chegada muito discreta, quase sem familiares à nossa espera porque quase todos que tinham intenções de irem para Lisboa esperar-nos foram informados por telegrama para não irem, porque o nosso regresso tinha sido adiado e sem data marcada.

Chegado a casa e depois de todos aqueles abraços e beijos a festejarmos o meu regresso, foi tempo, nos dias seguintes, de ir visitar os restantes familiares e amigos e desfrutar este mar maravilhoso na praia de Matosinhos, praia onde passei a maior parte da minha infância e mocidade, praia esta que ao seu lado tem o porto marítimo e de pesca de Leixões, onde os seus barcos saem ao anoitecer para a faina de pesca, e onde, pela manhã as mulheres dos pescadores tinham por hábito irem sentar-se na praia viradas para a entrada do porto esperando que barco onde o seu marido trabalhava regressasse da fauna da pesca.

E cada barco era conhecido por um pormenor, que ao longe só elas reconheciam. 
Depois dirigiam-se para o cais de descarga, levando-lhes o pequeno-almoço.

Como de costume após a chegada do ultramar desfrutava-se um mês de férias, para aqueles que podiam, porque infelizmente alguns, por necessidade iam logo trabalhar, nem tinham tempo para descansar a cabeça, eu felizmente tive a possibilidade de desfrutar até mais que um mês e sempre que podia ia até à praia caminhar, saboreando aquele cheiro da maresia e relaxando com o ondular daquelas ondas calmas da praia de Matosinhos.

Entretanto havia uma mulher vestida de negro que sempre que eu ia caminhar junto à praia lá estava, e enquanto as outras mulheres após a chegada dos maridos iam saindo da praia aquela mulher ali permanecia até tarde.

A mulher do pescador quando de luto, usava um lenço negro que punha na cabeça e cobria grande parte da cara, o que tornava difícil identificá-la ao primeiro olhar, mas a minha curiosidade foi mais forte que eu, a pouco a pouco, fui passando mais próximo para tentar descobrir de quem se tratava, e para meu espanto, aquela mulher era a mãe de um soldado português que tinha morrido no ultramar bem próximo de Mueda em Moçambique, foi meu amigo de infância, tinha embarcado no mesmo dia, no mesmo barco que eu, só que ia em rendição individual, fez a picada de Porto Amélia até Mueda com a nossa companhia, esteve em Mueda alguns dias à espera da companhia porque esta ia rodar para uma zona melhor, pensavam eles, e todo este tempo sempre que podia estava com ele, entretanto a companhia onde ele foi integrado passou por Mueda e ele lá seguiu com ela para o tal lugar que eles pensavam que seria melhor que o buraco onde tinham estado.

Os meses foram passando sem que eu tivesse notícias deste amigo de infância, até que aquele dia fatídico chegou.

Estava eu e o meu grupo de combate, nesse dia, de segurança às Águas quando se começou a ouvir o barulho dos hélis a aproximarem-se de Mueda vindo da direcção onde se encontrava a companhia do meu amigo de infância, olhando para os hélis, algo estranho senti, uma dúvida se levantou que me levou a perguntar a mim mesmo: - Será que…? 
- Tentei esquecer, porque não tinha nenhum indício de quem se tratava e do que se tratava, mas como as más notícias correm depressa, rapidamente soube que tinha sido uma viatura que pisou uma mina anti carro e que a rebentou, originando mortos e feridos graves.

A notícia de que havia mortos preocupou-me, pelo algo estranho que senti quando os hélis estavam a passar por mim, minutos antes. 
Tendo um bom relacionamento com o 1º sargento do hospital, na primeira oportunidade que tive fui pedir-lhe que me deixasse ver os nomes dos feridos e dos mortos que tinham dado entrada naquele dia, na esperança de não encontrar lá o nome do meu amigo.

Foi um choque enorme, um nó na garganta, uma raiva. 
Foram mil e um pensamentos e palavrões que dirigi naquele momento aos autores da morte daquele meu amigo de infância, quando li o seu nome na lista dos mortos.

Pedi para ir ver o corpo mas não foi possível, porque tinha ido para a casa mortuária e esta já se encontrava fechada.

Bastante abalado fui para a flat escrever um aerograma a uma pessoa amiga e vizinha dos pais do falecido, aerograma que levaria, em média, quatro a cinco dias a chegar ao destino, pensando eu, que quando o aerograma chegasse, os pais já eram conhecedores da morte do filho, e aquele aerograma seria a explicação de como aconteceu, o que, segundo a informação que me deram, com a explosão, foi projectado, e ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e teve morte imediata. 

Só que o aerograma chegou no mesmo dia que os dois telegramas que foram enviados aos pais, o primeiro da parte da manhã a dizer que o filho tinha sido gravemente ferido e o segundo da parte da tarde a dizer que não tinha resistido aos ferimentos e tinha falecido.

A pessoa amiga a quem escrevi, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho, deparou com os vizinhos aos gritos e com os pais em pranto pela morte do filho, esteve um pouco junto deles e foi depois para casa, onde só então viu na caixa do correio o meu aerograma. 

Diz-se que as más notícias correm velozes, mas quando chegam todas ao mesmo tempo, fazem pensar que o destino é demasiado cruel.

Passados mais de ano e meio após a morte deste meu amigo vou encontrar a sua mãe ali sentada na praia olhando para o mar dia após dia, achei que deveria ir falar com ela para a confortar um pouco, porque ela sabia que o seu filho tinha ido comigo para o ultramar e que tinha estado comigo em Mueda, mas para mim estava a ser difícil. 

Como seria o início da minha conversa com ela? 
Lá comecei por lhe perguntar se tinha algum familiar a andar ao mar, ao que me respondeu que não; deu-me um grande abraço e beijos de satisfação por me ver, sabendo que eu tinha chegado recentemente do ultramar. 

Aproveitando aquela satisfação de me ver perguntei-lhe:
- Então porque vem todos os dias aqui para praia?
A resposta foi rápida, e deixou-me por momentos sem palavras:
- Venho para aqui esperar pelo navio que levou o meu querido filho para o ultramar e que o há-de trazer de volta para os meus braços.

Sem palavras e sem saber o que fazer, lá encontrei forças para continuar a conversa dizendo-lhe:
- Mas já trouxeram o seu filho porque... 
- Ia dizer-lhe que o filho já tinha falecido há mais de ano e meio, mas ela interrompeu-me: - Dizem-me que o meu filho já veio, mas não acredito, porque ele quando partiu para o ultramar prometeu-me que voltaria para me abraçar, e já lá vão mais de dois anos e ele não voltou para os meus braços.

Quantas mães depois de terem perdido os seus filhos na guerra do ultramar se sentaram à porta de casa, ou aguardaram num caminho, numa estrada, olhando para o infinito na esperança que o seu querido filho aparecesse com as malas nas mãos a correr para os seus braços? 
Como a mãe daquele meu amigo… 

Uma espera em vão, porque o seu filho estava morto e enterrado.
Será que esta mãe, agora já falecida, teria encontrado o seu querido filho na outra vida, e tê-lo-ia abraçado fortemente conforme desejou enquanto viva?

Este meu amigo não deixou apenas uma mãe sem o filho, deixou também uma filha sem o pai, que nunca o haveria de conhecer, pois que quando este embarcou para Moçambique deixou a mulher grávida de poucos meses.

A guerra faz com que tantas desgraças juntas levem a pensar que o destino é mesmo demasiado cruel.

por José Caseiro |